Emma

Jane Austen · Capítulo 46 de 113

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Emma

Capítulo VIII

O tem po não a aj udou a se recom por. Quanto m ais refletia, m ais sentia o que fizera. Nunca estivera tão deprim ida. Felizm ente, não precisava falar.

Estava sozinha com Harriet, que tam bém parecia pensativa, cansada e desej osa de ficar em silêncio. E Em m a sentiu as lágrim as correrem por seu rosto durante todo o cam inho de volta, sem se dar ao trabalho de escondê-las, tão extraordinárias elas eram .

CAPÍTULO VIII

A desventura do passeio a Box Hill ficou em sua m ente durante toda a noite. Com o isso seria considerado pelo resto do grupo ela não saberia dizer. Em seus diferentes lares, e de m odos distintos, eles deviam estar olhando para trás com prazer. Mas, na opinião de Em m a, aquela fora um a m anhã totalm ente desperdiçada, despida de qualquer satisfação racional o tem po todo, pior do que qualquer outra m anhã que j á vivera, e se aborrecia ainda m ais ao relem brá-la.

Um a tarde inteira j ogando gam ão com o pai era a felicidade para ela. Nisso, realm ente, estava o real prazer, pois estaria dando as m ais doces das vinte e quatro horas do seu dia para o conforto dele. Sentia que, m esm o não m erecendo a profunda afeição e a confiante estim a que o pai lhe dedicava, ela não poderia receber nenhum a reprovação severa por sua conduta em relação a ele. Com o filha, acreditava que não pudessem considerá-la sem coração. Esperava que nunca alguém lhe dissesse “Com o pôde ser tão desalm ada em relação ao seu pai? Eu devo e vou dizer-lhe algum as verdades enquanto puder”. Miss Bates nunca a perdoaria, não, nunca! Se as atenções que lhe dirigisse no futuro pudessem com pensar o passado, ela teria esperanças de ser perdoada. Fora negligente m uitas vezes, sua consciência lhe dizia. Negligente, talvez, m ais em pensam ento do que de fato; indelicada, desdenhosa. Mas não seria m ais assim .

No calor do arrependim ento, decidiu que visitaria Miss Bates na m anhã seguinte, e isso seria o com eço, da parte dela, de um relacionam ento regular, igual e gentil.

Continuava com a m esm a determ inação quando chegou a m anhã, e foi logo cedo, para que nada pudesse im pedi-la. Não era im provável que encontrasse Mr. Knightley no cam inho, pensou Em m a. Ou talvez ele viesse enquanto ela estivesse visitando Miss Bates. Não tinha obj eções. Ela não ficaria envergonhada se parecesse estar cum prindo um a penitência, pois seria m uito verdadeira e j usta. Os olhos dela se voltavam para Donwell enquanto cam inhava, m as não o viu.

– As senhoras estão todas em casa.

Nunca antes ficara tão contente com o som dessas palavras. Tam bém nunca entrara no corredor, nem subira as escadas, com tanto desej o de causar alegria. Sem pre entrara ali com o um a obrigação, o que agora parecia ridículo.

Houve algum a agitação enquanto ela se aproxim ava. Ouviu ruídos de m ovim entos e vozes. Escutou a voz de Miss Bates dizendo que algo devia ser feito às pressas. A em pregada parecia assustada e em baraçada. Esperava que lhe pedissem para esperar um m om ento, m as foi logo conduzida para a sala. A tia e

a sobrinha pareciam estar fugindo para o aposento ao lado, e viu Jane de relance, parecendo estar doente. Antes que a porta fosse fechada ouviu Miss Bates dizer:

– Bem , m inha querida, eu vou dizer que você está de cam a. Tenho certeza m esm o que está doente...

A pobre Mrs. Bates, educada e hum ilde com o sem pre, dava a im pressão de não entender bem o que se passava.

– Tem o que Jane não estej a m uito bem – ela disse – m as não sei com certeza. Disseram - me que ela está bem . Minha filha logo vai chegar, Miss Woodhouse. Espero que encontre um a cadeira. Gostaria de Hetty não tivesse descido. Eu não sou capaz de fazer m uita coisa... Achou um a cadeira, m adam e?

Está sentada onde desej a? Tenho certeza que ela logo estará aqui.

Em m a esperava sinceram ente que ela viesse. Tem eu por um m om ento que Miss Bates não quisesse recebê-la, m as ela logo chegou... “m uito feliz pela gentileza”... m as a consciência de Em m a lhe disse que ela não agia com a m esm a alegre volubilidade de antes, havia m enos tranquilidade no olhar e nas m aneiras. Em m a calculava que um am igável questionário sobre Miss Fairfax abriria o cam inho para a volta dos antigos sentim entos. O resultado pareceu im ediato.

– Ah, Miss Woodhouse! Com o a senhorita é gentil!... Creio que ouviu dizer... e que por isso veio nos dar essa alegria. Não parece um a grande alegria para m im , de fato (derram ando um a ou duas lágrim as)... m as será m uito difícil para nós nos separarm os dela, após ter estado conosco por tanto tem po, e ela teve um a terrível dor de cabeça j ustam ente hoj e. Escreveu cartas tão longas, a senhorita sabe, para o coronel Cam pbell e Mrs. Dixon. “Minha querida” eu disse

“você vai ficar cega”... pois havia lágrim as perpetuam ente nos olhos dela. Não dá para im aginar, não dá m esm o para im aginar. É um a m udança grande dem ais, e ainda que ela sej a im ensam ente venturosa... um a colocação tal que nenhum a m oça consegue no seu prim eiro em prego... não pense que não som os gratas, Miss Woodhouse, por esta grande felicidade (novam ente derram ando algum as lágrim as)... m as a m inha pobre querida! Se visse a dor de cabeça com que ela está. Quando se sente um a grande dor não podem os agradecer as bênçãos que recebem os com o m erecem . Ela está m uito m al. Se olhar para ela ninguém dirá que está feliz por conseguir um a colocação tão boa. Deve desculpá-la por não vir recebê-la, m as ela não é capaz, foi para seu próprio quarto... Quero que ela se deite um pouco. “Minha querida”, eu disse, “vou dizer que você está de cam a”, m as, no entanto, ela não está deitada. Está cam inhando pelo quarto sem parar.

Mas, agora que escreveu as cartas, ela diz que ficará bem . Jane vai lam entar m uito não ter visto a senhorita, Miss Woodhouse, m as sei que a perdoará, na sua

bondade. A senhorita teve que esperar na porta... Fiquei tão envergonhada! Mas houve um a pequena agitação, pois não ouvim os a senhorita bater, e até que estivesse na escada não sabíam os que havia alguém chegando. “É apenas Mrs.

Cole” eu disse “posso apostar. Ninguém m ais viria tão cedo”. E ela então disse

“Bem , todos saberão um dia ou outro, então pode m uito bem ser agora”. Então Patty chegou e disse que era a senhorita. “Oh” eu disse “é Miss Woodhouse, tenho certeza que gostará de vê-la”. “Não posso ver ninguém ”, ela disse, então se levantou e saiu da sala. E foi por isso que a deixam os esperando, estam os m uito sentidas e envergonhadas. “Se você deve ir, m inha querida, então vá” eu disse

“vou dizer a ela que você está de cam a”.

Em m a estava sinceram ente interessada. Seu coração vinha ficando m ais gentil em relação à Jane. E esse quadro vivo dos sofrim entos dela agiu com o um a cura para qualquer ingrata suspeita que pudesse ter tido; Em m a não podia sentir outra coisa a não ser piedade. A lem brança das sensações m enos j ustas e m enos gentis do passado obrigavam -na a adm itir que Jane pudesse ter naturalm ente resolvido ver Mrs. Cole ou qualquer outra am iga fiel, enquanto não aceitava recebê-la. Ela falou do que sentia, com arrependim ento e solicitude, desej ando sinceram ente que as circunstâncias que Miss Bates acabara de m encionar, realm ente trouxessem a m aiores vantagens e confortos para Miss Fairfax. “Seria um a severa prova para todas elas. Havia entendido que isso deveria ser adiado até o retorno do coronel Cam pbell”.

– Que bondade a sua! – respondeu Miss Bates. – Mas a senhorita sem pre é bondosa.

Em m a não conseguiu aceitar o “sem pre” e, para interrom per essa espantosa gratidão, perguntou diretam ente:

– E para onde, se posso perguntar, Miss Fairfax está indo?

– Para a casa de Mrs. Sm allridge... um a dam a encantadora... m uito superior. Vai encarregar-se de suas três m eninas, crianças m aravilhosas. Não pode existir um a colocação que lhe ofereça m ais conforto, a não ser, talvez, a própria fam ília de Mrs. Suckling ou de Mrs. Bragge. Mas Mrs. Sm allridge é íntim a das duas e m ora na m esm a vizinhança... a apenas seis quilôm etros de Maple Grove. Jane vai estar a apenas seis quilôm etros de Maple Grove.

– Mrs. Elton, eu creio, é a pessoa a quem Miss Fairfax deve...

– Sim , nossa querida Mrs. Elton. A am iga m ais verdadeira e infatigável.

Ela não aceitaria um a negativa. Não deixaria que Jane dissesse “não”, pois quando Jane ouviu falar disso pela prim eira vez (foi antes de ontem , na própria m anhã em que fom os a Donwell), quando Jane soube disso, estava bastante

decidida a não aceitar a oferta, pelas razoes que m encionou. Exatam ente o que a senhorita disse, ela decidira não aceitar nada até que o coronel Cam pbell voltasse e nada a teria levado a aceitar um com prom isso no m om ento... Ela disse isso a Mrs. Elton várias vezes... E nem ela m esm a sabia que m udaria de opinião! Mas a boa Mrs. Elton, cuj o bom senso j am ais falha, viu m ais longe do que eu. Não é qualquer um a que se m anteria firm e do m esm o m odo que ela, pois se recusou a aceitar a recusa de Jane. Disse que não iria m andar um a carta de negativa ontem , com o Jane desej ava. Pretendia esperar e, então, ontem à noite tudo foi acertado para que Jane fosse. Foi um a enorm e surpresa para m im ! Eu não tinha a m enor ideia! Jane cham ou Mrs. Elton à parte e lhe disse que após pensar nas vantagens da colocação na casa de Mrs. Sm allridge tom ara a decisão de aceitar.

Eu não soube de um a palavra sobre isso até que estivesse decidido.

– Então as senhoras estiveram com Mrs. Elton na noite de ontem ?

– Sim , todas nós. Mrs. Elton nos convidou. Isso foi com binado no passeio, em Box Hill, enquanto cam inhávam os com Mr. Knightley. “Vocês todos devem passar o serão lá em casa” ela disse “eu faço questão absoluta que todos venham ”.

– E Mr. Knightley tam bém foi?

– Não, Mr. Knightley não. Ele declinou do convite desde o início e, em bora eu pensasse que ele iria porque Mrs. Elton disse que não o deixaria escapar, ele não foi. Mas m inha m ãe, Jane e eu fom os todas para lá e tivem os um a noite m uito agradável. São am igos tão bons, Miss Woodhouse, foram sem pre agradáveis, apesar de todos estarem cansados depois do passeio da m anhã. Até o prazer, a senhorita sabe, às vezes cansa, e não posso dizer que algum deles pareça ter apreciado m uito aquele passeio. No entanto, eu sem pre pensarei que foi um passeio agradável, e m e sinto extrem am ente grata aos bons am igos que m e convidaram para acom panhá-los.

– Miss Fairfax, im agino, em bora a senhora não soubesse de nada, deve ter passado o dia todo pensando nisso?

– Eu ouso dizer que sim .

– Quando chegar a hora dela partir vai ser m uito doloroso, tanto para ela com o para todos os seus am igos... Mas espero que a sua colocação lhe traga todo o alívio possível, quero dizer, no que se refere ao caráter e posição da fam ília.

– Obrigada, m inha querida Miss Woodhouse. Sim , de fato, lá há de tudo que possa existir no m undo para fazê-la feliz. Excetuando-se os Sucklings e os Bragges, não há nenhum a outra colocação para cuidar de crianças tão liberal e

elegante, entre todas as am izades de Mrs. Elton. Mrs. Sm allridge é a dam a m ais adorável! O estilo de vida deles é quase igual ao de Maple Grove... E quanto às crianças, exceto os pequenos Sucklings e Bragges, não há crianças m ais encantadoras em nenhum outro lugar. Jane será tratada com tanta consideração e bondade! Tudo será só alegria para ela. E o salário! Realm ente, não posso lhe dizer o salário dela, Miss Woodhouse. Mesm o a senhorita, acostum ada com o está às grandes som as, dificilm ente acreditará que possam pagar tanto a um a pessoa tão j ovem com o Jane.

– Ah, m adam e – exclam ou Em m a – se as outras crianças forem todas com o eu m e lem bro de ter sido, acho que um salário cinco vezes m aior do que o m aior salário que ouvi dizer que é pago para essa função, seria m uito bem m erecido.

– A senhorita tem ideias tão nobres!

– E quando Miss Fairfax deverá partir?

– Muito breve, m uito breve, na verdade. Isso é o pior de tudo, daqui a quinze dias. Mrs. Sm allridge tem m uita pressa. Minha pobre m ãe nem sabe com o vai suportar isso. Então tento tirar isso dos seus pensam entos e digo “Ora, m adam e, não vam os m ais pensar nisso!”

– Todos os am igos de Miss Fairfax sentirão m uito perdê-la. E o coronel e Mrs. Cam pbell, não vão lam entar que ela tenha se com prom etido antes do retorno deles?

– Sim , Jane tem certeza que sim , m as, com o a senhorita vê, essa é um a colocação que ela não poderia recusar. Fiquei tão espantada quando ela m e contou o que estivera falando com Mrs. Elton, e ao m esm o tem po Mrs. Elton veio m e dar os cum prim entos por isso! Foi antes do chá... Espere, não, não pode ter sido antes do chá, pois íam os com eçar a j ogar cartas... m as foi m esm o antes do chá, pois eu m e lem bro de ter pensado... Oh! Não, não, agora m e lem bro, lem bro direitinho, aconteceu algum a coisa antes do chá, m as foi outra coisa. Mr.

Elton foi cham ado e afastou-se da sala antes do chá, pois o filho do velho John Abdy queria falar com ele. Pobre velho John, tenho grande consideração por ele, ele foi escrivão do m eu pobre pai durante vinte e sete anos. Agora, pobre hom em , está preso à cam a, e sofre m uito de reum atism o e gota nas j untas. Devo ir visitá-lo hoj e, e Jane tam bém irá, estou certa, se ela resolver sair afinal de contas. E o filho do pobre John veio falar com Mr. Elton sobre o alívio da paróquia. Ele se saiu m uito bem , a senhorita sabe, pois é o encarregado da Crown, é cavalariço e outras coisas desse tipo, m as ainda assim não pode sustentar o pai sem algum a aj uda. Quando Mr. Elton voltou nos disse o que o John estivera lhe

contando, falou sobre a chaise[1] que m andara a Randalls para levar

Mr. Frank Churchill de volta a Richm ond. Isso foi o que aconteceu antes do chá.

Foi depois do chá que Jane falou com Mrs. Elton.

Miss Bates dificilm ente daria a Em m a tem po para dizer que essa circunstância era nova para ela. E prosseguiu contando tudo, sem supor que ela podia ignorar qualquer detalhe da partida de Mr. Frank Churchill, m as não tinha im portância.

O que Mr. Elton soubera do cavalariço a respeito do assunto era a som a do que o próprio cavalariço sabia m ais o que os criados de Randalls tinham contado, ou sej a, que chegara um m ensageiro de Richm ond, logo depois que o grupo havia retornado de Box Hill. A m ensagem , no entanto, não fora m ais do que se esperava: Mr. Churchill escrevera algum as linhas ao sobrinho contendo, em resum o, um relato da saúde de Mrs. Churchill e pedindo-lhe que não deixasse de voltar na m anhã seguinte, bem cedo. Mas Mr.

Frank Churchill resolvera partir no m esm o instante, sem esperar, e com o seu cavalo parecia ter pego um resfriado, m andaram Tom buscar um a chaise im ediatam ente na Crown. O

cavalariço o vira passar, e o rapaz ia a um a boa velocidade, dirigindo com firm eza.

Nada havia de espantoso ou interessante nesse relato, e Em m a só se interessou porque se relacionava com um a ideia que j á estava em sua m ente.

Ficara im pressionada com o contraste entre a im portância, no m undo, de Mrs.

Churchill e a de Jane Fairfax. Um a era tudo e a outra, nada... E Em m a ficou pensando na diferença de destino entre as m ulheres, sem se dar conta do que os seus olhos fixavam , até que foi despertada pela voz de Miss Bates, que dizia:

– Ah, eu sei no que a senhorita está pensando... O piano. O que vam os fazer com ele?... É verdade. A pobre Jane estava falando nisso agora m esm o.

“Você deve ir em bora” ela disse. “Você e eu devem os nos separar. Você não terá utilidade lá”... “Deixe que fique, no entanto..”. ela disse “Deixe que fique aqui até que o coronel volte. Vou falar com ele sobre o assunto; ele vai resolver isso para m im . Vai m e aj udar em todas as dificuldades” E até agora, eu creio, ela não sabe se foi presente dele ou da filha.

Agora, Em m a via-se obrigada a pensar no piano. E a lem brança de todas as suas fantasiosas e inj ustas conj eturas era tão desagradável que ela logo se convenceu de que a visita j á durara o bastante. E, repetindo tudo o que podia se aventurar a dizer sobre as coisas boas que desej ava e que de fato sentia, ela foi em bora.

[1] Pequena carruagem para um a pessoa, com um assento e coberta por um a capota, puxada por apenas um cavalo.

Í