Emma
Capítulo VIII
– A essa hora ele j á deve ter recebido m inha carta – disse ela, com
brandura. – Im agino o que eles todos estarão fazendo... Se as suas irm ãs j á sabem ... Se ele está infeliz, elas tam bém devem estar. Espero que ele não sofra m uito com isso.
– Vam os pensar naqueles entre nossos am igos ausentes que estão em pregando seu tem po de form a m ais alegre – exclam ou Em m a. – Mr. Elton talvez estej a neste m om ento m ostrando seu retrato para a m ãe e as irm ãs, contando-lhes com o o original é m uito m ais bonito, e após ser instado cinco ou seis vezes, se perm itindo dizer-lhes o seu nom e, seu próprio e querido nom e.
– Meu retrato!... Mas se ele o deixou em Bond Street[1].
– Se ele deixou então não conheço direito Mr. Elton. Não, m inha pequena, querida e m odesta Harriet, pode contar que o quadro não estará em Bond Street até que ele m onte em seu cavalo am anhã. Esta noite o quadro será seu com panheiro, seu consolo, sua alegria. Mostrará suas intenções para a fam ília, apresentará você a eles, difundirá entre todos prazerosos sentim entos, ávida curiosidade sobre a nossa natureza e calorosa posse. Com o as im aginações deles deverão estar alegres, anim adas, suspeitosas e ocupadas.
Harriet sorriu de novo, desta vez com m ais firm eza.
[1] Fam osa rua de Londres, onde se localizava o com ércio elegante da época.
CAPÍTULO VIII
Harriet dorm iu em Hartfield naquela noite. Nas últim as sem anas passava m ais da m etade do tem po ali, e aos poucos foi ficando com um quarto especialm ente para ela. Até o m om ento, Em m a achava m elhor em todos os sentidos, m ais seguro e m ais generoso, m antê-la perto o m aior tem po possível.
No dia seguinte Harriet deveria ir à casa de Mrs. Goddard, por um a ou duas horas, m as ficara acertado que voltaria a Hartfield para um a visita de alguns dias.
Enquanto ela estava fora Mr. Knightley veio visitá-los, e sentou-se com Mr. Woodhouse e Em m a durante algum tem po. Mr. Woodhouse, que havia previam ente se disposto a sair, foi persuadido pela filha a não adiar o passeio, e atendendo ao pedido dos dois acabou por deixá-los, em bora contra os escrúpulos ditados pela sua boa educação. Mr. Knightley, que não tinha cerim ônia com o anfitrião, oferecia um divertido contraste, com suas respostas curtas e decididas, aos prolongados protestos e bem -educada hesitação do outro.
– Bem , se o senhor m e desculpar, Mr. Knightley, se não considerar m inha atitude m uito rude, creio que vou aceitar o conselho de Em m a e sair por um quarto de hora. Com o está um dia de sol, creio que é m elhor fazer a cam inhada enquanto posso. Eu o trato sem cerim ônia, Mr. Knightley. Nós, os inválidos, acreditam os que tem os alguns privilégios.
– Meu caro senhor, não m e trate com o um estranho, por favor.
– Minha filha será um a substituta à altura. Em m a ficará feliz em fazer-lhe com panhia. E agora acho que vou pedir-lhe desculpas e fazer m inha cam inhada... Minha cam inhada de inverno.
– É a m elhor coisa a fazer, senhor.
– Eu pediria o prazer da sua com panhia, Mr. Knightley, m as cam inho m uito devagar, e m eu passo seria aborrecido para o senhor. Além disso, o senhor terá que fazer um a longa cam inhada, de volta a Donwell Abbey.
– Obrigado, senhor, obrigado. Estou indo daqui a pouco tam bém , e acho que quanto antes o senhor for m elhor será. Vou pegar seu casaco e abrir a porta do j ardim para o senhor.
Mr. Woodhouse finalm ente partiu, m as Mr. Knightley, em vez de sair tam bém , sentou-se novam ente, parecendo disposto a conversar. Com eçou perguntando por Harriet, e de form a m uito m ais elogiosa do que j á havia feito.
– Não a considero tão bela com o você – disse ele – m as é um a
criaturinha bonita, e acho que tem um bom tem peram ento. Seu caráter depende das com panhias, m as acredito que em boas m ãos se tornará um a m ulher de valor.
– Fico feliz que pense assim ; e as boas m ãos, espero, não faltarão.
– Deixe disso, sei que está ansiosa por um cum prim ento, assim vou dizer-lhe que você a m elhorou. Você a curou das suas risadinhas de m enina de escola, ela de fato faz-lhe j ustiça.
– Obrigada. Eu ficaria m ortificada se acreditasse não ter sido útil. Mas não é todo m undo que se dispõe a elogiar quando devido; o senhor m esm o não costum a elogiar-m e.
– Você está esperando por ela ainda esta m anhã?
– A qualquer m om ento. Ela j á se dem orou m ais do que pretendia.
– Algo aconteceu para atrasá-la, talvez algum a visita.
– Fofocas de Highbury ! Daqueles m iseráveis cansativos!
– Talvez Harriet não considere todo m undo cansativo com o você.
Em m a sabia que isso era verdade, não podia contradizê-lo, e preferiu não dizer nada. Ele então falou, com um sorriso:
– Não pretendo determ inar a hora nem o lugar, m as devo dizer que tenho boas razões para acreditar que sua pequena am iga logo vai ouvir um a proposta vantaj osa.
– Verdade? Com o assim , que espécie de proposta?
– De um a espécie m uito séria, asseguro-lhe – disse, ainda sorrindo.
– Muito séria! Só posso im aginar um a coisa... Quem se apaixonou por ela? Quem confidenciou isso ao senhor?
Em m a tinha quase certeza de que Mr. Elton insinuara algum a coisa para Mr. Knightley, que era considerado um a espécie de am igo e conselheiro de todos; ela sabia que Mr. Elton o adm irava m uito.
– Tenho razões para pensar – disse ele – que Harriet Sm ith logo receberá um a proposta de casam ento, e de alguém irrepreensível: Mr. Robert Martin. Parece que sua visita à Abbey -Mill neste verão deu resultados. Ele está loucam ente apaixonado e vai casar-se com ela.
– É m uito am ável da parte dele – disse Em m a – m as ele tem certeza de que Harriet pretende casar-se com ele?
– Bem , bem , ele vai tentar pedi-la, então. Está m elhor assim ? Ele veio m e visitar em Abbey, duas noites atrás, com a intenção de consultar-m e sobre o assunto. Sabe que tenho a m áxim a consideração por ele e toda sua fam ília, e creio que m e considera um de seus m elhores am igos. Veio perguntar-m e se eu achava m uito im prudente da parte dele casar-se tão cedo, se eu a considerava j ovem dem ais, em sum a, se eu aprovava sua escolha. Tinha alguns tem ores de que ela poderia ser considerada acim a dele no nível social (especialm ente depois que você fez tanto por ela). Fiquei bastante contente com tudo que ele m e disse, nunca vi alguém com tanto bom senso com o Robert Martin. Sem pre fala de form a direta, aberta, sem rodeios, e é m uito aj uizado. Contou-m e tudo, suas condições, seus planos, e o que todos pretendem fazer caso ele se case. É um excelente hom em , bom filho, bom irm ão. Não hesitei em aconselhá-lo a casar-se. Provou-m e que tem condições financeiras para isso, e nesse caso, acho que não poderia fazer nada m elhor. Elogiei a escolha da noiva tam bém , e ele partiu m uito feliz. Se antes ele nunca tivesse considerado m inha opinião, tenho certeza que naquele m om ento passou a considerar-m e m uito, foi em bora pensando que eu era o m elhor am igo e conselheiro que ele j á tivera. Isso aconteceu há duas noites. E agora, com o podem os bem supor, ele não deve ter deixado passar m uito tem po antes de falar com a m oça. Com o parece que ele não falou ontem , acho que foi hoj e à casa de Mrs. Goddard. Ela pode ter sido atrasada por algum a visita, com o vê, e não deve considerá-lo um m iserável cansativo de form a nenhum a.
– Por favor, Mr. Knightley – disse Em m a, que estivera sorrindo interiorm ente durante a m aior parte do discurso dele – com o sabe que ele não falou com ela ontem ?
– É claro – replicou ele, surpreso – que eu não sei disso, m as posso supor. Ela não esteve aqui o dia todo, com você?
– Bom – disse ela – vou contar-lhe algo tam bém , com o retribuição ao que o senhor m e contou. Ele falou ontem ... Quer dizer, ele escreveu um a carta, e foi recusado.
Foi necessário repetir para que Mr. Knightley acreditasse. Levantou-se indignado, ruborizado de surpresa e desprazer, dizendo:
– Então ela é ainda m ais sim plória do que im aginei. O que essa m enina tola está pensando?
– Ah, é claro – exclam ou Em m a – um hom em nunca entende que um a m ulher possa recusar um a proposta de casam ento. Acham sem pre que as m ulheres devem estar dispostas a aceitar o prim eiro que as peça.
– Que bobagem ! Os hom ens não acham um a coisa dessas. Mas qual é o sentido disso? Harriet Sm ith recusar Robert Martin? Loucura, se isso for verdade; m as espero que você estej a enganada.
– Eu vi a resposta dela!... E estava bem clara.
– Você viu a resposta dela!... Você escreveu a resposta, tam bém .
Em m a, isso é obra sua. Você a persuadiu a recusá-lo.
– E se eu tivesse feito isso (o que estou longe de adm itir), não acho que teria agido errado. Mr. Martin é um j ovem m uito respeitável, m as não posso adm itir que estej a ao nível de Harriet, e até m e surpreende que tenha se aventurado a pedi-la. Pelo que o senhor m e disse, parece que ele tinha alguns escrúpulos, pena que tenha se livrado deles.
– Não está ao nível de Harriet! – exclam ou Mr. Knightley em voz alta e enérgica. Após alguns m om entos, acrescentou com calm a aspereza – Não, ele de fato não é do m esm o nível de Harriet, pois é superior a ela em situação e em bom senso. Em m a, seu orgulho em relação a essa m enina a está cegando. Que aspirações Harriet Sm ith pode ter, sej a por nascim ento, educação ou natureza, para pretender alguém de nível m ais elevado que Robert Martin? Ela é a filha natural de alguém que ninguém conhece, sem m eios para se estabelecer, e certam ente sem relações sociais respeitáveis. É apenas um a pensionista em um a escola com um . Não tem sensibilidade, nem conhecim ento. Não lhe ensinaram nada de útil e é m uito j ovem para ter aprendido algum a coisa por si m esm a.
Ainda não tem experiência de vida, e com sua pouca inteligência, provavelm ente j am ais surgirá alguém que lhe dê valor. Ela é bonita e tem bom gênio, e isso é tudo. Minha única dúvida em aconselhar o casam ento foi em relação a Robert, pois achei que ela podia estar abaixo do que ele m erece e a relação lhe seria desfavorável. Sei que, em term os de fortuna, ele provavelm ente vai chegar bem m ais longe, e com o com panheiro sensato e prestativo não se sairia m al. Mas não se pode argum entar tal coisa com um hom em apaixonado; e fui levado a acreditar que ela não teria com o fazer-lhe m al, e que em boas m ãos, com o as dele, poderia até m elhorar e sair-se bem . A vantagem do casam ento, penso, seria toda dela, e não tive a m enor dúvida (nem tenho agora) de que haveria um com entário geral sobre a enorm e sorte de Harriet. Tinha certeza até m esm o da sua satisfação, Em m a. Im ediatam ente passou pela m inha cabeça que você não iria lam entar que sua am iga deixasse Highbury, se fosse para vê-la tão bem casada. Lem bro que cheguei a pensar “até m esm o Em m a, com toda sua predileção por Harriet, vai achar este casam ento m uito bom ”.
– Não posso deixar de pensar que o senhor conhece Em m a bem pouco, para dizer um a coisa dessas. O quê? Achar que um fazendeiro (e com todo seu
bom senso e todo seu m érito Mr. Martin não é nada além disso) possa ser um bom m arido para m inha am iga íntim a! Não lam entar vê-la deixar Highbury para casar-se com um hom em que eu m esm a j am ais aceitaria entre as m inhas relações! Adm ira-m e que o senhor possa ter m e considerado capaz de ter tais pensam entos. Os m eus são bem diferentes, asseguro-lhe. Acho suas opiniões m uito erradas, não é j usto com as aspirações de Harriet. Assim com o eu, outros tam bém consideram m uito as qualidades dela. Mr. Martin pode ser o m ais rico dos dois, m as é inferior a ela em posição, sem a m enor dúvida. A esfera em que ela transita está m uito acim a da dele. Isso seria um a degradação.
– Um a degradação para um a m oça ilegítim a e ignorante, casar-se com um respeitável e inteligente senhor fazendeiro!
– Quanto às circunstâncias do seu nascim ento, apesar de legalm ente ela não ostentar um sobrenom e, isso não se aplica ao senso com um . Ela não deve ser responsabilizada pelos erros dos outros, a ponto de ser m antida abaixo do nível das pessoas com as quais cresceu. Ela é filha de um cavalheiro, sem dúvida... E um cavalheiro de fortuna. Sua pensão é bem alta, nada foi poupado para sua educação e conforto. Não tenho dúvida que ela sej a filha de um cavalheiro, nem se pode negar que estej a associada a filhas de cavalheiros. Ela é superior a Mr.
Robert Martin.
– Sej am quem forem seus pais – disse Mr. Knightley – sej a quem for que tenha se encarregado do sustento dela, não parece que tenha tido a intenção de introduzi-la no que você cham aria de boa sociedade. Recebeu apenas um a educação indiferente, e foi deixada nas m ãos de Mrs. Goddard para que fizesse o que pudesse... Para viver no círculo de Mrs. Goddard e contar com a am izade de Mrs. Goddard. É evidente que seus am igos acharam que isso era bom o bastante para ela, e foi bom o bastante. Ela m esm a não desej ava nada m elhor. Até que você decidiu torná-la sua am iga, Harriet nunca se desgostara com sua posição, nem am bicionava nada além disso. Passou um verão bastante feliz com os Martins, sem considerar-se superior, e se agora ela acha que é deve-o a você.
Você não tem sido am iga de Harriet Sm ith, Em m a. Robert Martin j am ais teria ido tão longe se não sentisse que era correspondido, eu o conheço bem . Tem bastante senso de realidade para dirigir-se a um a m ulher apenas ao acaso de sua própria paixão. E quanto à presunção, ele é o hom em m ais hum ilde que conheço.
Aposto que ele foi encoraj ado.
Para Em m a era m ais conveniente não responder diretam ente a essas afirm ações. Preferiu retom ar sua própria linha de raciocínio.
– O senhor é um dedicado am igo de Mr. Martin, m as, com o eu disse, está sendo inj usto com Harriet. As aspirações de Harriet de casar-se bem não
são tão desprezíveis com o o senhor faz parecer. Ela não é esperta, m as tem m elhor senso do que o senhor pode im aginar, e não m erece que falem de sua inteligência de form a tão desdenhosa. Mesm o que se despreze este ponto, no entanto, e supondo que ela sej a apenas, com o o senhor diz, bonita e de boa índole, devo dizer-lhe que essas qualidades, no grau em que Harriet as possui, não são apenas recom endações triviais para o m undo em geral, pois ela é, de fato, um a bela m oça e deve ser considerada assim por noventa e nove pessoas em cem . E
com o parece que os hom ens são m uito m ais filosóficos a respeito da beleza do que em geral se pensa, ainda que se apaixonem por m entes bem esclarecidas ao invés de rostos bonitos, um a m oça tão bonita com o Harriet pode ter a certeza de ser adm irada e pretendida e de ter o poder de escolher entre m uitos, com o consequência de ser bonita. Sua boa índole tam bém não é um atrativo desprezível, porque inclui no caso dela total docilidade de tem peram ento e m aneiras, um a m odesta opinião de si m esm a e grande disposição para agradar aos outros. Estou m uito enganada se o seu sexo em geral não considerar tal beleza e tal tem peram ento as m ais altas qualidades que um a m ulher pode possuir.
– Dou-lhe m inha palavra, Em m a, que vê-la abusar do raciocínio que possui é quase suficiente para m e levar a pensar assim , tam bém . É m elhor não ter inteligência algum a do que em pregá-la tão m al com o você faz.
– Com toda certeza! – disse ela, brincando. – Eu sei que esse é o sentim ento de todos os senhores. Sei que um a m oça com o Harriet é exatam ente o tipo que todo hom em aprecia... O que encanta seus sentidos e satisfaz seu j ulgam ento. Ah, Harriet pode escolher à vontade. Se o senhor m esm o pretendesse um dia se casar, ela seria a m ulher ideal. E será que ela, com apenas dezessete anos, com eçando a viver, aprendendo a conhecer a vida, deve ser questionada por não aceitar a prim eira oferta de casam ento que recebe? Não...
Por favor, perm ita que ela tenha tem po de conhecer a si m esm a.
– Sem pre j ulguei essa am izade de vocês um a bobagem – disse então Mr. Knightley – apesar de guardar essa opinião para m im m esm o, m as agora percebo que trará m uito m ais infelicidade para Harriet. Você vai torná-la tão vaidosa da própria beleza, e fazê-la crer que m erece algum a coisa em troca disso, que em pouco tem po ninguém das suas relações será bom o suficiente para ela. A vaidade em um a m ente fraca produz todo tipo de danos. Nada é m ais fácil para um a dam a do que colocar suas expectativas alto dem ais. Miss Harriet Sm ith pode não receber tantas propostas de casam ento assim , em bora sej a um a m oça bonita. Hom ens de bom senso, não im porta o que você diga, não querem esposas tolas. Hom ens de fam ília não estariam m uito interessados em relacionar-se com um a m oça de origem obscura... E os hom ens m ais prudentes teriam m edo do inconveniente e da desgraça a que poderiam estar expostos, quando se revelasse o m istério do seu nascim ento. Deixe-a casar-se com Robert Martin e ela estará
segura, será respeitável e feliz para sem pre. Mas se a encoraj ar a esperar um casam ento grandioso e ensiná-la a ficar satisfeita apenas com um hom em de grande proj eção e fortuna, ela pode acabar com o pensionista de Mrs. Goddard pelo resto da vida... Ou, pelo m enos até que (pois Harriet é o tipo de m oça que acabará se casando com um ou outro) fique desesperada e acabe aceitando casar-se com o filho do professor de caligrafia.
– Tem os opiniões tão diferentes sobre o assunto, Mr. Knightley, que não há sentido em discutirm os. Só aum entarem os nossa raiva um do outro. Mas quanto a m inha permissão para que ela se case com Robert Martin, isso é im possível, ela o recusou de m aneira tão firm e que acho m elhor im pedir um a segunda tentativa. Ela deve conform ar-se com as consequências da recusa, sej am quais forem . Quanto à recusa em si, não pretendo negar que talvez a tenha influenciado um pouquinho, m as lhe asseguro que eu ou qualquer outra pessoa teria m uito pouco a fazer. A aparência dele é tão desfavorável, e suas m aneiras tão rudes, que m esm o que ela tenha um dia pensado em aceitá-lo, agora j á não pensa. Im agino que antes de ver alguém superior Harriet talvez o tivesse tolerado, era o irm ão das suas am igas e fez o possível para agradá-la. E com o ela não encontrou ninguém m elhor em Abbey -Mill (o que deve ter sido de grande aj uda para ele), não o achou desagradável enquanto esteve lá. Mas agora a situação é diferente, ela sabe o que é um cavalheiro, e ninguém m enos que um verdadeiro cavalheiro, tanto na educação quanto nas m aneiras, tem algum a chance com Harriet.
– Que tolice, isso é a coisa m ais tola que alguém j á disse! – exclam ou Mr. Knightley. – O com portam ento de Mr. Robert Martin é sensato, sincero e bem -hum orado, qualidades que m uito o recom endam ; e seu caráter possui m ais gentileza do que Harriet Sm ith é capaz de com preender.
Em m a não respondeu e tentou aparentar alegre despreocupação, m as no fundo se sentia desconfortável, desej ando que ele fosse logo em bora. Ela não se arrependia do que fizera, ainda se achava m elhor j uiz dos direitos de um a m ulher e do seu refinam ento do que ele. Mas ainda tinha o hábito de respeitar os j ulgam entos de Mr. Knightley, de form a geral, e a desgostava que ele se opusesse a ela de form a tão veem ente; era m uito desagradável vê-lo sentado em frente a ela em tal estado de raiva. Passaram -se alguns m inutos nesse silêncio desconfortável. Em m a fez um a tentativa de falar sobre o tem po, m as não obteve resposta. Ele estava pensando, e o resultado foram estas palavras:
– Robert Martin não perdeu grande coisa... Ele ainda não sabe disso, m as acredito que logo irá perceber. Suas ideias para o futuro de Harriet só você sabe; m as conhecendo seu gosto por fazer casam entos, é fácil im aginar que tenha planos, ideias e proj etos... E com o seu am igo, digo apenas que, se é Mr.
Elton que você tem em m ente, todo o trabalho será em vão.
Em m a sorriu e negou, m as ele continuou:
– Pode acreditar, Elton não vai fazê-lo. Ele é um hom em excelente, e o respeitável vigário de Highbury, m as de m odo algum fará um casam ento im prudente. Conhece bem o valor de um a boa renda, com o todo m undo. Elton pode ser sentim ental nas palavras, m as suas ações são racionais, ele cuida tão bem dos próprios interesses quanto você dos de Harriet. Sabe que é um hom em bonito e bem recebido onde quer que vá, e pelo seu m odo aberto de falar, quando está apenas entre cavalheiros, estou convencido de que ele não pretende desperdiçar sua vida. Eu o ouvi falar com grande anim ação sobre um a num erosa fam ília de j ovens dam as, am igas de suas irm ãs, que possuem vinte m il libras de renda cada um a.
– Estou m uito grata ao senhor – disse Em m a, rindo de novo. – Se eu tivesse pensado num casam ento entre Harriet e Mr. Elton, seria m uita bondade sua abrir m eus olhos, m as no m om ento só desej o m antê-la j unto a m im . Desisti de fazer casam entos, na verdade. Jam ais faria um igual ao de Mrs. Weston, vou desistir enquanto é tem po.
– Passe m uito bem , então! – disse o cavalheiro, levantando-se e saindo de m odo abrupto.
Sentia-se profundam ente irritado. Im aginava o desapontam ento do j ovem fazendeiro, e estava m ortificado por ter contribuído para isso ao encoraj á-lo. E o com portam ento de Em m a em todo o caso o incom odava m ais do que tudo.
Em m a tam bém ficou num estado de grande agitação, m as as causas disso não estavam tão claras para ela quanto para ele. Em m a nem sem pre estava absolutam ente satisfeita consigo m esm a, nem tinha tanta certeza assim de que suas opiniões eram corretas e as do adversário erradas quanto Mr. Knightley. Ele saíra com a certeza de estar com a razão, o que não ocorria com ela. Sentia-se um pouco abatida, no entanto, m as nada que o retorno de Harriet e um pouco de tem po não pudessem restaurar. Estava ficando apreensiva com a dem ora da m oça. A possibilidade de o j ovem fazendeiro ter ido à casa de Mrs. Goddard, encontrar-se pessoalm ente com Harriet e defender sua causa, deixava Em m a alarm ada. A ideia de tal fracasso, depois de tudo, transform ou-se em aflição; e quando Harriet apareceu, m uito bem disposta, e sem invocar nenhum a razão desse tipo para a dem ora, sentiu um a satisfação que a reconciliou consigo m esm a. Convenceu-se que, não im porta o que Mr. Knightley pensasse ou dissesse, não havia feito nada que os sentim entos ou a am izade de um a m ulher não pudessem j ustificar.
Mr. Knightley a deixara um pouco tem erosa a respeito de Mr. Elton.
Considerou então que ele não o havia observado tão bem quanto ela, nem com o interesse, nem (e ela devia adm iti-lo a si m esm a, apesar das pretensões de Mr.
Knightley ) com a habilidade que ela tinha para observar essas questões.
Acreditava que, em bora ele falasse com aspereza e ressentim ento, dizendo o que pensava ser verdade, não sabia de fato nada sobre o assunto. Com certeza ouvira Mr. Elton falar com m ais liberdade do que ela j am ais tinha ouvido, e Mr. Elton podia não ser irresponsável ou im prudente em questões de dinheiro; era natural que fosse m ais atento do que descuidado nessas questões. Mr. Knightley, todavia, não estava considerando a influência que um a grande paixão pode ter na guerra contra os m otivos de interesse. Mr. Knightley não conhecia tal paixão, e é claro que não sabia nada de seus efeitos; m as ela vira o suficiente disso para não duvidar da capacidade desse sentim ento de superar quaisquer hesitações que um a razoável prudência pudesse sugerir; e ela estava certa que a prudência de Mr. Elton não ia além do razoável.
Os m odos e a aparência alegre de Harriet m elhoraram sua disposição: ela viera para falar de Mr. Elton e não para pensar em Mr. Martin. Miss Nash havia lhe contado um a coisa, que Harriet logo repetiu com grande prazer. Mr.
Perry fora à casa de Mrs. Goddard para atender um a criança doente e contara a Miss Nash que, quando voltava de Clay ton Park no dia anterior, encontrara Mr.