Emma

Jane Austen · Capítulo 28 de 113

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Emma

Capítulo VIII

Ele prom eteu, em troca de algum as prom essas da parte da filha. Tais com o: se ela chegasse com frio, deveria se aquecer com pletam ente; se estivesse com fom e, teria que com er algum a coisa; que a criada particular dela a esperasse acordada; e que Serle e o m ordom o deviam verificar se tudo estava seguro na casa, com o sem pre.

[1] Jogo de cartas para dois j ogadores, de origem francesa. Conhecido desde o século XVI, era m uito popular em toda a Europa. Em francês no original.

CAPÍTULO VIII

Mr. Frank Churchill voltou finalm ente. Se o pai atrasou o j antar para esperá-lo ninguém ficou sabendo em Hartfield, pois Mrs. Weston desej ava que ele caísse nas graças de Mr. Woodhouse, e não m encionava nenhum defeito dele que pudesse ser escondido.

Ele voltou com o cabelo devidam ente cortado, e riu de si m esm o com m uita desenvoltura, não parecendo de fato envergonhado pelo que havia feito.

Não tinha m otivos para m anter o cabelo longo, nem para evitar algum a confusão, se houvesse; tam bém não tinha razão nenhum a para econom izar dinheiro, se isso m elhorasse sua disposição. Estava tão destem ido e anim ado com o sem pre, e quando o viu Em m a deu um a lição de m oral a si m esm a:

“Não sei se é assim ou não, m as com certeza as coisas bobas deixam de ser bobas quando são feitas por pessoas sensíveis de form a destem ida. A m aldade é sem pre m aldade, m as a tolice nem sem pre é tolice. Depende do caráter de quem a pratica. Mr. Knightley, ele não é um rapaz tolo e frívolo. Se fosse, teria feito isso de outra form a. Teria se vangloriado do fato, ou se m ostraria envergonhado. Seria a ostentação de um vaidoso, ou a evasão de um a m ente fraca dem ais para sustentar sua própria vaidade. Não, tenho certeza absoluta que ele não é bobo nem frívolo”.

Com a terça-feira chegou para Em m a a agradável possibilidade de vê-lo novam ente, e desta vez por um tem po m ais longo que antes. Esperava poder j ulgar m elhor suas m aneiras de form a geral, e em especial as m aneiras dele para com ela. Poderia tam bém im aginar quanto tem po levaria para dissipar a frieza dele, e observar as reações das outras pessoas em relação aos dois, j á que era a prim eira vez que os veriam j untos.

Ela desej ava divertir-se bastante, apesar do cenário não ser m uito bonito na casa de Mr. Cole. Tam bém não era capaz de esquecer que, entre as falhas de Mr. Elton m esm o nos seus dias favoráveis, nada a incom odava m ais do que sua propensão a j antar com os Coles.

O conforto de seu pai estava am plam ente assegurado. Tanto Mrs. Bates, quanto Mrs. Goddard foram passar o serão com ele. A obrigação m ais prazerosa de Em m a, antes de sair de casa, foi cum prim entá-las respeitosam ente, enquanto as duas dam as sentavam -se j untas após o j antar. O pai, encantado, elogiava a beleza do seu vestido, enquanto Em m a fazia todas as recom endações ao seu alcance, aj udando-as a servir-se de grandes pedaços de bolo e a encher os copos de vinho. Estas recusavam contra a vontade, pois precisavam cuidar-se depois do que haviam com ido ao j antar. Em m a providenciara um j antar com pleto, queria

ter certeza de oferecer-lhes um a boa refeição.

Ao chegar à porta de Mr. Cole viu um a carruagem à sua frente, e ficou contente ao ver que se tratava da carruagem de Mr. Knightley. Um a vez que ele não possuía cavalos, gastava m enos dinheiro, além de aum entar sua saúde, atividade e independência. Estava bastante apto, na opinião de Em m a, a cam inhar para onde quisesse, e não usava sua carruagem tanto quanto se esperaria do proprietário de Donwell Abbey. Ela tinha agora um a oportunidade de m anifestar sua aprovação e seu carinho, pois ele estendera a m ão para aj udá-la a descer.

– O senhor sem pre deveria chegar assim , com o um cavalheiro – disse ela. – Estou m uito feliz em vê-lo.

Ele lhe agradeceu, observando:

– Que sorte chegarm os j untos! Pois se nos encontrássem os na sala de estar duvido que tivesse m e considerado m ais cavalheiro do que o norm al. Não saberia, pela m inha aparência ou m odos, com o vim para cá.

– Saberia sim , claro que saberia. Há sem pre um ar de consciência ou de agitação quando um a pessoa chega de um j eito que todos sabem ser superior a eles. O senhor pensa que disfarça m uito bem , m as ouso dizer que com o senhor se trata de um tipo de bravata, um ar de delicioso pouco caso que sem pre observei quando o encontro nessas circunstâncias. Agora o senhor não tem m ais o que provar. Não tem e que possam achar que se sente envergonhado. Não precisa lutar para parecer m aior do que os outros. Agora m e sinto realm ente contente de entrar com o senhor na m esm a sala.

– Menina absurda! – foi a resposta dele, m as não estava zangado.

Em m a tinha razão para estar tão satisfeita com os dem ais convidados com o estava com Mr. Knightley. Foi recebida com um cordial respeito e todas as honras que poderia desej ar, o que só podia agradá-la. Quando os Weston chegaram , os olhares m ais cálidos, a m ais forte adm iração foram todos para ela, vindos tanto do m arido quanto da esposa. O filho aproxim ou-se com entusiasm ada alegria, o bastante para indicar que ela era a razão das suas atenções. Frank sentou-se ao seu lado durante o j antar, o que deve ter lhe custado algum esforço, com o ela acreditava firm em ente.

O grupo era bastante grande, pois incluía outra fam ília – um a correta e irrepreensível fam ília residente no cam po, de quem os Coles tinham a honra de serem am igos – e a parte m asculina da fam ília de Mr. Cox, o advogado de Highbury. As senhoras m enos im portantes iriam chegar para o serão, entre elas Miss Bates, Miss Fairfax e Miss Sm ith. Durante o j antar, porém , j á havia

convidados em núm ero suficiente para evitar que qualquer assunto se tornasse geral. Enquanto falavam de política e de Mr. Elton, Em m a pode dedicar sua total atenção ao agradável vizinho. O prim eiro som m ais distante que ela viu-se obrigada a ouvir foi o nom e de Jane Fairfax. Mrs. Cole estava contando algo sobre ela que parecia m uito interessante. Em m a ouviu e achou que valia a pena prestar atenção, pois sua im aginação, parte m ais querida do seu ser, recebia um divertido suprim ento. Mrs. Cole dizia que fora visitar Miss Bates, e logo que entrou na sala ficou espantada de ver um piano – um instrum ento m uito elegante

– não era um piano de cauda, m as do tipo quadrado e bastante grande. A essência da narrativa – o fim de toda conversa que com eçara com a surpresa, as perguntas, os parabéns da parte dela e a explicação de Miss Bates – era que o piano havia chegado da Broadwood’s no dia anterior. Fora um grande choque para a tia e a sobrinha, algo totalm ente inesperado. A princípio, segundo Miss Bates contara, a própria Jane ficara perdida, pensando em quem poderia tê-lo m andado, m as agora estavam perfeitam ente satisfeitas em pensar que só poderia vir de um lugar – é claro que fora o coronel Cam pbell quem o enviara.

– Não há outra hipótese – acrescentou Mrs. Cole – e fiquei surpresa de que houvesse algum a dúvida a respeito. Mas parece que Jane recebeu um a carta deles recentem ente, e não havia um a palavra sobre isso. Ela os conhece m elhor do que eu, m as não acho que seu silêncio sej a razão para que não m andassem o presente: talvez quisessem surpreendê-la.

Havia m uitas pessoas dispostas a concordar com Mrs. Cole. Todos que com entaram o assunto disseram que devia ter sido m esm o enviado pelo coronel Cam pbell, e ficaram igualm ente felizes por ela ter recebido tal presente. Com o havia várias pessoas falando sobre o assunto, Em m a pode dar asas à im aginação, enquanto ouvia Mrs. Cole.

– Confesso que não sei quando foi a últim a vez que ouvi um a notícia que m e desse m ais satisfação! Sem pre lam entei que Jane não tivesse um piano...

ela toca tão bem ! Parece-m e até vergonhoso, quando penso na quantidade de casas onde existem belos instrum entos totalm ente desprezados. É um tapa de luvas, com toda certeza! E pensar que ontem m esm o eu estava dizendo a Mr.

Cole o quanto fico envergonhada de olhar para o nosso novo piano de cauda, que está na sala de visitas, enquanto eu m esm a não distingo um a nota de outra, e as nossas m eninas recém com eçaram a aprender, talvez nem venham a tocar. E a pobre Jane, que é m estra em m atéria de m úsica, não tem nada que se pareça com um piano, nem m esm o a m ais velha e lam entável das

espinetas[1] do m undo para se distrair. Eu estava dizendo isso a Mr. Cole ontem , e ele concordou totalm ente com igo; o fato é que m eu m arido adora tanto a m úsica que não pode resistir à com pra do piano, na esperança de que algum dos nossos bons vizinhos sej a am ável o suficiente para fazer m elhor uso dele do que nós. E foi para isso

m esm o que o com pram os, do contrário ficaríam os envergonhados. Tem os esperança de que Miss Woodhouse sej a persuadida a experim entá-lo esta noite.

Miss Woodhouse concordou da form a apropriada, e vendo que nada m ais poderia ser extraído da com unicação de Mrs. Cole, voltou sua atenção para Frank Churchill.

– Por que o senhor está sorrindo? – disse ela.

– Por nada. E a senhorita?

– Eu?... Suponho que sej a pela satisfação de ver que o coronel Cam pbell é tão rico e tão generoso... O presente é m uito bonito.

– Muito, de fato.

– Eu m e pergunto por que não fizeram isso antes.

– Talvez porque Miss Fairfax nunca tenha ficado ausente por tanto tem po antes.

– Ou porque ele não perm ite que ela use seu próprio piano... que agora deve estar na casa deles em Londres, sem ser tocado por ninguém .

– O piano deles é de cauda, ele deve achá-lo grande dem ais para a casa de Miss Bates.

– O senhor diz o que é apropriado, m as o seu sem blante indica que seus pensamentos a respeito do assunto devem ser parecidos com os m eus.

– Não saberia dizer. Prefiro acreditar que a senhorita está concedendo m ais crédito à m inha perspicácia do que eu m ereço. Estou sorrindo porque a senhorita sorri, e pode ser que estej a suspeitando do que a senhorita suspeita; m as no m om ento não vej o nada para questionar. Se o presente não é do coronel, de quem poderia ser?

– O que acha de Mrs. Dixon?

– Mrs. Dixon, de fato. Não havia pensado em Mrs. Dixon. Ela deve saber, assim com o o pai, o quanto esse piano seria apreciado. E talvez a m aneira com o foi presenteado, a surpresa, o m istério, sej a m ais própria de um a m ulher j ovem do que de um hom em m ais velho. Com certeza deve ser de Mrs. Dixon.

Eu lhe disse que a sua suspeita iria guiar a m inha.

– Se assim for, o senhor deve estender as suas suspeitas de m odo a incluir Mr. Dixon.

– Mr. Dixon. É claro... Bem , estou percebendo que deve ter sido um

presente conj unto de Mr. e Mrs. Dixon. Estávam os falando no outro dia, acho que a senhorita se lem bra, do quanto Mr. Dixon adm ira as execuções m usicais de Miss Fairfax.

– Sim , e o que o senhor m e contou a respeito veio confirm ar um a ideia que j á tinha m e ocorrido... Não pretendo duvidar das boas intenções, nem de Mr.

Dixon nem de Miss Fairfax, m as não consigo deixar de pensar que ele pode ter tido a infelicidade de se apaixonar por ela, após ter pedido a am iga em casam ento. Ou talvez tenha percebido certo sentim ento da parte de Miss Fairfax.

Podem os pensar em m il coisas, sem saber o que houve de fato. Mas im agino que tenha sido um a decisão difícil para ela vir a Highbury, ao invés de ir para a Irlanda com os Cam pbells. Aqui ela vai viver um a vida de pena e privação, lá tudo seria alegria. Quanto ao m otivo de sua vinda, para recuperar-se com o ar de sua terra natal, acho que foi um a m era desculpa. No verão até seria aceitável, m as que bem o ar desta terra natal poderia fazer nos m eses de inverno? Boas lareiras e carruagens fechadas podem fazer m uito m ais pela m aioria das pessoas que tem saúde delicada, especialm ente no caso dela, devo dizer. Não acho necessário que o senhor com partilhe de todas as m inhas suspeitas, apesar de ter feito a nobre prom essa de segui-las, m as lhe contei honestam ente o que sinto.

– Dou-lhe m inha palavra que suas suspeitas tem grande probabilidade de se revelarem verdadeiras. A preferência de Mr. Dixon pela m úsica de Miss Fairfax, ao invés de preferir a da noiva, acho que é m uito sugestivo.

– Além disso, ele salvou a vida dela. Ouviu falar disso? – Era um a festa num barco, ao que parece, e por um acidente qualquer ela estava quase caindo na água quando ele a salvou.

– Ele salvou, sim . Eu estava lá, fazia parte do grupo.

– Estava realm ente? Bem !... Então não deve ter visto m uita coisa, pois essa ideia parece ser nova para o senhor... Se eu estivesse lá tenho certeza de que teria feito algum as descobertas.

– Im agino que faria, sim . Mas eu, sim plesm ente, não vi nada além do fato: que Miss Fairfax estava a ponto de ser arrem essada do barco quando Mr.

Dixon segurou-a... Foi coisa de um m om ento. E apesar de que o consequente choque e alarm e foram m uito grandes e duraram bem m ais tem po... na verdade acho que se passou m eia hora antes que qualquer um de nós se sentisse tranquilo outra vez... bem , ainda assim a sensação de alarm a foi tão geral que não deu para observar nada de peculiar. Não quero dizer, no entanto, que a senhorita não teria feito descobertas.

Neste ponto a conversação foi interrom pida. Os dois tiveram que

participar daquele estranho intervalo que acontece entre dois pratos, e obrigados a agir de m odo tão form al e ordeiro quanto os outros. Mas quando a m esa foi novam ente coberta com a toalha, cada travessa disposta na form a correta, e todos voltaram a se ocupar com a com ida, Em m a disse:

– A chegada desse piano foi decisiva, no m eu entender. Eu pretendia saber um pouco m ais, e esse fato veio dizer-m e quase tudo. Pode contar que logo vam os ouvir que foi um presente de Mr. e Mrs. Dixon.

– E se os Dixons negarem saber qualquer coisa sobre o assunto devem os concluir que veio dos Cam pbells.

– Não, tenho certeza que não foi m andado pelos Cam pbells. Miss Fairfax sabe disso, senão ela teria adivinhado logo. É evidente que não ficaria confusa se tivesse pensado neles. Posso não ter conseguido convencê-lo, m as eu m esm a estou perfeitam ente convencida que Mr. Dixon é o personagem principal nessa história.

– A senhorita na verdade m e ofende, ao supor que não estou convencido. Suas razões levaram m eu j ulgam ento consigo inteiram ente. A princípio, quando im aginei que estivesse satisfeita em considerar o coronel Cam pbell com o o responsável pelo presente, eu o vi apenas com o bondade paternal, e achei a coisa m ais natural do m undo. Mas quando m encionou Mrs.

Dixon achei m uito m ais provável que fosse o tributo de um a am izade fem inina. E

agora só posso considerar o presente à luz de um a oferenda de am or.

Não houve m ais oportunidade para que continuassem a discutir o assunto. Ele parecia estar convencido, pelo m enos tinha o ar de quem acreditava nisso. Ela não disse m ais nada e passaram a tratar de outros assuntos. O resto do j antar transcorreu norm alm ente, a sobrem esa foi servida, as crianças vieram à sala e foram obj eto de com entários e adm iração no m eio da conversação geral.

Foram ditas algum as poucas coisas inteligentes, outras com pletam ente tolas, m as a m aior parte da conversa não se constituía nem de um a coisa nem de outra, nada pior do que os com entários com uns, repetições aborrecidas, velhas novidades e anedotas pesadas.

As senhoras não se encontravam há m uito tem po na sala de estar, quando as outras dam as chegaram , cada um a com seu grupo. Em m a observou a entrada da sua querida am iguinha e, se não exultou com sua dignidade e graça, não pode deixar de adm irar sua m eiguice j uvenil e m odos ingênuos, assim com o pode regozij ar-se do fundo do coração com a lum inosidade, a alegria e o tem peram ento sereno de Harriet, que lhe perm itiam ter algum alívio em m eio aos sofrim entos de um a decepção am orosa. Ali estava ela sentada... e quem poderia adivinhar quantas lágrim as havia derram ado ultim am ente? Para a

felicidade de Harriet naquele m om ento bastava estar na com panhia de am igos, m uito bem vestida e vendo outras pessoas elegantes tam bém , sentar-se, sorrir, parecer bonita e não dizer nada. Jane Fairfax olhava e andava de m odo superior, m as Em m a im aginava que ela ficaria contente de trocar confidências com Harriet, m uito feliz de ter se perm itido a m ortificação de haver am ado – sim , ela tam bém am ara Mr. Elton em vão – para subm eter-se ao perigoso prazer de saber-se am ada pelo m arido da am iga.

Em um a festa com tantas pessoas não havia necessidade de Em m a aproxim ar-se de Jane Fairfax. Ela não desej ava falar do piano, im aginava saber dem ais sobre o segredo para achar j usto m anter um a aparência de curiosidade ou interesse, por isso guardou distância da j ovem . As dem ais pessoas, no entanto, entraram quase im ediatam ente no assunto, e ela viu o rubor da consciência pesada com que ela recebia as congratulações, e o rubor da culpa que acom panhava o nom e do “m eu excelente am igo coronel Cam pbell”.

Mrs. Weston, bondosa e am ante da m úsica, estava particularm ente interessada pela circunstância, e Em m a não aj udava, m ostrando-se divertida com sua insistência no assunto. Ela tinha tanto a perguntar e a dizer sobre coisas com o o tom do piano, o toque e os pedais, que nem sequer suspeitava do desej o de falar o m enos possível sobre isso, desej o que Em m a leu claram ente no sem blante da bela heroína da festa.

Logo alguns dos cavalheiros j untaram -se a elas, e o prim eiro de todos era Frank Churchill. Era o cavalheiro m ais im portante e o m ais bonito, e depois de cum prim entar de passagem Miss Bates e a sobrinha, dirigiu-se ao extrem o oposto do círculo, onde estava Miss Woodhouse. Não se sentou enquanto não pudesse arranj ar um lugar ao lado dela, e Em m a adivinhava o que todos os presentes estavam pensando. Ela era o alvo das atenções dele, e todos podiam perceber isso. Em m a o apresentou à sua am iga Miss Sm ith, e m ais adiante, no m om ento oportuno, ouviu o que cada um pensava do outro. “Ele nunca havia visto um rosto tão adorável, e estava encantado com sua ingenuidade”. E ela

“com certeza ele lhe fazia um grande cum prim ento, m as achava que ele tinha um a expressão um pouco parecida com Mr. Elton”. Em m a conteve a indignação e apenas voltou-se para ela em silêncio.

Em m a e o cavalheiro trocaram sorrisos de cum plicidade, quando pela prim eira vez dirigiram o olhar para Miss Fairfax, m as era m ais prudente evitar com entários. Ele contou-lhe que estivera im paciente para deixar a sala de j antar, detestava ficar sentado m uito tem po, sem pre era o prim eiro a levantar-se assim que fosse perm itido fazê-lo. O pai dele, Mr. Knightley, Mr. Cox e Mr. Cole perm aneceram sentados, bastante ocupados em discutir assuntos da paróquia e, enquanto ele esteve ali tivera m uito prazer com a conversa, considerava a todos

verdadeiros cavalheiros e hom ens m uito sensíveis. Falou de form a tão bonita sobre Highbury em geral – achava que tinha tantas fam ílias agradáveis – que Em m a com eçou a sentir que talvez o desprezo que ela costum ava ter pelo lugar fosse excessivo. Em m a perguntou-lhe sobre a sociedade em Yorkshire – a extensão e o tipo de vizinhança que tinham em Enscom be, e pôde descobrir pelas suas respostas que, no que dizia respeito à Enscom be havia pouco m ovim ento.

Seus visitantes pertenciam a algum as poucas e destacadas fam ílias, nenhum a residindo m uito perto. E m esm o quando m arcavam a data e os convites eram aceitos, Mrs. Churchill nem sem pre estava com saúde ou disposição para ir. Os Churchills haviam decidido não visitar nenhum a pessoa recém conhecida, e isso oferecia algum as dificuldades, apesar dele ter suas próprias am izades; precisava de m uita habilidade para poder sair algumas vezes, ou apresentar algum am igo que viesse visitá-lo. Em m a percebeu que Enscom be não podia satisfazê-lo e que Highbury, no que tinha de m elhor, podia agradar de form a razoável um j ovem cavalheiro que era retido em casa m ais do que gostaria. A im portância dele em Enscom be era bastante evidente. Frank Churchill não se vangloriava, m as traiu-se naturalm ente ao dizer que podia persuadir a tia quando o próprio Mr. Churchill nada conseguia. Diante do riso de Em m a ao saber disso, afirm ou acreditar que (exceto em um ou dois pontos) ele poderia, com o tempo, persuadi-la de qualquer coisa. Mencionou então um dos pontos em que sua influência falhara. Desej ava m uito viaj ar para o exterior – tinha insistido m uito, de fato, que lhe fosse perm itido viaj ar – m as a tia não queria ouvir falar no assunto. Isso acontecera no ano anterior. Agora, dizia ele, seu desej o não era m ais tão intenso.

Não m encionou qual era o outro ponto em que não conseguira persuadi-la, e Em m a adivinhou tratar-se do pai dele.

– Fiz um a triste descoberta – disse ele, após um a curta pausa. –

Am anhã vai fazer um a sem ana que estou em Highbury – a m etade do tem po que disponho. Nunca pensei que os dias passassem tão depressa. Um a sem ana, am anhã! E eu m al com ecei a m e divertir, recém com ecei a ficar am igo de Mrs.

Weston e das outras pessoas! Detesto m e lem brar disso.

– Talvez agora o senhor com ece a lam entar por ter perdido um dia inteiro apenas para cortar o cabelo, j á que dispõe de poucos dias.

– Não – disse ele, sorrindo. – Não m e arrependo disso, absolutam ente.

Não tenho prazer em ver m eus am igos se não m e sentir em condições de ser visto.

Os dem ais cavalheiros chegavam agora à sala, e Em m a foi obrigada a desviar sua atenção por alguns m inutos e dedicá-la a Mr. Cole. Quando Mr. Cole afastou-se e Em m a voltou-se para ele, viu Frank Churchill olhando intensam ente para Miss Fairfax, que estava sentada do outro lado da sala, exatam ente em frente a eles.

– Qual é o problem a? – ela disse.

Ele teve um sobressalto:

– Obrigada por m e despertar – ele respondeu. – Acho que fui m uito rude. Mas estava observando que Miss Fairfax arrum ou seu cabelo de um j eito tão esquisito – m uito esquisito m esm o – que não pude deixar de olhá-la. Nunca vi nada m ais antiquado!... E aqueles cachos!... Deve ter sido ideia dela. Não vi nenhum a outra j ovem com um penteado parecido! Acho que vou perguntar-lhe se isso é m oda na Irlanda, acha que devo?... Sim , eu vou... Afirm o que vou... e a senhorita poderá observar com o ela reage, se vai ficar ruborizada.

Ele foi im ediatam ente e Em m a logo o viu de pé j unto a Miss Fairfax, falando com ela; no entanto, Em m a não pode ver nada da reação da j ovem , pois ele postou-se entre as duas.

Antes que ele pudesse retornar ao seu lugar, Mrs. Weston sentou-se na cadeira ao lado de Em m a.

– Este é o luxo de um a grande festa – disse ela – podem os nos sentar perto de qualquer pessoa e dizer o que quiserm os. Minha querida Em m a, há algum tem po que venho querendo falar-lhe. Fiz algum as descobertas e elaborei alguns planos, com o você sem pre faz, e quero lhe contar enquanto as ideias ainda estão frescas na m em ória. Você sabe com o Miss Bates e a sobrinha vieram para cá?

– Com o? Elas foram convidadas, não foram ?

– Oh, sim . Mas com o foram transportadas até aqui?... De que m odo vieram ?

– Cam inhando, eu im agino. De que outro m odo viriam ?

– É verdade. Bem , há pouco m e ocorreu com o seria triste se Jane Fairfax tivesse que voltar andando para casa, tarde da noite, e com o frio que está fazendo. E quando olhei para ela, apesar de nunca tê-la visto m elhor, m e ocorreu que ela está tão bem porque está aquecida, por isso m esm o estaria m ais exposta a pegar um resfriado. Pobre m enina! Não posso suportar essa ideia e, assim que Mr. Weston voltou à sala, aproxim ei-m e dele e lhe falei sobre a carruagem . Ele prontam ente concordou, com o pode adivinhar, e contando com sua aprovação fui direto a Miss Bates avisá-la que a carruagem estaria à disposição delas antes de nos levar para casa. Achei que assim ela se sentiria m ais confortável. Que boa

alm a! Ela ficou tão agradecida, pode ter certeza! Agradeceu m uito, m uito m esm o e disse que “ninguém era tão afortunada com o ela, m as não havia razão para nos incom odar, pois a carruagem de Mr. Knightley fora buscá-las e estava à disposição para levá-las para casa”. Fiquei totalm ente surpresa – bastante feliz, com certeza, m as m uito surpresa. Que atenção da parte dele... E tão conveniente! O tipo de coisa em que poucos hom ens teriam pensado. E, em sum a, por conhecê-lo tão bem , acho que foi só por causa delas que ele usou a carruagem esta noite. Suspeito que não teria m andado atrelar um par de cavalos só para ele, era apenas um a desculpa para servi-las.

– Muito provável – disse Em m a – nada m ais provável. Não conheço nenhum outro hom em , além de Mr. Knightley, capaz de tom ar sem elhante atitude. É algo tão bondoso e útil, um ato de consideração e benevolência. Ele não é um hom em galante, m as é m uito hum ano. E essa situação, considerando a saúde delicada de Jane Fairfax, deve ter-lhe parecido um caso de hum anidade.

Só posso pensar em Mr. Knightley para agir de form a tão bondosa sem ostentação. Vi que ele chegou de carruagem , pois chegam os j untos, e eu ri dele por causa disso, m as não falou um a palavra que pudesse trai-lo.

– Bem – disse Mrs. Weston, sorrindo – você lhe dá m ais crédito por esse ato de bondade, sim ples e desinteressado, do que eu. Pois enquanto Miss Bates estava falando, passou-m e um a suspeita pela m ente, e não fui m ais capaz de m e livrar dela. Quanto m ais penso nisso, m ais provável m e parece. Em resum o: im aginei um casam ento entre Mr. Knightley e Jane Fairfax. Viu o que m e acontece por estar sem pre em sua com panhia? O que pensa disso?

– Mr. Knightley e Jane Fairfax! – exclam ou Em m a. – Minha querida Mrs. Weston, com o pode pensar em um a coisa dessas?... Mr. Knightley !... Mr.

Knightley não pode se casar!!... A senhora gostaria de ver o pequeno Henry im pedido de herdar Donwell?... Oh, não! De j eito nenhum ! Henry tem que ser o dono de Donwell. Não posso aceitar de m odo algum que Mr. Knightley se case, e tenho certeza que isso não vai acontecer. Estou espantada que a senhora tenha pensado em um a coisa dessas.

– Em m a, m inha querida, apenas lhe disse o que m e levou a pensar nisso. Não que eu queira o casam ento... não tenho a m enor intenção de ofender o pequeno Henry, m as a ideia m e veio em vista das circunstâncias. E se Mr.

Knightley realm ente quiser se casar, Em m a, você não pode esperar que ele deixe de fazê-lo por causa de Henry, um garoto de seis anos que nada sabe do assunto.

– Posso, sim . Não suporto a ideia de ver Henry prej udicado... Mr.

Knightley casar-se!!... Não, j am ais essa ideia m e passou pela cabeça, e não vou

aceitá-la agora. E logo com Jane Fairfax, entre tantas m ulheres!

– Não sei por quê... Ela sem pre foi a preferida dele, você sabe disso m uito bem .

– Mas seria um casam ento m uito im prudente!

– Não estou falando de im prudência, apenas considero a probabilidade.

– Não vej o nenhum a probabilidade, há m enos que a senhora tenha razões m elhores do que essas que apresentou. Ele pode ter cedido a carruagem apenas por sua boa natureza e hum anidade, com o eu lhe disse. Mr. Knightley tem m uita estim a pelas Bates, a senhora sabe, independente de Jane Fairfax... e está sem pre pronto a ser atencioso com elas. Minha querida am iga, não tente fazer casam entos, pois faz isso m uito m al. Jane Fairfax senhora de Donwell Abbey !...

Oh, não, não! Fico revoltada só de pensar em tal coisa! Pelo próprio bem dele, espero que não com eta um a loucura dessas.

– Im prudente até pode ser... m as não é nenhum a loucura. A não ser pela desigualdade de fortuna e talvez um a pequena diferença de idade, não vej o nada inconveniente.

– Mas Mr. Knightley não desej a se casar. Tenho certeza que nem sequer pensa nisso. Não ponha essa ideia na cabeça dele. Por que ele se casaria?... Está m uito feliz consigo m esm o: tem sua fazenda, seus carneiros, sua biblioteca e toda a paróquia para adm inistrar. Além disso, ele adora os filhos do irm ão. Mr. Knightley não tem m otivos para se casar, sej a para preencher seu tem po ou seu coração.

– Minha querida Em m a, enquanto ele pensar desse m odo, que assim sej a. Mas se ele realm ente am ar Jane Fairfax...

– Que tolice! Ele não se im porta com Jane Fairfax. Não no sentido de am or, tenho certeza. Ele faria qualquer coisa de bom para ela ou sua fam ília, m as...

– Bem – disse Mrs. Weston, sorrindo – talvez a m elhor coisa que ele possa fazer por elas sej a dar a Jane um lar respeitável.

– Se isso for bom para ela, tenho certeza que seria o pior para ele; um casam ento m uito vergonhoso e degradante. Com o Mr. Knightley suportaria ter Miss Bates m orando com ele?... Vê-la assom brando Donwell Abbey e lhe agradecendo o dia inteiro por sua grande bondade em casar-se com Jane?... “Tão am ável e atencioso!... Mas ele sem pre foi o m elhor dos vizinhos”. E então m udar de assunto de repente, no m eio de um a frase, para a saia velha da m ãe. “Não que sej a um a saia assim tão velha, ainda deve durar um bom tem po... e, na

verdade, tinha que agradecer por suas saias serem todas m uito duráveis”.

– Que vergonha, Em m a. Não a im ite! Você m e faz rir, m esm o contra a m inha consciência. E posso assegurar que Mr. Knightley não ficaria m uito perturbado com a presença de Miss Bates. As pequenas coisas não o irritam . Ela poderia falar sem parar, e se ele quisesse dizer algum a coisa bastaria apenas falar m ais alto, e a voz dela sum iria. Mas a questão não é se essa ligação seria ruim para ele, m as se ele a desej a. Eu sem pre ouvi Mr. Knightley falar m uito bem de Jane Fairfax, e você tam bém ouviu. O interesse que tem por ela, a ansiedade que dem onstra pela sua saúde, a preocupação de que Jane não tenha boas perspectivas na vida! Sem pre o ouvi falar com tanto ardor a respeito dessas coisas. Além disso, ele adm ira tanto a execução dela ao piano e a sua voz! Eu o ouvi falar que poderia escutá-la para sem pre. Ah, ia m e esquecendo de outra ideia que m e ocorreu: esse piano, que foi m andado por alguém ... Apesar de ficarm os todos contentes em pensar que foi um presente dos Cam pbells, não poderia ter vindo da parte de Mr. Knightley ? Não posso evitar essa suspeita. Acho que ele é o tipo de pessoa que faria isso, m esm o sem estar apaixonado.

– Então não existe argum ento algum para provar que ele está apaixonado. Mas não acredito que ele tenha feito isso. Mr. Knightley não faz nada escondido.

– Eu o ouvi lam entar que ela não tivesse um piano para tocar diariam ente. E falou tantas vezes que eu pensei que, no curso natural das coisas, tal ideia pudesse ter lhe ocorrido.

– Muito bem . Mas se ele pretendesse dar-lhe um piano, teria contado a ela.

– Poderia haver escrúpulos de delicadeza, m inha querida Em m a. Tenho quase certeza que foi ele quem m andou. Pelo m enos ficou particularm ente silencioso quando Mrs. Cole contou-nos durante o j antar.

– Quando a senhora tem um a ideia, Mrs. Weston, segue em frente com ela, com o tantas vezes m e reprovou por fazê-lo. Não vej o sinal nenhum de afeição, não creio na história do piano, e as provas só m e convencem de que Mr.

Knightley não tem a m enor intenção de se casar com Jane Fairfax.

Elas discutiram o assunto ainda por algum tem po, da m esm a m aneira; Em m a parecia ganhar um pouco de terreno sobre a m ente da am iga, pois, entre as duas, era Mrs. Weston quem estava m ais acostum ada a ceder. Um a pequena agitação na outra sala indicou-lhes que o chá fora servido, e que o piano estava sendo preparado. No m esm o m om ento Mr. Cole aproxim ou-se para pedir a Em m a que lhes desse a honra de ouvi-la tocar. Mr. Frank Churchill, a quem no

calor da discussão com Mrs. Weston ela não vira m ais, e apenas notara que ele encontrara um lugar ao lado de Miss Fairfax, seguiu Mr. Cole para j untar suas súplicas às dele. E com o Em m a gostava m ais de liderar, em qualquer coisa que fosse, concordou am avelm ente.

Ela conhecia bem dem ais suas próprias lim itações, o suficiente para não tentar ir além das m úsicas que conseguisse executar com perfeição. Não lhe faltava gosto nem disposição para as pequenas coisas que eram agradáveis a todos, e pôde acom panhar com sucesso sua própria voz. Em m a teve um a surpresa ao ouvir outro acom panham ento para sua m úsica – um a segunda voz foi feita com suavidade e correção por Mr. Frank Churchill. Ao fim da execução ele pediu-lhe perdão, educadam ente, e seguiram -se as m anifestações usuais. Todos o cum prim entaram por ter um a bela voz e perfeito conhecim ento de m úsica. O

cavalheiro negou apropriadam ente, dizendo não conhecer nada de m úsica e não possuir um a boa voz, em hipótese algum a. Cantaram j untos m ais um a vez, e Em m a então podia ceder o lugar para Miss Fairfax, cuj a execução, tanto vocal quanto instrum ental, era infinitam ente superior à dela, o que Em m a não podia esconder nem de si m esm a.

Com sentim entos contraditórios, ela sentou-se um pouco distante das pessoas que rodeavam o piano para ouvir m elhor. Frank Churchill cantou novam ente, parece que j á haviam cantado j untos um a ou duas vezes antes, em Wey m outh. A visão de Mr. Knightley, entre os ouvintes m ais atentos, logo prendeu m etade da atenção de Em m a. Ela viu-se a pensar sobre as suspeitas de Mrs. Weston, e o suave som das belas vozes unidas apenas propiciava interrupções m om entâneas. Suas obj eções ao casam ento de Mr. Knightley não se sustentavam m ais, m as ela só podia ver m al nisso. Seria um grande desapontam ento para Mr. John Knightley, e logo para Isabella. Um a verdadeira afronta às crianças... um a m udança atroz e um a grande perda para todas. Seria um m otivo de desconforto diário para seu pai, e quanto a ela, não podia de j eito nenhum suportar a ideia de Jane Fairfax em Donwell Abbey. Um a Mrs.

Knightley para se sobrepor a todos eles! Não... Mr. Knightley nunca deveria se casar. O pequeno Henry deveria continuar sendo o herdeiro de Donwell.

Naquele m om ento Mr. Knightley olhou para trás, viu-a e veio sentar-se ao seu lado. Falaram prim eiro apenas da m úsica de Miss Fairfax, e a adm iração dele era certam ente m uito calorosa, m as ela pensou que, se não fosse por Mrs.

Weston, isso não a teria im pressionado. Com o pedra de toque, Em m a com eçou a falar da sua bondade em oferecer transporte para Miss Bates e a sobrinha. Achou que as respostas dele eram curtas o suficiente para acabar com o assunto, m as acreditava que isso era apenas falta de vontade de falar de sua própria bondade.

– Eu sem pre lam entei – disse ela – que nossa carruagem não sej a m ais

útil em tais ocasiões. Não é que m e falte vontade, m as sabe com o papai iria considerar im pensável que Jam es fosse ocupado para tais propósitos.

– Isso está fora de questão, totalm ente fora de questão – ele respondeu

– m as você deve ter sentido assim , tenho certeza.

Ele então sorriu com tão aparente prazer ao dizer isso que Em m a resolveu avançar m ais um passo.

– Esse presente dos Cam pbells – ela disse – foi m uita bondade deles m andarem o piano.

– Sim – respondeu ele, sem dem onstrar sinais aparentes de em baraço.

– Mas acho que teriam feito m elhor se a avisassem do presente. Surpresas são coisas m uito tolas. O prazer de quem recebe não é m aior, e a inconveniência m uitas vezes é considerável. Eu esperava m elhor j ulgam ento da parte do coronel Cam pbell.

A partir desse m om ento Em m a poderia j urar que Mr. Knightley não havia presenteado o piano. Mas ainda lhe restavam dúvidas sobre os sentim entos dele, se realm ente estava livre de algum apego por Jane Fairfax, se não tinha um a preferência por ela. Ao final da segunda m úsica, a voz de Jane tornou-se rouca.

– Aí está – disse ele, pensando alto, enquanto Jane term inava de cantar.

– Você j á cantou o bastante por um a noite, agora pode calar-se.

Logo pediram um a nova canção. “Só m ais um a canção... isso não cansaria Miss Fairfax de m odo algum , só o que pediam era m ais um a”. Ouviram então a voz de Frank Churchill dizendo “Acho que a senhorita vai conseguir sem nenhum esforço, a prim eira voz é m uito fraca. A força do som fica com a segunda voz”.

Mr. Knightley ficou furioso.

– Esse j anota – disse ele, indignado – não pensa em outra coisa além de exibir a própria voz. Isso não pode continuar.

E interpelou Miss Bates, que nesse m om ento passava perto dele.

– Miss Bates, a senhora está louca em perm itir que sua sobrinha cante rouca dessa m aneira? Vá lá e interfira. Eles não têm piedade dela.

Miss Bates, na sua ansiedade pela saúde de Jane, m al teve tem po para agradecer antes de entrar no salão e acabar com qualquer ideia de cantoria.

Assim term inou a parte da noite dedicada aos concertos, pois Miss Fairfax e Miss Woodhouse eram as únicas j ovens dam as que tocavam e cantavam . Mas, logo

depois (cerca de cinco m inutos) a proposta de dançar, surgida não se sabia bem de onde, foi tão bem divulgada por Mr. e Mrs. Cole, que logo abriram o espaço apropriado para o baile. Mrs. Weston, m estra em danças cam pestres, sentou-se e com eçou um a irresistível valsa. Mr. Frank Churchill, dirigindo-se a Em m a com im ensa galanteria, tom ou-a pela m ão e levou-a ao centro do salão. Enquanto esperava que os outros j ovens form assem seus pares, e apesar dos cum prim entos que recebia pela sua voz e seu bom gosto, Em m a achou tem po para olhar ao redor e ver o que era feito de Mr. Knightley. Isso seria um a prova cabal. Ele não gostava de dançar, m as se fizesse um esforço para dançar com Jane Fairfax agora, poderia significar algum a coisa im portante. Não conseguiu vê-lo logo. Não, ele estava conversando com Mrs. Cole e olhava distraído. Jane foi convidada por algum outro cavalheiro e ele continuava conversando com Mrs. Cole.