A Primeira Luz da Madrugada

Clara Pinto Correia · Capítulo 42 de 57

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A Primeira Luz da Madrugada

Livro Sétimo, Cap. 2.º

 

 

Onde se interpõe no curso dos acontecimentos uma muito sentida litania de protestos sobre as ideias disformes do século XIX, tal como raivosamente debitada pelo professor Eleazar Melkievstein e galhardamente atiçada por Ana Maria.

Oy, responde Eleazar com um sorriso cúmplice. Vei. A avaliar pelo que o filho da infâmia escreveu sobre o que eu escrevi, se um desses sucedâneos daquele austríaco que ainda foi meu contemporâneo, aquele que punha as senhoras no divã e decifrava os sonhos, quem era o homem? O herege que de repente acredita que os sonhos se decifram e chama ao que faz uma ciência, e ainda por cima usa essa chamada ciência para nos dizer que o pensamento humano nada vale contra as caves do Hades do seu animal profundo?

Freud, murmura Ana Maria.

Sigmund, brada Eleazar. Sigmund, a maior estultícia do meu tempo, e vocês perdoem-me este termo rude, mas é que haviam de ver o que o mulherio gostava daquilo. Desmaiavam, as damas, a sério que desmaiavam, onde é que já se viu inventar uma ciência destinada a excitar as senhoras ao ponto de fazê-las desmaiar? E a quantidade de pobres mães que foram culpabilizadas por tudo e mais alguma coisa que pudesse acontecer na vida dos filhos? Sigmund. Oy, vei, que a terra lhe seja leve. Ainda por cima, deixou discípulos. Depois houve uns que eram médicos e começaram a estudar mais do mesmo mas assim à engenheiro, sem ofensa aqui para o avô do Kyesler. Neurotransmissores, começaram a falar de neurotransmissores. Foi um que era espanhol e inventou o neurónio, mas enfim, eu já lá não estava, contaram-me.

Psiquiatras, sugere Ana Maria, agora mais afoita.

Uma verdadeira enciclopédia do Terceiro Milénio, esta menina, sorri Eleazar, entre o paternal e o comovido. Deixa estar que já não vai servir-te de muito, pobre criança, agora que chegou o Segundo Regresso, finalmente. Isto está um caos. Os meus contemporâneos nunca deviam ter inventado a máquina a vapor, e ainda menos expandido a idade da Terra para biliões de anos, isto já para não falar do inglês da origem das espécies que nos reduziu à nossa condição amoral de meros primatas bípedes…

Darwin, sorri Ana Maria.

E o outro, prossegue Eleazar, imparável, o outro, o alemão do materialismo dialéctico que pôs meio mundo a sonhar com igualdades impossíveis…

Marx, interrompe Ana Maria, de sorriso cada vez mais rasgado.

Ah, responde-lhe Eleazar, com um sorriso ainda mais rasgado que o dela. És boa nisto das quimeras do meu tempo, menina, mas lembra-te que foi o meu tempo que tirou o mundo do seu eixo e te legou o pântano sem valores em que tiveste que crescer sozinha, à custa da tua própria dor, porque já ninguém podia saber mais que outro alguém e todas as verdades eram aceitáveis, e entretanto até houve quem dissesse que os pais não podiam castigar os filhos.

O Dr. Spock, continua Ana Maria, sem vacilar.

Pois bem, minha querida e formosa fonte de erudição moderna, que o Segundo Regresso nos faça a todos bom proveito, conclui Eleazar. Mas, entretanto, nós perdemo-nos nestas conversas, isto era tudo para dizer que sim, o Judeu Errante tem razão, se algum desses do neurónio agora lesse o que o menino de Harvard escreveu sobre o que eu escrevi, o mais provável era que decidisse que pois, com certeza, o Ash teve uma depressão clínica tremenda por algumas centenas de anos. Posso continuar, juventude?

A Shoan acena afirmativamente.