A Primeira Luz da Madrugada

Clara Pinto Correia · Capítulo 49 de 57

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A Primeira Luz da Madrugada

Livro Nono, Cap. 1.º, Pt. Iii

 

Onde o debate se prolonga com o muito eloquente e quiçá inesperado discurso de Louis Pasteur sobre o triunfo perverso da utilidade.

Eleazar, responde finalmente Pasteur, com a perna esquerda flectida sobre a caixa do microscópio. Eu, como tu, sou um homem do século XIX. Quando descobri os enantiómeros nos cristais estávamos ainda em 1847, eras tu um emérito mestre venerado e eu um rapazinho sedento de novos saberes que bem gostaria que pudesses levar-me pela mão. E nessa altura pensei, como todos os meus colegas pensaram, que, ao detectarmos enantioméros com o feixe de luz polarizada, estávamos apenas perante mais uma daquelas espantosas curiosidades da natureza. Inúteis para resolver todos esses problemas práticos que tu me acusas com tanta veemência de ter querido resolver, mas espantosas, mesmo assim. Lindíssimas. Comoventes. De facto, revelavam-se-nos como mensagens cifradas que nós não sabíamos ler. E nós sustínhamos a respiração de assombro e reverência.

Pois então que a tivessem sustido durante mais tempo, resmunga Eleazar. Até que vos acontecesse mesmo qualquer coisa.

Como queiras, responde Pasteur sem perder a calma, mas também sem revelar o mais pequeno traço de empatia. E agora deixa-me falar por mim, que eu canso-me depressa quando tento falar como tu. És teimoso e obstinado, velho mestre. A tua sabedoria é grande, mas os teus preconceitos ensurdecem-te facil mente. Ouve o que te disse o Judeu Errante, ainda agora, com todas as letras: a humanidade não quer ter que pensar. Ninguém pensou nos enantiómeros até se passar da Química Orgânica de laboratório, onde temos sempre misturas dos dois ramos, para a química dos seres vivos. E sim, tens razão, isto aconteceu no início desse tal século XX de que eu comecei por gostar tanto. Só quando se descobriu que

as reacções bioquímicas em geral, e a actuação das enzimas sobre as macromoléculas em particular, são específicas para um dos enantiómeros e não para o outro, porque a posição que eles ocupam no espaço não é a mesma, é que o mundo à minha volta entrou em aceleração. E desatou a ver, na minha antiga descoberta que não dizia respeito a nada que não fosse o deslumbre da beleza oculta da simetria, uma data de utilidade, utilidade, utilidade. A partir daí, nunca mais ninguém quis saber dos cristais. E, já agora, se julgas que não me dói, se queres saber onde é que dói mesmo, sabes para que é que serve verdadeiramente a minha luz polarizada, a luz que me revelou aquilo a que tu chamas o fragmento do grande código cósmico que estava reservado para mim? Pois bem. Olha, tornou-se de grande utilidade para a indústria da cerveja, para ajudar a monitorização da fermentação do açúcar quando se transforma em álcool. Ora toma. Sim, utilidade. Utilidade. Utilidade. Um legado do século XIX que se transformou

numa obsessão mórbida do século XX. Pardonne-moi, mon cher ami, mas a humanidade está perdidamente mais interessada em beber cerveja do que em pensar nos mistérios das coisas, e não posso ser eu a carregar agora o ónus de uma culpa que não é minha.

Podias ter usado a tua autoridade para tentar refrear a loucura, protesta Eleazar. E fizeste-o, porventura? Não, Louis, não, tu, que os outros escutavam, tu comportaste-te como qualquer um deles. Dedicaste todo o resto da tua vida a investigar e descobrir coisas úteis, úteis, úteis, sem nunca mais cultivares a profundidade do pensamento.

Louis Pasteur suspira de novo. Alisa a barba. Olha um por um todos os membros da assembleia. Detém sobre Ana Maria um longo olhar pensativo, o olhar de quem pôde olhar para o seu próprio futuro através de um espelho mágico. Quando volta a encarar Eleazar, é com tristeza que retoma o fio do confronto.

Eleazar Melkievstein, grande mestre do pensamento profundo. Eu vim de onde tu vieste, conheci o que tu conheceste, e comecei por ser como tu. Acreditei no que fiz. Acreditei, como tu acreditaste, que o que eu conseguisse descobrir faria jorrar mais luz sobre o mundo. E, sim, não te enganas, tive a imodéstia de pensar que um mundo com mais luz seria um mundo melhor. No meu caso, a luz que eu podia dar-lhe era a da luta contra as aflições do corpo, e é verdade que nem duvidei, porque nada me dava razões para tanto, que a Medicina havia de evoluir até ao ponto em que toda a gente pudesse viver tranquila, livre de qualquer vestígio de medo ou de sobressalto pela sua impotência contra os arroubos da morte, quando ela não respeita o tempo que todos deveríamos ter para cumprirmos o nosso caminho. Mas quando, depois de tantas horas de suor e concentração investidas nos laboratórios para descobrirmos os antibióticos, vieram a contar-me que, a seguir à Segunda Guerra Mundial, as Forças Aliadas andavam a tratar as doenças venéreas das prostitutas alemãs com penicilina reciclada a partir da urina dos soldados americanos, também não gostei de saber. Também me questionei, e ainda hoje me questiono.

De que é que ele está a falar agora?, sussurra Ana Maria para o rapaz despenteado que foi Salvo das Águas. Sabes, por acaso?

Sei, sussurra o rapaz de volta. Os soldados americanos eram tratados com doses substanciais de penicilina, numa altura em que ainda não se conheciam mais antibióticos, e este era raro, e era caro. Foram eles que ficaram a ocupar a Alemanha depois da derrocada do nazismo. Mas não é por se vencer Adolf Hitler que se perde o desejo de frequência das praticantes da mais velha profissão do mundo. Ora, havendo que limpá-las antes de utilizá-las, havia que arranjar penicilina também para elas. Como é pela urina que a penicilina abandona o organismo onde actuou, pura e simplesmente reciclava-se o antibiótico a partir da urina de centenas de soldados, e voltava-se a utilizá-lo. Ninguém faz ideia de quantos ciclos de reciclagem desta se terão feito. É a tal utilidade, utilidade, utilidade, acima de tudo e a todo o custo, que tanto marcou o século XX e tanto enfurece Eleazar.

Esses nazis, aproveita para acrescentar Ashverus, que, mesmo arbitrando a disputa entre o princípio e o fim do século XIX, não deixa de estar a ouvir tudo. Esses nazis. A sanha deles aos judeus era tanta que

até me utilizaram, antes da guerra, para a propaganda anti-semítica. Acreditas, amor? Numa caricatura que se fartou de circular entre eles estou eu com o comunismo debaixo de um braço, um chicote na mão, e a outra mão estendida, cheia de moedas. Diziam que era “o judeu errante à procura de um lugar no mundo onde possa escapar às perseguições”. A sério.

Depois há outra que eles também circulavam, que era uma imagem tirada de uma gravura francesa, onde se vê um bando de gentios da Renascença a insultarem um Judeu Errante muito feio e sujo.

E a cousa não fica por aqui. Imagina que foram buscar o desenho que eu até acho bastante galante, feito pelo Gustave Doré em 1852, para insistirem junto das massas que os judeus não têm “raízes”, nem qualquer ligação ao “solo nacional”. É muito triste, mas nem sempre fui famoso pelas melhores das razões.

Ashverus, interrompe severamente Eleazar Melkievstein, com os olhos corruscantes. E se tu te deixasses de erudições baratas e de chorrilhos de lugares-comuns, de maneira a que o Louis pudesse acabar o que estava a dizer? Tens mesmo que fugir para a galanteria de cada vez que a conversa é séria?

Sem uma palavra, o Judeu Errante liberta Ana Maria do abraço onde esteve a encerrá-la, e vem pôr solenemente a mão no ombro de Pasteur.

Desculpa, Amigo, diz-lhe de olhos nos olhos, os ombros direitos. Isto de sermos eternos faz-nos perder a noção do tempo. Estou sempre a esquecer-me de que as conversas dos outros não podem durar para sempre. Fala, Louis. Fala. Fala-nos do que sabes agora, agora que está quase cumprido o centenário da tua morte.

Agora, conclui Louis Pasteur, sei que a Medicina nunca chegará ao fim das doenças. Agora, olhando para o ciclo, sei que a natureza arranjará sempre maneira de deixar-nos impotentes. Mas, mestre Eleazar, não podes atacar-me por ter sonhado com o dia em que poderíamos oferecer à humanidade o maior benefício de sempre. Foi um sonho heróico, enquanto durou. Mas foi exactamente enquanto durou que deixaram de existir os heróis. Eu sou um exilado como tu, Eleazar. Também já não tenho nada a ver com o mundo de onde saiu hoje esta linda senhora que resolveu vir trazer o cão à praia de manhã bem cedo. Posso aguardar convosco o Segundo Regresso?

Eleazar estende-lhe finalmente a mão, desta vez com um princípio de esboço de sorriso. Louis Pasteur aperta-a com força, com um princípio de esboço de reverência. O cão lambe-as às duas, como se estivesse a selar um pacto.