A Primeira Luz da Madrugada
Livro Quarto
Onde se escutam várias histórias do Judeu Errante tal como contadas por ele próprio referentes a
datas e coordenadas geográficas de que o professor Eleazar Melkievstein nunca encontrou registos
durante as suas pesquisas.
Com particular ênfase nos acontecimentos ocorridos no Sul da Europa.
Então é assim, começa o Judeu Errante, desenhando na areia, aos pés de Ana Maria, o mapa do Sul da Europa. Em 1244, o rei francês que ficou conhecido por São Luís, coitado, Deus lhe perdoe, e ao Vaticano, o negrume da sua própria arrogância…
A arrogância de São Luís ou a arrogância do Vaticano?, ataca logo o miúdo espevitado.
Dos dois, moço magano, resmunga o homúnculo. Deixa lá falar o Ash.
Mas ele tem a obrigação de saber comunicar em todas as línguas do mundo, protesta o miúdo. O português daquela frase não estava escorreito.
Respeita a oralidade onde a encontras, chinês excitado, adverte Ibn Hâyan. Mais morreram pelas palavras que pelos textos.
Isso é discutível, pensa Eleazar em voz alta.
Os textos fazem das palavras o que querem, atalha Ibn Hâyan. Mas a realidade das palavras, no momento em que são proferidas, é só uma. E é a que nos determina a sorte. Deixem-se de dares e tomares e tratem mas é de ouvir estoutro Judeu que aqui nos trouxe, raça de farejadores de sentidos.
… São Luís, prossegue Ashverus, como se nada daquilo tivesse acontecido, impôs nessa data aos judeus o uso de um sinal distintivo, e logo a seguir mandou queimar vinte e quatro manuscritos do Talmude na praça pública. O que a populaça gosta de fogueiras. Ainda hoje, sabe Deus. Ó Eli, foi do teu tempo, lembras-te de quando os Boxers deitaram fogo à Biblioteca Nacional de Pequim, só para expulsarem os estrangeiros do bairro residencial que ficava mesmo ao lado empestando-lhes as casas com fumo, e no processo queimaram todos os tratados do Confúcio?