Emma

Jane Austen · Capítulo 3 de 113

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Emma

Capítulo II

E hoj e, no casam ento, quando todos se deram as m ãos, pensei que ele parecia querer que fizessem por ele a m esm a coisa que fiz por Miss Tay lor. Adm iro m uito Mr. Elton, e esta é a única m aneira que tenho de prestar-lhe um serviço.

– Mr. Elton é um j ovem m uito elegante e de bom caráter, com certeza, tenho grande estim a por ele. Mas se desej a m ostrar-se atenciosa, m inha querida, convide-o para j antar conosco um dia desses. Será m uito m elhor. Ouso dizer que Mr. Knightley será gentil o bastante para encontrá-lo.

– Com grande prazer, senhor, quando quiser – disse Mr. Knightley rindo

– e concordo inteiram ente com o senhor que é a m elhor coisa a fazer. Convide-o para j antar, Em m a, e ofereça-lhe o m elhor peixe e a m elhor ave, m as deixe-o escolher a própria esposa. Pode acreditar, um hom em de vinte e seis ou vinte e sete anos é capaz de tom ar conta de si m esm o.

CAPÍTULO II

Mr. Weston era natural de Highbury, de um a fam ília respeitável, que nas últim as duas ou três gerações havia ascendido em nobreza e prosperidade.

Recebera um a boa educação, m as, atingindo certa independência ainda m uito j ovem , não se achava disposto a engaj ar-se nos negócios corriqueiros a que seus irm ãos se dedicavam . Para ocupar sua m ente ativa e alegre e seu tem peram ento sociável, entrou para a m ilícia do condado, e seguiu a carreira m ilitar.

O capitão Weston era estim ado por todos; e quando as circunstâncias de sua carreira m ilitar levaram -no a conhecer Miss Churchill, de um a im portante fam ília do Yorkshire, e ela se apaixonou por ele, ninguém ficou surpreso, exceto o irm ão dela e a esposa. Com o nunca o tinham visto, e eram cheios de orgulho e arrogância, sentiam -se ofendidos com este relacionam ento.

Miss Churchill, no entanto, sendo m aior de idade e em plena posse de sua fortuna – em bora esta fortuna não fosse proporcional às propriedades da fam ília – não se deixou dissuadir, e o casam ento se realizou, para infinita m ortificação de Mr. e Mrs. Churchill, que se afastaram dela com o devido decoro. Foi um a união inapropriada, e não produziu m uita felicidade. Mrs.

Weston deve ter sido m ais feliz, pois tinha um m arido de coração afetuoso e caráter gentil, que achava que ela m erecia tudo com o retribuição pela grande bondade de ter se apaixonado por ele; e em bora ela tivesse algum a disposição de espírito, esta não era das m elhores. Teve coragem suficiente para im por sua própria vontade, a despeito da oposição do irm ão, m as não para refrear seu insensato pesar ante a insensata ira do irm ão, nem para deixar de sentir falta dos luxos do seu antigo lar. Viviam acim a de suas posses, m as isso não era nada com parado à sua vida em Enscom be: não deixara de am ar o m arido, m as queria ser ao m esm o tem po a esposa do Capitão Weston e Miss Churchill de Enscom be.

O Capitão Weston, que na opinião de todos, especialm ente dos Churchill, havia feito um excelente casam ento, term inou por ficar com a pior parte da barganha. Quando sua esposa m orreu, após um casam ento de três anos, estava ainda m ais pobre do que no início e com um filho para criar. Logo seria liberado das despesas de m anutenção da criança, no entanto. O filho havia sido um m eio de reconciliação, aj udado pelo suave apelo da prolongada doença da m ãe. Mr. e Mrs. Churchill, não possuindo filhos nem qualquer outra criança de igual parentesco para se dedicar, ofereceram -se para cuidar integralm ente do pequeno Frank, logo após a m orte da m ãe. O pai viúvo deve ter relutado e sentido alguns escrúpulos, m as com o estes foram superados por outras considerações, a criança foi deixada para desfrutar do cuidado e da riqueza dos Churchills, e ele tinha agora que prover apenas seu próprio conforto e tentar m elhorar sua

situação tanto quanto pudesse.

Seria necessária um a com pleta m udança de vida. O capitão deixou a m ilícia e dedicou-se ao com ércio, pois seus irm ãos j á haviam se estabelecido com sucesso em Londres e lhe propiciaram um a boa abertura. Era um trabalho que o ocupava bastante. Ele ainda possuía um a pequena casa em Highbury, onde passava a m aior parte de seus m om entos de descanso; e entre um a ocupação útil e os prazeres da sociedade, os dezoito ou vinte anos seguintes de sua vida passaram anim adam ente. Por essa época ele j á havia se estabelecido com sucesso – o suficiente para com prar um a pequena propriedade vizinha a Highbury, que ele sem pre desej ara – o suficiente para casar-se com um a m ulher sem dote com o Miss Tay lor, e para viver de acordo com a sua própria disposição am igável e sociável.

E foi desde então que Miss Tay lor com eçou a influenciar suas decisões; com o não era a tirânica influência da j uventude sobre a j uventude, isso não abalou sua determ inação de não se casar novam ente antes que pudesse com prar Randalls. A com pra da propriedade era algo que ele ansiava há m uito tem po, m as seguiu firm e na perseguição de seus obj etivos, até que se realizassem . Fizera sua fortuna, com prara sua casa, e conseguira a sua esposa. Com eçava um novo período em sua existência, com grandes possibilidades de ser m uito feliz, m ais do que no passado. Mr. Weston nunca fora um hom em infeliz, seu próprio tem peram ento evitara isso, m esm o durante seu prim eiro casam ento. Mas o segundo iria dem onstrar-lhe com o podia ser prazeroso ter um a com panheira de bom senso e verdadeiram ente am ável, e dar-lhe a m ais agradável prova de que era m elhor escolher do que ser escolhido, despertar gratidão do que senti-la.

Sua escolha devia agradar apenas a ele m esm o, pois tinha sua própria fortuna. Quanto a Frank, havia sido tacitam ente criado com o herdeiro do tio, e tornou-se tão natural sua adoção a ponto dele assum ir o sobrenom e Churchill quando atingiu a m aioridade. Era bastante provável que nunca precisasse do auxílio financeiro do pai, o qual estava bastante tranquilo quanto a isso. A tia era um a m ulher caprichosa e governava o m arido totalm ente. Mas não era da natureza de Mr. Weston acreditar que um capricho qualquer pudesse afetar alguém tão querido e, com o pensava, tão m erecedor do afeto que lhe dedicavam . Via o filho um a vez por ano, em Londres, e tinha orgulho dele; e sua afetuosa descrição do filho com o sendo um belo rapaz fez com que Highbury sentisse certo orgulho dele tam bém . Era considerado com o pertencente à com unidade, a ponto de seus m éritos e perspectivas serem alvo do interesse com um .

Mr. Frank Churchill era um dos orgulhos de Highbury, e todos tinham grande curiosidade em conhecê-lo, em bora a recíproca não fosse verdadeira,

pois ele nunca estivera lá em toda a sua vida. Falava-se m uito que ele viria visitar o pai, m as isso nunca acontecera.

Agora, com o casam ento do pai, era em geral aceita que, com o dem onstração de atenção, a visita deveria acontecer. Não havia um a só voz discordante, nem quando Mrs. Perry tom ou chá com Mrs. e Miss Bates, nem quando Mrs. e Miss Bates retribuíram a visita de Mrs. Perry. Agora j á era tem po de Mr. Frank Churchill estar entre eles; e as esperanças se renovaram quando se soube que ele escrevera um a carta para a m adrasta cum prim entando pelo casam ento. Durante alguns dias, cada visita m atinal em Highbury incluía algum a m enção à bela carta que Mrs. Weston tinha recebido.

“Suponho que tenha ouvido falar da bela carta que Mr. Frank Churchill escreveu para Mrs. Weston. Dizem que é um a carta belíssim a, de fato. Foi Mr.

Woodhouse que m e contou. Mr. Woodhouse viu a carta, e diz que nunca viu um a carta tão bonita em toda a sua vida”.

A carta foi bastante apreciada, na verdade. Mrs. Weston, é claro, havia form ado um a im pressão m uito favorável do j ovem ; e tão agradável gentileza era um a prova irresistível de seu grande bom senso e a m ais bem vinda adição a todas as congratulações que j á havia recebido pelo casam ento. Sentiu-se com o a m ais afortunada das m ulheres, e vivera o bastante para saber quão afortunada devia se considerar. Seu único pesar era a separação parcial de seus am igos, cuj a am izade para com ela nunca esfriara, e que suportavam m al sua partida.

Sabia que de vez em quando sentiriam sua falta, e não podia pensar sem tristeza em Em m a perdendo um sim ples prazer, ou tendo algum aborrecim ento por falta de sua com panhia. Mas Em m a não era fraca de caráter, e estava à altura da situação m uito m ais do que a m aioria das m oças estaria; além disso, tinha bom senso, energia e ânim o, que deviam aj udá-la a suportar bem e felizm ente suas pequenas dificuldades e privações. E depois, havia o conforto da pequena distância entre Randalls e Hartfield – um a cam inhada conveniente para m ulheres sozinhas – e da disposição e condições de Mr. Weston, que não haveria nenhum obstáculo para que passassem m etade das noites da sem ana j untos na estação que se aproxim ava.

A situação de Mrs. Weston era, de form a geral, m otivo para m uitas horas de gratidão ao m arido e poucos m om entos de pesar. Sua satisfação, m ais do que satisfação, sua prazerosa alegria, era tão aparente que Em m a, apesar de conhecer bem o pai, às vezes era tom ada de surpresa por ele ser ainda capaz de lam entar a “pobre Miss Tay lor” quando a deixavam em Randalls, cercada de todos os confortos dom ésticos, ou quando a via partir à noite, assistida pelo atencioso m arido, em sua própria carruagem . Mas ela nunca partiu sem que Mr.

Woodhouse desse um pequeno suspiro e dissesse “Ah, pobre Miss Tay lor! Ela gostaria tanto de ficar!”