A Primeira Luz da Madrugada

Clara Pinto Correia · Capítulo 39 de 57

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A Primeira Luz da Madrugada

Livro Sétimo, Cap. 1.º

 

Onde é posta à discussão a possibilidade de o Judeu Errante ter sofrido uma depressão clínica do final da Renascença para o início da Revolução Científica; com recurso inesperado e desconcertante à analogia anacrónica da girafa no asfalto.

Escutando as divagações do menino de Havard que perscrutou as divagações de Eleazar Melkievstein, os homens começaram, imperceptivelmente, a descontrair-se sobre a areia. Incluindo o próprio Ashverus, que já deu por finda a sua litania de lamentação.

Olha que tu impressionavas qualquer um, ó incrível e temível Ash, comenta o homúnculo, com o olhar perdido no fundo das ondas. Com todos os milhões dos vapores sulfurosos do enxofre do Inferno, é caso para dizer, sim senhor. Cá para mim, não querias nada que Deus acabasse depressa com o teu triste destino. Até te dava gozo andares para aí a encher as pessoas de espanto, e assombro, e reverência, e assim. Sobretudo depois da morte horrível da Hannah, rei dos reis e Grande Hylaster. Olha, eu, quando foi da minha morte horrível, bem gostava de ter podido andar por aí feito alma penada, a aparecer ao povo estulto como uma assombração. Estou mesmo a imaginar-te, com aquele ar triste e arrependido que eles descrevem, a bater no peito o tempo todo. Grande contador de muitos contos, que nem Julius Solinus Polyhistor conseguiu igualar.

Tive fases, responde o Judeu Errante com um sorriso misterioso, aconchegando-se melhor contra Ana Maria, que pelo meio da leitura veio deitá-lo no colo e secar-lhe as lágrimas com beijos. Sim, senhor, tive fases. Nesta altura, homúnculo amigo, no século XVI, foi o teu século, não foi? Pois. Não sei. O meu amor tinha morrido, em grande parte por culpa do meu desleixo. E depois, Camaradas que me escutais e ainda sem saber totalmente porquê me seguis, deixem-me que vos diga. Francamente. Para um magérrimo mito medieval, viver a animação da Renascença e pressentir a chegada da Revolução Científica, sem poder participar em nada, bem, é dose, como diz esta menina. Era todo aquele ambiente de busca de sabedoria e de renovação do pensamento que eu já não podia acompanhar. Davam-me uns feios pecados de merencoria que se recusavam a abandonar-me, é certo. A sério, andava triste todos os dias. O mundo à minha volta todo numa ânsia de galopar para a frente. Era o Gutenberg a inventar a imprensa. Era o teu Paracelso a fazer homúnculos e a expandir a química. Às tantas, já era o Copérnico a olhar para as estrelas lá do alto da torre do convento, cada vez mais desconfiado de que era o Sol, e não a Terra, que ocupava o centro do nosso Universo. E eram os barcos da Europa todos a fazerem-se ao mar e a reinventarem a face do globo, eram os portos cheios de bizarrias e tanto os marinheiros como os académicos a escreverem páginas atrás de páginas de um novo saber de plantas, gentes, animais, como nunca ninguém sonhara que existissem. Oy, vei, era o Harvey a preparar-se para descobrir o segredo da circulação do sangue, e ao mesmo tempo era o Kirsher a começar a montar câmaras escuras e a experimentar lentes para ver o invisível. E eram aqueles artistas todos a dissecarem cadáveres para desenharem os seus modelos na perfeição, eram o Vesálio e o Falópio a destronarem a anatomia galénica, ai de mim, até eram os cometas subitamente a viajarem em órbitas regulares com regressos previsíveis, em vez de serem presságios ou maravilhas divinas. E eu ali, especado, feito espantalho, ave agoirenta, amarrado ao passado, sem missão neste mundo a não ser a de anunciar o Segundo Regresso, que ainda por cima nessa altura ainda vinha muito longe, e sobretudo de quem nessa altura ninguém queria ouvir falar, porque estava tudo com uma febre louca de futuro, com uma fé na humanidade e no seu triunfo como nunca antes se vira nada assim, oy, vei, que vertigem. Um homem sente-se assim como… como… olhem, é mesmo, como uma girafa no asfalto. Completamente fora do seu elemento. Um símbolo magnífico da pujança da criação a derrapar e a perder o equilíbrio e a tornar-se pateticamente, e sem beleza, uma presa fácil para os leões, que esses, esses não derrapam no asfalto, e aprendem depressa. É possível que eu nessoutro período estivesse a atravessar o que agora eles chamam uma depressão clínica. Não achas, professor? Parecia-me tudo tão negro.

Eh pá, protesta imediatamente Ricci Júnior, atirando para trás as melenas despenteadas. Esperem lá. Ordem na pradaria, búfalos para um lado e índios para o outro. Isto não pode ser. Eu sei que, neste preciso momento, o tempo deixou de existir e está todo aqui compactado. Mas francamente, ó Ash. A mim parece-me é que essa analogia da girafa no asfalto foi um bruto anacronismo, e assim a malta não se entende. Tu estás a falar da tua vida na Europa, na passagem da Renascença para a Revolução Científica, entre os séculos XVI e XVII. E comparas os teus sentimentos dessa altura aos de uma girafa no asfalto? Alô? Um gajo em 1601 na Europa sente-se como um fenómeno registado em 2005 em África? Eh pá, poupem-me. São flores de estilo excessivas e pirosas, que gaita. Estás a jogar com os conceitos como se fossem confetis, meu. E não há dúvida, oferece-nos pérolas de cultura por demais estonteantes. Só que a malta assim perde-se completamente, caraças. Haja coerência.

Eu estava tão vivo em 2005 como em 1601, e por acaso nestes últimos cem anos tenho andado quase sempre por África, que é o único continente de alma pertinaz onde as pessoas ainda conseguem ver-me. E, aí, eu próprio observei com os meus olhos muitas girafas no asfalto e meditei sobre a sua condição, e estou no meu direito de cruzar o tempo histórico e geográfico das minhas analogias como muito bem me apetecer, porque eu não sou nenhum académico moderno, sou simplesmente um mito medieval iletrado, e portanto falo como me dá na cabeça sem qualquer prudência estilística, já que, de qualquer maneira, não há nada que os povos bárbaros de hoje, que a si mesmo se chamam estudiosos, não digam que se disse na Idade Média; e, pelo que me tem chegado aos ouvidos, são tudo sinistras e presentistas distorções, responde o Judeu Errante sem uma hesitação, e até com bastante bonomia. Se eu quisesse ser um académico pedante, até dizia já aqui que uma analogia diacrónica tem mais valor conotativo do que uma analogia simples. Ora tomem. E já agora o menino, que nasceu em Macau por via dos amores ilícitos do Matteo Ricci, como é que podia saber essoutros pormenores de índios e búfalos na pradaria, referentes a ocorrências grosseiras registadas algures nos torvelinhos do século XX tal como ele foi vivido numa antiga colónia britânica situada a norte do Novo Mundo, e mais tarde constantes, tanto quanto sei, da gíria adolescente portuguesa da segunda metade do já referido século?

Ah, defende logo o que foi Salvo das Águas. Isso aprende-se no Lidl. Vai lá uma gaja… ah, curioso. Realmente, pelo aspecto, sendo que eles agora envelhecem todos mais devagar, é boa como o milho e tem ar de miúda mas a verdade é que já deve ter sido adolescente na segunda metade do século XX. Pois é. Portanto, agora que penso nisso, vai lá uma gaja cuja idade aparente confere com a data que me deste, e essa gaja, é bué de gira, por isso eu gosto de olhar para ela, essa gaja desse período histórico e geográfico passa o tempo a dizer aquilo da ordem na pradaria aos seus dois filhos, de onde deduzo que búfalo é o mais velho e índio é o mais novo.

Olha, menino, a gaja em questão agradece a atenção com que a observas, sorri-lhe docemente Ana Maria. E os meus dois rapazes mandam beijinhos.

Mas não és tu, protesta Ricci Júnior. A gaja que vai lá… não, não és tu.

Sou eu, sim. Mas sou eu como tu me vês, com os meus rapazes, quando vou ao Lidl, responde Ana Maria, que está a ficar cada vez mais ágil nos jogos verbais da Shoan invisível da areia na engrenagem. Eh, Amigo. Duh. Há bocado já me transfigurei, certo? Por isso é que agora, assim de repente, no meio desta confusão das analogias anacrónicas, tu, se não pensares primeiro, de facto, não me reconheces.