Emma
Capítulo II
Um a coisa foi im ediatam ente acertada graças a essa m udança: o baile na Crown. Não que houvesse sido esquecido, m as ficara decidido que não adiantava determ inar um a data. Agora, no entanto, aconteceria de qualquer m aneira. Os preparativos foram retom ados. Tão logo os Churchills partiram para Richm ond, algum as linhas de Frank dizendo que a tia j á se sentia m uito m elhor com a m udança, e que ele não duvidava que a qualquer m om ento pudesse j untar-se a eles por vinte e quatro horas, levou-os a m arcar a data m ais próxim a possível.
O baile de Mr. Weston seria um acontecim ento. Uns poucos dias se interpunham entre os j ovens de Highbury e a felicidade.
Mr. Woodhouse se conform ou. A época do ano dim inuíra seus tem ores.
Maio era m uito m elhor para qualquer coisa do que fevereiro. Mrs. Bates foi convidada a passar a noite em Hartfield, Jam es j á fora avisado, e ele esperava de coração que não acontecesse nada nem com o pequeno Henry nem com o pequeno John, enquanto Em m a estivesse ausente.
CAPÍTULO II
Nenhum infortúnio aconteceu dessa vez para im pedir o baile. O dia se aproxim ou e finalm ente chegou. E depois de um a m anhã de ansiosa espera, Frank Churchill, com toda a confiança que tinha em si m esm o, chegou a Randalls antes do j antar, e tudo ficou em ordem .
Não houvera ainda um segundo encontro entre ele e Em m a. O salão do Crown deveria ser o palco desse evento – m as seria m elhor que um encontro com um no m eio da m ultidão. Mr. Weston pedira com m uita insistência que ela chegasse tão cedo quanto possível, logo depois deles, para poder dar sua opinião sobre o conforto e a adequação das salas antes da chegada dos dem ais convidados. Em m a não pôde recusar e pretendia passar algum tem po na com panhia do j ovem cavalheiro. Foi buscar Harriet, e am bas chegaram ao Crown na hora com binada, logo depois da fam ília de Randalls.
Frank Churchill parecia estar à espera, e em bora não dissesse m uita coisa, seus olhos m ostravam que esperava ter um a noite m aravilhosa.
Percorreram as salas todos j untos, para ver se tudo estava com o devia. Dentro de alguns m inutos se j untaram a eles os ocupantes de outra carruagem . Em m a ficou surpresa, pois não ouvira o barulho. Estava a ponto de exclam ar “Vieram tão cedo!” quando se deu conta de que era um a fam ília de velhos am igos que viera m ais cedo atendendo ao pedido especial de Mr. Weston para opinar. E à carruagem deles seguiu-se outra, de prim os, que tam bém fora convidada a vir m ais cedo distinguida com a m esm a tarefa. Parecia que m etade dos convidados estava chegando antes com o propósito de fazer um a inspeção preparatória.
Em m a percebeu que o seu gosto não era o único com o qual Mr.
Weston contava, e sentiu que ser a favorita e am iga intim a de um hom em que tinha tantos favoritos e am igos íntim os não era a m aior distinção na escala das vaidades. Gostava de suas m aneiras francas, m as um pouco m enos de franqueza teria tornado seu caráter m elhor. Benevolência geral, m as não am izade geral, era o que fazia de um hom em o que ele devia ser. Ela podia im aginar esse tipo de hom em . O grupo inteiro cam inhou pelos salões, olhando e elogiando de novo. E
então, com o não tinham m ais o que fazer, form aram um sem icírculo em volta da lareira, fazendo observações sobre diversos assuntos. Mesm o sendo maio, um a lareira à noite ainda era m uito agradável.
Em m a descobriu que não era por culpa de Mr. Weston que o grupo de conselheiros privados não era ainda m aior. Pararam à porta de Mrs. Bates para oferecer a carruagem , m as a tia e a sobrinha deviam vir com os Eltons.
Frank estava de pé j unto dela, m as não parava quieto. Havia um a
agitação nele que revelava um a m ente inquieta. Olhava para os lados, ia até a porta, parava para ouvir o barulho de algum a carruagem , im paciente para que com eçasse o baile ou tem eroso de ficar m uito próxim o dela.
Falaram de Mrs. Elton.
– Acho que ela chegará logo – ele disse. – Tenho grande curiosidade de conhecê-la, ouvi tantas coisas a respeito dela. Não deve dem orar a chegar, eu acho.
Ouviu-se um a carruagem . Ele se m oveu im ediatam ente, m as logo voltou dizendo:
– Me esqueci que não a conheço. Nunca vi nem ela nem Mr. Elton. Não tenho m otivos para ser o prim eiro a cum prim entá-los.
Mr. e Mrs. Elton apareceram nesse m om ento, e seguiram -se todos os sorrisos e cum prim entos de praxe.
– Mas não vej o Miss Bates e Miss Fairfax – disse Mr. Weston. – Achei que iriam trazê-las.
O engano não fora grave. A carruagem foi enviada então para buscá-las. Em m a desej ava saber qual seria a opinião de Frank sobre Mrs. Elton, o quanto ele seria afetado pela estudada elegância de seu vestido e seus sorrisos graciosos. Ele estava j ustam ente form ando um a opinião, dando-lhe a necessária atenção logo após terem sido apresentados.
Poucos m inutos depois a carruagem voltou. Alguém falou em chuva.
– Vou ver se encontro algum guarda-chuva, senhor – disse ele ao pai. –
Não devem os esquecer de Miss Bates.
O rapaz saiu e Mr. Weston se preparava para segui-lo quando foi detido por Mrs. Elton, que pretendia gratificá-lo com sua opinião sobre o filho. E
com eçou a falar tão depressa que o j ovem cavalheiro, apesar de não andar devagar, não pôde deixar de ouvir o que ela dizia ao pai.
– Um rapaz m uito elegante, de fato, Mr. Weston. O senhor se lem bra que eu lhe disse que possuo m inha própria opinião. E devo dizer que ele m e agradou extrem am ente. Pode acreditar, eu nunca elogio ninguém sem m otivo. É
um j ovem m uito bonito, e seus m odos são exatam ente do tipo que eu gosto e aprovo. Um verdadeiro cavalheiro, sem a m enor arrogância ou afetação. O
senhor sabe que eu detesto gente afetada, tenho horror deles. Nunca foram tolerados em Maple Grove. Nem eu nem Mr. Suckling tem os paciência com eles, e costum am os dizer coisas m uito duras! Selina, que é m eiga até não poder m ais,
lida com eles m uito m elhor.
Enquanto ela falava de seu filho a atenção de Mr. Weston estava garantida, m as quando com eçou com Maple Grove ele se lem brou que havia senhoras chegando a quem devia receber, e com m uitos sorrisos tratou de afastar-se correndo.
Mrs. Elton então se voltou para Mrs. Weston.
– Não tenho dúvida que é a nossa carruagem que chegou trazendo Miss Bates e Jane. Nosso cocheiro e cavalos são tão rápidos! Acho que som os m ais rápidos que qualquer outro. Que prazer m andar a carruagem para um a am iga!
Soube que a senhora foi gentil o bastante para oferecer, m as agora não será m ais necessário. Pode ficar certa de que sem pre tom arei conta delas.
Miss Bates e Miss Fairfax entraram na sala, escoltadas pelos dois cavalheiros. E Mrs. Elton parecia pensar que era sua obrigação recebê-las, tanto quanto de Mrs. Weston. Seus gestos e m ovim entos podiam ser com preendidos por qualquer pessoa que observasse, com o Em m a. Mas suas palavras, assim com o as dos outros, logo foram abafadas pelo fluxo incessante das palavras de Miss Bates, que chegou falando e ainda não tinha term inado seu discurso quando se j untou ao círculo j unto à lareira. Logo que a porta se abriu j á podiam ouvi-la:
– Tão am ável da sua parte!... Não, não está chovendo, absolutam ente.
Pelo m enos não um a chuva forte. Não m e preocupo por m im m esm a. Meus sapatos são bem grossos. E Jane diz... Bem !... (e logo que entrou pela porta) Bem ! Está de fato brilhante!... Realm ente adm irável!... Foi m uito bem planej ado, dou m inha palavra. Não falta nada. Nem poderia im aginar isso... Tão bem ilum inado!... Jane, Jane, olhe isso! Você j á viu algum a coisa parecida? Ah! Mr.
Weston o senhor deve realm ente ter a lâm pada de Aladim . A boa Mrs. Stokes nem conseguiria reconhecer sua própria sala. Eu a vi quando cheguei, estava parada à entrada. Então eu disse “Oh! Mrs. Stokes!”, m as não tive tem po de dizer m ais nada. – Nesse m om ento Mrs. Weston aproxim ou-se para recebê-la. – Muito bem , obrigada, m adam e. Espero que a senhora estej a passando bem . Fico m uito feliz em ouvir isso... Tive tanto m edo que a senhora arranj asse um a dor de cabeça! Eu a via passar m uitas vezes, sabendo quantos problem as devia estar tendo. Fico feliz em ouvir isso, de fato. Ah! Cara Mrs. Elton. Agradeço-lhe tanto pela carruagem ! Chegou bem a tem po, Jane e eu estávam os prontas. Os cavalos não esperaram nem um m om ento. A carruagem é m uito confortável. Oh! Tenho certeza que devo agradecer à senhora, Mrs. Weston, neste aspecto. Mrs. Elton foi gentil de enviar um bilhete para Jane, ou nós teríam os ficado... Mas duas ofertas no m esm o dia!... Nunca houve vizinhos m elhores. Eu disse à m inha m ãe “Dou-lhe m inha palavra, m adam e..”. Muito obrigada, m inha m ãe está m uito bem , foi à
casa de Mr. Woodhouse. Eu a fiz levar o xale, pois as noites não são quentes ainda... o xale novo, grande, que foi presente de casam ento de Mrs. Dixon....
Tanta bondade da parte dela pensar em m inha m ãe! Foi trazido de Wey m outh, a senhora sabe, foi escolha da própria Mrs. Dixon. Jane disse que havia outros três, e Mrs. Dixon hesitou durante algum tem po. O coronel Cam pbell preferia o xale cor de oliva. Minha querida Jane, tem certeza que não m olhou os pés? Não foi m ais que um a gota ou duas, m as tenho tanto m edo... Mr. Frank Churchill, contudo, foi extrem am ente... e havia um tapete sobre o qual cam inhar. Nunca vou esquecer sua extrem a educação. Oh! Mr. Frank Churchill, quero dizer-lhe que os óculos de m inha m ãe nunca m ais se estragaram , o parafuso nunca m ais caiu.
Minha m ãe seguidam ente fala de sua bondade, não é verdade Jane?... Não falam os sem pre de Mr. Frank Churchill?... Ah! Aqui está Miss Woodhouse...
Querida Miss Woodhouse, com o vai a senhorita?... Muito bem , obrigada, m uito bem . Isso é um encontro no reino das fadas!... Que transform ação!... Não devo cum prim entá-la, eu sei (olhando Em m a de m odo com placente), seria m uito rude... m as, dou-lhe m inha palavra, Miss Woodhouse, a senhorita parece... O que acha do cabelo de Jane? A senhorita vai ser a j uíza... ela fez tudo sozinha. É
espantoso com o ela consegue arrum ar seu próprio cabelo!... Acho que nem um a cabeleireira de Londres seria capaz de fazer um penteado igual. Ah! Se não é o Dr. Hughes... e Mrs. Hughes. Devo falar um instante com o doutor e Mrs.
Hughes... Com o vai? Com o vai?... Muito bem , obrigada. Isso é m aravilhoso, não acha?... Onde está o querido Mr. Richard? Ah! Lá está ele. Não o perturbe, está m uito ocupado falando com as dam as. Com o vai, Mr. Richard?... Eu o vi outro dia, cavalgando pela cidade... Ora, se não é Mrs. Otway !... e o bom Mr. Otway, e Miss Otway e Miss Caroline... Quantos am igos reunidos!... E Mr. George e Mr.
Arthur! Com o vão? Com o estão todos?... Muito bem , lhe agradeço m uito. Nunca estive m elhor... Não ouviram outra carruagem ?... Quem poderia ser?... É
provável que sej am os queridos Coles... Dou m inha palavra, é absolutam ente encantador estar entre tais am igos! E que fogo m aravilhoso! Estou quase assando. Café para m im não, m uito obrigada. Nunca tom o café... Um pouco de chá, se não for incôm odo. Mas não se apresse... Ah, aqui está. Tudo tão bem organizado!
Frank Churchill retornou ao seu lugar j unto de Em m a. E assim que Miss Bates parou de falar Em m a pôde ouvir a conversa de Mrs. Elton e Miss Fairfax, que estavam paradas um pouco atrás dela. Ele estava pensativo. Se ele ouvia ou não a conversa, ela não saberia dizer. Após m uitos cum prim entos a Jane pelo seu vestido e pelo cabelo, recebidos com bastante calm a e propriedade, Mrs. Elton estava obviam ente esperando ser tam bém elogiada, então com eçou com “O que achou do m eu vestido?... O que achou dos enfeites?... Com o ficou o cabelo que Wright fez?”, e várias outras questões no m esm o estilo, todas respondidas com paciente educação. Mrs. Elton disse então:
– Ninguém liga m enos para vestidos em geral do que eu... m as em um a ocasião com o esta, em que todos os olhos estarão voltados para m im , não queria parecer inferior aos outros. E tam bém com o cum prim ento aos Westons, pois não tenho dúvida que estão dando este baile principalm ente em m inha honra. Vej o tão poucas pérolas no salão, além das m inhas. Então Frank Churchill é um excelente dançarino, pelo que ouvi. Vam os ver se nossos estilos com binam . Ele é um j ovem m uito elegante, gostei m uito dele.
Nesse m om ento Frank com eçou a falar com tanto ardor, que Em m a só podia im aginar que ele estivesse querendo abafar os elogios, e não desej ava ouvir m ais nada. As vozes foram abafadas por um tem po, até que um a nova pausa trouxe a voz de Mrs. Elton outra vez, distintam ente. Mr. Elton havia se j untado a elas, e sua esposa exclam ava:
– Ah! Finalm ente você nos encontrou em nosso isolam ento, não é?... Eu estava dizendo agora m esm o à Jane que você devia estar im paciente por nos encontrar.
– Jane! – repetiu Frank Churchill, com um ar de surpresa e desprazer. –
Que falta de cerim ônia... m as suponho que Miss Fairfax não desaprove isso.
– Gostou de Mrs. Elton? – perguntou Em m a, sussurrando.
– Nem um pouco.
– O senhor é ingrato.
– Ingrato? O que quer dizer? – então m udou o cenho franzido para um sorriso. – Não, não m e conte, não quero saber o que significa. Onde está m eu pai? Quando vam os com eçar a dançar?
Em m a m al conseguia entendê-lo. Frank parecia estar com um hum or estranho. Saiu para buscar o pai, m as logo voltou com Mr. e Mrs. Weston. Ele os encontrara um pouco perplexos e queriam expor a situação para Em m a.
Ocorrera a Mrs. Weston que deviam convidar Mrs. Elton para abrir o baile.
Certam ente ela esperava por isso, o que contrariava todos os desej os deles de conceder a Em m a tal distinção. Em m a ouviu a dura verdade com coragem .
– E com o vam os encontrar um parceiro adequado para ela? – disse Mr.
Weston. – Ela deve estar esperando que Frank a convide.
Frank virou-se para Em m a, cobrando sua antiga prom essa das duas danças, e declarou que j á estava com prom etido, o que o pai aprovou im ediatam ente. Então pareceu que Mrs. Weston desej ava que ele m esm o dançasse com Mrs. Elton, e o trabalho deles seria persuadi-lo a concordar, o que foi feito logo. Mr. Weston e Mrs. Elton abriram o cortej o, seguidos por Mr. Frank
Churchill e Miss Woodhouse. Em m a teve que subm eter-se a ficar atrás de Mrs.
Elton, em bora sem pre tivesse considerado o baile especialm ente seu. Era quase o bastante para fazê-la pensar em se casar. Mrs. Elton, sem dúvida, tinha a vantagem no m om ento de ver sua vaidade com pletam ente satisfeita. Em bora pretendesse abrir o baile com Frank Churchill, não saíra perdendo com a troca, pois Mr. Weston era superior ao filho. Fora esse pequeno em baraço, Em m a estava bastante feliz, encantada de ver a fila de pares que se form ara, e por saber que ainda teria m uitas horas de divertim ento à sua frente. O que m ais a perturbava, porém , era ver que Mr. Knightley não estava dançando. Lá estava ele, entre os observadores, onde não devia estar; deveria estar dançando, e não em com panhia dos m aridos, pais e j ogadores de uíste, que fingiam sentir interesse pela dança enquanto as m esas de j ogos não estavam prontas. Tão j ovem com o ele era! Nunca parecera levar tanta vantagem sobre os outros com o agora, no local em que se encontrava. Sua figura alta, firm e e esguia, entre as form as volum osas e os om bros caídos dos hom ens m ais velhos, se destacava tanto que Em m a sentiu que devia atrair todos os olhares. E, exceto seu parceiro, não havia um entre todo o grupo de hom ens m ais j ovens que pudesse se com parar a ele. Mr. Knightley avançou alguns passos, e com isso apenas dem onstrou com que cavalheirism o e graça natural teria dançado, se apenas se desse ao trabalho. Sem pre que seus olhos se encontravam Em m a o fazia sorrir, m as em geral ele perm anecia sério. Ela gostaria que ele apreciasse m ais os bailes, e apreciasse m ais Frank Churchill. Mr. Knightley parecia estar sem pre a observá-la. Em m a não podia se orgulhar do que ele pensava de sua dança, m as não tinha m edo algum de sofrer críticas ao seu com portam ento. Não havia nada parecido com um flerte entre ela e seu parceiro. Pareciam m ais com o bons e alegres am igos do que nam orados. Sem dúvida, Frank Churchill pensava m enos nela agora do que antes.
O baile prosseguiu agradavelm ente. Os ansiosos cuidados e as incessantes atenções de Mrs. Weston não foram desperdiçados. Todos pareciam felizes, e os elogios sobre a beleza do baile, que em geral eram concedidos depois que a festa term inava, foram feitos de form a constante desde o princípio. Quanto aos eventos im portantes, do tipo que fica na lem brança, o baile foi tão produtivo com o qualquer outra festa desse tipo. Havia um , no entanto, que preocupava Em m a. As duas últim as danças antes do j antar j á tinham com eçado e Harriet não tinha parceiro. Era a única j ovem dam a que estava sentada. O núm ero de dançarinos era tão j usto que ter um cavalheiro sobrando seria um sonho! Mas a esperança de Em m a dim inuiu logo depois, ao ver Mr. Elton peram bulando por ali. Ele não convidaria Harriet para dançar, se pudesse evitar, tinha certeza que não. Ela esperava que a qualquer m om ento ele escapasse para a sala de j ogos.
Escapar, entretanto, não estava nos planos dele. Mr. Elton dirigiu-se à
parte da sala onde os observadores estavam reunidos, cam inhou na frente deles e falou com alguns, com o para m ostrar que estava livre e pretendia m anter-se assim . Não evitou ficar bem diante de Miss Sm ith algum as vezes, ou falando com pessoas próxim as a ela. Em m a observou tudo isso, pois não dançava naquele m om ento, estava cam inhando para o fundo do salão e podia olhar ao redor, bastava-lhe virar um pouco a cabeça. Quando se encontrava no m eio da pista de dança, com o grupo todo atrás dela, não podia m ais olhar para trás. Mas Mr. Elton estava tão próxim o que Em m a não pode deixar de ouvir o diálogo que se seguiu entre ele e Mrs. Weston. Percebeu tam bém que sua esposa, colocada im ediatam ente à frente dela, não só observava tudo isso com o dava ao m arido significativos olhares de encoraj am ento. A bondosa e gentil Mrs. Weston deixara sua cadeira para j untar-se a ele, dizendo:
– O senhor não dança, Mr. Elton?
– Com m uito prazer, Mrs. Weston, se m e der a honra de dançar com igo
– respondeu ele, prontam ente.
– Eu? Oh, não!... Vou conseguir-lhe um a parceira m elhor do que eu.
Não sou boa dançarina.
– Se Mrs. Gilbert desej a dançar – disse ele – terei grande prazer, com certeza. Em bora com ece a m e sentir um velho hom em casado, e que m eus dias de dançarino acabaram , teria grande prazer em dançar com um a velha am iga com o Mrs. Gilbert, a qualquer m om ento.
– Mrs. Gilbert não pretende dançar, m as há um a j ovem dam a sem par que eu gostaria m uito de ver dançando: Miss Sm ith.
– Miss Sm ith! Oh! Não tinha percebido. A senhora é m uito gentil, e se eu não fosse um velho hom em casado... Mas m eus dias de dançarino estão acabados, Mrs. Weston, peço-lhe que m e perdoe. Faria qualquer outra coisa que m e pedisse, m as m eus dias de dançarino realm ente acabaram .
Mrs. Weston não disse m ais nada, e Em m a podia im aginar com que surpresa e m ortificação ela retornou para sua cadeira. Este era Mr. Elton! O
educado, am ável e gentil Mr. Elton. Ela olhou ao redor por um m om ento. Ele se j untara à Mr. Knightley, a um a pequena distância, e estava se preparando para iniciar um a conversa, enquanto trocava olhares de grande satisfação com a esposa.
Em m a não quis m ais olhar. Seu coração estava em fogo, e achava que seu rosto devia estar igualm ente quente.
No m om ento seguinte um a visão feliz apresentou-se diante de seus
olhos: Mr. Knightley conduzia Harriet para a pista de dança! Ela nunca estivera m ais surpresa, nem m ais encantada, do que naquele instante. Era toda prazer e gratidão, tanto por Harriet quanto por ela, e ansiava por agradecer-lhe. Em bora não pudesse falar, seu sem blante dizia m uito assim que conseguiu encontrar o olhar dele outra vez.
Ele era um excelente dançarino, exatam ente com o ela im aginara, e Harriet seria a m ulher m ais feliz do salão, se não fosse a crueldade da cena que acontecera antes. O rosto feliz de Harriet dem onstrava a m ais com pleta alegria e o alto senso da distinção de que fora alvo. O gesto dele não foi em vão, ela dançou com m ais leveza e graça do que nunca, sorrindo o tem po todo.
Mr. Elton retirou-se para a sala de j ogos parecendo (era o que Em m a achava) m uito tolo. Ela não acreditava que ele fosse tão insensível com o a esposa, apesar de estar ficando igual a ela. Mrs. Elton tratou de expressar seus sentim entos, dizendo em voz bem alta para seu parceiro.
– Knightley ficou com pena da pobrezinha da Miss Sm ith!... Ele tem um coração tão bom !
O j antar foi anunciado, e as pessoas com eçaram a se m ovim entar. Miss Bates poderia ser ouvida a partir daquele m om ento, sem interrupção, até se sentar à m esa e pegar sua colher.
– Jane, Jane, m inha querida, onde você está?... Aqui está seu xale, Mrs.
Weston pediu que você colocasse o xale. Ela acha que pode haver correntes de ar na passagem , em bora tudo tenha sido feito para evitar... Um a porta foi pregada, um a quantidade de m etais... Minha querida Jane, você deve m esm o colocar o xale. Oh! Mr. Churchill! O senhor é tão am ável. Com o colocou o xale tão bem !...
Muito obrigada! A dança foi excelente, de fato!... Sim , querida, corri até em casa, com o eu disse que faria, para aj udar vovó a deitar-se, e voltei logo, ninguém notou a m inha falta... Saí sem dizer um a palavra, com o eu disse que ia fazer. Vovó está m uito bem , teve um a noite encantadora com Mr. Woodhouse, eles conversaram m uito e j ogaram gam ão... O chá foi servido no andar de baixo, com biscoitos, m açãs assadas e vinho, antes que ela voltasse para casa. Ela teve m uita sorte em algum as j ogadas. Perguntou m uito sobre você, se estava se divertindo, e quem eram seus parceiros de dança. E eu disse “Oh! Não vou m e antecipar a Jane, deixei-a dançando com Mr. George Otway, m as ela m esm a vai adorar lhe contar tudo am anhã. Seu prim eiro parceiro foi Mr. Elton, não sei quem vai convidá-la a seguir, talvez Mr. William Cox. Meu caro senhor, é tão am ável!... Não há m ais ninguém a quem prefira acom panhar?... Não sou um a inválida. Ah, com o o senhor é bondoso. Juro por Deus, Jane em um braço e eu no outro!... Pare, pare, vam os nos atrasar um pouco, Mrs. Elton está vindo... A
querida Mrs. Elton, com o está elegante!... Que rendas bonitas!... Agora podem os seguir atrás dela. Ela é m esm o a rainha da noite!... Bem , aí está a passagem .
Olhe os dois degraus, Jane, tom e cuidado com os dois degraus. Ah! Só tem um ...Bem . eu tinha certeza que eram dois. Que estranho! Estava de fato convencida que eram dois, m as só tem um . Nunca vi nada igual, com tanto conforto e estilo... Há velas por toda a parte!... Mas eu estava lhe contando sobre a sua avó, Jane... houve um pequeno desapontam ento. As m açãs assadas e os biscoitos estavam m uito bons a seu m odo. Mas antes disso serviram um delicado fricassê de pão doce e aspargos, e o bom Mr. Woodhouse, achando que os aspargos não estavam bem cozidos, m andou levar tudo de volta... E você sabe que não há nada no m undo que a sua avó goste tanto quanto pão doce e aspargos... então ela ficou um tanto desapontada, m as concordam os em não falar disso para ninguém , pois pode acontecer de cair nos ouvidos da querida Miss Woodhouse, e ela ficaria tão preocupada!... Bem , está tudo tão brilhante! Tão m aravilhoso! Eu j am ais im aginaria um a coisa assim !... Tanto elegância em profusão!... Não vej o nada assim desde... Bem , aonde vam os nos sentar? Aonde vam os nos sentar? Oh, pode ser qualquer lugar desde que Jane não fique exposta a um a corrente de ar. Onde eu vou sentar não tem a m enor im portância. Ah, o senhor recom enda este lado?... Bem , tenho certeza, Mr. Churchill... é que parece um lugar tão bom ... m as é claro, j á que o senhor desej a... Tudo que o senhor aconselha nesta casa não pode estar errado. Querida Jane, com o vam os recordar de todos os pratos servidos para contar à sua avó? Sopa, tam bém ! Deus m e abençoe! Não esperava ser servida tão cedo, m as o cheiro está tão bom , m al posso esperar para com eçar.
Em m a não teve oportunidade de agradecer a Mr. Knightley antes que o j antar term inasse, m as quando estavam todos no salão de baile novam ente, os olhos dela o convidaram para se aproxim ar e receber os agradecim entos. Ele condenou com veem ência a conduta de Mr. Elton, fora um a grosseria im perdoável. E os olhares de Mrs. Elton tam bém receberam a devida cota de censura.
– Eles pretendiam ferir m ais do que Harriet – disse ele. – Diga-m e, Em m a, porque eles são seus inim igos?
Mr. Knightley sorriu com o se entendesse o que se passava, e não recebendo nenhum a resposta, acrescentou:
– Ela não devia estar zangada com você, em bora ele possa estar... Você não vai dizer nada a esse respeito, é claro, m as confesse Em m a, você queria que ele se casasse com Harriet.
– É verdade – ela concordou. – E eles não conseguem m e perdoar. Ele sacudiu a cabeça, m as havia um sorriso de indulgência no seu rosto, e apenas disse:
– Não vou repreendê-la. Deixo isso com a sua consciência.
– O senhor vai acreditar em m im ou nesses baj uladores? Será que o m eu fútil espírito vai-m e dizer que estou errada?
– Não o seu espírito fútil, m as o seu espírito sério. Se um a leva para o cam inho errado, tenho certeza que o outro a faz perceber o erro.
– Eu adm ito que m e enganei com pletam ente com Mr. Elton. Há um a m esquinhez nele que o senhor percebeu e eu não. Além disso, eu estava plenam ente convencida de que ele estava apaixonado por Harriet. Foi um a série de pequenos erros!
– E, com o retribuição por você ter adm itido isso, vou fazer a j ustiça de dizer-lhe que você teria escolhido por ele m elhor do que ele escolheu por si próprio. Harriet Sm ith tem algum as qualidades adm iráveis, que faltam totalm ente à Mrs. Elton. Um a m enina despretensiosa, educada e sem m aldade, infinitam ente preferível para qualquer hom em de bom senso e bom gosto do que um a m ulher com o Mrs. Elton. Achei que Harriet conversa bem m elhor do que eu esperava.
Em m a ficou extrem am ente agradecida. Foram interrom pidos pela agitação de Mr. Weston, que cham ava a todos para dançarem outra vez.
– Venham , por favor, Miss Woodhouse, Miss Otway, Miss Fairfax, o que estão esperando?... Venha, Em m a, dê o exem plo às suas com panheiras. Todos estão m uito preguiçosos! Estão m uito sonolentos!
– Estou pronta – disse Em m a – assim que for convidada.
– Com quem você vai dançar? – perguntou Mr. Knightley.