Emma
Capítulo II
– Tem o que precisem os ir em bora – disse Em m a, olhando de relance para Harriet e com eçando a levantar-se. – Meu pai deve estar nos esperando. Eu não tinha intenção de dem orar tanto, pensei que não ficaria m ais do que cinco m inutos quando cheguei aqui. Vim visitá-las porque não poderia passar pela sua casa sem entrar para saber com o está Mrs. Bates. Mas foi um a dem ora tão agradável! Agora, no entanto, som os obrigadas a desej ar um bom dia para a senhorita e Mrs. Bates.
E não houve nada que pudessem fazer para detê-la. Em m a ganhou a rua feliz, pois em bora tivesse sido forçada contra a vontade, em bora tivesse que ouvir um resum o do conteúdo da carta de Jane Fairfax, escapou de ouvir a leitura da carta em si.
CAPÍTULO II
Jane Fairfax era órfã, a filha única da filha m ais nova de Mrs. Bates.
O casam ento do tenente Fairfax, do __ Regim ento de Infantaria, com Miss Jane Bates, havia tido seu dia de fam a e esplendor, de esperança e interesse; m as nada restara dele a não ser a m elancólica lem brança do j ovem tenente m orrendo em ação no exterior, da viúva m orrendo logo depois, m ergulhada na dor e na saudade, e essa m enina.
Pelo nascim ento ela pertencia a Highbury, e quando perdeu a m ãe aos três anos de idade tornou-se a propriedade, o encargo, o consolo e o am or da avó e da tia. Tudo levava a crer que ela ficaria estabelecida perm anentem ente ali, que receberia a lim itada educação que seus parcos recursos perm itiam , e que cresceria sem bons relacionam entos ou vantagens que lhe perm itissem m elhorar o que a natureza lhe dera: aparência agradável, inteligência, bom coração e facilidade de relacionam ento.
Mas os com passivos sentim entos de um am igo de seu pai, o coronel Cam pbell, provocariam um a m udança em seu destino. O coronel tinha grande am izade pelo tenente Fairfax, a quem considerava um excelente oficial e um j ovem m uito m erecedor. Além disso, estava em débito com ele, pois quando o coronel adoecera com tifo o j ovem cuidara dele, e o coronel acreditava que lhe devia a vida. Ele nunca esqueceu essa dívida, apesar de terem se passado m uitos anos desde a m orte do pobre Fairfax e antes que ele próprio voltasse à Inglaterra e tivesse condições de fazer algum a coisa a respeito. Logo que voltou procurou notícias da criança. Era um hom em casado com apenas um a filha, um a m enina da m esm a idade de Jane, e ela passou a ser hóspede deles, ficando longas tem poradas, e tornou-se a favorita de todos. Antes que Jane com pletasse nove anos a filha dos Cam pbells j á havia se afeiçoado m uito a ela, e o desej o do coronel de ser um verdadeiro am igo levou-o a se oferecer para encarregar-se com pletam ente da educação de Jane. A proposta foi aceita, e desde então Jane passou a pertencer à fam ília Cam pbell, vivendo com eles e apenas visitando a avó de tem pos em tem pos.
A ideia era que ela fosse criada para ser governanta. As poucas centenas de libras que herdara do pai tornavam sua independência im possível.
Fazer-lhe um legado estava além das condições do coronel Cam pbell. Em bora seus ganhos fossem razoáveis, incluindo o soldo e as vantagens do cargo, sua fortuna era m odesta e devia passar para a filha, m as ele acreditava que a educação lhe garantiria m eios para um a subsistência digna no futuro.
Essa era a história de Jane Fairfax. Ela caíra em boas m ãos, só
conhecera bondade da parte dos Cam pbells e recebera um a excelente educação.
Vivendo constantem ente com pessoas honestas e bem inform adas, seus sentim entos e inteligência receberam as vantagens da disciplina e da cultura.
Com o a residência do coronel era em Londres, ela teve contato com todos os brilhantes talentos através de professores de prim eira classe. Seu caráter e seus talentos tam bém se beneficiaram dessa am izade. Aos dezoito ou dezenove anos ela era totalm ente com petente no ofício de educar, tanto quanto um a idade tão tenra perm itisse cuidar de crianças. Mas os Cam pbells a am avam dem ais para deixá-la partir. Nem o pai nem a m ãe aceitariam isso, e ela não conseguiria suportá-lo. O dia fatídico foi adiado. Era fácil para eles argum entar que ela ainda era m uito j ovem , e Jane perm aneceu com eles, dividindo, com o se fosse outra filha, todos os prazeres da sociedade elegante e um a j udiciosa m istura de lar e divertim ento, com a inconveniência de um futuro incerto e as sensatas reflexões do seu bom entendim ento a lem brá-la que tudo isso logo iria term inar.
A afeição de toda a fam ília, em particular o caloroso apego de Mrs.
Cam pbell, era ainda m ais adm irável em função da clara superioridade de Jane, tanto em beleza quanto em capacidade m ental. A beleza que a natureza havia lhe dado não passara despercebida a Miss Cam pbell, nem sua grande inteligência deixou de ser notada pelos pais. Continuaram j untos com a m esm a profunda afeição, todavia, até o casam ento de Miss Cam pbell, que por m ero acaso, por aquela sorte que desafia os proj etos de m atrim ônio, quando a m oderação vence a superioridade, ganhou a afeição de Mr. Dixon, um j ovem cavalheiro rico e agradável, pouco tem po depois de se conhecerem , e acabou por ficar feliz e convenientem ente estabelecida, enquanto Jane Fairfax ainda tinha que ganhar o pão de cada dia.
Esse casam ento acontecera há bem pouco tem po. Era recente dem ais para que a am iga m enos afortunada dos Cam pbell tentasse algum a coisa para iniciar-se no cam inho do dever, apesar de j á ter atingido a idade que ela própria fixara para com eçar. Jane resolvera há m uito tem po que vinte e um anos seria a idade certa. Com a fortaleza de um devotado noviciado ela chegara à conclusão que com a idade de vinte e um anos faria o sacrifício com pleto, quando se afastaria de todos os prazeres da vida, das conversas sociais, da paz e da esperança, para enfrentar a penitência e a m ortificação para sem pre.
O bom senso do coronel e de Mrs. Cam pbell não podia se opor a um a resolução com o essa, apesar de seus sentim entos em contrário. Enquanto vivessem ela não precisaria fazer sacrifícios, teria sem pre um lar em sua casa; e para seu conforto a teriam m antido com eles. Mas isso seria egoísta... O que tivesse que ser, era m elhor que fosse logo. Talvez eles tenham com eçado a sentir que seria m ais caridoso e sábio se tivessem resistido à tentação de adiar a partida de Jane, e assim poupá-la de ter desfrutado do luxo e dos prazeres para agora ter
que abandoná-los. A afeição, entretanto, sem pre podia ser usada com o desculpa para não terem apressado o infeliz m om ento. Ela nunca m ais estivera bem de saúde, desde o casam ento, e os Cam pbells a proibiram de assum ir qualquer com prom isso até que estivesse com pletam ente restabelecida. Essa tarefa não era adequada a um a constituição fraca e um espírito inconstante e exigiria, na m elhor das circunstâncias, algo m ais que a perfeição de corpo e m ente para ser desem penhada com tolerável conforto. No que diz respeito ao fato dela não ter acom panhado os Cam pbells à Irlanda, o relato que fizera à tia continha apenas a verdade, apesar de que podia haver algum as verdades não ditas. Fora escolha de ela ficar em Highbury enquanto eles estivessem ausentes. Desej ava, talvez, passar seus últim os m eses de com pleta liberdade entre aqueles que a am avam . E os Cam pbells, qualquer que tenha sido seu m otivo ou m otivos, se sim ples, duplo ou triplo, deram seu com pleto apoio à decisão, e afirm aram que a recuperação da saúde dela dependia m ais de que passasse alguns m eses respirando o ar da sua terra natal, do que de qualquer outra coisa. O fato é que ela estava para chegar. E Highbury, em vez de dar as boas vindas à verdadeira novidade longam ente prom etida – Mr.
Frank Churchill – deveria se contentar no m om ento com Jane Fairfax, que traria apenas a novidade de um a ausência de dois anos.
Em m a estava aborrecida. Ter que se m ostrar gentil com um a pessoa de quem não gostava durante três longos m eses, sem pre fazendo m ais do que queria e m enos do que deveria! A razão pela qual não gostava de Jane Fairfax era um a questão difícil de responder. Mr. Knightley dissera um a vez que era porque ela via em Jane Fairfax a j ovem m ulher realm ente com pleta que ela m esm a gostaria de ser. Apesar de ter refutado a acusação com veem ência, havia m om entos de autoanálise em que sua consciência não podia absolvê-la. Mas
“nunca conseguira se dar bem com ela, não sabia o porquê, m as sentia certa frieza e reserva – um a aparente indiferença quer ela gostasse ou não – e depois sua tia falava o tem po todo! E fazia tanto estardalhaço a respeito de qualquer pessoa! E todos sem pre im aginavam que elas deviam ser am igas íntim as, só porque tinham a m esm a idade, e que deviam gostar m uito um a da outra”. Estas eram as suas razões, ela não tinha outras m elhores.
Era um desprezo tão inj usto... Em m a, em sua im aginação, aum entava cada pequena falta dela a ponto de não conseguir ver Jane, após qualquer ausência m ais prolongada, sem sentir-se ofendida por ela. E agora, depois que fizera a visita obrigatória às Bates na chegada de Jane, após dois anos de ausência, ficara particularm ente im pressionada com a aparência e as m aneiras dela, que Em m a tanto depreciara durante esse tem po. Jane Fairfax era m uito elegante, notavelm ente elegante, e Em m a valorizava m uito a elegância. Sua altura era perfeita, apenas o suficiente para que todos a considerassem alta, sem
que fosse considerada alta dem ais. Sua figura era m uito graciosa, o corpo harm onioso, nem m agra nem gorda, ainda que um a leve aparência de saúde abalada pusesse em evidência o pior dos dois. Em m a não podia deixar de perceber tudo isso. Sua face, seus traços... havia m ais beleza em seu conj unto do que ela se lem brava. Não eram traços regulares, m as sua beleza era m uito agradável. Seus olhos – de um cinza profundo, com sobrancelhas e cílios negros –
não negavam a beleza do rosto. A pele, em que ela costum ava reparar, estava sem cor, m as tinha um a transparência e delicadeza que não necessitava de colorido. Era um estilo de beleza, no qual a elegância era o traço m ais notável, e que Em m a, honrando seus princípios, só podia adm irar. Tal elegância, de aparência ou caráter, raram ente se via em Highbury. E Jane, longe de ser vulgar, possuía distinção e m érito.
Em sum a, durante aquela prim eira visita, Em m a ficou sentada, olhando para Jane Fairfax com dupla com placência. O senso de prazer e o senso de fazer-lhe j ustiça foram determ inantes para que resolvesse deixar de lado a antipatia por ela no futuro. Quando pensava na sua história, de fato, na sua situação de vida, na sua beleza, no destino que teria toda sua elegância, no que ela teria que enfrentar em breve, com o passaria a viver, Em m a só podia sentir com paixão e respeito. Se cada detalhe de sua vida lhe despertava o interesse, este aum entava ainda m ais quando considerava a circunstância altam ente provável de que ela estivesse apaixonada por Mr. Dixon, e que este interesse iniciara por ela. Nesse caso, nada podia ser m ais honrado e digno de pena do que o sacrifício que ela im pusera a si própria. Estava bastante decidida a aceitar que ela não tentara roubar a afeição de Mr. Dixon pela esposa, nem agira da m aneira danosa que sua im aginação tinha sugerido a princípio. Se fora am or, devia ter sido sim ples e não correspondido, apenas do lado dela. Ela podia ter inconscientem ente absorvido esse veneno enquanto trocava confidências com a am iga. E com os m elhores e m ais puros m otivos recusara a viagem à Irlanda, e resolvera de fato afastar-se dele e de seu círculo de am izades e com eçar logo a trabalhar.
No geral, Em m a deixou-a sentindo os m ais ternos e caridosos sentim entos, o que a fez olhar em volta quando voltava para casa, e lam entar que Highbury não tivesse nenhum j ovem cavalheiro capaz de dar independência a Jane, ninguém que ela pudesse incluir num esquem a apropriado para ela.
Esses sentim entos eram encantadores, m as não duraram . Antes que ela se com prom etesse com um a declaração pública de eterna am izade por Jane Fairfax, ou fizesse um a retratação de seus antigos erros e preconceitos – apenas dizendo a Mr. Knightley “ela certam ente é bonita, m ais do que bonita!” – Jane passou um serão em Hartfield com a avó e a tia, e todas as coisas voltaram ao estado usual. Antigas provocações reapareceram . A tia estava tão cansativa
com o sem pre; m ais cansativa ainda, pois j untou à sua adm iração pelos talentos da sobrinha a ansiedade pela saúde dela. Tiveram que ouvir a descrição exata da pequenina quantidade de pão e m anteiga que ela com era no café da m anhã e da fina fatia de carneiro que alm oçara, além de terem que adm irar os novos chapéus e sacolas de costura que ela fizera para a tia e a avó. E as ofensas de Jane voltaram . Com o houvesse m úsica, Em m a foi obrigada a tocar. Os agradecim entos e elogios que necessariam ente se seguiram pareciam ter um a falsa candura, um ar de grandeza, com o se Jane quisesse apenas m ostrar em alto estilo a superioridade de seu próprio desem penho. Além disso, o que era ainda pior, ela parecia tão fria e cautelosa! Não havia com o saber a verdadeira opinião de Jane. Envolta em um a capa de polidez parecia determ inada a não arriscar coisa algum a. Sua reserva chegava a ser suspeita e repulsiva.