A Primeira Luz da Madrugada

Clara Pinto Correia · Capítulo 36 de 57

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A Primeira Luz da Madrugada

Livro Sexto, Cap. 3.º, Anexo, 4.ª Adenda

 

Onde o Judeu Errante, sem conseguir deixar de manifestar ele próprio algum entusiasmo, conta à assembleia arrebatada como o Golem, tal como brilhantemente comandado por Hannah de Praga, arrasou num só dia todas as hostes inimigas.

Agora já ninguém na Shoan da Cruz Quebrada ousa tossir. Ou sequer pigarrear. Ou mesmo apenas reprimir um espirro, estalar um dedo, coçar um arranhão. Para que nada se interponha entre os elos da aliança secreta reunida na praia triste e a escalada para o grande clímax da história do Golem de Hannah de Praga, que se adivinha avançando em passos galopantes.

Ashverus engole em seco antes de continuar.

Como é norma nos Golems, que obedecem a tudo o que os seus criadores lhes dizem, este seguiu-te obedientemente por todo o gueto, revela ele por fim a esta Ana Maria que também já foi aquela mesma Hannah. Mostraste-lhe as falhas na muralha, os telhados de colmo que podiam arder, o portão gigantesco e todas as ferragens que o mantinham fechado. Deste-lhe instruções rápidas, precisas, aliás não tinhas tempo para mais. Já se ouvia ao longe o brado sanguíneo e inconfundível do povo em fúria que arremete contra os judeus. O Golem postou-se do lado de fora do portão, e seguiu todas as instruções que tu lhe foste dando pelo lado de dentro. Que grande estratega te revelaste, menina. Creio que até Alexandre gostaria de ter podido contar contigo entre os seus generais. Com o gueto inteiro a suster a respiração, o teu Golem quebrou flechas e setas aos molhos de dez de cada vez, inflectiu os pedregulhos catapultados pelas hostes inimigas para cima delas mesmas, agarrou os cavalos pelas patas e virou-os de pernas para o ar, a refrega não durou mais que umas horas, longas de tanta emoção, e de tanto suor fétido de raiva e terror que ali se concentravam. No final da tarde, já os atacantes fugiam a bom fugir, aterrorizados, atordoados, e de ânimo terminalmente destroçado. Não houve um único morto, porque foram essas as instruções que deste ao teu Golem. Mas ficaram vários feridos no terreno da batalha, que os habitantes de Praga não vieram buscar porque tinham medo do monstro. Acabaste por ir tu lá tratar deles, estancar-lhes o sangue das feridas, dar-lhes de beber, obrigá-los a engolirem mais uma dose dos teus famosos frangões, vesti-los, alimentá-los, até que pudessem levantar-se e voltar para casa. Tu e o teu Golem, que te ajudava de dia e de noite e se comportava como a tua sombra. Dos sobreviventes desta batalha extemporânea ficaram histórias espantosas que se foram narrando e diversificando ao longo das gerações, e que ainda hoje se contam, tanto nas lojas turísticas de Praga como nos livros que existem por aí, ao sabor do acaso, sobre o hermetismo hebraico.