A Primeira Luz da Madrugada
Livro Sexto, Cap. 3.º, Anexo, 5.ª Adenda
Onde o Judeu Errante, progressivamente mais lacrimoso, e por fim já mesmo penitente, conta à
assembleia estarrecida a história impressionante de como os festejos da vitória acabam na mais
terrível das desgraças.
Bem, meu amor, sorri Ashverus, acariciando as madeixas grisalhas da mulher que tanto ama. Que festa a comunidade vos fez quando se apanhou a salvo. Beijos. Abraços. Rezas. Borregos inteiros a assar no espeto. Tanger de violinos, cantos, danças, festejos que duraram dois dias e duas noites. E em que tu participaste de alma e coração, escusado será dizer, porque sempre foste uma moça foliona, benza-te Deus. Toda a gente queria dançar contigo, e tu até com o Golem dançaste. Ele levantava-te nos braços, fazia-te rodopiar pelos ares, atirava-te até às estrelas e voltava a receber-te no seu colo, o povo aplaudia, e tu rias, rias, rias.
Até que o Golem te pôs as manápulas nos ombros e tentou puxar-te contra ele para te dar um beijo.
Estava completamente apaixonado.
Durante a festa, tinha visto homens e mulheres abraçarem-se e beijarem-se. Tinha visto as crianças, quem as trazia, as idades que tinham, e percebeu que existiam pais e filhos, e mesmo famílias. Até à segunda noite da festa, o Golem tinha sido teu servo. Agora, em total inocência, e sem poder falar porque quem não tem alma não fala, queria ser o teu marido. E não sabia, mas não sabia mesmo, que isso a ele lhe estava vedado.
Enquanto o povo se recolhia numa grande debandada de susto, o rabi Loew interveio. Disse firmemente ao Golem que ele não era um ser humano dotado de alma e filho de Deus, e que os seus serviços estavam dados por terminados. Tentou que os homens fortes que o tinham moldado no barro o segurassem, para que o rabi pudesse subir ao escadote e apagar-lhe da testa o alef, a primeira letra de EMETH, para que EMETH passasse a METH, VERDADE passasse a MORTE, e o monstro de barro perdesse a vida. Ainda hoje se recorda a fúria do Golem quando percebeu que não podia beijar-te, não podia casar-se contigo, não podia ter filhos. Desembaraçou-se dos homens como se fossem moscas, agarrou-te nos braços com toda a força, levantou-te vários metros acima do chão, deitou vários por terra, o pontapé que espetou no rabi Loew deixou-o desmaiado sobre uma das mesas da festa, e durante todo este tempo uivava, uivava, uivava, um uivo profundo de dor e de raiva, de desespero e revolta, um uivo de que Praga nunca mais se esqueceu. E, quanto mais o atacavam, mais ele se enfurecia. Sempre agarrado a ti, que, enquanto tiveste consciência, gritaste sem uma hesitação a toda a gente que não fizessem mal ao monstro, que não o agredissem, que o deixassem fugir contigo, tu havias de desenrascar-te. Mas também os judeus estavam encharcados em adrenalina e raiva, e desesperados por poderem culpar alguém por todos os seus tormentos. A luta entre o gueto e o Golem durou até de madrugada, e nessoutro descalabro muitos caíram mortos, várias casas vieram abaixo, tudo o que estava à passagem foi quebrado em mil cacos, esmigalhado em mil pedaços, ficaram para trás carneiros degolados e mulas sem patas, carroças viradas, ossadas espalhadas, centenas de rios de sangue correram pelas vielas. Por fim, já com a primeira mancha cinzenta da luz do dia a desenhar-se no horizonte, trespassado de setas, coberto de facadas, com cadeiras partidas espetadas nas costas, o Golem subiu a correr até ao píncaro altíssimo do portão do gueto, largou o seu último uivo, e despenhou-se dali abaixo. Reduziu-se a si próprio a um monte de cacos inúteis de argila. E levou-te com ele.
O cão lambe as mãos da dona como quem está a tratar de uma ferida aberta.
Ninguém ousa sequer fazer um gesto.
Eh pá, murmura por fim Ana Maria. Então morri esmigalhada? Oh, sua cozinheira de frangão, grita-lhe Ashverus, ainda desesperado com a história que acabou de contar. Como é que tu queres que eu saiba? Provavelmente, àquela hora, com as voltas que o bicho deu sempre agarrado a ti, já estavas toda desmembrada, ou degolada, ou pelo menos desmaiada com a náusea da vertigem, bendito seja o Ser Supremo e maldita seja a malícia do destino. Mas lá que te encontraram morta e bem morta, e partida e bem partida, no meio dos cacos de barro, isso encontraram. Ainda lá estavas na manhã seguinte, quando eu finalmente cheguei e encontrei o gueto todo esventrado, e de luto pesado, e o desgraçado do rabi Loew sem saber como é que havia de olhar para mim. Fui eu que te juntei todos os bocadinhos, sem uma palavra, sem uma pausa, sem nem mais um olhar, para que a comunidade pudesse dar-lhes um enterro decente. Estás satisfeita?
Bom, intervém Ana Maria, segurando-lhe as mãos com força. Mas isso tudo não passa de uma lenda, certo?
Estulta!, berra Ashverus, para grande surpresa do cão. Imbécile savante. Inconsciente. Criança grande. Portuguesa teimosa. Nunca entendeste nada. Que diferença faz que isto seja uma lenda, para mim, que sou um mito, dizes-me? Explicas-me? És capaz de imaginar o que eu sofri?
Sou, responde Ana Maria com firmeza, sustentando-lhe o olhar de frente. Mas não vou deixar-te berrares comigo como um anjo vingador por causa do sofrimento que a lenda infligiu ao mito. Tem lá paciência. A realidade já é cruelmente absurda e aleatória que chegue.
Mas ao menos não tivesses dançado com ele, sua sandia sem fronteiras, responde Ashverus, agora em voz baixa mas ainda possuído de um desespero de séculos que, pela primeira vez na eternidade, não está a conseguir controlar totalmente. Louca. Louca. Dar confiança a um Golem. Chutzpah. Chutzpah completamente desnecessário e de inominável perigo. Tratar um Golem como se fosse gente. Dançar com ele. Sandia iconoclasta. Hannah, por favor. Tu nunca tinhas sequer dançado comigo.
Porque tu dizias que os mitos não dançam, responde Ana Maria sem uma hesitação. E eu, que só te amava a ti, passei todo o tempo em que estivemos juntos a ter-te ao meu lado e a ser obrigada, contra a minha vontade, a dançar só com os outros. Julgas que gostei?
Ah, rosna Ashverus. Isso é que é mesmo chutzpah. Ou seja, então agora, de repente, lembras-te.
Lembro-me de tudo o que me aconteceu nesta minha vida que conheço, responde-lhe imediatamente Ana Maria. E esse filme de, por uma razão ou por outra, não poder dançar com o meu amor, Ashverus, vi-o tantas vezes que até já me tinha esquecido dele.
Hannah, sussurra o Judeu Errante. Desculpa. Eu tive ciúmes. Quis fazer-te esperar. Claro que devia ter voltado mais cedo.
E, a seguir, cai de joelhos, baixa a cabeça, rompe num pranto vindo do fim do mundo, e desata a bater no peito.
Sempre diligente, o cão desata por seu turno a lamber-lhe a cara.