A Primeira Luz da Madrugada
Livro Primeiro
Onde se conta a várias vozes a versão mais generalizada do mito
do Judeu Errante, não sem que a assembleia invoque um número
apreciável de alternativas para os motivos das suas acções
no dia trágico em que foi sentenciado por Cristo. Com a
certeza, agora definitiva, de que estes pescadores
não são apenas funcionários do Lidl.
Ashverus.
É assim que o mundo vai lembrar o teu nome e contar a tua história. Pelo egoísmo, ou mesmo só pela negligência, tiveste direito à eternidade. Mas, para ti e para os que te viram e reconheceram, não foi em glória que a viveste. Foi em ombros curvados de punição.
Ashverus, o Judeu Errante.
Ana Maria conhece vagamente a história, mas já nem se lembra de onde ela vem. O destino de tantos contos antigos, tantas vezes contados, em tantas paragens diferentes, por tantos contadores já sem nome nem rosto. Fragmentos de memórias deixadas em estilhaços pelos caminhos do mundo, pelas águas subterrâneas que arrastam consigo as palavras e os olhos de quem já falou há demasiado tempo para ainda ter ecos de voz à superfície. Corpos comidos pelos peixes e pelas ondas que finalmente se entregam ao descanso das praias. Ana Maria já nem se lembra de como foi que tudo começou. Já nem sabe o que lançou esse homem castigado pelas estradas de um périplo sem fim, todo feito de perigos e suspeitas. Encosta o cotovelo à areia, volta a atirar a haste do candelabro para os remoinhos da orla agitada para que o cão a procure de novo, e pede ao que se encontra mais próximo dela, o homem da rede verde, aquele que estava até agora a cantar a melopeia de uma língua inexistente, que por favor a ajude, revisitando a meada até ao início do fio.
Este homem, e todos os outros, vira-se para a figura impressionante daquele que inequivocamente é o chefe. E todos acenam ao mesmo tempo com a cabeça, em silêncio, sinalizando-lhe que avance.
O homem velho, seco e imponente, volta a espevitar o lume do cachimbo. Senta-se ao lado dela. Põe-se, sem pressa, a desfazer um por um os nós em que se emaranhou a rede verde do companheiro. E, depois, começa a falar, naquela mesma voz rouquejada que inicialmente a fez reconhecê-lo como entidade superior, nessa manhã, entre os estrangeiros quase mudos da praia.
Ashverus, Ana Maria, é o nome que mais vezes se dá àquele que se transformou para todo o sempre no Judeu Errante. Era um simples sapateiro, sentado à soleira da porta enquanto a populaça a toda a sua volta se desenfreava em urros de vingança e de raiva, alguns também em prantos de horror, no grande clímax do sacrifício que tanto se temeu, tanto se falou, tantas vezes se considerou impossível, e agora vai mesmo acontecer. Jesus vai ser crucificado. Caminha devagar, aos tombos, o rosto quase a tocar o chão, o sangue a escorrer-lhe da testa, a própria figura da grande humilhação pública, é assim que Jesus avança para o Calvário com a cruz às costas. O seu séquito está inebriado pelos vapores da loucura colectiva. Canta. Dança. Bate palmas. Zomba. Muitos choram. Outros riem. Provavelmente, Jesus não ouve ninguém. É apenas um homem transformado em símbolo, determinado a levar até ao fim uma tarefa que já deve ter-lhe roubado há uns bons dois dias atrás aquelas emoções breves, ainda humanas, que conseguiram vir, nos últimos momentos, tentar visitá-Lo. Não se sabe que rasgo súbito de humanidade foi esse que o levou a criar a figura do Judeu Errante num dos seus últimos actos de vida enquanto pessoa. Passou à porta dele, e pediu-lhe abrigo para um minuto de descanso. O sapateiro recusou. Era o que lhe faltava, deixar um maltrapilho, condenado pelos romanos à pior das mortes, descansar por uns momentos na soleira da sua porta. Porta essa onde, aliás, já estava ele próprio sentado, e provavelmente não cabia lá mais ninguém. As portas eram pequeninas, nessoutro tempo, lembra-te, Ana Maria. E por esta vileza foi Ashverus condenado.
Nesta altura, já todos os outros pescadores quase mudos se aproximaram do homem assombroso e da mulher solitária, desenhando vultos cada vez mais precisos por entre as gotas de humidade da manhã cinzenta.
O primeiro interlocutor de Ana Maria coça o cabelo por baixo do boné que não parece português, e acende um cigarro tirado de um maço com caracteres em cirílico.
Pode não ter sido vileza nenhuma, Ana Maria. O sapateiro não andava no arraial, no meio dos judeus embriagados de sangue e de excesso. Estava só sentado à porta a vê-los passar. Se calhar não queria ter nada a ver com o espectáculo. Se calhar pressentiu que estava ali a escrever-se uma história de que todo o mundo ia ter que lembrar-se para sempre, não acreditou que fosse uma história com um desfecho feliz, e quis recusar-se a participar nela num acto de pura objecção de consciência. Ou, se calhar, estava a correr-lhe mal o dia, estava a irritá-lo o barulho, e não lhe apeteceu fazer parte da confusão. Ana Maria, tu sabes lá. Nós outros sabemos lá. Se calhar tinha acabado de discutir com a mulher, se calhar a mulher era uma megera insuportável, e o pobre infeliz só queria destarte apanhar ar e respirar fundo antes de voltar para dentro. Se calhar, tinha perdido um filho. Se calhar, tinha-o traído um amor. Há tantas cousas que podem fazer um homem vir sentar-se por um momento à porta de casa, tantas cousas que podem não ter absolutamente nada a ver com o facto, que essoutro homem de todo em todo não controla, de estar a escrever-se uma passagem indelével da história ali mesmo a dois passos dele, sem que ele imagine sequer que essa passagem tem seja o que for a ver com a sua própria vida.
O homem impressionante, que Ana Maria sabe que conhece sem nunca ter visto antes, atira o pedaço branco de esferovite do que em tempos já foi uma bóia contra o boné estrangeiro do pescador do cigarro cirílico. E, enquanto afasta o cão que apanhou a esferovite em pleno voo e agora quer devolver-lha, encharcado de sal, feliz de inconsciência, recorda severamente que tem que ter sido uma vileza. Um acto limpo de egoísmo. Uma rejeição nem sequer pensada, no último sopro de solidariedade humana que podia fazer a humilhação pública de Jesus levantar-se por um milímetro que fosse, num segundo que fosse, acima da poeira do chão. Porque cometera esta vileza, e vileza o fora com todas as letras, ficara o sapateiro condenado a errar pela Terra sem nunca conseguir morrer, até que se deflagrasse no mundo a conflagração final consagrada no Segundo Regresso do mesmo Redentor que ele acabava de desagasalhar. Nenhum homem seria condenado a um castigo tão severo se as suas penas não fossem assim tão graves. Estivesse uma megera dentro de casa, morresse um filho, desatasse um amor a magia da laçada, e Deus, por ser Deus, por ser perdidamente Bom de tão imensamente Omnisciente e tão inescapavelmente Omnipresente, haveria de ter perdoado.
Ah, Ana Maria, ri-se o pescador mais novo, o de olhos rasgados como amêndoas, que tem as sardas castanhas meio tapadas pelas madeixas loiras que já há dias e dias que não vêem nem pente nem água doce. Quando ele fala, nós outros temos vontade de acreditar. Mas resta-nos o quê, se quisermos seguir até ao fim a corrente já tão seca que ainda poderia levar-nos à fonte desta história? Meia dúzia de gravuras medievais? Daquelas famosas, que apareciam em tantos dos livros das terras antigas que já foram as nossas? Ouçam lá, não havia uma imagem dessas na tampa da caixa das broas de mel e erva-doce que costumavam dar-vos à saída do vosso outro templo? Onde era? Quando foi? Como é que se chamava o velho da caixa? Quem tinha assinado a imagem? Aquela. Aquela do homem com uma cara que parecia uma Lua em quarto minguante cortada por uma faca de serrilha, vá lá, só eu é que vi? Mais ninguém viu? Não? Ah não? Pois bem, eu vi. Eu lembro-me. Lembro-me da Imagem do Judeu Errante. Mas é só uma imagem. Imagens, Ana Maria. Do Judeu Errante, restam-nos imagens que já nem sabemos onde vimos, assim como já quase não nos lembramos de onde viemos.
Ana Maria estremece. É preciso não esquecermos que, pelo desenrolar das rotinas de Inverno já tão suas conhecidas que encontrou à chegada, no primeiro ímpeto do cão de se lançar às ondas pelo meio do frio ainda transparente da madrugada, começara por acreditar sinceramente que aqueles homens tinham vindo todos do Lidl, directamente do início da folga no Dafundo para a pesca na Cruz Quebrada.