Emma

Jane Austen · Capítulo 17 de 113

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Emma

Capítulo XVI

Em casa Em m a foi recebida pelo pai com extrem a alegria, pois o cavalheiro estivera tem eroso da solitária viagem de volta pela alam eda do Vicariato. Havia um a curva tão perigosa que ele nem podia pensar, e em m ãos estranhas, um cocheiro com um ao invés de Jam es. Parece que só esperavam seu retorno para que tudo voltasse a ficar em paz. Mr. John Knightley, envergonhado de seu m au hum or, era agora só bondade e sorrisos. Mostrava-se tão atencioso com o bem estar do sogro que – em bora ainda não disposto a acom panhá-lo em um prato de m ingau – concordava que o alim ento era bastante saudável. E o dia

term inou em paz e conforto para toda sua fam ília, exceto ela. Sua m ente nunca estivera tão perturbada, e precisou fazer um grande esforço para parecer atenta e alegre, até que chegou a hora de se recolherem , e ela pode então entregar-se ao alívio de um a calm a reflexão.

CAPÍTULO XVI

A criada j á havia enrolado seu cabelo e fora dispensada, quando Em m a finalm ente sentou-se para pensar e sentir-se infeliz. Era um a situação deplorável, sem dúvida!... Um a verdadeira reviravolta em tudo que havia planej ado! E

quantas coisas desagradáveis aconteceram ! Que golpe para Harriet! Isso era o pior de tudo. Aquela situação trazia dor e hum ilhação, de um tipo ou de outro, m as com parado ao sofrim ento de Harriet não era nada. E ela teria concordado, de bom grado, em subm eter-se a um erro ainda m aior, em sentir-se m ais enganada, m ais infeliz do que j á estava por tam anho erro de j ulgam ento, se os efeitos de seus enganos se lim itassem a ela.

“Se não a tivesse persuadido a gostar desse hom em , eu poderia suportar qualquer coisa. Ele devia ter um a grande certeza a m eu respeito... m as pobre Harriet”.

Com o pudera se enganar tanto! Ele dissera que nunca havia pensado em Harriet... nunca! Olhou para o passado, tanto quanto podia, m as era tudo m uito confuso. Ela concebera um a ideia, fizera suposições, e depois interpretara tudo de m odo a se adequar a essa suposição. As m aneiras dele, todavia, deviam ter sido im precisas, vacilantes, duvidosas, ou ela nunca teria com etido tal erro.

O quadro! Com o ele ficara anim ado com o quadro!... E a charada... e tantas outras circunstâncias. Com o pareciam todas apontar claram ente para Harriet. Na verdade, a charada, com o tal verso sobre a “sagaz inteligência”...

bem .... m as tam bém tinha a parte do “suave olhar”... não se adaptava a ninguém , de fato. Era um a m isturada sem sentido nem bom gosto. Quem poderia entender algum a coisa no m eio de tanta burrice?

Em m a com certeza notara que m uitas vezes, especialm ente nos últim os tem pos, as m aneiras dele para com ela eram desnecessariam ente galantes. Ela tom ara aquilo com o um a m aneira própria dele, um a m era falha de j ulgam ento, de conhecim ento e de gosto, com o um a prova entre outras de que ele nem sem pre frequentara a m elhor sociedade, que apesar de toda a gentileza de suas m aneiras faltava-lhe a verdadeira elegância. Mas até o m om ento j am ais suspeitara, nem por um instante, que isso significasse algo além de um agradecido respeito por ela com o am iga de Harriet.

Devia a Mr. John Knightley a prim eira ideia sobre o assunto, o prim eiro indício dessa possibilidade. Não havia com o negar que os dois irm ãos eram m uito observadores. Lem brou-se do que Mr. Knightley dissera um a vez sobre Mr. Elton, da advertência que havia feito, de sua convicção de que Mr. Elton não faria um casam ento im prudente. E corou ao pensar em com o era verdadeiro o

conhecim ento que ele m ostrara do caráter dele, m uito m elhor do que o dela.

Sentia-se terrivelm ente m ortificada! Mr. Elton estava provando ser, em m uitos aspectos, exatam ente o contrário do que ela pensara e acreditara que ele fosse: orgulhoso, arrogante, vaidoso, cheio de si e pouco preocupado com os sentim entos dos outros.

Contrariando o curso natural das coisas, a necessidade de Mr. Elton de declarar-se a ela o dim inuíra em sua opinião. Suas declarações e propostas não o aj udaram . Desprezava seu afeto e sentia-se insultada por suas pretensões. Ele desej ava fazer um bom casam ento, e tendo a arrogância de levantar seus olhos para ela, fingia estar apaixonado. Estava bastante certa de que ele não sofreria desapontam ento algum que necessitasse de cuidados. Não havia nada parecido com um afeto verdadeiro, nem em suas palavras, nem em suas m aneiras. Mr.

Elton podia suspirar e falar palavras bonitas em abundância, m as ela dificilm ente vira ou percebera algum a expressão ou tom de voz m enos próxim os do verdadeiro am or. Não precisava se incom odar em ter pena dele, pois ele desej ava apenas subir na vida e enriquecer. E se Miss Woodhouse de Hartfield, a herdeira de trinta m il libras, não era tão fácil de conquistar com o ele pensara, logo tentaria com um a Miss Alguém qualquer, herdeira de vinte ou de dez m il libras.

Mas o que m ais a irritava era ele ter falado em encoraj am ento, ter achado que ela estava ciente das suas pretensões, que estava disposta a aceitar a sua corte, e que desej ava (em sum a) casar-se com ele! Ter tido a pretensão de considerar-se igual a ela em condição social e em intelecto! Colocara sua am iga num nível tão baixo, dem onstrando conhecer bem as gradações de nível que estavam abaixo dele, e era tão cego aos níveis m ais elevados, a ponto de im aginar que tivesse o direito de declarar-se a ela!

Talvez não fosse j usto esperar que Mr. Elton tivesse consciência do quanto era inferior a ela em talento e nos refinam entos da m ente. A própria falta dessas qualidades im pediam que ele percebesse isso. Mas devia saber que em fortuna e im portância ela era m uito superior a ele. Devia saber que os Woodhouses estavam estabelecidos em Hartfield há várias gerações, e eram o ram o m ais novo de um a fam ília m uito antiga... e que os Eltons não eram ninguém . As terras de Hartfield não eram consideráveis, por certo, eram apenas um ponto dentro da propriedade de Donwell Abbey, à qual o restante de Highbury pertencia. Mas a fortuna dos Woodhouse, vinda de outras fontes, era grande o suficiente para torná-los quase tão im portantes quanto a própria Donwell Abbey, em todos os outros aspectos. E os Woodhouses desfrutavam de um alto grau de consideração na vizinhança, da qual Mr. Elton passara a fazer parte havia apenas dois anos. Viera para abrir seu cam inho com o pudesse, com relacionam entos apenas no ram o do com ércio, e nada para recom endá-lo que

não fosse sua posição de vigário e suas boas m aneiras. Mas im aginara que Em m a estava apaixonada por ele, e contava com isso. Depois de zangar-se um pouco sobre a incongruência de m aneiras gentis e um a cabeça vaidosa, Em m a viu-se obrigada a honestam ente parar e adm itir que seu próprio com portam ento para com ele tinha sido tão am ável e prestativo, tão cheio de cortesia e atenção, com o (supondo que seu m otivo real era despercebido) podem j ustificar um hom em de observação com um e delicadeza, com o o Sr. Elton, em se im aginando com o um favorito m uito decidido. Se ela tivesse interpretado tão m al seus sentim entos, ela teria pouco direito de saber que ele, com um auto-interesse de enganá-lo, poderia tê-la confundido.

O prim eiro e pior erro fora da parte dela. Foi um a loucura, foi errado desem penhar um papel tão ativo para tentar unir duas pessoas. Era aventurar-se a ir longe dem ais, assum ir um risco grande dem ais, tornando superficial o que devia ser sério, com plicado o que devia ser sim ples. Ela estava tão preocupada e consternada que resolveu não fazer m ais esse tipo de coisa.

“E ainda levei a pobre Harriet a ficar com pletam ente apaixonada por esse hom em . Ela nunca teria pensado nele se não fosse por m im , nunca teria tido esperanças a seu respeito se eu não tivesse lhe garantido que ele estava apaixonado, pois é tão m odesta e hum ilde com o pensei que ele fosse. Ah! E

pensar que fiquei satisfeita em persuadi-la a não aceitar o j ovem Martin! Eu sei que estava certa, e fiz m uito bem , m as devia ter parado por aí e deixado o resto ao acaso. Eu a apresentei à m elhor sociedade e dei-lhe a oportunidade de agradar a alguém de m aior im portância, não devia ter ido m ais longe. Mas agora, pobre m oça, vai perder a paz de espírito por algum tem po. Fui am iga dela apenas pela m etade, e se ela não ficar m uito desapontada, sei que não consigo pensar em qualquer outro que sej a conveniente para ela. William Coxe, talvez...

Ah, não! Não suporto William Coxe... é um j ovem advogado atrevido”.

Em m a parou de rir e corou ante sua própria recaída, e então voltou aos pensam entos m ais sérios, ainda que desanim adores, sobre o que acontecera, com o podia ter sido e com o devia ter sido. A terrível explicação que tinha que dar a Harriet, o quanto a pobre Harriet sofreria com o terror de futuros encontros, a dificuldade de term inar ou não a am izade, a necessidade de dom inar os sentim entos, esconder ressentim entos e evitar escândalos. Tudo isso era o bastante para ocupá-la por m ais algum tem po em tristes reflexões. Acabou por deitar-se, finalm ente, sem ter nada ainda acertado, a não ser sua convicção de ter com etido um a terrível tolice.

Para um a disposição j ovem e alegre com o a de Em m a, ainda que tem porariam ente m elancólica durante a noite, o retorno do dia sem pre trazia a renovação do espírito. A j uventude e alegria da própria m anhã faziam um a feliz

analogia e operavam m ilagres. E se a angústia não fosse suficiente para m anter os olhos abertos durante a noite, era certo que se abririam pela m anhã com a dor suavizada e brilhantes esperanças.

Em m a levantou-se no dia seguinte m ais disposta ao consolo do que quando se deitara, m ais inclinada a ver o fim dos m ales que se abateram sobre ela, os quais esperava resolver de form a tolerável.

Era um grande consolo saber que Mr. Elton não a am ava de fato, nem era tão am igável a ponto de deixá-la m elindrada por desapontá-lo, e que Harriet não possuía aquela natureza superior em que os sentim entos são m ais profundos e duradouros. Tam bém se sentia aliviada por não haver necessidade de que alguém soubesse o que se passara, exceto os três envolvidos, e especialm ente por não causar nem um m om ento de ansiedade ao pai.

Eram pensam entos bastante reconfortantes, e a espessa cam ada de neve que cobria o solo veio em sua aj uda, pois era a m elhor j ustificativa de todas para que os três se m antivessem afastados no m om ento.

O tem po era o m ais favorável aos seus propósitos. Apesar de ser o dia de Natal ela não poderia ir à igrej a. Seu pai ficaria infeliz se a filha tentasse sair, e ela estaria a salvo de ter ou despertar ideias desagradáveis. Durante vários dias foi a m ais digna prisioneira, pois o solo estava coberto de neve e a atm osfera nesse estado indefinido entre o gelo e o degelo, que é o pior de todos para cam inhadas. Todas as m anhãs com eçavam com chuva ou neve, e cada noite se iniciava com um frio de gelar. Não era possível nenhum a com unicação com Harriet, a não ser por bilhetes. Não poderia ir a igrej a no dom ingo, com o no dia de Natal, e nenhum a desculpa seria necessária para j ustificar a ausência de Mr.