A Primeira Luz da Madrugada
Livro Nono
Onde há que reflectir sobre a continuação da vida depois do desaparecimento do Judeu Errante do
catálogo dos mitos. Com participação destacada e preciosa do cão.
Toda a gente se espreguiça. Ouvem-se várias reclamações de mais pães, mas desta vez acompanhadas de exigências de peixe. E, já agora, cerveja. Ashverus protesta que Jesus nunca fez nenhum milagre da multiplicação da cerveja enquanto lança a rede verde às águas turvas da Cruz Quebrada e as recolhe cheia de peixes cintilantes e impossíveis; mas Ana Maria, que ainda está perto do mundo real e não dá nas vistas, assobia ao cão e dão juntos um saltinho ao bar, de onde ela regressa com uma grade inteira de Sagres Preta gelada. A festança da celebração do fim do relato do mito arma-se logo ali na maior das bonomias, com peixes grelhados que nunca mais acabam e têm aquele sabor absolutamente delicioso, marinho e fosforescente, que o peixe congelado do Lidl já deixou de ter desde que o Lidl existe. Circulam pães escuros, estalam argolas de cerveja, nestas coisas a humanidade sempre foi a mesma, está-se bem. Ana Maria até tira um charro do bolso e experimenta pô-lo a circular, e para pelo menos metade da companhia a circulação da passa é absolutamente natural. Quando dão por eles, estão todos deitados de costas na areia a contemplar serenamente as figuras que se tecem nas nuvens, até que se acende uma altercação com palpites todos cruzados de geografias e cronologias sobre se o Lidl do Dafundo pode mesmo funcionar como porta de entrada para a compactação do tempo na vigília do Segundo Regresso, já que se sabe desde o tempo dos pitagóricos que nada existe realmente se não tiver uma imagem ao espelho, uma sabedoria milenar a que o século XX chamou necessidade de antimatéria como condição
sine qua non para a existência de toda a matéria.
E é aqui que, sem ninguém estar à espera, a vigília se complica em menos tempo do que leva a dizê-lo.