Emma

Jane Austen · Capítulo 44 de 113

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Emma

Capítulo VI

Knightley. Estava com o espírito alegre, e teria prolongado a conversa para ouvir os detalhes das suspeitas dele, a descrição de cada olhar e todos os “com os” e

“ondes” de um a circunstância que a divertia im ensam ente. Mas a alegria dela não encontrou respaldo nele. O cavalheiro percebeu que não poderia ser útil e sentia-se irritado dem ais para conversar. Antes que sua irritação se transform asse em um a febre fortíssim a, com a aj uda da lareira acesa que os delicados hábitos de Mr. Woodhouse exigiam quase todas as noites do ano, ele partiu logo em seguida; fez o cam inho de volta para casa, a fria e solitária Donwell Abbey.

[1] William Cowper (1731-1800) – poeta inglês; um dos m ais populares poetas do século XVIII.

[2] Pequena m esa de fino acabam ento, com tam po dobrável, utilizada para refeições inform ais. Originária do século XVIII.

CAPÍTULO VI

Depois de longam ente abastecido com a expectativa de um a pronta visita de Mr. e Mrs. Suckling, o m undo de Highbury foi obrigado a suportar a m ortificação de saber que eles não poderiam vir antes do outono. Um a novidade im portada com o essa não iria enriquecer suas reservas intelectuais no m om ento.

No intercâm bio diário de notícias deveriam ficar novam ente restritos a outros tópicos que, por um tem po, estiveram relegados a um segundo plano pela visita dos Sucklings – com o as últim as notícias sobre Mrs. Churchill, cuj a saúde era obj eto de um relato diferente a cada dia, e a situação de Mrs. Weston, que deveria ver sua felicidade m uito aum entada pela vinda de um filho, assim com o a de todos os seus vizinhos, felizes com a notícia.

Mrs. Elton estava m uito desapontada com o adiam ento de seus vários prazeres e festividades. Suas apresentações e recom endações deveriam esperar, e cada festa proj etada, por enquanto, ficaria apenas nas palavras. Assim ela pensou a princípio, m as um a pequena consideração convenceu-a de que nem tudo precisava ser adiado. Por que não poderiam fazer um passeio de exploração à Box Hill, em bora sem os Sucklings? Poderiam voltar lá com eles no outono.

Ficou decidido que iriam a Box Hill. Há m uito circulavam rum ores sobre esta pretensa excursão, o que lhes deu a ideia de outra. Em m a nunca tinha ido a Box Hill, queria conhecer o que as pessoas j ulgavam que valia tanto a pena ver. Ela e Mr. Weston concordaram então em escolher um a bela m anhã para fazer o passeio. Aceitariam a com panhia de m ais duas ou três pessoas apenas, e tudo deveria acontecer de m odo calm o, despretensioso e elegante – m uito superior ao alarido da preparação das com idas e bebidas com uns e dos piqueniques dos Eltons e dos Sucklings.

Ficara tudo tão bem acertado entre eles, que Em m a não pode evitar certa surpresa e um a pequena contrariedade, ao ouvir Mr. Weston dizer que havia proposto aos Eltons, j á que a irm ã e o cunhado não poderiam vir, que os dois grupos se unissem e fossem j untos. E que Mrs. Elton estava pronta a concordar, desde que ela não tivesse obj eções. Bem , com o sua obj eção nada m ais era senão o fato de não gostar de Mrs. Elton, o que Mr. Weston j á devia estar perfeitam ente a par, não valia a pena m encionar isso de novo. Não poderia fazer isso sem reprová-lo, o que causaria desgosto à sua esposa. Em m a se viu então obrigada a aceitar um a situação que faria tudo para evitar, um arranj o que poderia expô-la até m esm o à degradação de ouvir dizer que fizera parte do grupo de Mrs. Elton!

Seus sentim entos estavam ofendidos, e a paciência de ostentar um a aparente subm issão deixou um a pesada dívida, devido à severidade de suas reflexões sobre a incontrolável boa vontade de Mr. Weston.

– Fico feliz que tenha aprovado o que fiz – disse ele, tranquilam ente. –

Mas sabia que aprovaria. Um passeio com o esse precisa de m ais gente. Não poderíam os ter um grupo tão grande, e um grupo assim garante sua própria diversão. E ela é um a boa m ulher, afinal. Não podíam os deixá-la de fora.

Em m a não contestou nada em voz alta, nem concordou com nada intim am ente.

Estavam agora no m eio de j unho e o tem po era bom . Mrs. Elton estava ficando im paciente para fixar a data, e com binara com Mr. Weston de levar tortas de pom bo e carneiro frio, quando um dos cavalos da carruagem ficou doente e colocou todo o plano em triste incerteza. Poderia levar dias ou sem anas até que pudessem usar o cavalo novam ente, m as não era possível prosseguir nos preparativos e tudo ficou em um a m elancólica estagnação. Os fam osos recursos de Mrs. Elton não eram de nenhum a valia em um a situação dessas.

– Não é a coisa m ais irritante, Knightley ? – ela exclam ou. – E um tem po m aravilhoso com o esse para explorar! Esses atrasos e desapontam entos são odiosos. O que vam os fazer? Desse j eito o ano vai acabar antes que possam os fazer algum a coisa. Por essa época, no ano passado, afirm o-lhe que j á tínham os feito um delicioso passeio de Maple Grove a Kings Weston.

– Vocês fariam m elhor se fossem a Donwell Abbey – respondeu Mr.

Knightley. – Lá se pode ir sem cavalos. Venham provar os m eus m orangos, estão am adurecendo bem rápido.

Se Mr. Knightley não falara seriam ente a princípio, acabou obrigado a fazê-lo, pois sua proposta foi recebida com enorm e entusiasm o. E o “Oh! Eu gostaria disso m ais do que tudo” não foi discreto nem nas palavras nem nas m aneiras. Donwell era fam osa por suas plantações de m orangos, que pareciam im plorar por um convite, m as não era preciso im plorar. Plantações de repolho seriam o suficiente para tentar a dam a, que só queria ir a algum lugar. Ela prom eteu e tornou a prom eter-lhe que iria – m uito m ais do que ele duvidava – e ficara m uito gratificada por essa prova de intim idade, que considerava o m ais distinto cum prim ento.

– Pode contar com igo – disse ela. – Eu irei com certeza. Diga a data e eu irei. Perm ite que eu leve Jane Fairfax?

– Não posso fixar um a data – respondeu ele – sem falar com outras pessoas que eu gostaria que tam bém a acom panhassem .

– Oh! Deixe tudo com igo. Apenas m e dê carta branca. Eu sou a Senhora Patrocinadora, com o sabe. É a m inha festa, levarei alguns am igos com igo.

– Espero que leve Elton – disse ele – m as não gostaria de lhe dar o trabalho de fazer os outros convites.

– Oh! Agora está parecendo m uito dissim ulado. Mas considere – não precisa ficar com m edo de delegar poderes a mim. Não sou um a j ovem dam a novata. Mulheres casadas, com o sabe, podem ser autorizadas com segurança. É

a m inha festa, deixe tudo com igo. Eu farei os convites.

– Não – ele respondeu, calm am ente – só existe um a m ulher casada no m undo a quem eu perm itiria que convidasse as pessoas que desej asse para ir a Donwell, e essa m ulher é...

– Mrs. Weston, eu im agino – interrom peu Mrs. Elton, um tanto ofendida.

– Não... Mrs. Knightley, e até que ela exista, eu cuidarei dessas coisas sozinho.

– Ah, m as você é um a criatura peculiar! – ela exclam ou, satisfeita por não ser preterida por outra. – Você é um hum orista, e pode dizer o que quiser.

Que hum orista! Bem , vou levar Jane com igo, ela e a tia. O resto eu deixo com você. Não tenho obj eção algum a quanto à fam ília de Hartfield. Não tenha escrúpulos, sei que é ligado a eles.

– A senhora certam ente os encontrará, se a m inha opinião prevalecer, e eu m esm o visitarei Miss Bates no m eu cam inho para casa.

– Isso é totalm ente desnecessário, eu vej o Jane todos os dias. Mas faça com o quiser. Deve ser um passeio pela m anhã, você sabe, Knightley, um a coisa bem sim ples. Vou usar um grande chapéu, e levarei um a cestinha pendurada no braço. Aqui, vej a, talvez esta cesta com a fita cor-de-rosa. Nada pode ser m ais sim ples. E Jane tam bém vai usar algo parecido. Não haverá nenhum a form alidade ou ostentação, será um tipo de festa cigana. Vam os cam inhar pelos seus j ardins, colher nós m esm as os m orangos, e sentar debaixo das árvores... E

qualquer outra coisa que você queira oferecer, m as deve ser tudo ao ar livre.

Um a m esa colocada na som bra, você sabe... Tudo o m ais natural e sim ples possível. Não é essa a sua ideia?

– Não exatam ente. Minha ideia de sim ples e natural é colocar a m esa na sala de j antar. A natureza e a sim plicidade das dam as e cavalheiros, com seus servos e m óveis, acho que pode ser m ais bem observada nas refeições dentro de casa. Quando se cansarem de com er m orangos ao ar livre, haverá um a refeição de carnes frias dentro da casa.

– Bem , com o desej ar. Mas que não sej a nada m uito elaborado. E, a

propósito, eu ou m inha governanta podem os ser de algum a aj uda para você com nossas opiniões? Peço que sej a sincero, Knightley. Se desej ar que eu fale com Mrs. Hodges ou que inspecione algum a coisa...

– Não preciso de nada, m esm o. Muito obrigada.

– Bem , m as se houver algum a dificuldade, m inha governanta é m uito com petente.

– Responderei a isso dizendo-lhe que a m inha se acha m ais do que com petente, e desprezaria a aj uda de qualquer pessoa.

– Gostaria que tivéssem os um burrinho. Seria interessante se chegássem os m ontadas em burrinhos... Jane, Miss Bates e eu... e m eu caro sposo cam inhando ao lado. Eu de fato vou falar com ele sobre com prar um burrinho.

Na vida do cam po acho que é um a necessidade, pois se um a m ulher não possui m uitos recursos, não deve ficar sem pre trancada em casa. E quanto às longas cam inhadas, você sabe... no verão existe a poeira, no inverno o barro.

– Não vai encontrar nenhum dos dois entre Donwell e Highbury. O

cam inho para Donwell nunca fica em poeirado, e agora está perfeitam ente seco.

Venha num burrinho, no entanto, se assim desej ar. Pode pedir em prestado o de Mr. Cole. Gostaria que tudo fosse feito de acordo com o seu gosto, tanto quanto possível.

– Tenho certeza que sim . De fato, devo fazer-lhe j ustiça, m eu am igo.

Sob seus m odos peculiarm ente bruscos e secos, sei que existe um grande coração. Com o eu digo a Mr. E, você é um grande hum orista. Sim , pode acreditar, Knightley, que tenho plena certeza de sua atenção para com igo em todo esse esquem a. Cuidou de cada coisa para m e agradar.

Mr. Knightley tinha outra razão para evitar a m esa sob as árvores.

Tinha intenção de persuadir Mr. Woodhouse, assim com o Em m a, a j untarem -se ao grupo. E sabia que obrigá-los a sentar ao ar livre para um a refeição deixaria o velho senhor doente. Mr. Woodhouse não devia, sob o pretexto de um passeio m atinal para passar um a ou duas horas em Donwell, ser tentado a concordar com algo que lhe faria sentir-se infeliz.

Ele foi convidado de boa fé. Não haveria terrores à espreita para aproveitar-se de sua ingênua credulidade. Ele concordou, pois fazia dois anos que não ia à Donwell. “Em um a m anhã bonita, ele, Em m a e Harriet podiam ir m uito bem . E ele poderia sentar-se com Mrs. Weston, enquanto as queridas m eninas passeassem nos j ardins. Ele acreditava que não deveria haver um idade, no m eio do dia. Desej ava m uito ver de novo a antiga casa, e ficaria m uito feliz de encontrar Mr. e Mrs. Elton e outros de seus vizinhos. Não faria obj eção algum a,

nem ele, nem Em m a e nem Harriet, iriam todos lá em um a bela m anhã. Achou m uito bonito da parte de Mr. Knightley convidá-los... m uito gentil e atencioso, m uito m ais inteligente do que um convite para j antar. Ele não gostava de j antar fora”.

Mr. Knightley foi feliz na escolha dos convidados. Todos receberam m uito bem os convites, a ponto de parecer que, com o Mrs. Elton, cada um considerava a festa com o um a hom enagem pessoal. Em m a e Harriet dem onstraram altas expectativas de prazer na festa. Mr. Weston, sem que lhe fosse pedido, prom eteu levar Frank consigo, se possível. Mr. Knightley teria de bom grado dispensado essa prova de aprovação e gratidão, m as foi obrigado a dizer que teria m uito prazer em vê-lo. Mr. Weston então não perdeu tem po em escrever ao filho, sem poupar argum entos para convencê-lo a vir.

Nesse m eio tem po o cavalo doente recuperou-se com tal rapidez, que voltaram a considerar alegrem ente a ideia de form ar um grupo para ir a Box Hill. No final, m arcaram de ir a Donwell num dia e a Box Hill no dia seguinte, visto que o tem po estava perfeito.

Sob o brilhante sol do m eio-dia, em pleno verão, Mr. Woodhouse foi transportado com segurança em sua carruagem , com um a das j anelas aberta, para participar dessa festa ao ar livre. Instalaram -no alegrem ente em um a das m ais confortáveis salas de Donwell Abbey, especialm ente preparada para ele e aquecida pela lareira que fora acesa durante toda a m anhã. Ficou m uito à vontade, pronto a falar com satisfação da proeza que acabara de realizar, e aconselhando a todos que se sentassem e não se aquecessem dem ais. Mrs.

Weston, que parecia ter cam inhado até lá com o único propósito de se cansar e sentar-se o tem po todo ao lado dele, ficou fazendo com panhia ao velho cavalheiro com o ouvinte tom ada de paciência, enquanto os dem ais foram convidados ou convencidos a sair.

Fazia tanto tem po que Em m a não ia à Abbey que, tão logo se assegurou que o pai estava confortável, ficou feliz de deixá-lo para dar um a volta pela casa.

Estava ansiosa para refrescar e corrigir sua m em ória com um a cuidadosa observação e m elhor com preensão da casa e das terras, que sem pre haviam sido tão interessantes para ela e toda a sua fam ília.

Sentiu todo o honesto orgulho e benevolência que sua ligação com o presente e o futuro proprietário poderia garantir. Observou o tam anho respeitável e o estilo do prédio, que era baixo e abrigado, assim com o sua localização característica e atraente – seus am plos j ardins descendo até a pradaria, cortada por um riacho que se perdia na distância, m al podendo ser avistado da casa. E a abundância de árvores, form ando extensas alas e avenidas, que nem a m aior

extravagância conseguiria abater. A casa era m aior que Hartfield, e totalm ente diferente: espalhava-se por um bom pedaço do terreno irregular, com m uitas salas confortáveis e um a ou duas bastante bonitas. Era exatam ente com o devia ser, e parecia o que realm ente era. Em m a sentiu um grande respeito por isso, pois era a residência de um a fam ília da m ais genuína nobreza, sem m istura de sangue. John Knightley podia ter algum as falhas de caráter, m as Isabella fizera um casam ento excepcional. Ela não lhes dera pessoas, nem nom es, nem lugares que pudessem provocar constrangim ento. Eram sentim entos agradáveis, e ela cam inhou por ali acalentando esses pensam entos até que fosse necessário fazer o m esm o que os outros, então foi colher m orangos. Estavam todos j untos, exceto Frank Churchill, que viria de Richm ond e estava sendo esperado a qualquer m om ento. Mrs. Elton, com todo o seu aparato de felicidade, o grande chapéu de abas largas e o cestinho, estava m uito feliz de liderar o grupo enquanto j untavam os m orangos e conversavam . O assunto agora era m orangos, e não era perm itido falar de outra coisa.

“A m elhor fruta da Inglaterra, a favorita de todos, sem pre saudável...

Esses eram os m elhores canteiros e as m elhores espécies... Encantada de colher os próprios m orangos... a única form a de apreciá-los realm ente... pela m anhã era sem pre m elhor, com certeza... não se cansava nunca... todos os tipos eram bons... infinitam ente superior... sem com paração... os outros m al se podiam com er... alguns tipos eram m uito raros... havia um que era o m ais saboroso... o preço dos m orangos em Londres... eram abundantes em Bristol... Maple Grove...

cultivo... quando os canteiros precisam ser replantados... os j ardineiros achavam o contrário... não, não havia regra geral... os j ardineiros nunca deviam fazer algum a coisa que não quisessem ... frutos deliciosos... m uito nutritivos, não se deve com er em excesso... inferior às cerej as... groselhas são m ais refrescantes...

a única obj eção a colher m orangos era ter que se abaixar... sol forte... cansada dem ais... não podia suportar m ais... devia ir sentar à som bra”.

Essa foi a conversa durante m eia hora. Houve apenas um a interrupção de Mrs. Weston, que em sua solicitude pelo enteado veio perguntar se ele j á chegara, e parecia um pouco preocupada. Tinha alguns receios em relação ao cavalo dele.

Acharam assentos relativam ente bons na som bra, e Em m a então foi obrigada a ouvir a conversa de Mrs. Elton e Jane Fairfax. Falavam de um a colocação, a colocação m ais desej ável que podia haver. Mrs. Elton soubera disso pela m anhã e estava exultante. Não era na casa de Mrs. Suckling, nem na de Mrs.

Bragge, m as em felicidade e esplendor era quase com o se fosse. Tratava-se de um a prim a de Mrs. Bragge, um a dam a am iga de Mrs. Suckling, m uito conhecida em Maple Grove. Agradável, encantadora, superior, de prim eira classe, das principais esferas, linhas e posições sociais. Tudo!... Mrs. Elton estava ansiosa

para que a oferta fosse aceita im ediatam ente. Da parte dela, tudo era anim ação, energia e triunfo. Decididam ente se recusava a aceitar um a negativa, em bora Miss Fairfax continuasse lhe dizendo que não queria com prom eter-se com nada no m om ento, repetindo os m esm os m otivos que m encionara antes. Ainda assim Mrs. Elton insistia em que a autorizasse a escrever um a carta aceitando, para ser enviada pelo correio logo na m anhã seguinte. Em m a não com preendia com o Jane podia suportar aquilo. Parecia irritada, falava com severidade e, por fim , com um a decisão de ação incom um para ela, propôs que saíssem dali. “Não era m elhor cam inhar um pouco? Mr. Knightley não ficara de lhes m ostrar os j ardins?

Todos os j ardins? Ela queria conhecer tudo”. A pertinácia da am iga parecia m ais do que Jane Fairfax podia suportar.

Estava bastante quente. Depois de cam inharem por um tem po pelos j ardins, dispersos em pequenos grupos de no m áxim o três pessoas, os convidados se encam inharam , quase sem perceber, para a deliciosa som bra de um a larga alam eda de lim eiras, que se estendia além do j ardim , a um a distância sem pre igual do rio, e parecia delim itar o final da área própria para passeios. Dali para diante não havia nada, a não ser a vista para além de um m uro baixo de pedras com altos pilares que, em sua form a ereta, parecia tratar-se de um portal para a casa, que nunca fora colocado. Em bora o bom gosto desse tipo de acabam ento pudesse ser discutível, era um a cam inhada encantadora em si m esm a, e a vista que se descortinava dali era extrem am ente bonita. A encosta de altura considerável, em cuj o sopé se encontrava Abbey, adquiria gradualm ente um perfil m ais íngrem e nos terrenos m ais afastados da casa. A cerca de oitocentos m etros ficava um a abrupta encosta de considerável grandeza, bem coberta por árvores, e ao fundo dela, num lugar favorável e abrigado, encontrava-se a fazenda Abbey -Mill, com os prados à frente e rodeada pela curva fechada e bonita que o rio fazia naquele lugar.

Era um a vista cativante, tão doce para os olhos quanto para a m ente. A vegetação inglesa, a cultura inglesa, o conforto inglês, vistos sob um sol brilhante, sem ser opressivo.

Durante a cam inhada Em m a e Mr. Weston notaram que os outros haviam voltado a se reunir. Olhando para o grupo, Em m a percebeu im ediatam ente Mr. Knightley e Harriet, um pouco à frente dos dem ais, calm am ente liderando o grupo. Mr. Knightley e Harriet!... Era

um estranho tête à tête[1], m as ela ficou feliz de vê-lo. Houvera um tem po em que ele teria evitado a com panhia dela, e se afastado sem m uita cerim ônia. Agora eles pareciam conversar agradavelm ente. Houvera um tem po tam bém em que Em m a teria lam entado ver Harriet num lugar tão perto da fazenda Abbey -Mill, m as agora não tem ia isso. A fazenda podia ser vista com todos os seus belos e prósperos anexos, seus ricos pastos, os enorm es rebanhos espalhados, o pom ar coberto de

frutos e a leve coluna de fum aça que subia da cham iné. Em m a se j untou a eles próxim o ao m uro, e descobriu que estavam m ais interessados na conversa do que em olhar a vista. Ele estava explicando a Harriet as várias m odalidades de agricultura, etc., e sorriu para Em m a com o se dissesse “Estas são as m inhas preocupações, tenho direito de falar desses assuntos sem levantar suspeitas de m e referir a Robert Martin”. Em m a não suspeitava de Mr. Knightley, aquela história j á ficara no passado. Robert Martin provavelm ente j á nem pensava m ais em Harriet. Cam inharam um pouco j untos. A som bra era m uito refrescante, e Em m a considerou aquela a m elhor parte do dia.

A próxim a cam inhada seria em direção a casa, onde deviam fazer a refeição. Já estavam todos sentados à m esa, ocupados em com er, e Mr. Frank Churchill ainda não chegara. Mrs. Weston olhava para a porta a todo o m om ento, m as em vão. Mr. Weston não se perm itia ficar preocupado e ria dos tem ores da esposa, que não podia evitar o desej o de que ele tivesse vindo na sua égua preta.

Frank Churchill tinha dito que viria com a m ais plena certeza. “Sua tia havia m elhorado tanto, que ele não tinha a m enor dúvida de que poderia vir”. Mrs.

Churchill, no entanto, com o m uitos gostavam de lem brá-la, era suj eita a variações repentinas de hum or, que poderiam obrigar o sobrinho a perm anecer.

Mrs. Weston foi afinal convencida a acreditar, ou a fingir que acreditava, que ele não pudera vir devido a algum ataque de Mrs. Churchill. Em m a olhou para Harriet enquanto discutiam o assunto, m as ela com portou-se m uito bem , sem trair a m enor em oção.

A refeição fria term inara, e o grupo saiu outra vez para ver o que ainda não tinham visto: os antigos tanques de peixes de Abbey ; talvez para ir até o cam po de trevos, que com eçariam a ser cortados no dia seguinte ou, em últim o caso, para ter o prazer de se aquecer ao sol e refrescar-se novam ente. Mr.

Woodhouse, que j á fizera um pequeno passeio na parte m ais elevada dos j ardins, onde não havia nenhum a um idade do rio, não pretendia m ais sair. Em m a decidiu ficar com ele, para que Mrs. Weston pudesse sair com o m arido, a fim de exercitar-se e distrair um pouco o espírito.

Mr. Knightley fizera tudo ao seu alcance para entreter Mr. Woodhouse.

Livros de gravuras e desenhos, caixas com m edalhas, cam afeus, corais, conchas e todas as outras coleções da fam ília que estavam nos arm ários foram dispostas para seu velho am igo se distrair durante toda a m anhã. A bondade dele rendeu frutos, pois Mr. Woodhouse estava extrem am ente bem disposto. Mrs. Weston estivera m ostrando-lhe todas essas coisas, e agora ele poderia m ostrá-las a Em m a. Por sorte o velho senhor não se parecia com um a criança, a não ser na total falta de gosto em apreciar aquelas coisas, pois era lento, constante e m etódico. Antes que com eçasse essa segunda passagem pelas coleções, Em m a foi até o vestíbulo, para ter o prazer de olhar livrem ente para a entrada da casa e

o j ardim em frente. Mal tinha chegado lá quando Jane Fairfax entrou, vindo apressada do j ardim com um olhar de quem desej ava escapar. Com o não esperava encontrar Miss Woodhouse tão cedo, teve um m om ento de surpresa; m as Em m a era j ustam ente a pessoa que ela estava procurando.

– A senhorita faria a gentileza – disse ela – de dizer que eu j á fui para casa, quando derem pela m inha falta?... Estou indo neste m om ento... Minha tia não se deu conta da hora, nem de quanto tem po estivem os fora, m as tenho certeza que precisam de nós, e estou determ inada a ir sem m ais dem ora. Não disse nada a ninguém , pois só traria problem as e nervosism o. Alguns foram até os tanques e outros para a alam eda de lim eiras. Não darão pela m inha falta até que retornem e, quando vierem , a senhorita teria a bondade de dizer que eu j á fui?

– Com certeza, se é o que desej a. Mas a senhorita vai voltar para Highbury sozinha?

– Sim , não há perigo algum , e eu cam inho m uito rápido. Estarei em casa em vinte m inutos.

– Mas é m uito longe, no entanto, para cam inhar sozinha. Deixe que o criado de m eu pai a acom panhe, deixe-m e pedir a carruagem , estará aqui em cinco m inutos.

– Muito obrigada, m uito obrigada... m as não é preciso, de m odo algum .

Eu prefiro andar. Im agine eu ter m edo de andar sozinha! Eu que m uito breve tom arei conta de outras pessoas!

Ela falou com grande agitação. Em m a sentiu por ela e respondeu:

– Isso não é m otivo para que se exponha a algum perigo agora. Vou pedir a carruagem . Até m esm o o calor pode ser perigoso e a senhorita j á está cansada.

– Estou – ela respondeu – estou m esm o fatigada, m as não desse tipo de fadiga; um a cam inhada rápida vai m e anim ar. Miss Woodhouse, todos nós sabem os o que é estar casada de espírito, algum as vezes. O m eu, confesso, está exausto. A m aior gentileza que a senhorita pode m e fazer é deixar que eu siga o m eu cam inho, e apenas dizer que j á fui em bora, quando for necessário.

Em m a não se opôs m ais. Com preendeu tudo; percebendo os sentim entos da outra, aj udou-a a ir em bora im ediatam ente, observando-a sair em segurança, com o zelo de um a am iga. Jane deu-lhe um olhar de gratidão e disse:

– Oh, Miss Woodhouse, com o é reconfortante ficar sozinha às vezes!

Essas palavras de despedida pareceram sair de um coração angustiado, e m ostravam a contínua pressão que era exercida sobre ela, m esm o por alguns daqueles que m ais a am avam .

“Que casa ela tem , realm ente! E que tia!” pensava Em m a, enquanto voltava ao vestíbulo. “Tenho pena de você. E quanto m ais sensibilidade dem onstrar pelos horrores que sofre, m ais gostarei de você”.

Não fazia nem quinze m inutos que Jane partira, e Em m a e o pai tinham apenas com eçado a olhar algum as gravuras da Praça São Marcos, em Veneza, quando Frank Churchill entrou na sala. Em m a não estava m ais pensando nele, esquecera dele por com pleto, m as ficou m uito contente em vê-lo. Mrs. Weston ficaria tranquila. A égua preta não tinha culpa algum a, aqueles que disseram que Mrs. Churchill era a causa do atraso é que estavam certos. Ele fora detido tem porariam ente por um agravam ento da doença da tia, um choque nervoso que durara algum as horas; ele quase desistira de vir, até que fosse bem m ais tarde. Se soubesse com o seria quente a cavalgada, e com o estaria atrasado, com toda essa correria, talvez nem tivesse vindo. O calor era excessivo, nunca sofrera algo assim ... quase desej ava ter ficado em casa... nada o deixava m ais prostrado que o calor. Podia suportar qualquer grau de frio, m as o calor era intolerável, e sentou-se à m aior distância possível dos resquícios do fogo da lareira de Mr.

Woodhouse. Estava num estado lastim ável.

– O senhor vai refrescar-se logo, se perm anecer parado – disse Em m a.

– Logo que m e refrescar j á estará na hora de voltar. Eu podia ter sido poupado de vir... Mas fizeram tanta questão da m inha vinda! Todos logo estarão partindo, eu creio, o grupo todo vai se dispersar. Encontrei uma, quando vinha para cá... Que loucura, com um tem po desses! Absoluta loucura!

Em m a ouviu, olhou e logo percebeu que o estado de espírito de Frank Churchill poderia ser m ais bem definido pela expressão de m au hum or. Algum as pessoas sem pre ficavam infelizes quando sentiam calor, este devia ser o caso dele. Com o ela sabia que com ida e bebida eram norm alm ente a cura dessas queixas incidentais, recom endou-lhe beber algum a coisa. Encontraria todo tipo de bebida e com ida na sala de j antar, e indicou-lhe a porta.

“Não, ele não queria com er. Não tinha fom e, isso só o deixaria com m ais calor”. Dois m inutos depois, no entanto, ele agiu a seu favor; m urm urando algo sobre cervej a, saiu da sala. Em m a voltou toda sua atenção para o pai, dizendo secretam ente a si m esm a:

“Estou feliz de não ter m e apaixonado por ele. Não gostaria de um hom em que é tão afetado por um a m anhã de calor. O doce e tranquilo

tem peram ento de Harriet não se im portaria com isso”.

Ela partira há tem po suficiente para ter feito um a boa refeição quando voltou sentindo-se m elhor. Estava m ais refrescado e voltara às boas m aneiras que costum ava ter. Foi capaz de pegar um a cadeira e aproxim ar-se deles, interessando-se pelo que faziam , e lam entou, com as m aneiras corretas, que tivesse chegado tão tarde. Não estava no seu m elhor espírito, m as tentava m elhorar sua disposição. Ao final, j á estava falando am enidades e se tornara m uito agradável. Estavam olhando gravuras da Suíça.

– Logo que m inha tia se recuperar quero ir para o exterior – disse ele. –

Não m e sentirei feliz até que tenha visto alguns desses lugares. Daqui a algum tem po a senhorita terá os m eus esboços para olhar, ou m eus relatos para ler, ou m eus poem as. Devo fazer algum a coisa para m e tornar conhecido.

– Isso pode ser, m as não com esboços da Suíça. O senhor nunca irá à Suíça, sua tia e seu tio j am ais perm itirão que saia da Inglaterra.

– Poderei convencê-los a ir tam bém . Recom endaram um clim a quente para m inha tia. Tenho m uita esperança de que possam os todos ir para o exterior.

Garanto que tenho. Tive um a forte im pressão, esta m anhã, de que logo estarei no exterior. Devo m esm o viaj ar, estou cansado de não fazer nada. Preciso de um a m udança. Falo sério, Miss Woodhouse, sej a o que for que seus penetrantes olhos possam im aginar. Estou enj oado da Inglaterra. Partiria am anhã, se pudesse.

– O senhor está enj oado da prosperidade e da indulgência. Não poderia criar algum as dificuldades para si m esm o e contentar-se em ficar aqui?

– Eu, enj oado da prosperidade e da indulgência? Está com pletam ente enganada. Não m e vej o com o próspero ou indulgente. Tudo que é m aterial m e contraria. Não m e considero um a pessoa afortunada, absolutam ente.

– O senhor não parece tão infeliz, no entanto, com o quando chegou. Vá, com a e beba m ais um pouco, e vai se sentir ainda m elhor. Mais um pedaço de carne fria, outro cálice de vinho Madeira e um pouco de água vão deixá-lo quase igual ao resto de nós.

– Não, não pretendo sair. Vou ficar sentado ao lado da senhorita e de seu pai. Vocês são a m inha m elhor cura.

– Vam os todos a Box Hill am anhã, pode se j untar a nós? Não é a Suíça, m as deve significar algo para um j ovem cavalheiro que desej a um a m udança.

Vai ficar para ir conosco?

– Não, certam ente não. Devo partir no frescor do final da tarde.

– Mas pode voltar no frescor da m adrugada, am anhã.

– Não, não vale a pena. Se eu vier vou sentir-m e infeliz.

– Então, por favor, fique em Richm ond.

– Mas, se ficar, vou m e sentir ainda m ais infeliz. Não posso suportar a ideia de que todos vocês estej am lá sem m im .

– Estas dificuldades o senhor m esm o terá que resolver. Escolha o seu grau de infelicidade, não vou insistir m ais.

O resto do grupo com eçava a retornar, e logo estavam todos j untos.