Emma

Jane Austen · Capítulo 47 de 113

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Emma

Capítulo IX

As m editações de Em m a, enquanto cam inhava de volta para casa, não foram interrom pidas. Mas, ao entrar na sala, encontrou aqueles que deviam provocá-las. Mr. Knightley e Harriet haviam chegado durante a sua ausência, e estavam sentados com seu pai. Mr. Knightley levantou-se de im ediato e, de m odo decididam ente m ais grave do que o habitual, disse:

– Eu não partiria sem que pudesse vê-la, m as não tenho tem po a perder, e daqui estou partindo diretam ente. Vou a Londres, passar alguns dias com John e Isabella. Você tem algum a coisa a m andar ou dizer, além do “am or”

que não é preciso carregar?

– Não, não tenho nada. Essa não é um a decisão m uito repentina?

– Sim , um pouco... Andei pensando nisso por algum tem po.

Em m a tinha certeza de que ele não a havia perdoado, nem parecia o m esm o. O tem po, todavia, iria m ostrar-lhe que deviam voltar a ser am igos.

Enquanto o cavalheiro estava de pé, com o se pretendesse ir em bora, m as sem conseguir sair... Mr. Woodhouse com eçou com suas perguntas.

– Bem , m inha querida, conseguiu chegar lá a salvo?... E com o estão m inha boa e velha am iga e sua filha?... Garanto que ficaram encantadas com sua visita. A querida Em m a foi visitar Mrs. e Miss Bates, Mr. Knightley, com o eu j á lhe disse. Ela é sem pre tão atenciosa com as Bates!

Em m a ficou ruborizada diante desse elogio que não m erecia. Então, com um sorriso e um m eneio de cabeça, que diziam m uito, olhou para Mr.

Knightley... Pareceu-lhe que houvera um a im pressão instantânea a seu favor, com o se os olhos dele captassem a verdade nos olhos dela, e tudo de bom que havia nos sentim entos dela fosse, ao m esm o tem po, percebido e apreciado. Seus olhos a fitaram com um brilho de afeição. Ela ficou m uito grata, e essa gratidão aum entou no m om ento seguinte, quando ele fez um m ovim ento que m ostrava m ais do que am izade... Tom ou a m ão dela... se fora ela que fizera o prim eiro m ovim ento, Em m a não saberia dizer, talvez tivesse oferecido a m ão... Ele então a pegou, apertou-a e certam ente estava a ponto de levá-la aos lábios, quando de repente desistiu por algum m otivo. Ela não podia entender porque ele sentira tal escrúpulo, porque m udara de ideia quanto j á tinha chegado quase ao ponto de beij ar-lhe a m ão. Talvez houvesse pensado m elhor, im aginou Em m a. Era indiscutível, no entanto, que a intenção existira. E fosse porque Mr. Knightley, de form a geral, não era dado a galanteios, fosse por qualquer outra coisa que acontecesse, ela achou o gesto adequado. Era próprio dele, com sua natureza tão

sim ples e ao m esm o tem po tão digna. Em m a só podia lem brar com grande satisfação daquele im pulso contido, pois m ostrava um a perfeita am izade. Mr.

Knightley partiu em seguida... saiu rapidam ente. Ele sem pre agia com a vivacidade característica de sua m ente, que não era indecisa nem hesitante, m as no m om ento da partida sua atitude pareceu ainda m ais decidida do que o norm al.

Em m a não se arrependia de ter ido visitar Miss Bates, m as desej ava ter saído de lá uns dez m inutos antes. Teria sido um grande prazer falar sobre a situação de Jane Fairfax com Mr. Knightley. Tam bém não poderia lam entar a partida dele para Brunswick Square, pois sabia o quanto sua visita seria apreciada, m as poderia acontecer em um a ocasião m elhor; e se tivessem conhecim ento dela antes, a visita seria m ais apreciada. Eles se separaram com o am igos, no entanto, e ela não poderia se enganar sobre o significado da expressão dele e do galanteio não concluído. Tudo fora feito para assegurar-lhe que recuperara com pletam ente seu bom conceito j unto a ele. Soube que Mr. Knightley estivera em Hartfield por m eia hora. Era um a pena que não tivesse retornado antes!

Na esperança de distrair o espírito de seu pai do desagrado da partida de Mr. Knightley para Londres – e de form a tão rápida, e ainda por cim a a cavalo, o que ela sabia que tornaria tudo pior – Em m a contou as novidades sobre Jane Fairfax. Sua esperança no efeito dessas notícias foi j ustificada, pois forneceu um assunto m uito útil e interessante que não perturbava o velho senhor.

Há m uito tem po ele j á aceitara a ideia de Jane Fairfax tornar-se governanta em outro local, e pôde falar disso com satisfação. Mas a ida de Mr. Knightley para Londres era um golpe inesperado.

– Estou m uito feliz, m inha querida, de saber que ela estará tão bem instalada. Mrs. Elton tem um a boa natureza, é m uito agradável, e ouso dizer que suas am izades são j ustam ente o que deveriam ser. Espero que o lugar sej a bastante seco e que a saúde de Miss Fairfax receba bons cuidados. Isso deve ser prioridade para eles, assim com o a saúde de Miss Tay lor sem pre foi para m im .

Você sabe, m inha querida, Miss Fairfax vai ser para essa dam a o m esm o que Miss Tay lor foi para nós. E espero que sej a m elhor em um aspecto: que não sej a induzida a ir em bora depois de fazer da casa dessa senhora o seu lar por m uito tem po.

O dia seguinte trouxe notícias de Richm ond que deixaram tudo o m ais em segundo plano. Um correio expresso chegou a Randalls para anunciar a m orte de Mrs. Churchill! Em bora o sobrinho não tivesse nenhum a razão particular para se apressar por causa dela, a senhora não vivera m ais do que trinta e seis horas após o retorno dele. Um repentino ataque apoplético, de natureza diferente de qualquer outra coisa que seu estado geral de saúde indicava, provocara sua m orte, após um a curta agonia. A grande Mrs. Churchill

não existia m ais.

O acontecim ento foi sentido com o essas coisas devem ser sentidas.

Todos estavam graves e tristes de algum a m aneira, sentiam ternura pela pessoa que partira, solicitude para com os am igos sobreviventes e, depois de um espaço de tem po razoável, curiosidade para saber onde ela seria enterrada. Segundo Goldsm

ith[1], quando um a m ulher adorável se inclina à insensatez, nada m ais tem a fazer senão m orrer; e quando se torna desagradável a m orte é igualm ente recom endada com o form a de acabar com a m á-fam a. Mrs. Churchill, após ser detestada por pelo m enos vinte e cinco anos, era agora lem brada com com passiva tolerância. Em um ponto ela recebeu plena j ustiça: ninguém j am ais adm itira que ela estivesse seriam ente doente. A m orte absolveu-a de todas as acusações de fingim ento, de egoísm o e de queixas im aginárias.

“Pobre Mrs. Churchill, com certeza estava sofrendo m uito, m ais do que qualquer um j am ais poderia supor... e a dor contínua é um a prova para o espírito.

Foi um a coisa m uito triste... um grande choque... Apesar de todas as suas falhas, o que seria de Mr. Churchill sem ela? A falta de Mrs. Churchill seria terrível para Mr. Churchill, realm ente. Ele j am ais se recuperaria..”.

Até m esm o Mr. Weston sacudiu a cabeça, solenem ente, e disse:

– Ah, pobre criatura! Quem poderia im aginar um a coisa dessas!

E resolveu que o seu luto deveria ser o m ais elegante possível. Sua esposa perm aneceu sentada, suspirando e falando sobre as grandes qualidades da falecida com com iseração e bom senso, verdadeira e firm e. Com o isso afetaria Frank foi um a das prim eiras preocupações de am bos. Essa tam bém foi um a especulação que logo surgiu na m ente de Em m a. Ela dedicou alguns pensam entos ao caráter de Mrs. Churchill e à tristeza do m arido, com reverência e com paixão, e então passou a considerar outros sentim entos m ais suaves, com o o m odo com que Frank seria afetado, quais os benefícios que teria, se passaria a ter m ais liberdade. Ela viu, num m om ento, tudo de bom que poderia advir dessa circunstância. Agora, um relacionam ento com Harriet não encontraria oposição.

Mr. Churchill, sem a esposa, não era tem ido por ninguém . Era um hom em tranquilo, m anej ável, que podia ser persuadido pelo sobrinho a fazer qualquer coisa. Tudo que restava a Em m a desej ar era que o sobrinho de fato quisesse o com prom isso, pois com toda sua boa vontade, ela não sentia que ele j á houvesse se decidido.

Harriet se com portou m uito bem na ocasião, com grande autocontrole.

Se ela sentiu algum a esperança, não m anifestou nada. Em m a ficou gratificada por observar tam anha prova de força de caráter, e evitou fazer qualquer alusão que pudesse por em risco essa força. Falaram de Mrs. Churchill, portanto, com

m útua contenção.

Chegaram a Randalls algum as breves cartas de Frank, com unicando o que era m ais urgente em relação ao seu estado e seus planos. Mr. Churchill estava m elhor do que se esperava. Sua prim eira atitude, depois que o caixão fúnebre foi enviado para Yorkshire, foi visitar um grande e velho am igo em Windsor, a quem Mr. Churchill vinha prom etendo um a visita havia dez anos.

No m om ento, não havia nada a fazer por Harriet. Só o que restava a Em m a era desej ar-lhe felicidades no futuro.

Havia m ais urgência em m ostrar atenção para com Jane Fairfax, cuj os proj etos estavam por ser concluídos, enquanto os de Harriet apenas com eçavam , e cuj o com prom isso de trabalho não perm itia nenhum atraso por parte de ninguém , em Highbury, que desej asse dem onstrar-lhe gentileza. Para Em m a, esse desej o era de prim eira ordem . Sentia um grande arrependim ento por sua antiga frieza, e a pessoa a quem ela passara tantos m eses desprezando era a m esm a a quem agora desej ava dar m ostras de afeto e sim patia. Desej ava ser-lhe útil, desej ava m ostrar que dava valor à sua am izade e que tinha respeito e consideração por ela. Resolvera insistir para que a m oça passasse um dia em Hartfield, e m andara um bilhete convidando-a. O convite foi recusado com um a m ensagem verbal “Miss Fairfax não se sentia bem o suficiente para escrever”. E

quando Mr. Perry visitou Hartfield, naquela m esm a m anhã, parecia que ela estava tão indisposta que não poderia sequer receber visitas, m esm o contra a vontade dela. Miss Fairfax vinha sofrendo de crises severas de enxaqueca e de um a febre nervosa, a tal ponto que ele achava que ela não poderia ir para a casa de Mrs. Sm allridge na data com binada. Sua saúde estava com pletam ente abalada no m om ento – não tinha quase apetite algum – e em bora não houvesse sintom as que provocassem alarm e, nada relacionado ao problem a pulm onar que era a preocupação da fam ília, Mr. Perry estava preocupado com ela. Achava que a j ovem fizera um esforço m aior do que poderia suportar, e que ela própria sentia isso, em bora não pudesse fazer nada. Seu espírito estava abatido. Além disso, pelo que ele observara, a casa da avó não era o lugar adequado para um a pessoa que sofresse de um a doença nervosa. Ficava confinada apenas ao seu quarto, e ele desej asse que fosse diferente. Sua boa tia, m esm o sendo um a velha am iga, não era a com panhia adequada para um a doente desse tipo. Seus cuidados e atenções não podiam ser questionados, eram grandes até dem ais, na verdade.

Mas tem ia que isso fizesse m ais m al do que bem à Miss Fairfax. Em m a ouviu com a m ais profunda consternação. Sentia pena dela, cada vez m ais, e olhava ao redor ansiosa por achar algum m odo de ser útil. Pensou em tirá-la da com panhia da tia, nem que fosse por um a ou duas horas, para que pudesse respirar ar puro e m udar um pouco de cenário, além de ouvir um a conversa racional. Mesm o que fosse por apenas um a ou duas horas, devia fazer-lhe bem . No dia seguinte

escreveu novam ente para dizer, na linguagem m ais delicada que pode, que m andaria a carruagem buscá-la na hora que ela determ inasse, dizendo que Mr.

Perry decididam ente aprovara tal exercício para sua paciente. A resposta fora este curto bilhete:

“Miss Fairfax m anda seus cum prim entos e agradece, m as não pode fazer qualquer exercício”.

Em m a sentiu que seu bilhete m erecia um a resposta m elhor, m as era im possível discutir com palavras, cuj o desenho trêm ulo e desigual m ostrava claram ente a indisposição da rem etente. Então apenas pensou em com o poderia com bater essa falta de vontade da m oça em ser vista ou aj udada. A despeito da resposta, pediu a carruagem e dirigiu-se à casa de Miss Bates, na esperança de que Jane fosse convencida a j untar-se a ela, m as isso não aconteceu. Miss Bates veio até a carruagem , cheia de gratidão, concordando plenam ente que um passeio ao ar livre faria m uito bem à sobrinha, e que tentara tudo que a m ensagem dela dizia, m as fora em vão. Foi obrigada a adm itir que não tivera sucesso, Jane estava irredutível, a m era ideia de sair fazia com que se sentisse pior. Em m a desej ava vê-la para tentar persuadi-la, m as antes que pudesse insinuar isso, Miss Bates deu a entender que prom etera à sobrinha não deixar que Miss Woodhouse entrasse sob nenhum pretexto.

“A verdade é que a pobre Jane não suportava ver ninguém – ninguém m esm o. Mrs. Elton, na verdade, não podia ser im pedida, e Mrs. Cole insistira tanto... e Mrs. Perry dissera tanta coisa... m as, exceto elas, Jane realm ente não podia receber ninguém ”.

Em m a não desej ava ser incluída na m esm a classe que as Mrs. Elton, Perry ou Cole, que forçavam sua presença em qualquer lugar. Nem achava que tinha algum direito de preferência, portanto subm eteu-se e apenas perguntou à Miss Bates sobre o apetite e a dieta da sobrinha, no que ela achava que podia aj udar. Quanto a isso a pobre Miss Bates foi m uito infeliz e m uito com unicativa.

Jane m al tocava na com ida. Mr. Perry recom endara um a com ida nutritiva, m as nada do que m andavam (e ninguém nunca tivera vizinhos tão bons) era do agrado dela.

Assim que chegou em casa Em m a cham ou a governanta, pensando em exam inar a dispensa, e logo despachou para a casa de Miss Bates um a porção de ararutas da m ais alta qualidade, com um bilhete am igável. Meia hora depois as ararutas foram devolvidas, com m ilhões de agradecim entos de Miss Bates, m as

“a querida Jane não ficaria satisfeita se não devolvesse, era algo que ela não podia aceitar e, além disso, ela insistia em dizer que não precisava de nada”.

Mais tarde Em m a soube que Jane Fairfax fora vista passeando pelos

cam pos, a algum a distância de Highbury, na tarde do m esm o dia em que, sob a alegação de que não estava em condições de fazer qualquer exercício, recusara perem ptoriam ente acom panhá-la em sua carruagem . Não teve m ais dúvida então, considerando todas as coisas, que Jane resolvera não aceitar nada dela.

Ficou triste, m uito triste. Seu coração estava aflito, deixando-a em um estado lam entável, por conta da im potência a que se via reduzida, da inquietude de espírito e da im possibilidade de ação. E o que m ais a m ortificava era receber tão pouco crédito por seus sentim entos, ou ser tão pouco estim ada com o am iga, m as tinha o consolo de saber que suas intenções eram boas. Era capaz de dizer a si m esm a que, se Mr. Knightley tivesse conhecim ento de todas as suas tentativas de aj udar Jane Fairfax, se pudesse enxergar dentro do seu coração, ele não teria, nesse m om ento, encontrado nada para reprovar.