Emma
Capítulo XVIII
Mrs. Weston estava o m ais feliz que podia com a notícia. Seus m odos e olhares não faziam nada para refrear esta alegria. Estava feliz, sabia que estava feliz e sabia que m erecia estar feliz. Suas congratulações ao m arido foram calorosas e francas, m as Em m a não podia expressar-se com tanta fluência. Ela estava um tanto ocupada em pesar seus próprios sentim entos, tentando entender a extensão da agitação que a dom inava, que achou bastante considerável.
Mr. Weston, entretanto, ansioso dem ais para ser bom observador, com unicativo dem ais para perm itir que os outros falassem , ficou m uito satisfeito com o que Em m a disse, e logo se dirigiu aos outros para fazer os am igos felizes, com unicando parcialm ente algo que toda a sala j á tinha ouvido.
Foi m uito bom que Mr. Weston tom asse a alegria de todos com o certa, ou não teria considerado nem Mr. Woodhouse nem Mr. Knightley particularm ente encantados com a notícia. Eles eram os prim eiros que deveriam ficar felizes, após Mrs. Weston e Em m a. Depois viria Miss Fairfax, m as ela estava m uito entretida conversando com John Knightley e não seria correto interrom per. E achando-se perto de Mrs. Elton, que não conversava com ninguém , im ediatam ente entrou no assunto com ela.
CAPÍTULO XVIII
– Espero logo ter o prazer de apresentar-lhe m eu filho – disse Mr.
Weston.
Mrs. Elton, desej ando supor que a esperança m encionada era um cum prim ento especial para ela, sorriu com infinita graça.
– A senhora com certeza j á ouviu falar de um certo Frank Churchill, eu suponho – continuou ele – e sabe que se trata de m eu filho, em bora não use o m eu nom e.
– Oh, sim , e ficarei m uito feliz em conhecê-lo. Tenho certeza que Mr.
Elton não perderá tem po em visitá-lo, e nós dois ficarem os m uito felizes em recebê-lo no Vicariato.
– A senhora é m uito am ável, Frank ficará extrem am ente feliz, tenho certeza. Ele deverá chegar à capital na próxim a sem ana, se não antes. Soubem os disso por um a carta que recebem os hoj e. Peguei as cartas quando estava a cam inho de Londres, hoj e de m anhã, e vendo a letra de m eu filho m e perm iti abri-la, em bora não fosse dirigida a m im diretam ente. Era para Mrs. Weston, ela é a principal correspondente dele, asseguro-lhe. Eu m esm o raram ente recebo um a carta.
– E então o senhor sim plesm ente abriu a que estava endereçada a ela!
Oh, Mr. Weston! Devo protestar contra isso. (rindo afetadam ente) Um precedente m uito perigoso, de fato! Espero que não perm ita que seus vizinhos sigam seu exem plo. Se é isso que devo esperar, nós, m ulheres casadas, devem os com eçar a nos cuidar! Oh, Mr. Weston, eu nunca poderia acreditar que fosse capaz de fazer isso!
– Bem , nós, hom ens, som os terríveis. A senhora deve tom ar cuidado, Mrs. Elton. Esta carta nos diz... É um a carta curta, na verdade, escrita às pressas, apenas para nos dar a notícia... A carta diz que estão todos vindo diretam ente para a capital por causa de Mrs. Churchill, que não passou bem durante todo o inverno, e acha que Enscom be é fria dem ais. Assim , decidiram partir para o sul sem m ais dem ora.
– Não m e diga! Eles vêm de Yorkshire, eu acho. Enscom be fica em Yorkshire?
– Sim , a cerca de trezentos quilôm etros de Londres. É um a distância considerável.
– Sim , de fato, m uito considerável. São cem quilôm etros a m ais do que
de Maple Grove a Londres. Mas o que significa a distância, Mr. Weston, para as pessoas ricas? O senhor ficaria espantado de saber quantas vezes m eu cunhado, Mr. Suckling, viaj a por aí. O senhor m al vai acreditar, m as ele e Mr. Bragge foram a Londres e voltaram duas vezes na m esm a sem ana com quatro cavalos.
– O m al da distância de Enscom be – disse Mr. Weston – é que Mrs.
Churchill, tanto quanto nós sabemos, não foi capaz de deixar o sofá por um a sem ana inteira. Na últim a carta de Frank ele se queixava de que ela estava tão fraca que não era capaz de ir até a estufa, a não ser que tivesse o apoio do braço dele e do m arido! Isso m ostra um alto grau de fraqueza, a senhora sabe, m as agora ela está tão im paciente para ir à cidade que pretende dorm ir apenas duas noites no cam inho. Foi o que Frank nos contou na carta. Certam ente, as dam as delicadas têm constituições m uito fortes, Mrs. Elton. A senhora há de concordar com igo nisso.
– Não, de fato, não concordo absolutam ente. Sem pre tom o o partido do m eu próprio sexo, sem pre m esm o. E lhe digo que vai encontrar em m im um a antagonista form idável nessa questão. Sem pre defendo as m ulheres, e posso lhe afirm ar que se o senhor soubesse com o Selina se sente a respeito de dorm ir em um a estalagem , não se espantaria de Mrs. Churchill fazer incríveis esforços para evitar isso. Selina diz que é um horror, e acho que peguei um pouco de seu refinam ento. Ela sem pre viaj a com seus próprios lençóis, o que é um a excelente precaução. Mrs. Churchill faz o m esm o?
– Pode acreditar que Mrs. Churchill faz todas as coisas que qualquer outra dam a refinada faria. Mrs. Churchill nunca fica atrás de nenhum a dam a do m undo no que diz respeito...
Mrs. Elton interrom peu ansiosam ente, dizendo:
– Oh! Mr. Weston, não m e entenda m al. Selina não é um a dam a refinada, eu lhe garanto. Não leve adiante essa ideia.
– Oh, não? Então ela não serve de exem plo para Mrs. Churchill, que é um a dam a com pletam ente refinada, com o nunca se viu outra.
Mrs. Elton com eçou a pensar que errara em discordar com tanta veem ência. Não era absolutam ente sua intenção que alguém acreditasse que sua irm ã não era um a dam a refinada. Talvez faltasse algum espírito nessa afirm ativa. Ela estava pensando em qual seria a m elhor form a de retratar-se quando Mr. Weston continuou:
– Mrs. Churchill não desfruta das m inhas boas graças, com o a senhora deve suspeitar... m as isso fica entre nós. Ela é m uito afeiçoada a Frank e, portanto, não vou falar m al dela. Além disso, ela está doente no m om ento. Mas
isso, na verdade, segundo suas próprias palavras, ela sem pre esteve. Eu não costum o dizer isso para todo m undo, Mrs. Elton, m as não acredito m uito na doença de Mrs. Churchill.
– Se ela realm ente está doente, por que não vai para Bath, Mr. Weston?
Para Bath, ou para Clifton?
– Ela se apegou à ideia de que Enscom be é frio dem ais para ela. O fato é, creio eu, que está cansada de Enscom be. Ela está ali há m uito tem po, m ais tem po do que ficou em qualquer outro lugar, e com eça a desej ar um a m udança.
É um lugar m uito retirado. Muito bonito, m as m uito retirado.
– Ah! É com o Maple Grove, ouso dizer. Nenhum lugar fica tão afastado da estrada com o Maple Grove. Tem um a enorm e plantação em volta! Sinto-m e excluída de tudo, no m ais com pleto isolam ento. E Mrs. Churchill provavelm ente não possui saúde ou espírito com o Selina para apreciar esse tipo de reclusão. Ou talvez ela não possua em si os recursos necessários para qualificar-se para a vida no cam po. Sem pre digo que um a m ulher não deve ter m uitos recursos... e m e sinto agradecida por possuir tantos, o bastante para ser independente na sociedade.
– Frank esteve aqui por quinze dias, em fevereiro.
– Foi o que m e lem bro de ter ouvido. Ele encontrará um a adição à sociedade de Highbury quando voltar, isto é, se tenho o direito de declarar a m im m esm a um a adição. Mas talvez ele nunca tenha ouvido falar de que existe tal criatura no m undo.
Esta era um a insinuação tão grande para um cum prim ento, que ele não pode ignorar. Mr. Weston então exclam ou im ediatam ente, com m uita graça:
– Minha cara m adam e! Ninguém a não ser a senhora poderia im aginar tal coisa possível. Não ouvir falar da senhora! Creio que as últim as cartas de Mrs.
Weston trataram de m uito poucos assuntos além de Mrs. Elton.
Tendo feito sua obrigação, podia retornar ao filho.
– Quando Frank nos deixou – continuou ele – ficam os na incerteza de quando ele poderia voltar, o que torna as notícias de hoj e duplam ente felizes. Foi totalm ente inesperado. Isto é, eu sem pre tive a forte im pressão de que ele voltaria logo, sem pre achei que algum a coisa m uito favorável iria acontecer, m as ninguém acreditava em m im . Ele e Mrs. Weston estavam am bos terrivelm ente desanim ados. “Com o ele poderia ser persuadido a vir? E com o supor que a tia e o tio pudessem dispensá-lo de novo?” e assim por diante. Eu sem pre acreditei que algo aconteceria para nos favorecer, e assim aconteceu,
com o pode ver. No decorrer da m inha vida, Mrs. Elton, observei que se as coisas estavam ruins em um m ês, sem pre m elhoravam no m ês seguinte.
– É verdade, Mr. Weston, absolutam ente verdade. Era j usto o que eu costum ava dizer para certo cavalheiro que estava sem pre em m inha com panhia, nos dias em que m e fazia a corte. Pois quando as coisas não iam m uito bem e não seguiam adiante com toda a rapidez que ele desej ava, com eçava a entrar em desespero e exclam ar que estava certo, a essa altura, que chegaria o m ês de
maio antes que o m anto cor de açafrão de Him eneu[1] fosse estendido para nós.
Ah! As dificuldades que tive para expulsar essas ideias som brias e lhe trazer perspectivas m ais alegres! A carruagem , então... Tivem os m uitos problem as com a carruagem . Lem bro-m e que um a m anhã ele m e procurou em tal desespero...
Ela foi obrigada a parar por causa de um a leve tosse, e Mr. Weston im ediatam ente aproveitou a oportunidade para prosseguir.
– A senhora m encionou o m ês de m aio. Maio é j usto o m ês em que ordenaram a Mrs. Churchill, ou ela ordenou a si m esm a, para passar em algum lugar m ais quente que Enscom be. Em sum a, ela virá para Londres, e assim terem os a agradável perspectiva das visitas frequentes de Frank durante toda a prim avera, precisam ente a estação do ano que se costum a escolher para um a visita. Os dias são bastante longos, o tem po é am eno e claro, convidativo a sair, e não é m uito quente para cam inhadas. Quando ele esteve aqui antes nós aproveitam os bastante. Mas houve vários dias chuvosos, úm idos e nublados. Em fevereiro sem pre é assim , a senhora sabe, e não pudem os fazer m etade dos passeios que desej ávam os. Agora terem os tem po. Será um a enorm e alegria, e eu m esm o não sei, Mrs. Elton, se a incerteza de nossos encontros, a constante expectativa da vinda dele para hoj e ou am anhã, a qualquer hora, não seria m ais propícia a nos trazer felicidade do que tê-lo realm ente em casa. Creio, de fato, que é assim . Acho que é o estado da m ente que nos traz m ais ânim o e delícia.
Espero que a senhora goste do m eu filho, m as não espere um prodígio. Ele é tido com o um j ovem cavalheiro m uito agradável, m as não deve esperar um prodígio.
O afeto de Mrs. Weston por Frank é m uito grande, com a senhora pode supor, e m uito gratificante para m im . Ela acha que não existe ninguém igual a ele.
– E eu lhe asseguro, Mr. Weston, que tenho poucas dúvidas de que m inha opinião será decididam ente a favor dele. Ouvi tantos elogios a Mr. Frank Churchill! Ao m esm o tem po, é j usto observar que sou um a daquelas pessoas que sem pre j ulgam por si m esm as, e não m e deixo guiar pelos outros de form a algum a. Eu lhe digo que tão logo conheça seu filho, farei o j ulgam ento dele. Não sou um a aduladora.
Mr. Weston estava m editando.
– Espero – disse ele, então – não ter sido m uito severo a respeito da pobre Mrs. Churchill. Se ela está m esm o doente, ficaria triste por fazer-lhe um a inj ustiça. Mas há alguns traços em seu caráter que tornam difícil para eu falar dela com a indulgência que eu gostaria. A senhora não deve ignorar, Mrs. Elton, o tipo de ligação que tenho com a fam ília, nem o tratam ento que recebi da parte deles. E, cá entre nós, a culpa disso tudo é inteiram ente dela. Ela foi a instigadora.
A m ãe de Frank j am ais teria sido desprezada com o foi se não fosse por ela. Mr.
Churchill é orgulhoso, m as seu orgulho não significa nada para a esposa. O
orgulho dele é do tipo calm o, cavalheiresco e indolente, incapaz de ferir alguém , e apenas o torna um tanto desam parado e aborrecido. Mas o orgulho dela é arrogância e insolência! E o que leva as pessoas a não suportarem Mrs. Churchill, é que ela não tem nenhum direito de fam ília ou de sangue. Não era ninguém quando se casou com ele, m al se podia dizer que era a filha de um cavalheiro.
Desde que se tornou um a Churchill, no entanto, passou a usar o nom e para exigir tudo de todos. Mas em si, garanto-lhe, ela é um a nova rica.
– Im agine! Bem , isso deve ser infinitam ente irritante! Eu tenho profundo horror a novos ricos. Maple Grove m e ensinou a detestar gente desse tipo, pois existe um a fam ília na vizinhança que é um aborrecim ento para m inha irm ã e m eu cunhado, pelos ares de grandeza que têm ! Sua descrição de Mrs.
Churchill m e levou im ediatam ente a pensar neles. O nom e da fam ília é Tupm an, estão estabelecidos lá há pouco tem po, e se m isturaram com pessoas m uito inferiores, m as se dão ares de grandeza, esperando ficar no m esm o nível das fam ílias m ais antigas. Devem estar em West Hall no m áxim o há um ano e m eio, e ninguém sabe de que m odo fizeram fortuna. Vieram de Birm ingham , que não é um lugar m uito prom issor, com o o senhor sabe, Mr. Weston. Não se deve esperar m uito de quem vem de Birm ingham . Sem pre digo que existe algo de pavoroso no som desse nom e, m as nada m ais se sabe sobre os Tupm ans, em bora haj a m uitas suspeitas, garanto-lhe. E pelos seus m odos é evidente que se im aginam iguais até m esm o ao m eu cunhado, Mr. Suckling, que por acaso é um dos seus vizinhos m ais próxim os. É um a situação m uito ruim . Mr. Suckling, que vive em Maple Grove há onze anos, e cuj o pai possuía essa propriedade antes dele... Pelo m enos eu acho, estou quase certa de que o velho Mr. Suckling adquiriu a propriedade antes de m orrer.
Foram interrom pidos, pois o chá estava sendo servido. Mr. Weston, tendo dito tudo o que queria dizer, logo aproveitou a oportunidade para afastar-se.
Após o chá, Mr. e Mrs. Weston e Mr. Elton sentaram -se com Mr.
Woodhouse para j ogar cartas. Os outros cinco ficaram por sua conta, e Em m a duvidava que conseguissem se sair bem . Mr. Knightley não parecia disposto a
conversar, Mrs. Elton queria atenções que ninguém desej ava lhe dar, e ela m esm a estava com o espírito tão agitado que preferia ficar calada.
Mr. John Knightley m ostrou-se m ais falante que o irm ão. Devia deixá-los bem cedo na m anhã seguinte, e logo com eçou a dizer:
– Bem , Em m a, acho que não preciso dizer-lhe m ais nada a respeito dos m eninos. Você tem a carta de sua irm ã, e tudo está m uito bem explicado nela, tenho plena certeza. Minha recom endação seria m uito m ais concisa do que a dela, e provavelm ente não teria o m esm o espírito, pois tudo o que teria para recom endar se resum e a não m im á-los e não m edicá-los.
– Espero m uito poder satisfazê-lo em am bas as coisas – disse Em m a –
pois farei tudo ao m eu alcance para deixá-los felizes, o que dever ser suficiente para Isabella. E a felicidade deve excluir a falsa indulgência e a m edicação.
– E se você os achar cansativos pode m andá-los de volta para casa.
– Isso é possível. O senhor realm ente acha isso, não é?
– Tenho consciência que eles podem ser barulhentos dem ais para o seu pai, ou talvez sej am um em pecilho para você, se os seus com prom issos sociais continuarem a aum entar da form a que aum entaram ultim am ente.
– Aum entar?
– Certam ente. Você deve estar ciente que os últim os seis m eses fizeram um a grande diferença no seu m odo de vida.
– Diferença? Não, eu de fato não estou ciente disso.
– Não há dúvida de que você está m uito m ais envolvida com suas com panhias do que costum ava estar. Agora m esm o, por exem plo. Vim aqui para ficar apenas um dia, e você está dando um j antar! Pode m e dizer se isso ou algum a coisa parecida j á aconteceu antes? Sua vizinhança está crescendo, e você se relaciona m ais com ela. Há algum tem po que qualquer carta sua para Isabella traz um relato de novas festividades: j antares em casa de Mr. Cole ou bailes na Crown. É bastante grande a diferença para a época em que Randalls, e apenas Randalls, era o destino de seus passeios.
– Sim – disse seu irm ão rapidam ente – e é de Randalls que vem tudo isso.
– Muito bem . E com o Randalls, provavelm ente, não possui m enos influência do que antes, m e ocorreu, Em m a, que Henry e John talvez possam atrapalhar algum as vezes. E se isso acontecer, só lhe peço que os m ande de volta para casa.
– Não – exclam ou Mr. Knightley. – Não é preciso chegar a esse ponto.
Mande-os para Donwell, eu certam ente estarei livre.
– Dou-lhe m inha palavra – disse Em m a – o senhor m e diverte!
Gostaria de saber em quantos dos m eus num erosos com prom issos o senhor não estava presente tam bém . E por que supõem que eu corra o risco de não ter tem po para os m eninos? Esses m eus espantosos com prom issos... quais foram ?