A Primeira Luz da Madrugada
Livro Décimo, Cap. 2.º
Onde, por fim, o Sono Imenso engole os amantes.
O cão mordisca com cuidado o pulso da dona, tentando arrastá-la de volta para o fundo da praia.
Ele sabe, porque não precisa de pensar, que já tudo está consumado para quem vigilou de noite, observa Ashverus.
Ana Maria quer, pelo menos, engolir mais uma tigela de moambada. Se pudesse, queria ficar com Nhábola a assistir ao fim do mundo tal como nós o conhecemos. Mas também não quer, nem por um segundo, largar a mão do grande amor da sua vida.
O Judeu Errante passa-lhe docemente o braço pelos ombros.
Sorri-lhe um sorriso absolutamente tranquilo.
Sem mais uma palavra, vem trazê-la de regresso ao círculo dos companheiros que dormem, quietos como rochas da praia no silêncio negro da noite. Se alguém respira, o rumor confunde-se com o marulhar manso das ondas, até que já nada se distinga. O cobertor que os albergou durante o dia ainda está pousado no seu lugar junto ao vértice oriental da estrela, e parece subitamente mais doce, mais fresco, mais eternamente macio, incomparavelmente mais acolhedor.
O sono veio finalmente ao encontro de ambos.
Anda, minha menina, segreda Ashverus. Agora, vamos nós dormir.
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Clara Pinto Correia
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