Emma

Jane Austen · Capítulo 52 de 113

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Emma

Capítulo XIV

vigor dia após dia, até que o correio desta m esm a m anhã trouxera a história de Jane Fairfax. Então, com a alegria que sentiu... Bem , que não teve escrúpulos de sentir, pois nunca acreditara que Frank Churchill m erecesse Em m a. Não pôde ficar m ais, tam anha era sua solicitude e ansiedade em relação a ela. Fizera a viagem de volta sob a chuva, cavalgando, e seguira a pé para Hartfield logo após o j antar, para ver com o a m elhor e m ais doce de todas as criaturas – perfeita apesar de todos os defeitos – suportara a revelação.

Ele a encontrara agitada e triste. Frank Churchill era um vilão... Depois a ouvira declarar que nunca o am ara, e o caráter de Frank Churchill deixou de ser desesperador. Ela era sua Em m a, prom etida por palavra e sentim ento, enquanto se dirigiam para a casa. E se ele conseguisse pensar em Frank Churchill naquele m om ento, teria até achado que era um bom rapaz.

CAPÍTULO XIV

Com o eram diferentes os sentim entos de Em m a ao voltar para casa, com parados aos que sentira ao sair! Quando saíra, estava apenas buscando algum alívio para o sofrim ento. Agora sentia um a agradável palpitação de felicidade, e acreditava que a felicidade seria ainda m aior quando a palpitação passasse.

Sentaram -se para tom ar chá – o m esm o grupo em volta da m esm a m esa – quantas vezes haviam se reunido assim ! Quantas vezes seus olhos se dirigiram para os m esm os arbustos na alam eda e observaram os m esm os belos efeitos do pôr-do-sol a oeste! Mas nunca em tal estado de espírito, pois nunca vivera algo assim . Foi com dificuldade que conseguiu reunir o suficiente do seu m odo usual de ser para agir com o a atenta dona da casa, ou m esm o com o a filha devotada.

O pobre Mr. Woodhouse m al desconfiava da conspiração que se arm ava contra ele no peito do hom em a quem recebia tão cordialm ente, e que esperava não tivesse apanhado um resfriado durante sua viagem na chuva. Se ele pudesse ver o coração de Mr. Knightley, ligaria m uito pouco para os pulm ões dele. Mas, sem a m ais rem ota ideia do m al im inente, sem a m enor percepção de nada extraordinário nos olhares e m odos dos dois, o velho senhor lhes repetia, com m uita tranquilidade, todas as novidades que recebera de Mr. Perry. Falava com m uita disposição, sem sequer suspeitar daquilo que eles poderiam ter contado a ele em retribuição.

Enquanto Mr. Knightley esteve com eles, Em m a continuava naquele estado febril. Mas quando ele se foi, ela com eçou a ficar m ais tranquila e, no decorrer da noite insone, que era o preço de um a tarde com o aquela, encontrou um ou dois pontos que m ereciam ser seriam ente considerados, com o se sentisse que até m esm o a sua felicidade devia ter um preço. Seu pai... e Harriet. Não podia ficar sozinha sem sentir o peso do que era devido a cada um . Com o poderia m anter o conforto de am bos, essa era a questão. No que dizia respeito ao pai, logo a questão foi respondida. Ela não sabia ainda o que Mr. Knightley lhe pediria, m as um a breve consulta ao seu coração resultou na solene resolução de nunca deixar seu pai. Ela chegou a chorar ante a ideia, com o se fosse um pecado. Enquanto ele vivesse, deviam ficar apenas noivos. Mas ela se orgulhava de que, longe do perigo de afastá-la do pai, aquele com prom isso devia aum entar o conforto dele. Com o fazer o m elhor por Harriet era um a decisão m ais difícil.

Com o poupá-la de qualquer sofrim ento desnecessário, com o proporcionar-lhe um a reparação, com o não parecer sua inim iga? Estas questões lhe provocaram enorm e perplexidade e angústia. Sua m ente passou m uitas e m uitas vezes por

cada um a das am argas reprovações e dos dolorosos arrependim entos que sem pre envolviam estas questões. Por fim , ela apenas resolveu que continuaria a evitar um encontro com Harriet agora, e que lhe com unicaria tudo o que precisasse por carta. Iria dizer-lhe que seria expressam ente desej ável que ela saísse de Highbury por um tem po e, perm itindo-se planej ar apenas m ais um esquem a, calculou que seria fácil conseguir que ela fosse convidada para a casa da irm ã em Brunswick Square. Isabella gostara de Harriet, e algum as sem anas em Londres deviam proporcionar-lhe algum divertim ento. Ela achava que a natureza de Harriet não escaparia à tentação de distrair-se com a novidade e a variedade, com as crianças, as ruas e as loj as. De qualquer form a seria um a prova de atenção e bondade para com alguém que m erecia tudo que ela pudesse fazer. Seria um a separação no presente, um adiam ento daquele dia em que deveriam se encontrar novam ente.

Ela levantou-se cedo e escreveu a carta para Harriet, um a tarefa que a deixou tão séria, tão triste, que Mr. Knightley, tendo ido a Hartfield para o café da m anhã, não chegou cedo dem ais. A m eia hora que passou com ele andando pelos j ardins foi, tanto literal quanto figurativam ente, necessária para recolocá-la no m esm o estado de felicidade do dia anterior.

Não fazia m uito tem po que ele a deixara, pelo m enos não o suficiente para perm itir-lhe pensar em qualquer outra coisa, quando chegou um a carta vinda de Randalls. Era um a carta tão volum osa que ela perguntou-se o que poderia conter, lam entando a necessidade de lê-la. Estava agora em perfeita paz em relação a Frank Churchill. Não queria explicações, queria apenas ser deixada com seus pensam entos. Além disso, achava-se incapaz de entender qualquer coisa que ele pudesse ter escrito. Mas teria que lê-la. Abriu o pacote, e havia um bilhete de Mrs. Weston para ela, incluído na carta de Frank Weston para Mrs.

Weston.

“Tenho o grande prazer, minha querida Emma, de enviar-lhe a carta anexa.

Sei que lhe fará total justiça, e tenho pouca dúvida de seus felizes efeitos...

Acho que não vamos discordar a respeito do missivista outra vez, mas não vou atrasá-la com um longo prefácio. Estamos muito bem. Esta carta foi a cura de todo o nervosismo que vinha sentindo nos últimos dias. Não gostei da sua aparência na terça-feira passada, mas foi uma manhã incomum. E ainda que você nunca tenha sido afetada pelo tempo, acho que todos sentem o vento nordeste. Senti temor pelo seu pai devido à tempestade da tarde de terça e de ontem de manhã, mas tive a satisfação de ouvir ontem à noite de Mr. Perry, que ele não ficou doente”.

“Sempre sua”

“A. W”.

“(Para Mrs. Weston)”

“Windsor – Julho”

“Minha querida madame”

“Se me fiz entender bem ontem, esta carta deve estar sendo esperada; mas, esperada ou não, sei que será lida com imparcialidade e indulgência. A senhora é só bondade, e creio que será preciso mesmo toda a sua bondade para aceitar algumas passagens da minha conduta passada. Mas fui perdoado por aquela que tinha ainda mais motivos para estar ressentida. Minha coragem aumenta enquanto escrevo. É muito difícil para o próspero ser humilde. Já obtive sucesso em dois pedidos de perdão, a ponto de me arriscar a pensar que devo obter também o seu, assim como o dos amigos que eu possa por algum motivo ter ofendido. Peço-lhe todo o empenho em compreender a exata natureza da minha situação quando cheguei a Randalls pela primeira vez. Deve considerar que eu tinha um segredo que devia ser mantido a qualquer custo. Este era o fato. Meu direito de colocar-me em uma situação que exigisse tal encobrimento é outra questão. Não vou discutir isto aqui. Quanto à minha tentação de pensar que eu tinha esse direito, transfiro todas as cavilações para uma casa de tijolos em Highbury, com janelas de guilhotina embaixo e venezianas em cima. Não ousava dirigir-me a ela abertamente. As dificuldades que eu tinha em Enscombe na ocasião são bastante conhecidas para dispensar explicações. Tive a sorte de fazer prevalecer a minha vontade e, antes de partirmos de Weymouth, induzir a mais correta mente feminina da criação a submeter-se, por caridade, a um noivado secreto. Se ela tivesse recusado, eu teria enlouquecido... A senhora pode estar pronta a questionar o que eu pretendia com isso. O que esperava do futuro? Eu esperava alguma coisa, qualquer coisa: tempo, sorte, circunstâncias, efeitos lentos, explosões repentinas, perseverança e fadiga, saúde e doença. Todas as possibilidades do bem estavam diante de mim, e a primeira das bênçãos estava assegurada, já que obtivera a promessa dela de confiança e retribuição. Se a senhora precisa de mais explicações, eu tenho a honra, minha querida senhora, de ser o filho do seu marido, e a vantagem de ter herdado sua disposição de esperar sempre o melhor, herança essa que nenhum legado de casas ou cavalos jamais poderá igualar em valor. Peço que me veja à luz dessas circunstâncias, quando cheguei para a minha primeira visita a Randalls. E aqui eu tenho a consciência de ter errado, pois essa visita deveria ter sido realizada antes. Se a senhora olhar para trás, verá

que eu não cheguei até que Miss Fairfax já estivesse em Highbury. E como a senhora foi a pessoa que eu desconsiderei, sei que vai me perdoar imediatamente. Mas devo esforçar-me para obter o perdão do meu pai, lembrando-o que quanto mais me abstive de visitá-lo, mais fui privado da benção de conhecê-la. Meu comportamento durante aquela quinzena tão feliz que passei em Randalls não deixou margem a repreensões, eu espero, exceto em um ponto. E agora chego ao ponto principal, a única parte importante da minha conduta no que diz respeito à senhora que provoca minha ansiedade, e requer a mais ampla explicação. Com o maior respeito e a mais calorosa amizade, menciono Miss Woodhouse. Meu pai talvez espere que eu acrescente que essa menção deve ser feita também com a mais profunda humilhação. As poucas palavras que ele deixou escapar, ontem, revelaram sua opinião e também a censura que julgo merecer. Meu comportamento com Miss Woodhouse, acredito, indicava mais do que eu pretendia. Para manter um segredo tão essencial para mim, fui levado a fazer mais do que o uso apropriado da intimidade que logo se estabeleceu entre nós. Não posso negar que Miss Woodhouse era o objeto ostensivo de minhas atenções. Mas estou certo que a senhora vai acreditar se eu disser que, caso não estivesse convencido da indiferença dela, não teria sido induzido por qualquer desejo egoísta a prosseguir nessa atitude. Amigável e gentil como é Miss Woodhouse, ela nunca me deu a ideia de uma jovem dama disposta a se comprometer.

Parecia totalmente livre de qualquer disposição a se apaixonar por mim, e esta era minha profunda convicção, assim como meu desejo. Recebeu minhas atenções com uma graça natural, amigável e bem humorada, que era exatamente o que me convinha. Nós parecíamos nos entender. Considerando as nossas situações, estas atenções eram um direito dela, e eram sentidas dessa forma. Se Miss Woodhouse chegou realmente a me entender antes que terminasse a quinzena, eu não saberia dizer. Quando a visitei para despedir-me, lembro-me que houve um momento em que quase lhe contei a verdade, e imaginei que ela já havia suspeitado do meu segredo. Não tinha dúvidas de que percebera o que ocorria, ao menos em parte. Talvez não soubesse de tudo, mas com sua rapidez de pensamento deve ter desconfiado de alguma coisa. Não tenho dúvida disso. A senhora perceberá, quando este assunto não for mais restrito, que ela não foi apanhada totalmente de surpresa. Miss Woodhouse muitas vezes me deu indicações disso. Lembro-me de ela ter dito no baile que eu devia agradecer a Mrs. Elton pelas suas atenções para com Miss Fairfax. Espero que a história de minha conduta em relação a ela seja considerada, pela senhora e pelo meu pai, como uma justificativa para os erros que me viram cometer. Enquanto considerarem que cometi um pecado contra Emma Woodhouse, não posso merecer nada dos dois. Peço que me absolvam disso, e obtenham para mim, assim que for possível, o perdão e os votos de felicidade de Emma Woodhouse, a quem estimo com um afeto de irmão, e desejo que logo esteja tão profundamente enamorada e feliz como eu estou. Sejam quais forem as coisas estranhas que eu fiz ou disse naqueles quinze dias, a senhora agora tem uma explicação para compreendê-las. Meu coração estava em Highbury, e meu esforço era dirigido a evitar qualquer

suspeita. Se a senhora se lembrar de qualquer estranheza, leve-a pelo lado bom. Sobre o piano de que tanto se falou, acho apenas necessário dizer que ele foi encomendado sem o menor conhecimento de Miss F., e que ela nunca teria permitido que eu o enviasse, se tivesse oportunidade. A delicadeza dos sentimentos dela durante todo o noivado, minha querida senhora, está muito além do meu poder de fazer-lhe justiça. Logo a senhora vai conhecê-la melhor, e espero isso ansiosamente. Não há palavras para descrevê-la. Ela logo lhe contará quem é – não através de palavras, pois nunca houve uma criatura que tão ostensivamente diminua seus próprios méritos. Desde que comecei esta carta, que será mais longa do que previ, tive notícias dela. Fez-me um bom relato de sua saúde, mas como nunca se queixa, não ouso depender disso. Quero saber a opinião da senhora sobre a aparência dela.

Sei que logo irá visitá-la, e que ela está temendo essa visita, que talvez até já tenha acontecido. Mande-me notícias sem mais demora, estou impaciente por saber os milhares de detalhes. Lembre-se do meu estado nos poucos minutos em que estive em Randalls, como estava confuso e fora de mim. Ainda não estou recuperado, continuo enlouquecido, seja pela felicidade ou pela angústia. Quando penso na gentileza e consideração que recebi, na bondade e paciência dela e na generosidade de meu tio, fico louco de alegria. Mas quando me lembro da inquietude que causei, e como mereço pouco ser perdoado, fico louco de raiva. Não desejo nada além de vê-la novamente!

Mas não devo me propor a isso agora. Meu tio foi bom demais para que eu abuse de sua boa vontade. Devo ainda acrescentar algo a esta longa carta. A senhora e meu pai ainda não souberam de tudo que precisam saber. Não pude dar-lhes nenhum detalhe ontem, mas a forma súbita e, sob certo aspecto, intempestiva com que o caso foi revelado, necessita explicação. Mesmo que o triste evento do dia vinte e seis passado, como a senhora deve ter concluído, imediatamente me abrisse as mais felizes perspectivas, eu não teria consentido em tais medidas tão cedo, porém surgiram circunstâncias particulares que não me permitiram perder uma hora sequer. Eu devia ter evitado algo assim tão apressado, e sei que ela teria os mesmos escrúpulos, com multiplicada força e refinamento. Mas não tive escolha. O apressado compromisso de trabalho que ela firmou com aquela dama... Neste ponto, minha cara senhora, fui obrigado a sair imediatamente de casa, para pensar e me recompor. Estive caminhando pela região, e agora acredito estar racional o suficiente para terminar a carta do modo como deve ser. É, realmente, uma lembrança mortificante para mim. Eu me comportei de forma vergonhosa. E

aqui, devo admitir, minhas maneiras para com Miss W., por serem descorteses em relação à Miss F., foram altamente reprováveis. Ela as desaprovou, e tinha bastante razão. Não achou suficiente o motivo que aleguei, de que agia assim para esconder a verdade. Ficou aborrecida. Pensei ter alguma razão ao achar que ela agia, muitas vezes, com excessiva cautela e escrúpulos.

Parecia até mesmo fria. Mas ela sempre esteve certa. Se eu tivesse seguido o julgamento dela e me submetido ao que ela considerava apropriado, teria escapado à maior infelicidade que já sofri. Nós discutimos. A senhora deve se lembrar da manhã que passamos em Donwell. Naquela ocasião, todas as

pequenas insatisfações que ocorreram antes levaram a uma crise. Eu estava atrasado. Encontrei-a caminhando sozinha para casa e quis acompanhá-la, mas ela não permitiu. Recusou-se absolutamente a permitir que eu a acompanhasse, o que achei um grande absurdo. Agora, entretanto, consigo ver nisso apenas um grau de discrição muito natural e consistente. Enquanto eu, para cegar o mundo ao nosso compromisso, me comportava dedicando condenáveis atenções a outra mulher, deveria ela consentir num passeio que tornaria todas as cautelas anteriores inúteis? Se tivéssemos caminhado sozinhos entre Donwell e Highbury, teriam suspeitado da verdade. Eu fui louco o bastante para ficar ressentido. Duvidei da afeição dela, e duvidei ainda mais na manhã seguinte em Box Hill, quando ela falou de seu ressentimento com palavras perfeitamente claras para mim, provocada pela minha conduta e pela vergonhosa e insolente negligência em relação a ela, além da aparente devoção a Miss W., que seria impossível para qualquer mulher de bom senso suportar. Em suma, minha querida senhora, foi uma discussão em que ela não teve nenhuma culpa, mas eu fui abominável. E

retornei a Richmond na mesma noite, embora devesse ficar com a senhora e meu pai até o dia seguinte, apenas porque estava zangado com ela até o limite. Mesmo então, eu não estava louco o bastante para não procurar uma reconciliação em seguida. Mas me sentia ofendido, ofendido pela frieza dela, e fui embora determinado a esperar que ela desse o primeiro passo. Sempre agradeci a Deus que a senhora não tivesse feito parte do grupo que foi a Box Hill. Se tivesse testemunhado meu comportamento na ocasião, duvido que algum dia viesse a pensar bem de mim novamente. O efeito sobre ela foi a imediata decisão que tomou: assim que descobriu que eu partira de Randalls aceitou a oferta dessa prestativa Mrs. Elton. O tratamento geral que ela dava a Miss F., a propósito, enchia-me de indignação e ódio. Não devo discutir com um espírito de paciência que me envolveu tão prodigamente, mas de outra forma teria protestado em altos brados contra a participação dessa senhora no episódio. Chamá-la de ‘Jane’, imagine! A senhora deve observar que eu ainda não me permiti chamá-la por esse nome, mesmo me dirigindo à senhora. Pense, então, no que eu tive que suportar ao ouvir o nome dela sendo brandido pelos Eltons com toda a vulgaridade da repetição desnecessária e toda a insolência da imaginária superioridade deles. Peço-lhe que tenha paciência comigo, logo concluirei. Ela aceitou aquela oferta de emprego, resolvida a terminar inteiramente comigo, e no dia seguinte escreveu-me para dizer que nunca mais deveríamos nos encontrar. Sentia que o noivado era uma fonte de sofrimento e arrependimento para ambos e, portanto, estava terminado. Esta carta chegou às minhas mãos na mesma manhã da morte de minha pobre tia. Eu a respondi menos de uma hora depois, mas, com a confusão em minha mente e todas as coisas acontecendo ao mesmo tempo, a resposta, ao invés de ser enviada junto com as outras cartas daquele dia, ficou trancada na minha escrivaninha. E eu, acreditando ter escrito o suficiente para satisfazê-la, embora em poucas linhas, permaneci à espera sem qualquer inquietação. Fiquei desapontado por não ter notícias tão rapidamente quanto esperava, mas imaginava desculpas para ela, estava

muito ocupado e... devo acrescentar?... muito confiante no futuro para imaginar algum mal. Eu e meu tio fomos para Windsor, e dois dias depois recebi um pacote da parte dela, com todas as minhas cartas de volta! Junto chegou um bilhete, no qual ela manifestava sua extrema surpresa por não ter tido uma resposta à última carta que escrevera e acrescentando que, como tal silêncio não podia ser interpretado de maneira errada, e que seria igualmente desejável para os dois terminar o compromisso o mais rápido possível, ela estava remetendo, pelo transporte mais seguro, todas as minhas cartas. Pedia-me que, caso não pudesse mandar as dela para Highbury dentro de uma semana, deveria mandá-las depois para... E seguia-se o endereço completo de Mrs. Smallridge, perto de Bristol, que saltou diante de meus olhos. Eu conhecia o nome, o lugar, sabia tudo sobre o assunto e imediatamente vi o que ela pretendia fazer. Estava perfeitamente de acordo com a firmeza de caráter que eu sabia que ela possuía. E o segredo que mantivera com tanto cuidado na última carta era igualmente um indício de sua ansiosa delicadeza. Jamais poderia parecer, perante o mundo inteiro, que ela tentasse ameaçar-me. A senhora pode imaginar o choque, até que eu descobrisse meu próprio erro fiquei culpando o correio. O que devia ser feito? Apenas uma coisa: eu devia falar com meu tio. Sem o consentimento dele, não tinha esperanças de que ela me ouvisse. Falei com ele e as circunstâncias estavam a meu favor. O evento recente havia suavizado seu orgulho, e ele tornou-se, muito antes do que eu imaginara, bastante reconciliado com a ideia e conformado. Por fim, o pobre homem conseguiu dizer, com um profundo suspiro, que desejava que eu encontrasse no casamento a mesma felicidade que ele tivera no dele. Senti que a minha felicidade seria de um tipo diferente... A senhora estaria disposta a ter pena de mim por tudo que sofri ao contar a situação a ele, por todo o meu suspense enquanto a situação não se resolvia? Não, não me perdoe antes de eu lhe contar o que senti ao voltar a Highbury e ver como a deixei doente. Não me perdoe antes de saber como a aparência dela era pálida e doentia. Cheguei a Highbury em uma hora do dia em que, conhecendo o horário tardio em que tomavam o café da manhã, sabia que teria uma boa chance de encontrá-la sozinha. Não me desapontei, nem tampouco me decepcionei com o objetivo da minha viagem. Tive que lutar para persuadi-la e desfazer todos os desagrados que causei, que com justa razão a magoaram. Mas está feito, estamos reconciliados. Ela me é muito querida, muito mais do que antes, e nem uma inquietação momentânea poderá ocorrer entre nós outra vez.