Emma

Jane Austen · Capítulo 10 de 113

Páginas do PDF

Emma

Capítulo IX

Elton, e descobriu com grande surpresa que Mr. Elton estava na verdade indo para Londres, e não pretendia voltar senão no dia seguinte, e essa noite era reservada ao j ogo de cartas, ao qual Mr. Elton j am ais havia faltado. E Mr. Perry reprovou-o por isso, e disse-lhe que era m uito desagradável que o m elhor j ogador do grupo estivesse ausente, e tentou persuadi-lo a postergar a viagem por um dia, m as isso não era possível. Mr. Elton então resolveu seguir viagem , e disse de m odo m uito reservado que estava indo resolver um negócio que não podia ser adiado por nenhum m otivo do m undo. E falou algum a coisa a respeito de um a invej ável encom enda, e de ser o portador de algo m uito precioso. Mr. Perry não entendeu m uito bem , m as teve certeza de que havia um a dama envolvida, e lhe disse isso. Mr. Elton apenas olhou-o sorrindo e seguiu seu cam inho bastante alegre. Miss Nash havia lhe contado tudo, e m uitas outras coisas a respeito de Mr.

Elton, e olhara de form a m uito significativa para Harriet ao dizer que “ela não sabia qual era o negócio que Mr. Elton ia resolver, m as sabia que qualquer m ulher que Mr. Elton escolhesse, ela achava que seria a m ulher m ais feliz do m undo, pois não havia ninguém que se com parasse a ele em beleza e am abilidade, sem dúvida”.

CAPÍTULO IX

Mr. Knightley podia discutir com Em m a, m as ela não podia discutir consigo m esm a. Ele ficara tão desgostoso que dem orou m ais tem po do que o habitual para voltar a Hartfield; e quando se encontraram , o grave olhar dele m ostrou que não a havia perdoado. Ela lam entava, m as não estava arrependida.

Ao contrário, seus planos e ações foram ainda m ais j ustificados e fortalecidos pelos acontecim entos dos poucos dias que se seguiram .

O Retrato, elegantem ente em oldurado, foi entregue em segurança logo após o retorno de Mr. Elton, pendurado sobre a lareira da sala de estar, e apreciado por ele entre suspiros e m eias frases de adm iração. Quanto aos sentim entos de Harriet, prenunciavam claram ente um a forte e profunda afeição, tanto quanto sua j uventude e caráter perm itiam . Em m a ficou m uito satisfeita de que Mr. Martin não fosse m ais lem brado, a não ser com o contraste a Mr. Elton, com enorm e vantagem para este últim o.

Suas intenções de m elhorar a cultura de Harriet através de leituras úteis e conversas nunca passara dos prim eiros capítulos de algum livro, e fora sem pre adiada para o dia seguinte. Era bem m ais fácil conversar do que ler, deixar sua im aginação divagar e trabalhar a favor de Harriet do que tentar aum entar a com preensão dela sobre fatos concretos. A única atividade literária em que Harriet estava em penhada até o m om ento, a única provisão m ental que reservava para o entardecer da vida, era coletar e transcrever enigm as de todos os tipos que pudesse encontrar para um elegante caderno, fornecido pela am iga, com finas e m acias folhas de papel ornam entadas com criptogram as e troféus.

Nessa época da literatura, tais coleções em grande escala não eram incom uns. Miss Nash, professora-chefe da escola de Mrs. Goddard tinha escrito pelo m enos trezentos enigm as, e Harriet, que a princípio se inspirara nela, pretendia fazer um a coleção ainda m aior com a aj uda de Miss Woodhouse.

Em m a a auxiliava com sua m em ória, bom gosto e criatividade, e com o Harriet tinha um a bela letra, resultara em um trabalho de prim eira classe, tanto na form a com o no conteúdo.

Mr. Woodhouse estava quase tão interessado no assunto quanto as m oças, e com frequência tentava lem brar-se de algum enigm a que m erecesse figurar no caderno. “Quando ele era j ovem havia tantos enigm as inteligentes...

não entendia porque não era capaz de lem brar-se! Mas esperava consegui-lo um dia”. E ele sem pre term inava com “Cathy, um a bela, m as fria donzela”.

Seu am igo Perry, a quem ele falara do assunto, ainda não se lem brara de nenhum a charada, m as pediu a Perry que ficasse atento, e com o ele estava

tentando com afinco, Mr. Woodhouse acreditava que algum a coisa poderia surgir daquele lado.

Não era o desej o de sua filha que os intelectos de Highbury em geral fossem requisitados para tal propósito, e Mr. Elton foi o único a quem ela pediu aj uda. Ele foi convidado a contribuir com quaisquer bons enigm as, adivinhas ou charadas de que conseguisse lem brar-se. Em m a teve o prazer de vê-lo dedicar-se bastante ao assunto, e tam bém percebeu que tinha o cuidado de não proferir nenhum a palavra m enos galante ou que pudesse ser ofensiva ao sexo frágil.

Deviam a ele as duas ou três charadas m ais elegantes, e foi com alegria e enlevo que ele afinal lem brou-se e recitou, de form a bastante sentim ental, esta bem conhecida charada:

Minha primeira a aflição revela

O que a segunda está destinada a notar

E o conjunto das duas é o melhor remédio

Para esta aflição abrandar e curar.

que a deixou um tanto triste, ao verificar que j á havia sido transcrita para o caderno, algum as páginas antes.

– Por que o senhor m esm o não cria um enigm a, Mr. Elton? – disse Em m a. – Assim teríam os um a charada inédita, e sei que nada seria m ais fácil para o senhor.

– Oh, não! Jam ais escrevi algum a coisa nem vagam ente parecida em toda m inha vida. Sou um estúpido! Tem o que nem m esm o Miss Woodhouse – e ele parou por um m om ento – nem Miss Sm ith possam m e inspirar.

Logo no dia seguinte, entretanto, forneceu um a prova de inspiração. Fez um a rápida visita a Highbury, apenas para deixar um pequeno pedaço de papel sobre a m esa, contendo um a charada. Disse que fora escrita por um am igo, e dirigida a um a j ovem dam a a quem ele adm irava, m as Em m a im ediatam ente convenceu-se, pelo estilo, que ele m esm o devia tê-la escrito.

– Não posso oferecê-la para a coleção de Miss Sm ith – disse ele. –

Sendo de um am igo, não tenho direito de expô-lo à curiosidade pública, m as talvez a senhorita queira dar um a olhada.

Estas palavras foram dirigidas m ais a Em m a do que a Harriet, o que Em m a com preendia. Ele tinha um com portam ento m uito apropriado e achou

m ais fácil sustentar o olhar dela do que o da am iga. Em seguida saiu, e após alguns m om entos Em m a sorriu e em purrou o papel na direção da am iga.

– Pegue – disse ela. – É para você, pegue-o.

Mas Harriet trem ia tanto que não conseguia tocá-lo. E Em m a, ainda que não quisesse ser a prim eira, foi obrigada a ler.

Para Miss...

CHARADA

A primeira ostenta a riqueza e a pompa dos reis

Senhores do universo! Seu luxo e esplendor.

E da segunda já outra visão do homem vem,

O rei dos mares, a sofrer sua dor!

Mas, unidas! Que reverso veremos!

Perde o homem a liberdade e o poder do agravo.

E o senhor da terra e do mar curva-se escravo,

A uma mulher, adorável mulher que sozinha reinará.

Tua sagaz inteligência a palavra logo vai conjurar,

Possa a aprovação emanar de esse suave olhar!

Ela leu o texto, ponderou, apreendeu o significado, leu outra vez para ter certeza e dom inar bem seu conteúdo, e então o passou para Harriet. Sentou-se, sorrindo alegrem ente, e enquanto Harriet se debruçava confusa sobre o papel, num m isto de esperança e estupidez, Em m a pensava:

“Muito bem , Mr. Elton, m uito bem m esm o. Já li charadas piores.

Cortejar... um a pista m uito boa. Merece crédito por isso, é com o dizer claram ente ‘Por favor, Miss Sm ith, perm ita que m e dirij a a você. Aceite m inha charada e m inhas intenções ao m esm o tem po’.

Possa a aprovação emanar de esse suave olhar!

Harriet, exatam ente. Suave é a palavra certa para seus olhos... De todos os adj etivos este é o m ais apropriado.

Tua sagaz inteligência a palavra logo vai conjurar

Hum !... A sagaz inteligência de Harriet. Um hom em tem que estar m uito apaixonado para descrevê-la dessa form a. Ah, Mr. Knightley ! Queria que o senhor estivesse aqui para ver isso, acho que se convenceria. Pela prim eira vez na vida teria que adm itir que se enganou. Um a charada excelente, de fato, e m uito a propósito. Logo as coisas vão entrar no estado de crise”.

Em m a foi obrigada a suspender estes agradáveis pensam entos, que podiam ir bem longe, para responder às ansiosas e espantadas perguntas de Harriet.

– O que pode significar isso, Miss Woodhouse? ... O que pode ser? Não tenho a m enor ideia... não consigo nem adivinhar. O que tudo isso quer dizer?

Tente descobrir, Miss Woodhouse, m e aj ude, nunca vi nada tão difícil. Pergunto-m e quem foi o senhor da terra... E quem pode ser a m ulher? Acha que é um a charada boa? Que m ulher é essa?

A uma mulher, adorável mulher que sozinha reinará.

Será que é Netuno?

O rei dos mares, a sofrer sua dor!

Ou seria um tridente? Ou um a sereia? Ou o m ar? Oh, não, m ar tem apenas um a sílaba. Ele deve ser m uito inteligente, ou não teria escrito isso. Ah, Miss Woodhouse, acha que algum dia vam os descobrir?

– Sereias e tridentes! Bobagem ! Minha querida Harriet, o que está pensando? Qual seria o sentido dele nos trazer um a charada feita por um am igo sobre um a sereia ou um tridente? Dê-m e o papel e escute: Para Miss... aqui você pode ler ‘Para Miss Sm ith’.

A primeira ostenta a riqueza e a pompa dos reis Senhores do universo! Seu luxo e esplendor.

Esta prim eira parte é corte.

E da segunda já outra visão do homem vem,

O rei dos mares, a sofrer sua dor!

Esta é já. Sem a m enor dúvida. E aí tem os corteja, cortej ar. Agora o principal.

Mas, unidas! (a corte, você sabe) Que reverso veremos!

Perde o homem a liberdade e o poder do agravo.

E o senhor da terra e do mar curva-se escravo,

A uma mulher, adorável mulher que sozinha reinará.

Um cum prim ento m uito apropriado, sem dúvida! ... E então tem os a explicação que eu acho, m inha querida Harriet, você não terá m uita dificuldade em entender. Leia sozinha, com calm a. Não há dúvida de que foi escrito para você e som ente você.

Harriet não podia resistir m uito tem po a tão deliciosa persuasão. Leu as linhas finais com o coração palpitando de felicidade. Não conseguia falar, e nem desej ava, bastava apenas sentir. Em m a falou por ela.

– Este cum prim ento tem um sentido tão profundo e particular – disse ela – que não pode haver dúvida sobre as intenções de Mr. Elton. É a você que ele se refere... E logo terá um a prova cabal. Só pode ser isso, não posso estar tão enganada. Agora, porém , tudo ficou claro. Ele está tão decidido quanto sem pre desej ei, desde que a conheci. Sim , Harriet, desde então venho desej ando que isso aconteça. Jam ais poderia dizer se um a ligação entre você e Mr. Elton é a m ais desej ável ou a m ais natural das circunstâncias. Sua elegibilidade e sua probabilidade se igualam . Estou m uito feliz. Parabéns, m inha querida Harriet, de todo coração. Essa é um a união que um a m ulher deve se sentir orgulhosa em planej ar, e que só pode trazer coisas boas. Vai lhe trazer tudo de que precisa –

consideração, independência, um lar apropriado – vai colocá-la j unto de seus

verdadeiros am igos, perto de Hartfield e de m im , e selará nossa am izade para sem pre. Esta é um a aliança, Harriet, que j am ais envergonhará nenhum a de nós.

– Querida Miss Woodhouse!...

E “querida Miss Woodhouse” era tudo que Harriet conseguia articular no início, entre ternos abraços. E quando afinal chegaram a algo m ais parecido com um a conversa, ficou claro para Em m a que sua am iga via, sentia, antecipava e se lem brava apenas do que ela desej ava. A superioridade de Mr.

Elton fora am plam ente aceita.

– Tudo que a senhorita fala sem pre está correto – exclam ou Harriet – e agora eu acredito e tenho esperanças de que estej a certa; de outra form a, eu não teria im aginado isso. Está m uito além do que m ereço, pois Mr. Elton pode se casar com qualquer pessoa! Não pode haver duas opiniões a respeito dele. Ele é tão superior! Im agine, tão lindos versos... ‘Para Miss...’. Que inteligente da parte dele!... Será que é m esm o dirigido a m im ?

– Não quero fazer nem ouvir nenhum a pergunta sobre isso. É um a certeza. Pode acreditar no m eu j ulgam ento. É um a espécie de prólogo para um a peça, um a introdução para um capítulo, e logo será seguida pelo texto em si.

– É um a coisa que ninguém esperaria. Estou certa de que um m ês atrás eu m esm a não im aginaria isso!... As coisas estranhas que acontecem na vida!

– Quando as senhoritas Sm ith e os senhores Elton se relacionam , e eles de fato o fazem , é realm ente estranho; é tão fora do curso natural das coisas, do que é evidente e verdadeiram ente desej ável, que necessitam do pré-arranj o de outras pessoas para colocar as coisas na sua form a correta. Você e Mr. Elton estão j untos por circunstâncias, pertencem um ao outro por cada circunstância de seus respectivos lares. Seu casam ento será igual ao dos Westons. Parece haver algo no ar de Hartfield que dá ao am or a direção correta, e leva-o ao exato canal por onde deve fluir.

A trajetória de um amor verdadeiro nunca percorreu caminhos suaves...

[1]

Um a edição Hartfield de Shakespeare teria um a longa dissertação sobre esta passagem .

– É um a surpresa que Mr. Elton tenha se apaixonado por m im ... Eu, entre todas as m ulheres, que não o conhecia, que sequer havia lhe dirigido a palavra até a Festa de São Miguel. E logo ele, o m ais belo hom em que j á vi, a

quem todo m undo adm ira, quase com o Mr. Knightley ! Sua com panhia é tão disputada que dizem que ele j am ais precisaria fazer um a refeição sozinho, a não ser que quisesse, e que recebe m ais convites do que os dias da sem ana. E é tão com petente na igrej a! Miss Nash copiou todos os serm ões que ele fez desde que chegou a Highbury. Oh, Deus! Quando m e lem bro da prim eira vez que o vi!

Com o é pequeno, pensei. As duas Abbots e eu correm os para a sala da frente e ficam os espiando pela veneziana quando nos disseram que ele ia em bora, e Miss Nash veio e nos repreendeu, m andou que saíssem os e ficou lá para espiar ela m esm a. Depois m e cham ou de volta e m e m andou olhar tam bém , o que foi m uito gentil. E com o nós o acham os bonito! Ele vinha de braço dado com Mr.

Cole.

– Esta é um a aliança que todos os seus am igos, sej am eles quem forem , vão considerar agradável, desde que tenham bom senso; não vam os subm eter nossa conduta aos tolos. Se os seus am igos estão ansiosos para vê-la casada e feliz, eis um hom em cuj o am ável caráter garante isso; se desej am que você frequente o m esm o círculo a que pertencem , é dessa form a que conseguirão. E se o único desej o deles é vê-la bem casada, com o se costum a dizer, eis aí a tranquila fortuna, o respeitável estabelecim ento e a elevada posição social que deve satisfazê-los.

– Sim , é bem verdade. Com o a senhorita fala bem , adoro ouvi-la. A senhorita entende tudo. Mr. Elton e a senhorita são cada um m ais inteligente que o outro. Esta charada!... Mesm o que eu estudasse durante um ano, j am ais conseguiria fazer nada igual.

– Acho que ele estava testando suas habilidades, pela form a com que negou isso ontem .

– Acho que é, sem exceção, a m elhor charada que j á li.

– Eu nunca li um a charada m ais a propósito, com certeza.

– E é m ais longa que quase todas que j á vi.

– Não acho que o tam anho a favoreça m uito. Essas coisas, de form a geral, não podem ser m uito curtas.

Harriet estava por dem ais atenta aos versos para escutar. As m ais elevadas com parações surgiam em sua m ente.

– São coisas diferentes – disse ela, então, com as faces coradas. – Um a coisa é ter bom senso com o todo m undo e, tendo algo a dizer, sentar-se e escrever um a carta dizendo só o que deve, sem rodeios; outra coisa é escrever versos e enigm as com o estes.

Em m a não poderia desej ar um a rej eição m ais veem ente à carta escrita por Mr. Martin.

– Que versos tão doces! – continuou Harriet. – Especialm ente os dois últim os. Com o farei para retornar-lhe a poesia ou dizer que descobri a charada?

Ah, Miss Woodhouse, o que vam os fazer?

– Deixe que eu m e encarregue disso. Não precisa fazer nada. Ele voltará esta noite, tenho certeza, e então eu lhe devolverei o papel, dizendo algum a coisa sem im portância que não a com prom eta... Seus olhos suaves devem esperar o tem po certo para em anar. Confie em m im .

– Ah, Miss Woodhouse, é um a pena que eu não possa copiar a charada no caderno. Nunca consegui um a que valesse nem a m etade.

– Deixe de fora as duas últim as linhas, e não haverá razão para que não possa copiá-la.

– Ah, m as aquelas duas linhas são...

– O m elhor de tudo. Concordo... Mas para o seu prazer particular; e deve guardá-las apenas para isso. Mesm o que não as com partilhe com ninguém , não deixam de ter sido escritas, nem m udam de significado. Se as elim inar, toda a apropriação cessará, e restará apenas um a charada m uito galante e bonita, digna de qualquer coleção. Pode acreditar, ele não desej a ver sua charada desprezada, m uito m enos sua paixão. Um poeta apaixonado deve ser incentivado em am bas as capacidades, ou em nenhum a. Dê-m e o caderno, escreverei eu m esm a, assim ninguém poderá acusá-la de nada.

Harriet subm eteu-se. Apesar de sua m ente não ser capaz de separar aquela parte, ficou a observar para ter certeza que sua am iga não escrevia a declaração de am or. Parecia-lhe algo m uito precioso para ser divulgado.

– Nunca devo perm itir que esse caderno saia das m inhas m ãos – disse ela.

– Muito bem – replicou Em m a – é um sentim ento m uito natural, e quanto m ais durar, m ais m e fará feliz. Mas aí vem m eu pai, espero que não se im porte que eu leia a charada para ele, vai deixá-lo tão contente! Ele gosta de qualquer coisa do gênero, especialm ente aquelas que louvam as m ulheres. Ele tem o m ais terno espírito de galanteria em relação a todas nós! Você tem que perm itir que eu leia para ele.

Harriet estava séria.

– Minha querida Harriet, você não deve exaltar tanto essa charada...

Acabará traindo seus sentim entos de form a pouco apropriada, se for consciente dem ais ou ansiosa dem ais, e se atribuir m ais significado ou talvez até todo o significado que esses versos possam ter. Não perm ita que um pequeno tributo de adm iração a dom ine. Se ele desej asse tanto segredo não teria deixado a charada enquanto eu estava presente, m as parece que a entregou m ais para m im do que para você. Não vam os ser tão solenes sobre o assunto, ele j á tem encoraj am ento suficiente sem que nossas alm as precisem suspirar diante dessa charada.

– Oh, claro que não! Espero não estar sendo ridícula sobre isso, faça com o achar m elhor.

Mr. Woodhouse entrou e logo tocou no assunto, perguntando com o fazia a toda hora:

– Bem , m inhas queridas, com o vai indo o caderno? Conseguiram algum a coisa nova?

– Sim , papai, tem os algo para ler, algo bem novo. Acham os um papel sobre a m esa esta m anhã... (deixado por um a fada, talvez)... Contendo um a charada m uito bonita, acabam os de copiá-la.

Ela leu lenta e distintam ente, com o ele gostava, e repetiu duas ou três vezes, explicando cada parte enquanto prosseguia. Ele ficou m uito contente, e bastante im pressionado com a conclusão, com o Em m a havia previsto.

– Ah, m uito j usto, m uito apropriado, de fato... Verdade. ‘Mulher, adorável m ulher’. É um a charada tão bonita, m inha querida, que posso facilm ente im aginar quem é a fada que a trouxe. Ninguém a não ser você Em m a, escreveria de form a tão bela.

Ela apenas inclinou a cabeça e sorriu. Depois de pensar um pouco e dar um pequeno suspiro, Mr. Woodhouse acrescentou:

– Ah! Não é difícil saber de quem você herdou esse talento! Sua querida m ãe era tão inteligente para todas essas coisas! Se ao m enos eu tivesse a m em ória dela, m as não consigo lem brar-m e de nada... Nada além dessa charada que você m e ouviu m encionar, só consigo lem brar-m e da prim eira estrofe e sei que tem várias.

Cathy, uma bela, mas fria donzela,

Acendeu uma vela que ainda lamento,

O rapaz de capuz que chamei para ajudar,

Temeroso de tão perto se aproximar,

Foi fatal para o meu terno no momento.

Isso é tudo de que consigo lem brar-m e... Mas é um enigm a m uito inteligente, todo ele. Eu pensei, m inha querida, que j á o tivesse conseguido.

– Sim , papai, está na segunda página. Nós o copiam os dos

Extratos Elegantes. É de Garrick[2], com o sabe.

– Ah, é verdade. Gostaria de m e lem brar um pouco m ais dele.

Cathy, uma bela, mas fria donzela,

O nom e m e faz lem brar a pobre Isabella, pois quase a batizam os de Catherine, com o a sua avó. Espero que ela venha sem ana que vem . Você j á pensou, m inha querida, onde vai colocá-la, e qual será o quarto das crianças?

– Ah, sim ! Ela ocupará seu antigo quarto, é claro, o m esm o que sem pre ocupa aqui. E as crianças ficarão no quarto destinado a elas, com o sem pre, o senhor sabe. Por que deveria haver algum a m udança?

– Não sei, m inha querida... Mas faz tanto tem po que ela não vem aqui!

Desde a últim a Páscoa e m esm o assim por poucos dias... É m uito desagradável que Mr. John Knightley sej a um advogado... Pobre Isabella!... Foi afastada de todos nós de m odo m uito triste!... E com o vai lam entar que Miss Tay lor não estej a aqui!

– Pelo m enos não vai ser um a surpresa, papai.

– Não sei, m inha querida. Posso afirm ar que fiquei m uito surpreso quando soube que Miss Tay lor ia casar-se.

– Podem os pedir a Mr. e Mrs. Weston que venham j antar conosco, enquanto Isabella estiver aqui.

– Sim , m inha querida, se houver tem po... Mas... (em um tom de voz m uito deprim ido)... Ela vem para ficar um a sem ana, apenas. Não haverá tem po para nada.

– É um a pena que eles não possam ficar m ais... Mas parece que é questão de necessidade. Mr. John Knightley deve estar de volta a Londres no dia vinte e oito, e devem os ser gratos, papai, pois ficarão conosco todo o tem po em que estiverem aqui na região, não irão ficar dois ou três dias em Donwell Abbey.

Mr. Knightley foi bastante gentil em desistir da visita deles neste Natal, apesar de

que não os recebe em sua casa há tanto tem po com o nós.

– Seria de fato bastante difícil, m inha querida, se a pobre Isabella tivesse que ir a outro lugar além de Hartfield.

Mr. Woodhouse j am ais perm itiria que Mr. Knightley tivesse algum direito sobre o irm ão, nem que qualquer pessoa tivesse direitos sobre Isabella, além dele m esm o. Sentou-se e m editou por alguns m om entos, depois disse:

– Não sei por que a pobre Isabella seria obrigada a voltar tão cedo, m esm o que o m arido tenha que voltar. Acho, Em m a, que vou tentar persuadi-la a ficar m ais um tem po conosco, ela e as crianças podem m uito bem ficar.

– Ah, papai... Isso é um a coisa que o senhor nunca foi capaz de com preender, e acho que nunca será. Isabella não gosta de ficar longe do m arido.

Era um a verdade incontestável. Apesar de contrariado, Mr. Woodhouse apenas concordou com um suspiro de subm issão. Quando Em m a viu que ele estava desanim ado pela ideia de sua querida filha ser tão apegada ao m arido, im ediatam ente levou o assunto por outro cam inho, de m odo a m elhorar a disposição do pai.

– Harriet nos dará o prazer da sua com panhia tanto quanto puder, enquanto m inha irm ã e o m arido estiverem aqui. Tenho certeza que vai adorar as crianças. Tem os m uito orgulho das crianças, não é papai? Quem será que ela vai achar m ais bonito, Henry ou John?

– Ah, m e pergunto qual dos dois. Meus pobres queridos, com o ficarão felizes em vir. Eles adoram ficar em Hartfield, Harriet.

– Im agino que sim , senhor. Não conheço ninguém que não goste.

– Henry é um ótim o m enino, m as John é igual à m ãe. Henry é o m ais velho, e recebeu o m eu nom e, não o do pai. John, o segundo, recebeu o nom e do pai. Algum as pessoas se surpreendem , eu acho, que o m ais velho não tenha o nom e do pai, m as Isabella quis que ele se cham asse Henry, o que achei m uito bonito da parte dela. E é um m enino m uito inteligente, de fato. Todos são notavelm ente inteligentes, e tem m odos tão bonitos. Eles chegam perto da m inha cadeira e dizem “Vovô, pode m e dar um pedaço de barbante?”, e um a vez Henry m e pediu um a faca, m as eu lhe disse que facas são apenas para avós.

Acho que às vezes o pai é rude dem ais com eles.

– Ele lhe parece rude porque o senhor é tão gentil, papai – disse Em m a

– m as se o com parar com outros pais verá que ele não é rude. Ele quer que os m eninos sej am ativos e fortes, e se eles se com portam m al, ele os repreende na

m esm a hora. Mas Mr. John Knightley é um pai afeiçoado, com toda certeza. As crianças o adoram .

– E então vem o tio e os j oga para o alto, daquele j eito assustador!

– Mas eles gostam , papai, não há nada de que gostem m ais. É tão divertido para eles, que se o tio não organizasse um revezam ento, aquele que com eçasse j am ais daria lugar ao outro.

– Bem , não posso entender isso.

– Isso acontece com todos nós, papai. A m etade do m undo não consegue entender os prazeres da outra m etade.

Mais tarde naquela m anhã, quando as m oças iam separar-se a fim de se prepararem para o encontro usual no chá das quatro horas, o herói da inim itável charada voltou. Harriet afastou-se, m as Em m a o recebeu com o sorriso de sem pre; seu olhar atento logo percebeu nele a consciência de ter feito um a j ogada... Lançado um dado... E voltava para ver o resultado. Seu m otivo ostensivo, no entanto, era saber se a sua presença era necessária em Hartfield naquela noite com o parceiro de j ogo para Mr. Woodhouse, ou se ele poderia ser dispensado. Se fosse necessário, poria tudo o m ais de lado; m as se não fosse o caso, seu am igo Cole o havia convidado com tanta insistência para j antar... E

tinha feito tanta questão disso que ele prom etera ir, dependendo de confirm ação.

Em m a agradeceu-lhe, m as não podia perm itir que desapontasse seu am igo, seu pai certam ente teria parceiros de j ogo. Ele insistiu... Ela tornou a declinar. Quando Mr. Elton parecia prestes a fazer a saudação de despedida, ela pegou o papel e devolveu-lhe, dizendo:

– Ah! Aqui está a charada que o senhor foi tão gentil em deixar conosco, obrigado por nos deixar vê-la. Nós a adm iram os tanto que tom ei a liberdade de copiá-la na coleção de Miss Sm ith. Seu am igo não se im portará, espero. É claro que só transcrevi as oito prim eiras linhas.

Mr. Elton certam ente não sabia bem o que dizer. Parecia estar em dúvida... Um tanto confuso. Disse algum a coisa sobre “honra”, olhou para Em m a e para Harriet e, vendo o livro aberto sobre a m esa, pegou-o e passou a exam iná-lo com a m aior atenção. Tentando superar aquele m om ento em baraçoso, Em m a sorriu e disse:

– Peço que m e desculpe com seu am igo, m as um a charada tão boa não pode ser conhecida apenas de um as poucas pessoas. Ele pode contar com a aprovação de qualquer m ulher, enquanto escrever de m odo tão galante.

– Não hesito em dizer – respondeu Mr. Elton, apesar de hesitar bastante

enquanto falava – não hesito em dizer... Enfim , se m eu am igo sentir o m esm o que eu sinto... Não tenho a m enor dúvida que, se pudesse ver seu pequeno poem a tão apreciado com o eu vi (olhando de novo para o livro e recolocando-o sobre a m esa), consideraria este o m om ento m ais im portante de sua vida.

Depois de dizer estas palavras o j ovem saiu rapidam ente. Em m a não pode refletir logo no assunto, pois apesar de todas as agradáveis qualidades de Mr.

Elton, havia certo exibicionism o nas palavras dele que lhe dava ím petos de rir.