A Primeira Luz da Madrugada
Livro Segundo, Cap. 1.º, Pt. I
Onde se escuta o relato de como em grande esbanjamento de bens e de prazeres do corpo e do espírito se vivia no território português de Macau nos séculos XVI e XVII, de acordo com as memórias de infância do moço que por várias vezes lá esteve.
Qual história?, atalha imediatamente o homúnculo. A história da Memória, ou a tua história?
A minha história é banal, protesta o miúdo momentaneamente convertido em conferencista.
Olha, e a minha, não era?, atira-lhe o avô de Kyesler. Ouve-me tu, moço magano, só o Ash é que é um mito. Nós outros somos todos uns desgraçados de uns sonhadores e uns poetas a quem ninguém ligou nenhuma no seu tempo e que os livros de história esqueceram. Até há para aí muito académico moderno que jura a pés juntos que aqui o Fra Mauro nunca existiu de verdade, ouviste? E ainda menos existiu aquela sua triste morte, a não ser nos romances de cordel que se cantavam de feira em feira. E tudo isto apenas porque o único vestígio que se conhece dele é o seu diário, encontrado por acaso por um tal Cowan dessa tal América, que nem sequer ia à procura dele, nos anos 80 do século XX, no museu da biblioteca do Convento de San Lazzaro, na ilha de San Lazzaro Degli Sarmeni, também na laguna de Veneza, entregue à Ordem dos Mesquitários desde 1715. Como estes padres eram famosos pela sua avidez de coleccionamento de relíquias e bizarrias, diz-se que, se calhar, o próprio diário é uma fabricação. E mais se acrescenta que já não restam vestígios do Mosteiro de San Michele de Murano, e tanto basta para que se duvide da existência de um homem.
Banal sou eu, acrescenta Ana Maria. Conta lá o que é que aconteceu quando o teu pai chegou a Macau, anda. Já se percebeu que há mulher na costa, júnior. Não sejas pudico, que isto aqui é o século XXI.
Sempre tão malandra, sorri Ashverus, apertando-lhe docemente a mão enquanto lhe beija a testa.
Mas conta-me só uma outra coisa antes de continuares, pede Ana Maria, que por vezes se cansa de tantas histórias que lhe são estranhas. Macau, nessa altura, era território português. Estudámos isso na escola. Sempre lá quis ir. Nunca fui. Conta-me só, conta-me um bocadinho, como era Macau nessa altura, tão pouco tempo depois de ser oferecido pelo imperador aos Portugueses como agradecimento pela defesa proporcionada pela minha gente contra os piratas do mar da China?
O rapaz descontrai-se outra vez, e sorri o seu sorriso maroto.
Eh pá. Eu e o meu pai voltámos muitas vezes a Macau, sim. Havia lá um reduto especial de jesuítas, daqueles que estavam em Xangai a traduzir os clássicos para chinês, e reuniam de três em três meses num palacete ao lado da Igreja de São Francisco, oferecido à Companhia por uma viúva que lhes devia favores, não sei quais. Antes de mais nada, lembro-me de portugueses riquíssimos casados com chinesas lindíssimas, tudo bué de católico, e a maneira como aquela gente se vestia ao domingo, para ir à missa, não dava para acreditar. E os criados que tinham, e tantas mestiçagens de todas as partes do mundo que por ali andavam. E o esbanjamento que era a vida daquela gente, e o que o pessoal afinfava no ópio, as mulheres portuguesas, desculpa, as senhoras, as donas, essas, essas então, parecia que todos os estupefacientes do mundo não lhes chegavam, depois das agruras da viagem desde a Ribeira das Naus. E o que aquilo era de festa com donas e criados mestiços quando os maridos iam nas suas viagens de comércio, e deixa estar que eles retribuíam com juros, pois que não havia prazer da carne, e do corpo, e do cérebro, que não experimentassem nas suas andanças. Só me lembro de estar tudo repleto de famílias portuguesas cheias de híbridos de primeira, segunda e terceira geração, com criados e escravos africanos, indianos, javaneses, malaios, e não existia uma única paragem em redor onde não estivesse um português a vender qualquer coisa. Da barraquinha mais precária na praia mais deserta ao palácio mais garboso das grandes metrópoles. Uma loucura, só posso descrever-te isto assim, em criança são estas as imagens que nos entram na retina, as cores, os cheiros, os perfumes, as missas e as missas e as missas que o meu pai não me poupava uma, tanto incenso, tanta vela, tanta flor, e aqueles decotes, aquelas mamas enormes, ou a mim pareciam-me enormes, quase a saltar dos decotes, e os perfumes com que as donas se encharcavam, sabes, eu às vezes desmaiava na missa. O meu santo progenitor, todo observante das regras, não me deixava comer antes de receber a comunhão, e a porra da função era só ao meio-dia. E durava quase três horas. E eu tonto de calor, de fome, de mamas, de latim, de litanias, de perfume de dona, pronto, lá caía a menino desmaiado. Toda a gente adorava o número. Tornava o Santo Sacrifício mais enfático, topas? Bom. E também me lembro de bué de cenas desbragadas de outras esferas. Olha, nunca me esquecerei das barcaças, e todos os chineses que viviam nas barcaças, e que traficavam tu-cá-tu-lá com os portugueses. Instalavam junto ao porto, mas já no silêncio do mar, uns bordéis onde nada era proibido, com jogos especiais, e pangolins fritos, e violas chinesas e flautas, e até óperas e recitais de poesia, às vezes já com tudo nu, tudo em estado alterado de consciência, tudo a rir, tudo a falar muitas línguas diferentes e a entender sabe-se lá o quê. Destas partes eu conheço bem, porque às vezes fugia pela janela do palacete para ir para a farra com os criados. A partir dos seis anos já não havia nada que não me fosse permitido, e então a mim, que era mesmo Filho do Pecado, certo? Pronto, são memórias de criança. Devem saber-te a pouco. Mas o meu pai interessou-se o suficiente pelas artes da ciência em Macau, e chegou a escrever sobre o assunto no seu diário. Eu li, e como fui treinado nas artes mágicas da memória ainda me lembro de tudo. Queres que recite?
Claro, aplaude Ana Maria, de olhos cintilantes.
A criança que viu tudo põe-se em pose declamatória.
“Ao contrário do que aconteceu na Índia, onde homens como Garcia d’ Orta ou Cristóvão da Costa se interessaram vivamente pela Medicina local ou por alguns dos seus aspectos, e onde vários dos vice-reis e governadores tinham o seu próprio físico-mor, além de que os médicos hindus tinham licenças para praticarem as suas artes tradicionais, os portugueses de Macau parecem ter sentido pouco interesse tanto pela teoria como pela prática da Medicina chinesa.
“Um jesuíta português insatisfeito, que conheci como responsável pela botica do nosso Colégio em Macau em 1625, deixou-nos por escrito, além das muitas conversas que teve connosco, um bom relato da situação que aí se vivia. Não existia então, e aparentemente nunca tinha existido, um médico português digno desse nome no território. Ou seja, ninguém com um diploma de Coimbra, ou com um grau equivalente de uma universidade estrangeira certificada pelo físico-mor de Lisboa. Aparentemente, já dois cirurgiões tinham actuado em Macau, mas mesmo estes não passavam de cirurgiões-barbeiros. Como tal, não lhes competia darem conselhos médicos ou prescreverem tratamentos, embora provavelmente o tenham feito, já que não se encontrava um único médico em exercício.
“Este meu irmão jesuíta assegura-nos, sem dúvida correctamente, que não tinha qualquer treino médico e apenas possuía um conhecimento superficial do latim. Considerava-se, portanto, assaz desqualificado para poder dar conselhos médicos, ou mesmo assistir fisicamente aos vários doentes que apareciam a pedir ajuda na botica dos jesuítas, a única que existia então em Macau. Assegurou estas funções contra a sua vontade, única e exclusivamente porque os seus superiores assim lho exigiam. Foi médico à força durante seis anos. Durante este tempo, tratou com sucesso noventa e dois homens (alguns por várias vezes) e trinta e nove mulheres, fornecendo-lhes plantas e drogas medicinais, ‘sem que nenhuma destas pessoas mandasse um único pardau como contribuição para a farmácia, embora soubessem que o Colégio era pobre’. E mais acrescenta no seu texto, e várias vezes o ouvimos nós falar nisto, que, tendo embora entrado para a Companhia de Jesus em grande parte devido à sua falta de interesse pelas mulheres e o seu desejo de se ver livre delas, esta missão desagradável fê-lo ter que contactá-las com muitíssimo mais frequência do que ele desejaria. Sobretudo porque, sempre que ia levar Medicina a qualquer mulher na sua própria casa, esta mulher estava sempre rodeada de um grande número de outras, incluindo empregadas domésticas e amigas que vinham visitar e consolar.
“Junte-se a isto que o pobre irmão jesuíta português, por inerência das funções que foi obrigado a desempenhar, estava forçosamente à disposição de todos os seiscentos moradores portugueses de Macau e das suas famílias sempre que um deles adoecia, pelo que tinha muitas vezes que lidar com vários doentes ao mesmo tempo. Isto, garante-nos o pobre português escravo do destino por escrito, e garantiu-nos de viva voz a nós, seus irmãos da Companhia, era completamente contrário a uma prática médica minimamente digna de confiança, já que um bom médico recebe apenas por dia o número sensato de doentes que lhe permita dar a devida atenção a todos. ‘Por esta razão, os físicos experimentados em Portugal não querem tratar mais de oito ou dez doentes ao mesmo tempo, enquanto eu estou permanentemente à disposição de todos os que não se sintam bem, e de nada me adianta dizer-lhes que estou ocupado ou que tenho em mãos mais doentes do que aqueles a quem consigo dar atenção’, desabafa ele na sua carta, como tantas vezes desabafou connosco.
“Na carta a que me refiro, o pobre irmão português continua as suas queixas explicando que, como Macau nunca teve um único verdadeiro físico em serviço desde a sua formação em 1557, qualquer aldrabão podia chegar ali e oferecer os seus préstimos. ‘E é por isso que todas as parteiras chinesas prescrevem medicamentos e curas para todas as doenças que existem, e ninguém conhece a sua formação. E como a grande maioria das mulheres dos portugueses são chinesas, preferem todas métodos curativos chineses, como é natural para elas, e por outro lado não gostam dos métodos portugueses. Só muito raramente deixam os seus maridos completarem uma cura à nossa maneira, mas antes os persuadem a usar curas indígenas. No presente, tenho tratado de doentes portugueses, e sem meu conhecimento eles foram ao mesmo tempo aconselhar-se com as suas parteiras habituais, e em consequência ambos morreram’, adianta, e tudo isto posso eu comprovar, porque vi.
“Não se sabe bem o que aconteceu a este pobre irmão-boticário. Mas em Macau, como em todas as outras partes do mundo, os jesuítas continuaram a operar a partir de uma farmácia associada ao nosso Colégio, numa prática que não estava confinada à Companhia de Jesus mas antes se estendia à maioria das ordens religiosas.”
O teu pai foi certamente um homem interessantíssimo, sorri Ana Maria. Mas agora, menino, tem paciência e fala-nos de ti. Com todos estes preliminares, já nos puseste a rebentar de curiosidade.
Contrafeito, o miúdo de olhos de amêndoa abandona provisoriamente o seu pódio improvisado e senta-se antes nele, para poder olhar os companheiros de frente.