Emma
Capítulo XI
[1] Em m a está adaptando um a frase de William Shakespeare em “Rom eu e Julieta”, ato V, cena I, quando diz “o m undo não lhe é com placente, nem o são as leis do m undo”.
CAPÍTULO XI
“Harriet, pobre Harriet!”... Essas foram as palavras; nelas repousavam as ideias atorm entadas das quais Em m a não conseguia se livrar, e que constituíam a verdadeira infelicidade que sentia diante de toda a situação. Frank Churchill tinha se com portado m uito m al em relação a ela – e de vários outros m odos tam bém – m as não era tanto o com portam ento dele, m as o dela mesma, que a deixava tão zangada com ele. Era a enrascada na qual Frank Churchill a envolvera por causa de Harriet que dava um tom m ais profundo à ofensa dele.
Pobre Harriet!... Pela segunda vez seria a vítim a das suas concepções erradas e lisonj as. Mr. Knightley havia sido profético quando dissera: “Em m a, você não tem sido am iga de Harriet Sm ith”. Tem ia que não tivesse feito nada por ela além de prestar-lhe um desserviço. Era verdade que não tinha nada por que culpar-se agora, com o na outra vez, em que fora a única autora do engano, ao ter sugerido sentim entos que de outra form a nunca teriam sido cogitados por Harriet. Sua am iga havia falado da própria adm iração e preferência por Frank Churchill antes que ela pudesse fazer-lhe qualquer insinuação a respeito. Sentia-se, porém , culpada por ter encoraj ado o que deveria ter reprim ido. Devia ter evitado a indulgência e o aum ento da força desses sentim entos. Sua influência teria sido o bastante. E agora tinha plena consciência de que devia tê-los im pedido. Sentiu que pusera em risco a felicidade da am iga sem nenhum a base. O bom senso devia ter feito com que dissesse a Harriet que não devia pensar em Frank Churchill, e que havia quinhentas chances contra um a de que ele algum dia gostasse dela. “Mas, com bom senso,” ela pensou “tem o que tivesse pouco a fazer”.
Estava m uito zangada consigo m esm a. Se não pudesse ficar zangada tam bém com Frank Churchill teria sido terrível. Quanto à Jane Fairfax, podia finalm ente aliviar seu coração da necessidade de algum a solicitude em relação a ela no m om ento. Harriet j á constituía ansiedade suficiente para Em m a. Não precisava m ais ficar infeliz por causa de Jane, cuj os problem as e cuj a doença tinham , é evidente, a m esm a origem , e deviam estar igualm ente sendo curados.
Seus dias de privações e de ostracism o estavam term inados. Logo ela estaria bem de saúde, feliz e próspera. Em m a podia agora im aginar por que suas atenções para com ela foram desprezadas. Essa descoberta esclarecia m uitas pequenas questões. Não havia dúvida de que fora por ciúm es. Aos olhos de Jane ela era um a rival e, por isso, qualquer oferecim ento de aj uda ou consideração devia ser recusado. Um passeio na carruagem de Hartfield teria sido um a tortura, e a araruta da dispensa de Hartfield devia estar envenenada. Ela entendeu tudo isso – e tanto quanto sua m ente podia se distanciar da inj ustiça e do egoísm o provocados por sentim entos de raiva – dava-se conta que Jane Fairfax
nunca teria nem elevação nem felicidade além do seu deserto. Mas a pobre Harriet era um fardo tão pesado! Ela tinha pouca sim patia para dispensar a qualquer outra pessoa. Em m a tem ia que esse segundo desapontam ento fosse m ais severo que o prim eiro. Achava que podia ser assim , considerando-se o valor m uito superior do segundo obj eto de interesse. E devia m esm o ser assim , a j ulgar pelo seu efeito aparentem ente m ais forte na m ente de Harriet, produzindo reserva e autocontrole. No entanto, ela devia com unicar a dolorosa verdade, e o m ais cedo possível. Houvera um pedido de segredo nas palavras de despedida de Mr. Weston. “No m om ento, o caso todo devia ficar em com pleto segredo. Mr.
Churchill fizera questão disso, com o m ostra de respeito pela esposa recentem ente falecida; e todos concordaram que isso não era m ais que o devido decoro”.
Em m a havia prom etido. Mesm o assim Harriet devia ser excluída da prom essa, era sua obrigação contar-lhe.
A despeito da vergonha, não podia deixar de achar quase ridículo que ela tivesse que desem penhar em relação à Harriet a m esm a tarefa angustiante e delicada que Mrs. Weston acabara de desem penhar j unto dela. A inform ação que lhe fora dada com tanta ansiedade, Em m a devia agora dar ansiosam ente à outra.
Seu coração bateu m ais forte ao ouvir os passos e a voz de Harriet, assim com o o coração da pobre Mrs. Weston devia ter disparado ao vê-la se aproxim ar de Randalls. Se a revelação ao m enos tivesse o m esm o desfecho! Mas quanto a isso, infelizm ente, não havia a m enor chance.
– Bem , Miss Woodhouse – exclam ou Harriet, entrando ansiosam ente na sala – essa não é a notícia m ais estranha do m undo?
– A que notícia se refere, Harriet? – respondeu Em m a, incapaz de adivinhar, pela voz ou pela expressão, se a am iga j á recebera algum a inform ação a respeito.
– Sobre Jane Fairfax. Já ouviu algum a coisa m ais estranha? Oh!... A senhorita não deve ter m edo de m e contar, pois o próprio Mr. Weston m e disse.
Acabei de encontrá-lo. Ele m e falou que era um grande segredo. Eu não pensaria em m encionar isso para ninguém , a não ser a senhorita, m as ele disse que a senhorita j á sabia.
– O que Mr. Weston lhe contou? – disse Em m a, ainda perplexa.
– Oh! Ele m e contou tudo sobre isso! Que Jane Fairfax e Mr. Frank Churchill vão se casar e que estiveram noivos em segredo por um bom tem po.
Que estranho!
Era, de fato, m uito estranho. O com portam ento de Harriet era tão estranho que Em m a não sabia com o interpretá-lo. Parecia que seu caráter
m udara com pletam ente. Estava decidida a não m ostrar nenhum a agitação ou desapontam ento, ou qualquer preocupação especial pela descoberta. Em m a olhava para ela sem conseguir falar.
– A senhorita tinha algum a ideia – exclam ou Harriet – de que ele estava apaixonado por ela? A senhorita talvez tivesse... (e ficando corada enquanto falava) É capaz de enxergar o que se passa no coração de qualquer pessoa. Mas ninguém m ais poderia...
– Dou-lhe m inha palavra – disse Em m a – que com eço a duvidar de ter algum talento desse tipo. Você pode m e perguntar com seriedade, Harriet, se eu im aginava que ele estava com prom etido com outra m ulher ao m esm o tem po em que encoraj ava você a dar vazão aos seus sentim entos? Creio que o fiz pelo m enos de form a tácita, se não abertam ente. Nunca tive a m enor suspeita, até um a hora atrás, de que Mr. Frank Churchill tivesse qualquer sentim ento por Jane Fairfax. Pode ter certeza de que, se eu soubesse, teria prevenido você.
– A m im ?! – exclam ou Harriet, atônita e ruborizando intensam ente –
Por que deveria m e prevenir?... A senhorita não pode estar pensando que gosto de Mr. Frank Churchill...
– Estou encantada de vê-la falar com tanta firm eza sobre esse assunto –
respondeu Em m a, sorrindo. – Mas não deve negar que houve um tem po, que não está m uito distante, em que m e deu razões para acreditar que estava interessada nele.
– Nele? Nunca, nunca... Querida Miss Woodhouse, com o pode ter m e entendido tão m al? – virando-se angustiada.
– Harriet! – exclam ou Em m a, após um m om ento. – O que quer dizer com isso?... Deus do céu! O que quer dizer?... Entendê-la m al!... Devo supor, então...
Ela não podia dizer m ais nenhum a palavra... Perdera a voz, e sentou-se, esperando aterrorizada pela resposta de Harriet.
Harriet, que estava sentada a algum a distância, e com o rosto virado para o outro lado, não disse nada por algum tem po. E, quando falou, sua voz estava quase tão agitada quanto à de Em m a.
– Nunca pensei que fosse possível – ela com eçou – que a senhorita m e entendesse m al! Sei que com binam os de nunca m encionar o nom e dele... m as considerando com o ele é superior a todos os outros, não achei que fosse possível a senhorita pensar que eu falava de outra pessoa. Mr. Frank Churchill, realm ente!
Não sei quem poderia olhar para ele na presença do outro. Espero ter um gosto
bem m elhor do que pensar em Mr. Frank Churchill, que não é ninguém ao lado dele. E que a senhorita tenha se enganado tanto, é espantoso! Eu acreditava que a senhorita aprovava e encoraj ava o m eu afeto. Em princípio, considerei um a grande presunção de m inha parte ousar pensar nele. Em princípio, se a senhorita não tivesse m e dito que coisas m ais espantosas j á aconteceram , que j á houve casam entos de m aior disparidade (essas foram suas palavras exatas), eu não teria ousado m e perm itir... não teria pensado possível... Mas se a senhorita, que o conhece há longos anos...
– Harriet! – exclam ou Em m a, recom pondo-se. – Vam os nos entender agora, de um a vez por todas, sem deixar qualquer possibilidade de engano. Você está falando de... Mr. Knightley ?
– Por certo que estou. Nunca pensei em m ais ninguém ... e achei que senhorita soubesse. Quando falam os nele, ficou tão claro quanto possível.
– Nem tanto – respondeu Em m a, com calm a forçada – pois tudo que você m e disse na ocasião parecia referir-se à outra pessoa. Eu posso quase j urar que você disse o nom e de Mr. Frank Churchill. Tenho certeza que falam os do serviço que Mr. Frank Churchill lhe prestou, salvando-a dos ciganos.
– Oh, Miss Woodhouse! Com o pôde se esquecer?
– Minha querida Harriet, lem bro-m e perfeitam ente do teor do que eu lhe disse naquela ocasião. Disse-lhe que não m e surpreendia com o seu interesse, considerando o serviço que ele lhe prestou, e que era m uito natural. E você concordou, falando calorosam ente de sua consciência a respeito disso, e m encionando até m esm o o que sentiu quando o viu aproxim ar-se para salvá-la.
Isso tudo está bem vivo na m inha m em ória.
– Oh, Deus! – exclam ou Harriet – Agora entendo o que quer dizer. Mas eu pensava em algo bem diferente no m om ento. Não m e referia aos ciganos...
nem a Mr. Frank Churchill. Não! (levantando-se) Pensava em um a circunstancia m uito m ais im portante... em Mr. Knightley cam inhando na m inha direção e m e convidando para dançar, quando Mr. Elton recusou-se a fazê-lo e não havia outro cavalheiro disponível no salão. Foi a essa boa ação que m e referi, um ato de nobre generosidade e benevolência. Foi essa atitude que m e fez pensar em com o ele era superior a qualquer outro ser hum ano na face da terra.
– Meu bom Deus! – exclam ou Em m a – esse foi o m ais infeliz... o m ais deplorável dos enganos!... O que se pode fazer?
– A senhorita não teria m e encoraj ado, então, se tivesse m e com preendido? Pelo m enos não posso estar pior do que estaria, se o outro fosse a pessoa em questão. E agora, acho que existe um a possibilidade...
Ela fez um a pausa por alguns m om entos. Em m a não conseguia falar.
– Eu não duvido, Miss Woodhouse – ela prosseguiu – que a senhorita vej a um a grande diferença entre os dois, no que se refere a m im ou a qualquer outra pessoa. Deve achar que ele está quinhentos m ilhões de vezes acim a de m im , m uito m ais do que o outro. Mas espero, Miss Woodhouse, que... m esm o que possa parecer estranho... A senhorita sabe que foram suas próprias palavras, que coisas mais m aravilhosas j á aconteceram , casam entos de m aior disparidade j á ocorreram , até m ais do que entre Frank Churchill e eu. E se um a coisa com o essa j á ocorreu antes, e se eu for bastante afortunada para... Se Mr. Knightley realm ente desej ar, se não se im portar com a disparidade, eu espero, m inha querida Miss Woodhouse, que a senhorita não sej a contra, que não tente colocar dificuldades no m eu cam inho. Mas a senhorita é boa dem ais para isso, tenho certeza.
Harriet estava parada j unto a um a das j anelas. Em m a virou-se para ela, consternada, e disse apressadam ente:
– Você tem algum a ideia se Mr. Knightley corresponde à sua afeição?
– Sim – respondeu Harriet, com m odéstia, m as sem tem or. – Devo dizer que sim .
Os olhos de Em m a se fecharam im ediatam ente. Ela ficou sentada, m editando em silêncio sem se m over por alguns m inutos. Esses poucos m inutos foram suficientes para que conhecesse os segredos de seu próprio coração. Um a m ente com o a dela, um a vez aberta para a suspeita, fazia progressos rápidos. Ela entreviu... ela adm itiu... ela soube a verdade inteira. Por que sentia que era m uito pior que Harriet estivesse apaixonada por Mr. Knightley em vez de Frank Churchill? Por que o m al se tornou ainda m aior ao descobrir que Harriet tinha esperanças de ser correspondida? E a verdade atravessou sua m ente, com a rapidez de um a flecha: Mr. Knightley não podia se casar com ninguém a não ser com ela.
Nesses poucos m inutos, sua própria conduta, assim com o seu próprio coração, estavam diante dela. Viu com clareza tudo que nunca vira antes. Com o agira de m odo im próprio por Harriet! Com o sua conduta fora irracional, indelicada e sem consideração! Que cegueira, que loucura a tinham conduzido!
Foi atingida pela força terrível dessas revelações, e estava pronta a dar os piores nom es do m undo para o seu com portam ento. No entanto, um pouco de respeito próprio, a despeito de todos esses dem éritos, deu-lhe forças para sentar-se e suportar o restante com calm a, até m esm o com aparente gentileza. Preocupava-se um pouco com sua aparência, e devia fazer j ustiça a Harriet, em bora não necessitasse ter compaixão pela m oça que acreditava ser am ada por Mr.
Knightley. Seu senso de j ustiça, porém , lhe dizia que não devia tornar Harriet infeliz, tratando-a com frieza. Para sua própria tranquilidade, de fato, devia perguntar a respeito da extensão das esperanças de Harriet. A j ovem , afinal, não fizera nada para ser privada da am izade e do interesse que lhe tinham sido tão voluntariam ente oferecidos, nem m erecia ser desprezada pela pessoa cuj os conselhos nunca lhe fizeram bem . Em m a despertou dessas reflexões e, dom inando a em oção, voltou-se de novo para a am iga. Com um a voz m ais convidativa, retom ou a conversa, pois o assunto que a introduzira, a incrível história de Jane Fairfax, estava quase esquecida. Nenhum a das duas pensava em outra coisa que não fosse Mr. Knightley e elas m esm as.
Harriet, que estivera m ergulhada em um sonho nem um pouco infeliz, ainda assim ficou m uito contente de vê-lo interrom pido pela m aneira encoraj adora de tão grande j uíza e grande am iga com o Miss Woodhouse, e precisava apenas de um estím ulo para contar a história com pleta de suas esperanças com grande e em ocionado deleite. Em m a escondia m elhor seu trem or do que Harriet, enquanto perguntava e ouvia, em bora ele não fosse m enor do que o da j ovem . Mantinha a voz firm e, m as sua m ente estava bastante perturbada por essa descoberta de si m esm a, pela eclosão de um m al traiçoeiro e pela confusão e perplexidade de em oções inesperadas. Ouviu os detalhes contados por Harriet com grande sofrim ento interior, m as aparentando paciência. Não podia esperar que o relato dela tivesse qualquer m étodo ou arranj o conveniente de ideias, ou m esm o que fosse bem descrito. Mas quando se separava toda a fraqueza e tautologia da narração, continha o bastante para deprim ir seu espírito, ainda m ais com as circunstancias que o corroboravam , que sua própria m em ória adicionava em favor da alta opinião que Mr. Knightley tinha de Harriet.
Harriet notara um a diferença no com portam ento dele desde aquelas duas danças decisivas. Em m a sabia que Mr. Knightley, naquela ocasião, achara Harriet m uito superior às suas expectativas. Desde aquela noite, ou pelo m enos desde que Miss Woodhouse encoraj ou-a a pensar nele, Harriet com eçou a notar que ele conversava com ela m uito m ais do que costum ava, e falava de um a m aneira diferente, com m ais gentileza e suavidade! Nos últim os tem pos estava cada vez m ais consciente disso. Quando estavam todos cam inhando j untos, ele com frequência vinha cam inhar ao lado dela, e falava de m aneira tão deliciosa!
Parecia querer conhecê-la m elhor. Em m a sabia que esse era exatam ente o caso.
Ela tinha notado a m udança, quase com a m esm a extensão da am iga. Harriet repetia expressões de aprovação e elogios a Mr. Knightley que, pelo que Em m a sabia, estavam bem de acordo com a opinião dele sobre Harriet. Ele a elogiara por ser um a m oça sem artifícios ou afetação, por ter sentim entos sim ples, honestos e generosos. Ela sabia que ele vira essas qualidades em Harriet, falara
delas com Em m a m ais de um a vez. Muito do que Harriet guardara na m em ória, vários pequenos detalhes das atenções que recebera dele, um olhar, um a fala, um a m udança de cadeira, um cum prim ento im plícito, um a suposta preferência, não foram notados por Em m a porque ela não tinha suspeita algum a.
Circunstâncias que poderiam intensificar um relacionam ento de m eia hora, e que continham m uitas provas para ela que as vira, passaram -lhe despercebidas, e agora as reconhecia ao ouvi-las. Mas as duas últim as ocorrências que Harriet m encionara, e que continham as m aiores prom essas para ela, foram tam bém testem unhadas pela própria Em m a. A prim eira fora a cam inhada dele ao lado dela, separados dos dem ais, na alam eda de lim eiras em Donwell, onde andaram cam inhando por algum tem po antes de Em m a j untar-se a eles. Parecia que ele tom ava cuidado (com o Harriet estava convencida) de afastá-la dos outros para retê-la j unto a si. Pela prim eira vez falara com ela de form a particular, com o nunca falara antes. De m odo bastante particular, na verdade! (Harriet não conseguia lem brar-se disso sem corar). Ela parecia quase a ponto de perguntar se sua afeição j á estava com prom etida... Mas assim que ela (Miss Woodhouse) se aproxim ara com a intenção de j untar-se a eles, ele m udou de assunto e com eçou a falar sobre a fazenda. A segunda fora quando Mr. Knightley sentara-se com ela conversando por quase m eia hora, enquanto esperavam Em m a voltar da sua visita, exatam ente na últim a m anhã em que ele estivera em Hartfield, m esm o tendo dito, quando chegou, que não poderia ficar m ais do que cinco m inutos. E ele contou-lhe, durante essa conversa, que em bora estivesse indo para Londres, deixava sua casa m uito contra a vontade. Isso era m uito m ais (Em m a sentiu) do que ele havia dito a ela. Esse grau de confiança em relação à Harriet, m ostrado apenas por esse fato, causou-lhe enorm e dor.
Depois de algum a reflexão em relação à prim eira das duas circunstâncias, Em m a aventurou-se a perguntar:
– Será que ele não pretendia, quando lhe perguntou, com o você im agina, sobre o com prom etim ento de sua afeição... Será que ele não estava se referindo a Mr. Martin?... Ou tinha o interesse de Mr. Martin em vista?
Mas Harriet rej eitou a suspeita com veem ência.
– Mr. Martin? Oh, não, de form a algum a!... Não houve nem sequer um a insinuação sobre Mr. Martin. Espero m e conhecer m elhor agora, a ponto de não m e interessar por Mr. Martin, ou ser suspeita de fazê-lo.
Quando concluiu o seu relato, Harriet apelou para sua querida Miss Woodhouse, para dizer-lhe se tinha m otivos para ter esperanças.
– Eu nunca teria a pretensão de pensar nisso, no início – disse ela – se não fosse a senhorita. Foi a senhorita que m e disse para observá-lo
cuidadosam ente e deixar que o com portam ento dele servisse de guia para o m eu.
E assim fiz. Mas agora sinto que posso m erecê-lo. E se ele m e escolher, isso não será um a coisa assim tão extraordinária.
Os am argos sentim entos provocados por essa declaração, os m uitos sentim entos am argos, na verdade, exigiram um últim o esforço da parte de Em m a, de form a a poder dar um a resposta para Harriet.
– Harriet, a única coisa que ouso dizer é que Mr. Knightley é o últim o hom em no m undo que intencionalm ente daria para qualquer m ulher a ideia do sentim ento dele por ela ser m aior do que realm ente é.
Harriet parecia disposta a adorar a am iga por um a resposta tão satisfatória. Em m a só foi salva de suas expressões de profundo afeto e gratidão, que nesse m om ento teriam lhe causado um a terrível dor, pelo som dos passos de seu pai. Ele vinha para o vestíbulo. Harriet estava m uito agitada para encontrá-lo.
“Ela não conseguia se recom por, Mr. Woodhouse ficaria alarm ado, era m elhor ela ir”... Com o m ais pronto encoraj am ento da parte de Em m a ela passou pela outra porta da sala. No m om ento em que Harriet saía da casa, Em m a desabafou seus sentim entos, dizendo a si m esm a: “Oh, Deus! Gostaria que nunca a tivesse visto”.
O resto do dia e a noite que se seguiu m al foram suficientes para seus pensam entos. Estava perplexa com a confusão de tudo que a acom etera nas últim as horas. Cada m om ento trazia um a nova surpresa, e cada surpresa devia ser m otivo de hum ilhação para ela. Com o com preender tudo aquilo? Com o entender as decepções que ela m esm a provocara para si, e viver com isso? Os enganos, a cegueira de sua própria m ente e coração! Ela ficara sentada pensativa, cam inhara pelos j ardins, tentara ficar no quarto, tentara passear no bosque... Em cada lugar, em cada atitude, percebeu que agira com fraqueza, que lhe fora im posto pelos outros o m ais alto grau de sofrim ento, e que ela m esm a se im pusera um grau de sofrim ento ainda m aior. Que estava infeliz, e que no futuro descobriria que esse dia era apenas o com eço do seu sofrim ento.
Tentar com preender, com preender totalm ente seu próprio coração, era o prim eiro esforço. Para isso utilizaria qualquer m om ento livre que seus cuidados com o pai perm itissem , e qualquer m om ento de distração involuntária.
Há quanto tem po Mr. Knightley se tornara tão querido para ela, com o cada sentim ento dem onstrava agora que ele era? Quando a influência dele, aquela influência, com eçara? Quando ele alcançara esse lugar na sua afeição que Frank Churchill ocupara um a vez, por pouco tem po? Ela olhou para o passado e com parou os dois... Com parou-os pelo lugar que sem pre ocuparam em sua estim a, desde o m om ento em que conhecera o últim o... E com o deviam ter sido
com parados por ela há m uito tem po. Oh! Que abençoada felicidade se tivesse lhe ocorrido fazer essa com paração antes! Percebeu que nunca houve um tem po em que não tivesse considerado Mr. Knightley infinitam ente superior, ou que seu afeto por ela não fosse infinitam ente m ais apreciado. Percebeu que, convencendo-se de certas coisas, fantasiando, agindo contra as circunstâncias, incorrera no m ais com pleto engano, ignorando totalm ente seu próprio coração...
E, em sum a, que nunca se im portara com Frank Churchill, afinal de contas!
Esta foi a conclusão da prim eira série de reflexões. Este foi o conhecim ento de si m esm a que alcançou com a prim eira inquirição, e sem dem orar m uito a consegui-lo. Estava indignada e triste, envergonhada de cada sensação, m enos da que se revelara a ela: sua afeição por Mr. Knightley. Tudo o m ais em sua m ente era repulsivo.
Com que insuperável vaidade ela acreditara estar de posse do segredo do coração de todas as pessoas, com que im perdoável arrogância se propusera a arranj ar o destino dos outros! Provou estar universalm ente errada, e não conseguira quase nada... apenas causar m al. Causara m al a Harriet, a si m esm a, e tem ia que a Mr. Knightley tam bém . Caso essa união, que era a m ais desigual do m undo, chegasse a acontecer, ela deveria arcar com o desgosto de ter com eçado tudo, pois o afeto dele só poderia existir pela consciência do afeto de Harriet. E m esm o que não fosse esse o caso, ele j am ais teria reparado em Harriet se não fosse a sua loucura.
Mr. Knightley e Harriet Sm ith! Era um a união para provocar choque e espanto além de qualquer im aginação. A ligação entre Frank Churchill e Jane Fairfax tornava-se apenas um lugar com um com parada a essa, apenas um a bobagem que não causaria a m enor surpresa, não m ostraria a m enor disparidade, nem provocaria com entários de espécie algum a. Mr. Knightley e Harriet Sm ith! Que elevação seria para ela! Que queda seria para ele! Era horrível para Em m a pensar em quanto isso o dim inuiria perante a opinião pública. Previa os sorrisos de chacota, os narizes torcidos, o divertim ento que causaria. O sofrim ento e o desprezo de seu irm ão, e outras m ilhares de inconveniências para si m esm o. Será que isso poderia acontecer? Não, era im possível. E, no entanto, estava longe, m uito longe, de ser im possível. O que há de novo em um hom em de prim eira classe ser cativado por um a j ovem de nível inferior? O que havia de novo em um cavalheiro, talvez m uito ocupado para procurar, ser o prêm io de um a m oça que o procurasse? Seria isto um a novidade no m undo por ser desigual, inconsistente, incongruente... ou pelo fato do acaso e as circunstâncias (com o segundas causas) dirigirem o destino hum ano?
Oh! Se ao m enos não houvesse incentivado Harriet! Se a tivesse deixado no lugar a que pertencia, e ao qual Mr. Knightley lhe dissera que ela
pertencia!... Se não tivesse, com um a tolice que não havia palavras para expressar, im pedido que ela desposasse o irrepreensível j ovem que a teria feito feliz e respeitável no nível de vida a que ela devia pertencer – tudo poderia ter sido salvo. Nenhum desses terríveis acontecim entos teria ocorrido.
Com o Harriet tivera a presunção de levantar os olhos para Mr.
Knightley ? Com o ousara im aginar que pudesse ser escolhida por tal hom em , até ter quase certeza disso? Mas Harriet estava m enos hum ilde, tinha m enos escrúpulos do que antes. Parecia perceber m uito pouco sua inferioridade, fosse de m ente ou de situação. Parecera m ais sensível à possibilidade de Mr. Elton não querer casar-se com ela, do que m ostrava sentir agora com Mr. Knightley. Ah!