A Primeira Luz da Madrugada
Livro Primeiro: Cap. 2.º, Pt. V
Onde se registam as primeiras referências à história inacreditável do despertar da engenharia durante a Idade Média, tal como são contadas à assembleia por um homem que aprendeu a amar com os Otomanos. Com profusas referências aos trabalhos e sonhos de um franciscano.
Com a cabeça descansada sobre o ombro do seu amor de seis séculos, Ana Maria ainda não consegue deixar de pensar que o tempo está a passar, e que, mais cedo ou mais tarde, vai ter que voltar à realidade. E, já que é para doer, começar logo por ter que inventar uma desculpa convincente sobre o que é que a fez não comparecer à docência da primeira aula prática da manhã.
Professor, pede ela agora delicadamente, as duas mãos apertadas contra o calor da chávena de café. Por favor, desculpe se todos o interrompem, desculpe se eu também interrompo, mas estamos todos no mesmo nevoeiro e gostaríamos todos de ouvir contar-nos o que foi que descobriu mais sobre a vida eterna de Ashverus.
O professor sorri com um aceno afirmativo, ao mesmo tempo que puxa de dentro do bolso do paletó um cachimbo de cabo de marfim cheio de caprichos em baixo-relevo.
Terei todo o prazer, donzela que tanto amaste e foste amada. Mas não quero impor as minhas pesquisas de tempos idos a toda esta distinta companhia.
Eu, cá por mim, até agradeço, contrapõe imediatamente o homem dos cigarros cirílicos. Tirando a construção daquelas máquinas de guerra que depois me fizeram ficar conhecido por bruxo, só porque fui a Paris mostrar a pólvora aos franciscanos e passei aquele tempo todo a falar com o chibo chifrudo e barbudo do Roger Bacon que depois escreveu todas as minhas ideias como se fossem dele, pelo que me diz respeito nunca passei de um rústico com ideias.
O Roger Bacon?, pergunta Ana Maria baixinho ao homem que há seis séculos que a conhece. Ele está a dizer o franciscano Roger Bacon, aquele…
É o professor que lhe responde, a picar o tabaco e a reluzir do orgulho dos que amam o louvor pela tribo.
“É possível que”, Ana Maria. Sim. Este que aqui vês, e que tanto imaginou sobre o progresso, falou longamente com o Roger Bacon, aquele a quem os contemporâneos chamaram Doctor Mirabilis, aquele que, no fim da vida, teve que ser trancado dentro da sede da Ordem em Paris não se sabe se sob prisão se sob protecção, essoutro mesmo. Aquele mesmo homem, um mero homem, que, no século XIII, deixou claramente escrito para a posteridade o manifesto maravilhoso dos engenheiros, o hino de glória do grande sonho tecnológico da Idade Média.
O rapazinho que memorizou tudo recita imediatamente.
“É possível que grandes navios e embarcações destinadas ao mar sejam feitas que poderão ser guiadas só por um homem e que se moverão com muito mais rapidez do que se estivessem cheias de remadores. É possível que venha a fazer-se um carro que se moverá a velocidades inestimáveis, e o seu movimento não contará com a ajuda de nenhuma criatura viva (…) É possível que venha a fazer-se um engenho para voar em que um homem sentado no meio do engenho e rodando uma manivela fará as suas asas baterem no ar à semelhança do voo dos pássaros. Similarmente, é possível que venha a fazer-se um instrumento de pequeno tamanho para elevar ou deprimir grandes pesos (…) É também possível que seja fácil fazer um instrumento com o qual um só homem possa puxar violentamente na sua direcção outros cem homens apesar da oposição… Também é possível que venham a fazer-se outros instrumentos com os quais, sem perigo físico, um homem possa caminhar no fundo de um rio ou do mar (…) Infinitas outras coisas destas poderão ser feitas, tais como pontes sem colunas nem suportes, e máquinas, e engenhos de que nunca ouvimos falar.”
Ah, suspira o homem dos cigarros cirílicos. O Bacon sabia bem como dizer essas cousas, sabia destarte explicá-las, sabia escrevê-las. Eu não. Tinha sonhos, e no entanto não podia dar-lhes uma forma que os outros entendessem. Fui à escola, mas nem cheguei a aprender a escrever. Isto muito embora outrossim o Mestre fosse grande, e o meu desejo de saber fosse maior ainda. Não consegui chegar até ao ponto de viragem decisivo que nos rasga o cérebro de um lado ao outro como um raio, e nesse clarão nos oferece milhares de novas fronteiras, o momento mágico em que, de repente, as Letras fazem sentido em Palavras. O Momento em que aprendemos a ler. Estive quase lá, mas não passei da antecâmara. Devia eu ter nove anos, na altura era difícil de dizer, quando os Otomanos cruzaram o Danúbio, deitaram fogo às colheitas, cortaram as árvores rasas ao chão, envenenaram as nascentes e os ribeiros, roubaram ou estriparam à passagem tudo o que fosse cabra, ou carneiro, ou camelo, degolaram rapazinhos ainda sem barba armados cavaleiros no dia anterior entre o silêncio nobre dos pais e o pranto doce das mães, violaram raparigas como quem se sacia de uma longa sede, e, no fim, deixaram para trás as ruínas das igrejas já todas negras, mas ainda a fumegar. Do destino dos outros, nada sei. A mim, levaram-me para ser escravo já nem lembro de quem, tantos eram os grandes estetas fabulosamente ricos e incomparavelmente letrados daquele vasto império, naquela estranha altura. Só me recordo da forma como o meu dono cantava os poetas do seu povo, e como me acariciava o rosto enquanto cantava, até saciar os seus lábios nos meus quando os poetas já não podiam dizer mais. Ah, sim, Ana Maria. Era um homem requintadamente culto, magro como um junco, de dedos longos como asas, com a maior biblioteca que consegui guardar na memória, e com um talento incomparável na arte dos amores indizíveis entre homens e meninos. Contaram depois que se apaixonou por mim. Relataram, até, que cunhou a minha face em moedas, e outrossim acrescentaram que mandou erigirem-me uma estátua entre os pavões do seu jardim, com jactos de água onde flutuavam maçãs encarnadas, sempre em movimento sobre os repuxos que mudavam ciclicamente de posição. Sussurra-se até que foi aos pés dessa estátua que se imolou, quando o Grão-Turco lhe enviou para análise, através dos portugueses, um Monstro com forma ainda humana cujo corpo estava cheio de sinais e emblemas que prenunciavam a morte por decadência do
esplendor e da glória dos Otomanos[12]. Mas isso é só o que dizem. Eu não sei. Em muitas noites dessoutro amor a quem os heréticos querem proibir tal nome ensinou-me o seu alfabeto, e tornou-me capaz de ler e escrever. Com a ingratidão própria de juventude, devia ter eu então uns quinze anos, assim que destarte tive a certeza de que poderia abrir qualquer Livro, e nele as Letras formariam sempre Palavras, comprei com os favores da arte aprendida na sua alcova os favores do eunuco que guardava o serralho e fugi. Sabia de mais para ficar onde estava. Queria chegar a Paris, e mostrar ao chibo chifrudo e barbudo do Bacon todos os desenhos de todas as máquinas mágicas que fui imaginando, muitas delas para agradar às fantasias estéticas do meu dono.