A Primeira Luz da Madrugada
Livro Primeiro: Cap. 2º, Pt. Vi
Onde o Judeu Errante procura explicar à assembleia atónita de que forma é que o Lidl representa uma metáfora cabalística.
Raça de pegas rabudas, suspira o avô de Kyesler. Tanta conversa que essoutro vivo usa só para dizer que os modernos deram cabo da beleza congeminada por nós outros. Como se a tropa não estivesse cansada de saber tal cousa. Bem, pronto, mas faz justiça ao meu herdeiro. Então agora vamos lá ao que interessa. Professor Eleazar. Ando para aqui a amparar o Ash porque a minha entrada pela sexta porta da Cabala assim o dispôs, mas nunca soube toda a história dele, tirando a parte da soleira da porta e da errância eterna, que é a que todos os medievos como eu conheciam. Até agradeço que o professor nos esclareça, desde que um de vós outros me passe mais pão enquanto houver pão. Não se esqueçam que estoutro mito aqui não é lá tão bom como isso na secção dos milagres. A tropa até a manteiga tem que desviar inviamente das normas da lei e da ordem quando está no Lidl, raça de lobos uivadores. Nunca esperei que a Conflagração Final fosse assim tão cousa de tal desmérito.
Eu esclareço, responde Eleazar com um sorriso condescendente. Mas, em primeiro lugar, esclareça-me a sua referência à entrada pela sexta porta imposta pela Cabala.
Esclareço o quê?, pergunta o avô, sinceramente surpreendido.
Em primeiro lugar, toda a gente sabe que ninguém deve estudar a Cabala antes dos 53 anos, e não me parece que o meu bom Amigo tenha alguma vez atingido essa idade.
Também, quando a esperança média de vida era de não mais de trinta…, resmunga por entre dentes o discípulo sem dentes que dedicou a sua vida a Paracelso.
E em segundo lugar, prossegue Eleazar, imperturbável, embora todos saibamos, porque assim nos dizem, que, segundo a Cabala, as virtudes dos nossos pais e os seus pensamentos no momento da concepção determinam o nosso destino, os nossos talentos e os nossos dons; que a natureza da nossa alma determina o nosso sexo; e que a nossa personalidade nos vem de um nome que foi escrito no Céu para nós muito antes da criação do nosso corpo, o que é que sabemos mais? É claro, sabemos, também, que nasceremos mortos a menos que a vida venha animar-nos através de uma luz emitida para nós directamente de Deus no momento preciso em que chegamos ao mundo. Ou seja, está lá indicado, explicitamente, que o nosso universo dependerá exclusivamente do que Deus quiser dar-nos enquanto ainda amadurecemos no útero materno. Porque é que Deus havia de dar-lhe a si, para todos os efeitos um místico medievo semiletrado, a entrada pela Sexta Porta?
Pois isso pergunte a Deus, professor, responde com um ligeiro toque de zombaria o avô de Conrad Kyesler. Eu cá só sei o que está indicado pelos corredores do Lidl.
O homem que conhece Ana Maria e não pôde tomá-la como sua quando ela era uma Hannah perigosa que vivia em Praga eleva-se em toda a sua imensidão. Emerge como um colosso das profundidades da manta onde ainda agora se aquecia na vida vinda do calor expelido em cada compasso do bater do coração da mulher amada. E, tendo assim convocado para si todos os olhares, avança em passos firmes para o centro do círculo.
Eleazar, explica ele, ao mesmo tempo que começa a desenhar um rectângulo nas areias escuras da Cruz Quebrada. Eles não podiam estudar a Cabala, por isso eu indiquei-lhes a charada das portas que os tinham trazido até ao meu destino segundo a disposição dos corredores do Lidl. É um mistério que tu já não podes conhecer, Amigo, uma dessas marcas novas de que a água vinda da corte do Preste João das Índias ainda corre com todas as suas pedras milagrosas lá ao fundo, abaixo do nível do chão, onde já ninguém a lobriga. Mas quem sabe ver ainda encontra, onde menos espera, essoutros afloramentos à superfície, como o Lidl, que nos garantem que o mundo continua preso ao seu eixo. E ademais sobre ele inclinado. E consabidamente agora na observância de uma velocidade de rotação de 24 horas que nunca se modificou ao longo dos milénios, ao contrário do que acreditaram Isaac Newton, e tantos outros génios com ele.
Acreditaram em quê?, interrompe Ana Maria, sacudindo, também ela, o calor dormente e manso que ainda agora a embalava debaixo da manta.
Nunca mais voltamos à história do Ash, suspira o velho sem dentes.
Eu também não sei em que é que acreditou Newton, atalha com firmeza a voz de barítono de Nestor Ibn Hâyan, o que caçou prodígios e se perdeu na estrada para Turlock.
Eleazar suspira com candura.