A Primeira Luz da Madrugada

Clara Pinto Correia · Capítulo 22 de 57

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A Primeira Luz da Madrugada

Livro Segundo, Cap. 2.º

 

Onde se descreve o Palácio da Memória, de Matteo Ricci, tal como o jesuíta tentou explicá-lo aos chineses, e da mesma forma o seu filho ilegítimo eloquentemente o revelou na Cruz Quebrada à audiência maravilhada.

A audiência aplaude com fervor. O cão espinoteia e desata a lamber a cara do rapaz. Ricci Júnior compõe a bandana, retoma a sua postura de conferencista, e pergunta com uma reverência se pode, finalmente, continuar a discorrer sobre as artes mágicas da memória. Os outros assentem, redistribuem-se na areia, e preparam-se para ouvir.

Eleazar até está pronto a tomar mais notas.

Ricci Júnior aclara a garganta.

Em 1596, Matteo Ricci ensinou os chineses a construírem um palácio da memória. Disse-lhes que o tamanho do palácio dependia do volume do que quisessem lembrar-se. Idealmente, consistiria de várias centenas de edifícios de todos os tamanhos e feitios, ‘e quantos mais forem, melhor funcionará’. Mas explicou-lhes que nunca deveriam começar logo por uma destas construções ambiciosas. Primeiro construía-se um espaço íntimo, como um divã, um boudoir, um altar no templo, ou o canto de uma sala. Estas estruturas depois podiam crescer para estúdios, pavilhões, ou salas completas. A seguir cresceriam para um templo inteiro, um conjunto de edifícios públicos, um albergue, ou um ponto de encontro de mercadores. Nesta altura, já podia avançar-se para um palácio modesto. E então, só a seguir, se desenvolveria a partir de tudo o que já estava construído uma estrutura colossal que armazenasse toda a Memória de forma tão perfeitamente organizada, que qualquer conhecimento necessário, em qualquer momento, viria à superfície numa fracção de segundo assim que fosse solicitado.

Para explicar o seu sistema, Ricci disse aos chineses que todas estas estruturas eram construções mentais, e não objectos reais; e que o seu propósito era providenciar arrumação para os milhões de conceitos que constituem o conhecimento humano. Para tudo o que quiséssemos recordar, deveríamos criar uma imagem. Para cada uma dessas imagens, devíamos arranjar um lugar onde ela pudesse manter-se sossegada e inalterada até precisarmos de ir buscá-la. Uma vez que um sistema de Memória deste tipo só pode funcionar se as imagens ficarem sempre guardadas no mesmo lugar, e se nós soubermos instantaneamente que lugar é esse de cada vez que precisamos delas, de início é melhor evocá-las como objectos reais que nos sejam familiares, e dispô-las em locais reais, que conhecemos bem. Mas depois devemos começar a adicionar ao conjunto lugares fictícios, e imagens completamente imaginárias, para podermos expandir e organizar cada vez melhor o nosso domínio sobre tudo o que aprendemos.

Para os chineses perceberem melhor porque é que a ordem e sequência dos lugares próprios para as imagens dentro de cada edifício eram cruciais para a Mnemónica, Ricci utilizou os seguintes termos:

“Quando os teus lugares estiverem estabelecidos em ordem, então podes entrar pela porta e começar o percurso. Vira-te para a direita, e segue por aí. Tal como na prática da caligrafia, em que te moves do princípio para o fim, tal como os peixes que nadam em cardumes alinhados, assim tudo está arrumado no teu cérebro, e todas as imagens estão preparadas para o que queres recordar. Se vais precisar de usar muitas [imagens], então deixa os edifícios serem centenas ou milhares de unidades alinhadas; mas, se só queres poucas, então toma apenas um quarto e limita-te a dividi-lo em cantos.”

Estas artes da Memória, com as quais Ricci impressionava agora os chineses, permitiam de facto a quem as dominava bem a execução de truques verdadeiramente assombrosos. Da China chegavam relatos de proezas como Ricci olhar só de passagem para uma lista de quatrocentos ou quinhentos ideogramas escolhidos ao acaso e depois repetir a lista da frente para trás. Ou de Ricci a declamar um volume inteiro de qualquer grande clássico chinês depois de o ter lido só uma vez. As cartas de Ricci para Claudio Aquaviva, o supervisor dos jesuítas em Roma, mencionam frequentemente as multidões de chineses letrados que vinham a sua casa discutir Matemática e, à laia de entretenimento, apreciar em pessoa os prodígios resultantes do palácio da Memória.

No Ocidente, este tipo de exercícios de Memória evoluiu como uma verdadeira ciência que marcou profundamente as abordagens medievais e renascentistas, tanto nos assuntos seculares como nos religiosos. O papel central da Matemática no pensamento da Igreja Católica já tinha sido definido por São Tomás Aquino no século XIII, e foi em torno deste centro que se organizaram todas as meditações escolásticas que marcaram o conhecimento medieval. Aquino considerava a Matemática um tópico de estudo inicial especialmente bom para os jovens devido à sua metodologia e ao seu caminho recto do objecto às propriedades, já que era a mais fácil e a mais exacta das ciências humanas. Ao abrigo deste chapéu, faz todo o sentido o tratamento específico que foi dado ao treino da memória. Os acontecimentos a reter com precisão foram sistematicamente descritos em termos fortes e coloridos, se possível com tratamento numérico, para aderirem melhor ao cérebro. Um dos homens que mais influenciou o fundador dos jesuítas foi o monge cartusiano Ludolfo da Saxónia, que, para que ninguém se esquecesse de nada, descreveu o calvário de Cristo nos seguintes termos:

“Depois de todos os nervos e todas as veias terem sido esticadas, e os ossos e as articulações terem sido deslocados, pela extensão violenta, foi pregado à cruz. As suas mãos e pés foram furados e feridos rudemente pelos pregos grossos e pesados, que trespassaram a pele e a carne, os nervos e as veias, e também os ligamentos dos ossos.” A imagem fica mais bem colada na memória por um número mágico: depois de pregado na cruz, Jesus ficou exactamente com 5490 chagas. Para confirmar a exactidão do número, Ludolfo cita mesmo uma fonte: a devota Brígida da Suécia.

No Colégio dos Jesuítas que Ricci frequentou em Roma, a aquisição de capacidade para construções da Memória era obrigatória no currículo das aulas de Retórica e Ética. Estudava-se ainda como referência fundamental o autor desconhecido do livro Ad Herennium, que apareceu entre os séculos I a.C. e I d.C. e recebeu tanta veneração no período medieval que foi atribuído a Cícero em pessoa. Este autor diz-nos claramente:

“Temos, portanto, que escolher as imagens do tipo que adira por mais tempo à Memória. E isso faremos se (…) dermos [às imagens] uma beleza singular ou um horror excepcional; se vestirmos algumas delas com coroas ou capas de púrpura; ou se as desfigurarmos, por exemplo introduzindo uma manchada de sangue ou suja de lama ou esborratada com tinta vermelha, ou dando aspectos cómicos às nossas imagens pois isso, também, nos ajudará a recordá-las mais depressa.”

Do currículo de Ricci constava também um autor do século V, Martianus Capella. De Capella, Ricci

aprendeu metáforas ilustrativas como, por exemplo, a referente ao nascimento de Psique, onde se refere que a deusa recebeu inúmeros presentes assombrosos, incluindo “um veículo de rodas rapidíssimas [este presente específico foi ideia de Mercúrio] no qual podia viajar a uma velocidade estonteante, embora a Memória o prendesse e o segurasse com correntes de ouro”. Ou seja: eram as correntes da Memória que estabilizavam a força do intelecto e da imaginação da alma humana. E, na descrição que logo a seguir Capella faz da retórica, a cujo domínio a Memória pertence, essas correntes da Memória já vêm carregadas de aspectos simbólicos, utilizados para melhor memorização por parte do estudante:

“Era uma mulher da mais alta estatura de abundante auto-estima, uma mulher de incrível beleza. Trazia um capacete, e a sua cabeça estava enfeitada com grandeza real; na sua mão, as armas que usava, quer para se defender quer para ferir os inimigos, brilhavam com a intensidade do relâmpago. A túnica debaixo dos seus braços estava atada por cima dos ombros à maneira latina; esta túnica estava adornada pela luz de todo o tipo de artifícios, e mostrava as figuras de todos eles, e tinha um cinto sob o peito adornado com as cores mais raras de jóias.” Note-se na sequência de detalhes descritivos da decoração da túnica: a luz, os artifícios, as figuras, as cores, as jóias. Cada uma destas imagens dizia respeito a outros tantos ornamentos retóricos, que seriam retidos para sempre pelo estudante que os memorizasse na sua cabeça.

Na Europa de Ricci, as técnicas de expandir e estabilizar a Memória eram extremamente apreciadas, de tal modo que deve ter parecido absolutamente indiscutível para o missionário, assim como para os seus superiores, de que seriam o instrumento ideal para seduzir e converter os Chineses. No Ocidente, sem dúvida que funcionariam. Os contemporâneos ocidentais de Ricci fascinavam-se com os homens que se tinham treinado tão afincadamente nas artes da Mnemónica, que conseguiam percorrer num segundo centenas de milhares de imagens de Memória, cada uma fixa num local bem determinado das suas mentes.

Era consensual que os conhecimentos matemáticos se ajustavam na perfeição às premissas da Teoria Mnemónica, uma vez que, como já se dizia desde o tempo de Aquino, a ordem harmoniosa da matemática era particularmente fácil de recordar para a mente — tão fácil como, por exemplo, a estruturação das propostas geométricas de Euclides. Há relatos de viajantes eruditos da época descrevendo camponeses iletrados que recitavam de memória ensaios completos de Montaigne enquanto apascentavam as cabras. E, em última análise, não sabemos ao certo o que é que era mais apelativo para as multidões de público leigo de Shakespeare. Seriam todas aquelas rimas gloriosas? Seriam todos aqueles emaranhados de intrigas? Ou seria antes a capacidade mágica dos actores para memorizarem todos aqueles monólogos infindáveis?

Já que vocês nunca estudaram estas artes, e sendo que se trata de uma técnica de grande complexidade, talvez possa explicar melhor como funcionariam estes grandes palácios da Europa medieval e renascentista utilizando um exemplo moderno, assim daqueles da idade ali da Ana Maria, ou mesmo do tempo do nosso respeitadíssimo professor Eleazar Melkievstein.

Ora bem.

Imaginem uma estudante de Medicina nos Estados Unidos que está a preparar-se para as provas orais do 4.º ano. Digo isto porque eles, agora, passam todos a vida a ir estudar para esse país que tem por prato nacional o hambúrguer, onde se diz que, nestes tempos, se encontra o melhor ensino. Não sei. Sei é que, para a minha metáfora ser boa, agora o exemplo tem que vir em inglês, não só porque a estudante de Medicina está nos Estados Unidos, mas também porque agora os livros de texto estão todos em Inglês, como dantes estavam todos em Latim. Então, vejamos. Esta rapariga sabe que, para passar nas provas orais, tem que rever os seus livros sobre ossos, células e nervos. A aluna de que vos falo, treinada pelas artes do meu pai, tem na cabeça toda uma cidade de Memória, perfeitamente organizada em avenidas, ruas, jardins, casas, que contêm tudo o que aprendeu até agora na escola. Mas, quando estiver perante os professores de medicina, não vai prestar qualquer atenção aos armazéns onde depositou a Geografia, a História, a Poesia, a Química ou a Mecânica. Toda a sua energia estará concentrada na moradia de três andares da Fisiologia, na Avenida do Corpo. Aqui, em quartos separados, as imagens evocativas e extremamente marcantes que tem andado a criar em cada noite de estudo estão nos sítios que foi escolhendo para a sua arrumação — nas paredes, entre as janelas, em cadeiras, em camas, em mesas, sempre com uma disposição rigorosíssima. Está tudo a postos.

Na oral, fazem-lhe três perguntas: o nome dos ossos no membro superior; os estádios da divisão meiótica; e a ordem dos nervos que passam pelo tecido orbital superior no crânio.

A mente da estudante corre imediatamente para o Quarto dos Ossos da Parte Superior do Corpo, no cimo das escadas do segundo andar. Está lá um polícia montado canadiano, com a sua imponente jaqueta escarlate de botões dourados, empertigado em cima do cavalo, com uma pessoa de aspecto sujo, reles e miserável amarrada à sela. Daqui, numa fracção de segundo, desce ao Quarto das Células, na cave. Aqui, junto à caldeira do aquecimento, está um africano imponente com a cara coberta de cicatrizes que não pára de bocejar, ao mesmo tempo que segura o braço de uma linda rapariga africana em cada uma das suas manápulas gigantescas. Num segundo, a estudante parte daqui para o Quarto do Crânio, no sótão. Reclinada numa colcha com motivos evocativos da bandeira da França, está uma mulher nua, voluptuosa, que segura um maço amachucado de notas na mãozinha delicada.

As respostas da estudante formam-se imediatamente.

A primeira imagem representa a frase Some Criminals Have Underestimated the Royal Canadian Mounted Police, sendo que a primeira letra de cada palavra lhe dá a sequência correcta dos ossos pedidos: scapula, clavicle, humerus, ulna, radius, carpals, metacarpals e phalanges.

A segunda imagem, Lazy Zulu Pursuing Dark Damosels, indica à aluna que os estádios da meiose são o lepopteno, o zigóteno, o paquíteno o diplóteno, e a diacinese.

A terceira imagem, evocativa de Lazy French Tart Laying Naked in A nticipation, indica-lhe a sequência dos nervos nos tecidos orbitais do crânio: os lacrimais, os frontais, os trocleares, os laterais, os nasociliários, os internos e os abducentes.

Perceberam, grunhos?

Continuemos, então, malta.

A descrição do palácio da memória destinada aos chineses está num livrinho que o meu pai escreveu já na China, em 1596, retraçando as artes ocidentais da Memória desde o tempo da História Natural, de Plínio, no século I. Esta obra foi composta para o missionário a oferecer de presente ao governador da província de Jiangxi, Lu Wangai, e aos seus três filhos, de quem era preceptor. Os rapazes estavam a preparar-se para os exames para governador. A serem bem-sucedidos, estes exames proporcionar-lhes-iam o caminho mais certo e mais rápido para a fama e a fortuna no Império do Meio. É fácil deduzir que Ricci se prestou a ensinar-lhes as suas técnicas avançadas de Memória para os ajudar a brilharem nas provas, partindo do princípio de que, a seguir, ficariam com uma gratidão que os levaria a usar o seu novo prestígio para favorecerem a causa da Igreja Católica na China. E, particularmente, a causa dos jesuítas.

Agora vem a parte melhor.

Os filhos do governador portaram-se lindamente nos exames. Mas tudo indica que recorreram antes ao sistema tradicional chinês de repetição e recitação, talvez com a ajuda dos poeminhas mnemónicos e das estrofes com rimas que eram prática corrente no estudo do seu país. O filho mais velho, pelo menos, escreveu a um colega que “embora os preceitos [do livro de Ricci] sejam as verdadeiras regras da Memória, temos que ter uma memória espantosamente boa para podermos utilizá-los”.

Estão a ver?

E pronto. Como se sabe, os jesuítas nunca conseguiram converter os Chineses ao catolicismo. E Ricci, que ao contrário de Llul e de Bruno representava a ciência ocidental ortodoxa do seu tempo, ficou até hoje conhecido na China como “o homem preto que constrói os grandes palácios mágicos”.

A audiência, percebendo que a conferência chegou ao fim, desata a levantar as mãos porque toda a gente quer fazer perguntas. Eleazar até quer que o rapaz repita os exemplos da estudante de Medicina, para verificar a correcção do sistema. O cão escava a areia com toda a energia, mais disposto que ninguém a empancar de vez a Grande Engrenagem.

Bom, vamos lá, protesta o avô de Conrad Kyesler. O pensamento do homem funciona assim mesmo, por picos e curvas e desvios por todos os escaninhos da curiosidade insatisfeita, como as ondas que rebentam na praia puxadas por ventos e correntes distintos e contraditórios, em nada respeitando a linearidade, estando portanto excluída a previsibilidade. Sim, senhor. Foi deveras interessante ficarmos a saber porque é que aqui o Ricci Júnior consegue guardar tudo tão bem arrumado e pronto a utilizar na Memória, e o pormenor de como vamos encontrá-lo a enfrentar a morte tão ingloriamente depois do suspense da sua concepção secreta em Macau não deixa de ter o seu quê de comovente. Mas, francamente. Já não há café, já não há pão nem manteiga, ainda ninguém partiu hoje para pescar, pelo que sabemos o Segundo Regresso pode deitar-nos por terra já daqui a dois minutos, e ainda nem acabámos de ouvir o nosso distinto professor continuar a contar-nos a história completa do Ash. Ainda nem sequer percebemos como é que ele deixou de ser um romano chamado Cartáfilo que ao evangelizar-se tomou o nome de José para passar a ser um judeu que sempre se chamou, e sempre se chamará, Ashverus. O homem ao qual nos juntámos através das seis portas do Lidl do Dafundo para virmos aguardar a Conflagração Final nas sombras da Cruz Quebrada.