Emma

Jane Austen · Capítulo 7 de 113

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Emma

Capítulo VI

Hartfield. Não recom endaria que Em m a se casasse agora, em bora não desconsidere esta possibilidade, posso lhe assegurar.

Mrs. Weston desej ava, em parte, ocultar algum a ideias que ela e o m arido acalentavam em relação ao assunto, tanto quanto possível. Em Randalls havia intenções quanto ao destino de Em m a, m as eles não desej avam que alguém suspeitasse. E a m udança de assunto que se seguiu, com Mr. Knightley perguntando “o que Weston acha do tem po, será que vai chover?”, convenceu-a de que ele não tinha nada m ais a dizer ou conj eturar sobre Hartfield.

CAPÍTULO VI

Em m a estava certa de ter encam inhado a fantasia de Harriet na direção apropriada, e despertado sua j ovem vaidade para um propósito m ais elevado, pois a achou m ais interessada do que antes no fato de que Mr. Elton era um hom em notavelm ente bonito, com as m ais agradáveis m aneiras. Não hesitou em assegurar a continuidade da adm iração de Mr. Elton com delicadas insinuações, e logo estava certa de ter criado o m esm o interesse por parte de Harriet, a cada ocasião que se apresentava. Tinha certeza que Mr. Elton estava a cam inho de se apaixonar, se j á não estava apaixonado. Não tinha escrúpulos em relação a ele, que falava de Harriet e a elogiava de m odo tão caloroso, que Em m a achou que não faltava nada que um pouco m ais de tem po não pudesse proporcionar. A percepção dele da m elhora dos m odos de Harriet, desde que com eçara a frequentar Hartfield, foi apenas um a das m ais agradáveis provas de seu crescente envolvim ento.

– A senhorita deu a Miss Sm ith tudo de que ela precisava – disse ele –

tornou-a graciosa e dócil. Ela era um a bela m oça quando a conheceu, m as, em m inha opinião, os atrativos que a senhorita lhe conferiu são m uito superiores aos que ela recebeu da natureza.

– Fico feliz que pense que fui útil a ela, m as Harriet necessitava apenas de estím ulo e de alguns pequenos encoraj am entos. Ela j á possuía toda a graça natural de um tem peram ento m eigo e sincero. Eu fiz m uito pouco.

– Se for aceitável contradizer um a dam a... – disse o galante Mr. Elton.

– Talvez eu tenha lhe dado um pouco m ais de firm eza de caráter, ensinando-a a considerar coisas que antes não percebia.

– Exatam ente, isso é o que m e espanta. Muito m ais firm eza de caráter!

Habilidosa a m ão que o fez!

– Tive m uito prazer em fazê-lo, asseguro-lhe. Nunca conheci alguém com disposição m ais am ável.

– Não tenho dúvida disso.

Disse isso com um a espécie de anim ação suspirosa, que tinha m uito de um enam orado. E, num outro dia, Em m a não ficou m enos feliz de vê-lo apoiar o súbito desej o dela de ter um retrato de Harriet.

– Nunca foi feito um retrato seu, Harriet? – disse ela. – Nunca posou para um quadro?

Harriet estava a ponto de sair da sala, e parou apenas para dizer, com encantadora ingenuidade:

– Oh, não! Nunca.

Logo que ela saiu, Em m a exclam ou:

– Que requintado prazer seria ter um a bela pintura de Harriet. Daria qualquer dinheiro por isso. Quase tenho vontade de pintar este retrato eu m esm a.

O senhor não sabe, m as dois ou três anos atrás eu tinha enorm e prazer em fazer retratos e pintei vários dos m eus am igos. Diziam que eu tinha algum talento, de form a geral. Mas, por um a coisa ou outra, acabei deixando de gostar disso.

Pensando bem , até posso até m e aventurar, se Harriet se dispuser a posar para m im . Seria tão agradável ter o retrato dela!

– Insisto em que o faça – exclam ou Mr. Elton – isso seria m uito agradável, de verdade! Perm ita que eu insista, Miss Woodhouse, em que use seu encantador talento para retratar sua am iga. Conheço suas pinturas. Com o poderia im aginar que eu não as conhecesse? Esta sala não está cheia de suas paisagens e flores? E não há algum as inim itáveis gravuras na sala de estar de Mrs. Weston, em Randalls?

“Sim , santo hom em !” pensou Em m a, “m as o que isso tudo tem a ver com fazer retratos? O senhor não entende nada de desenho. Não finj a ficar arrebatado por conta das m inhas pinturas. Guarde seus arroubos para o retrato de Harriet”.

– Bem , Mr. Elton, com tal encoraj am ento da sua parte, acho que vou tentar ver o que posso fazer. Harriet tem feições tão delicadas que é difícil retratá-las. Além disso, há certas peculiaridades no form ato dos olhos e nas linhas ao redor da boca que são difíceis de captar.

– Exato... O form ato dos olhos e as linhas ao redor da boca... Não tenho dúvida do seu sucesso. Por favor, tente fazê-lo. Se conseguir, tenho certeza que será, nas suas próprias palavras, um requintado prazer.

– Tem o, Mr. Elton, que Harriet não gostará de posar. Ela não dá valor à própria beleza. Não notou a m aneira com o m e respondeu? Com o se dissesse

“para que fazer m eu retrato”?

– Oh, sim ! Claro que notei. Mas m e recuso a crer que ela não possa ser persuadida.

Harriet voltou pouco tem po depois, e a proposta foi feita quase em seguida; ela, porém , não tinha escusas suficientes para suportar por m uito tem po a firm e pressão dos dois am igos. Em m a desej ava com eçar im ediatam ente, e

pegou um álbum contendo vários esboços, nenhum deles term inado, para que pudessem decidir j untos qual seria o m elhor tam anho para o retrato de Harriet.

Seus m ateriais de trabalho foram dispostos: m iniaturas, m eio-corpo, corpo inteiro, lápis, cray on e aquarela, todos foram exam inados, um a um . Em m a sem pre quis fazer de tudo, e fizera m ais progressos, tanto em m úsica com o em pintura, do que m uitos teriam conseguido com tão pouco em penho. Ela tocava e cantava; e desenhava tam bém , em quase qualquer estilo. Mas sem pre lhe faltara perseverança, nunca atingira em nenhum a dessas atividades o grau de perfeição que gostaria de possuir, e onde não devia ter falhado. Não estava m uito decepcionada com as próprias habilidades, sej a com o pintora ou m usicista, m as não gostava de decepcionar os outros, nem lam entar-se por ver que haviam considerado suas habilidades m aiores do que ela de fato m erecia.

Havia m érito nos desenhos de Em m a, nos poucos que term inara, talvez na m aioria. Tinha um estilo vivaz, m as m esm o que fossem bem piores, ou dez vezes m elhores, a adm iração de seus dois am igos seria a m esm a. Estavam am bos em êxtase. Um retrato encanta todo m undo, e o desem penho de Miss Woodhouse devia ser im pecável.

– Não há m uita variedade de m odelos – disse Em m a – tive apenas m inha própria fam ília para treinar. Aqui está m eu pai... Outro de m eu pai... Mas a ideia de posar para um retrato seu deixou-o tão nervoso que pude apenas retratá-lo em segredo, quando não estava vendo; nenhum deles está m uito parecido, no entanto. Aqui está Mrs. Weston, de novo, e de novo. Querida Mrs. Weston, sem pre m inha m elhor am iga, em qualquer situação. Ela posava sem pre que eu lhe pedia. Aqui está m inha irm ã; e bastante fiel à sua pequena e elegante figura... Mas o rosto não está m uito parecido. Eu teria feito um bom retrato dela, se tivesse posado m ais tem po, m as ela tinha tanta pressa que eu pintasse seus quatro filhos que não parava quieta. Aqui estão os esboços de três das quatro crianças... Aqui estão, Henry, John e Bella, de um lado a outro da folha, faziam todos sem pre a m esm a coisa. Isabella estava tão ansiosa para que eu os desenhasse que não pude recusar; m as não dá para esperar que crianças de três ou quatro anos fiquem quietas, você sabe... Nem é m uito fácil conseguir algum a sem elhança, além do aspecto geral, a m enos que tenham feições grosseiras, o que os filhos de nenhum a m ãe nunca tem . Aqui tem os o quarto filho, que é o bebê. Fiz o esboço quando ele dorm ia no sofá e seu topete está tão parecido quanto se desej aria, pois aninhou a cabeça de form a m uito conveniente. Parece bastante com ele, tenho m uito orgulho do pequeno George, o canto do sofá tam bém ficou m uito bom . Aqui tem os o últim o – Em m a m ostrou um pequeno esboço, m uito bonito, de um cavalheiro de corpo inteiro. – O últim o e o m elhor...

Meu cunhado, Mr. John Knightley. Este não consegui term inar, então o pus de lado num acesso de m au hum or, e decidi nunca m ais fazer um retrato. Mas eu

fui provocada, depois de todo m eu esforço, e quando consegui fazer um retrato m uito parecido com ele (Mrs. Weston e eu concordam os que estava muito parecido), apenas um pouco bonito dem ais, lisonj eiro dem ais, com um a pequena falha no lado direito, depois de tudo isso recebi a fria aprovação da querida Isabella que disse “é, está um pouco parecido... m as com certeza não lhe faz j ustiça”. Tivem os o m aior trabalho para convencê-lo a posar, e agia com o se estivesse fazendo um favor. Bem , depois disso não pude suportar m ais. E tam bém j am ais vou term iná-lo, para que não tenham que se desculpar com cada visitante m atinal que aparecer em Brunswick Square, pela falta de parecença do retrato. E com o eu disse, resolvi nunca m ais pintar ninguém . Mas pela querida Harriet, e até por m im m esm a, j á que não há nenhum m arido ou esposa envolvidos no caso, pelo m enos no momento, vou quebrar m inha prom essa.

Mr. Elton parecia m uito im pressionado e deliciado com a ideia, e repetiu:

– Nem m aridos nem esposas envolvidos no caso no m om ento, de fato.

Exatam ente isso. Nem m aridos nem esposas.

Disse isso com tal consciência que Em m a pensou se não seria m elhor deixá-los a sós de um a vez. Mas com o ela desej ava desenhar, a declaração devia esperar um pouco m ais.

Ela logo determ inou o tam anho e o estilo do retrato. Seria um corpo inteiro em aquarela, com o o de Mr. John Knightley, e estava destinado a ocupar um lugar de destaque sobre a lareira, j á que podia fazê-lo do seu agrado.

A sessão com eçou. Harriet, sorrindo e corando, e tem erosa de não conseguir m anter a pose e a expressão, m ostrava um doce ar de j uventude aos atentos olhos da artista. Mas não dava para fazer nada com Mr. Elton inquieto atrás dela, observando cada traço. Deu-lhe crédito por ficar sentado olhando extasiado, sem parar, m as era obrigada a por um fim nisso e pedir que fosse sentar-se em outro lugar. Teve a ideia de pedir que ele lesse algum a coisa.

Se ele se dispusesse a ler para elas, seria m uita bondade! Aj udaria a tornar m ais fácil sua tarefa e dim inuiria o aborrecim ento de Miss Sm ith.

Mr. Elton ficou feliz de ler. Harriet ouvia e Em m a foi deixada em paz.

Devia perm itir-lhe que viesse olhar com frequência, m enos que isso não seria aceitável num hom em apaixonado. Ele estava pronto, a cada vez que Em m a suspendia o lápis, a correr para olhar o progresso do desenho e ficar encantado.

Não tinha com o zangar-se com alguém tão encoraj ador, pois a adm iração dele o fazia ver parecenças no desenho quando isso ainda nem era possível. Ela não acreditava nos seus olhos, m as seu am or e com placência eram excepcionais.

A sessão fora satisfatória, de m aneira geral. Em m a ficara satisfeita com os esboços deste prim eiro dia e anim ou-se a prosseguir. Achou que estava bem sem elhante, fora feliz na escolha da pose, e apesar de ter feito pequenas m elhorias na figura para que parecesse um pouco m ais alta, e bem m ais elegante, estava bastante segura de que faria um quadro m uito bonito no final, o que daria crédito às duas; um perene m em orial à beleza de um a, à habilidade da outra e à am izade de am bas; sem falar em outras agradáveis associações que a afeição de Mr. Elton prom etia adicionar.

Harriet viria posar de novo no dia seguinte, e Mr. Elton pediu perm issão para assistir e ler outra vez para elas.

– Claro que sim . Ficarem os m uito felizes em considerá-lo com o parte do grupo.

As m esm as civilidades e cortesias, o m esm o sucesso e satisfação tiveram lugar no dia seguinte, e acom panharam todo o progresso da pintura, que foi rápido e feliz. Todo m undo que viu o quadro gostou, m as Mr. Elton estava em constante arrebatam ento, e a defendia de qualquer crítica.

– Miss Woodhouse deu à am iga a única beleza que lhe falta – observou Mrs. Weston, sem im aginar que se dirigia a um apaixonado. – A expressão dos olhos está correta, m as Miss Sm ith não tem aquelas sobrancelhas nem aqueles cílios. É só o que lhe falta no rosto.

– A senhora acha? – replicou ele. – Não posso concordar. Parece-m e que guarda a m ais perfeita sem elhança, em todos os traços. Jam ais vi um retrato tão fiel em m inha vida. Devem os considerar o efeito das som bras, a senhora sabe.

– Você a fez alta dem ais, Em m a – disse Mr. Knightley.

Em m a sabia que havia feito isso, m as não adm itiria. Mr. Elton acrescentou, de form a incisiva:

– Ah, não! Não está alta dem ais, de m odo nenhum . Repare que ela está sentada... o que em si j á faz diferença... Acho que dá a ideia exata... As proporções devem ser m antidas, o senhor sabe. Proporções, perspectivas... não, acho que dá a ideia exata da altura de Miss Sm ith. Exatam ente isso, de fato!

– É m uito bonita – disse Mr. Woodhouse. – Tão bem feita! Com o as suas pinturas sem pre são, m inha querida. Não conheço ninguém que pinte tão bem com o você. A única coisa que não gostei foi que ela parece estar sentada ao ar livre, apenas com um pequeno xale sobre os om bros... Faz a gente tem er que apanhe um resfriado.

– Mas, papai, trata-se de um dia de verão, um dia quente de verão.

Vej a a árvore.

– Mas nunca é seguro sentar-se ao ar livre, m inha querida.

– O senhor pode pensar assim – exclam ou Mr. Elton – m as devo confessar que achei um a escolha feliz da parte de Em m a tê-la colocado ao ar livre. E a árvore dá um a im pressão de vida inim itável. Qualquer outra pose não teria feito j ustiça ao caráter de Miss Sm ith, assim se pode apreciar a ingenuidade dos seus m odos... E todo o resto... É adm irável! Não posso tirar os olhos do quadro, nunca vi tal sem elhança.

O próxim o passo seria em oldurar o quadro, e aqui surgiram algum as dificuldades. A escolha da m oldura devia ser feita em Londres, diretam ente no local, pelas m ãos de algum a pessoa inteligente em cuj o gosto se pudesse confiar.

E Isabella, a encarregada natural de todas as encom endas, não poderia fazê-lo, pois era dezem bro, e Mr. Woodhouse j am ais perm itiria que ela saísse de casa com o nevoeiro desta época do ano. Tão logo Mr. Elton tom ou conhecim ento do problem a tratou de resolvê-lo. Sua galanteria estava sem pre alerta.

“Podiam confiar a m issão a ele, que im enso prazer teria em executá-la! Podia ir a Londres a qualquer m om ento. Não tinha palavras para dizer o quanto se sentiria grato por ser encarregado de tal tarefa”.

“Ele era tão gentil! Em m a não podia nem pensar nisso!... j am ais iria lhe dar tanto trabalho, de j eito nenhum ”. Repetiram -se os rogos e certezas, e em poucos m inutos o assunto estava acertado.

Mr. Elton levaria o quadro a Londres, escolheria a m oldura, e daria as instruções. Em m a pensou que ele podia em pacotar o quadro para garantir-lhe a segurança, se não fosse m uito incôm odo, enquanto ele parecia tem eroso de não ter sido incom odado o suficiente.

– Que encargo precioso! – disse ele com um terno suspiro, ao receber a pintura.

“Este hom em é quase galante dem ais para estar apaixonado” pensava Em m a. “É o que eu diria, m as suponho que existam centenas de m aneiras diferentes de am ar. É um j ovem excelente e será perfeito para Harriet. Vai ser

‘exatam ente isso’ com o ele m esm o diz; m as ele suspira, lânguido e se desvanece em cum prim entos, m ais do que posso suportar com o m entora, j á tive que partilhar bastante disso. Mas é seu afeto por Harriet que conta”.

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