A Primeira Luz da Madrugada
Livro Sexto, Cap. 3.º, Anexo, 2.ª Adenda
Onde o Judeu Errante, com crescente seriedade, conta à assembleia emocionada a forma como o rabi Loew construiu o Golem, com a assistência preciosíssima de Hannah de Praga; incluindo o que fica prenunciado pelo acordar do supracitado monstro.
É triste, suspira Ashverus, interrompendo momentaneamente o curso da sua história. Eu ensinei Eleazar de Worms, antepassado do nosso professor Melkievstein, a fabricar Golems por transe místico, através da recitação pela ordem correcta das letras mágicas do Sepher Yetzirah. Isto foi no século XIII. Nessa altura, tudo o que os judeus buscavam no Golem era o acto último de adoração a Deus, recriando a Sua obra mais perfeita através da exaltação da piedade. Passaram só três séculos. E agora, no século XVI
de Praga, para o rabi Loew como para todos os outros, os Golems já eram meras criaturas gigantescas, animadas de vida por obra do lado negro da Magia, com o intuito puro e simples, e irrecusavelmente material, de executar trabalhos pesados e defender as comunidades judaicas ameaçadas por pogroms. Sic transit gloria mundi, vós outros perdoem-me mas eu sou mesmo um medievo.
Eu tinha-te falado nos nossos Golems, Hannah. Tu eras rápida, eficaz, poderosa, e não tinhas medo de nada. Enquanto o rabi Loew se preparava espiritualmente, foste tu que chamaste, um por um, sem fazer grande alarde para não lançar o pânico, todos os homens fortes do gueto. E, pela madrugada, o monstro de barro estava pronto. Enorme, terrível, de rosto assustador, incapaz de sentir medo ou dor porque nunca possuiria alma, já que eram os homens que o tinham feito, e não Deus. Nessa altura todos os presentes se retiraram para irem proteger as casas e as famílias. Tu ficaste sozinha com o rabi Loew e o monstro.
O rabi já se tinha concentrado ao ponto de fazer a luz verde dos anjos caídos cintilar em torno da estátua. Para não lhe interromperes o transe, foste tu que subiste ao escadote e escreveste, letra por letra, na testa do monstro, a palavra EMETH. A palavra que quer dizer VERDADE, e que anima de vida os Golems destinados à guerra.
Depois disto, sopraste-lhe nos olhos.
O Golem abriu-os.
Foste a primeira cousa que ele viu.
E ficou deslumbrado.