Emma
Capítulo V
Harriet beij ou-lhe a m ão em silenciosa e subm issa gratidão. Em m a estava decidida a pensar que este relacionam ento não seria ruim para sua am iga.
A tendência seria elevar e refinar a m ente de Harriet e devia salvá-la do risco da degradação.
[1] Estilo de trabalho de m archetaria em m adeira, form ando m osaicos de cores diferentes, originário da cidade de Tunbridge Wells, condado de Kent, Inglaterra.
Era m uito apreciado nos séculos XVIII e XIX.
CAPÍTULO V
E foi nesse am biente de esquem as, esperanças e conivências que j unho chegou a Hartfield. Para Highbury, de form a geral, o m ês não trouxe nenhum a m udança m aterial. Os Eltons continuavam falando de um a visita dos Sucklings, e do uso que deviam fazer do fam oso landau. Jane Fairfax continuava na casa da avó e, com o o retorno dos Cam pbells da Irlanda fora novam ente adiado –
fixaram o m ês de agosto ao invés da m etade do verão – ela provavelm ente ainda perm aneceria ali por m ais dois m eses, desde que fosse capaz de escapar das ações que Mrs. Elton fazia a seu favor, e evitasse sair correndo para ocupar um a situação deliciosa contra sua vontade.
Mr. Knightley que, por algum a razão conhecida apenas dele m esm o, desgostara de Frank Churchill desde o início, passara a desgostar dele ainda m ais.
Com eçou a suspeitar que o j ovem fizesse um j ogo duplo na sua perseguição a Em m a. Parecia indiscutível que Em m a era seu obj etivo. Tudo m ostrava isso: as próprias atenções dele, as insinuações de Mr. Weston, o silêncio reservado da m adrasta, estava tudo em uníssono. Palavras, atitudes, discrição e indiscrição, tudo contava a m esm a história. Mas enquanto tantos em purravam o j ovem cavalheiro para Em m a, e Em m a por sua vez o levava para o lado de Harriet, Mr.
Knightley com eçou a suspeitar que ele tivesse algum a inclinação por Jane Fairfax. Ele não podia com preender bem , m as havia sinais de um entendim ento entre os dois, pelo m enos foi o que ele achou. Sintom as de adm iração da parte de Frank Churchill que, um a vez observados, não podiam convencê-lo de que fossem sim plesm ente desprovidos de sentido. Mr. Knightley desej ava escapar, no entanto, a qualquer erro de im aginação com o aqueles com etidos por Em m a. Ela não estava presente quando a suspeita surgiu. Mr. Knightley estava j antando na casa dos Eltons, j untam ente com a fam ília de Randalls e Jane, quando vira um olhar, m ais do que um sim ples olhar, para Miss Fairfax que, vindo de um adm irador de Miss Woodhouse, pareceu um tanto fora de lugar. Quando estava novam ente em com panhia deles, não pôde evitar lem brar-se do que vira, nem evitar observações que, a m enos que isso
fosse com o Cowper[1] e seu fogo no crepúsculo:
Eu mesmo criando o que vi
trouxeram -lhe suspeitas ainda m ais fortes de que havia um enam oram ento privado, até m esm o um entendim ento secreto entre Frank Churchill e Jane.
Certo dia, após o j antar, ele foi a pé até Hartfield para passar o serão, com o sem pre fazia. Em m a e Harriet estavam saindo para cam inhar e ele se j untou a elas. Quando voltavam encontraram um grande grupo que, com o eles, achara m ais conveniente fazer seu exercício m ais cedo, pois am eaçava chover.
O grupo que se encontrara por acaso era constituído por Mr. e Mrs. Weston, seu filho, Miss Bates e a sobrinha. Todos se j untaram e, ao chegarem aos portões de Hartfield, sabendo que esse era o tipo de visita que agradava a seu pai, Em m a insistiu para que todos entrassem para tom ar o chá. A fam ília de Randalls logo aceitou, e após um longo discurso de Miss Bates, que poucos escutaram , ela achou que seria possível aceitar o am ável convite da querida Miss Woodhouse.
Quando entravam nos terrenos da m ansão, Mr. Perry passou a cavalo.
Os cavalheiros falaram do cavalo dele.
– A propósito – disse Frank Churchill então para Mrs. Weston – o que aconteceu com o plano de Mr. Perry de com prar um a carruagem ?
Mrs. Weston pareceu surpresa e disse:
– Eu j am ais soube que ele tivesse algum plano desse tipo.
– Com o assim ? Foi a senhora quem m e inform ou. Escreveu-m e um a palavra a respeito, três m eses atrás.
– Eu? Im possível!
– Mas a senhora o fez, sim . Lem bro-m e perfeitam ente. Mencionou que isso devia acontecer logo. Mrs. Perry havia contado a alguém e estava m uito feliz com isso. Tudo se devia à persuasão dela, pois achou que o fato dele se expor ao m au tem po estava lhe fazendo m uito m al. A senhora lem bra, agora?
– Dou-lhe m inha palavra que não sabia nada disso até este m om ento.
– Nunca soube?... Deus m e abençoe, com o pode ser? Devo ter sonhado, então... m as eu estava inteiram ente convencido disso. Miss Sm ith, a senhorita está cam inhando com o se estivesse cansada, parece que não lam entaria estar em sua casa agora.
– O que foi? O que foi? – exclam ou Mr. Weston – É sobre Perry com prar um a carruagem ? Perry vai com prar um a carruagem , Frank? Estou feliz que ele tenha condições para isso. Foi ele m esm o que lhe contou, é?
– Não, senhor – replicou o filho, rindo. – Parece que eu soube do assunto sem ninguém m e contar. É m uito estranho!... Eu estava convencido de que Mrs. Weston havia m encionado isso em um a de suas cartas a Enscom be, várias sem anas atrás, com todos os detalhes. Mas com o ela declara que nunca
ouviu um a palavra a respeito, é claro que deve ter sido um sonho. Sou um grande sonhador. Sonho com as pessoas de Highbury quando estou longe daqui. Com o j á sonhei com todos os m eus am igos, com ecei agora a sonhar com Mr. e Mrs.
Perry.
– É m uito estranho – observou seu pai – que você sonhe regularm ente com pessoas sobre as quais não é provável que pense quando está em Enscom be.
Perry com prando um a carruagem ! E sua esposa persuadindo-o a fazer isso por causa de sua saúde... Isso vai acabar acontecendo, eu acho, um dia ou outro, é só um pouco prem aturo. Com o um a pequena probabilidade às vezes leva a um sonho! E alguns são bem absurdos! Bem , Frank, seu sonho apenas m ostra que Highbury perm anece em seus pensam entos, quando não está aqui. Em m a, você sonha m uito, não é?
Em m a estava fora do alcance da voz dele. Saíra apressada na frente dos hóspedes para avisar ao pai da sua chegada, e não conseguira ouvir a insinuação de Mr. Weston.
– Bem , para dizer a verdade – exclam ou Miss Bates, que estava em vão tentando falar nos últim os dois m inutos – se posso dar m inha opinião sobre isso, não há com o negar que Mr. Frank Churchill deve ter... Não quero dizer que ele não tenha sonhado, sei que às vezes tenho os sonhos m ais estranhos do m undo...
m as, se m e perguntassem , eu diria que ouvi com entários sobre essa ideia na últim a prim avera, pois a própria Mrs. Perry m encionou isso para m inha m ãe, e os Coles tam bém sabiam ... Mas era um segredo, ninguém m ais sabia, e ele pensou nisso só por uns três dias. Mrs. Perry estava m uito ansiosa para que ele com prasse a carruagem , e veio conversar com m inha m ãe m uito anim ada um dia, porque achou que o tinha convencido. Jane, você não se lem bra da vovó contando-nos isso quando chegam os em casa? Não m e lem bro por onde andávam os passeando, acho que perto de Randalls... Sim , acho que era Randalls.
Mrs. Perry sem pre gostou m uito de m inha m ãe, na verdade não sei de alguém que não goste... e contou a ela em segredo. Não fez nenhum a obj eção a que ela nos contasse, é claro, m as não devia ir além . E desse dia em diante nunca falei um a palavra para ninguém que eu conheça. Ao m esm o tem po, não posso garantir que não tenha insinuado isso, pois m uitas vezes eu acabo falando um a coisa sem m e dar conta. Eu falo m uito, e aqui ou ali, deixo escapar algum a coisa que não devia. Não sou com o Jane. Quem m e dera eu fosse! Posso afirm ar que ela nunca traiu segredo algum no m undo. Onde está ela?... Oh, vem ali atrás...
Lem bro-m e perfeitam ente da chegada de Mrs. Perry... Que sonho extraordinário, de fato!
Estavam entrando no vestíbulo. Os olhos de Mr. Knightley procuraram Jane antes de Miss Bates. Quando olhou para Frank Churchill e pensou ver um ar
de confusão reprim ido ou disfarçado por um sorriso, involuntariam ente se virou para ela. Mas Jane estava realm ente m ais para trás, m uito ocupada com seu xale. Mr. Weston j á havia entrado. Os dois outros cavalheiros esperavam na porta para deixá-la passar. Mr. Knightley suspeitou que Frank Churchill estava determ inado a atrair o olhar dela... parecia que a fitava intensam ente. Se ele tinha essa intenção foi em vão, pois Jane passou entre eles sem olhar para ninguém .
Não houve tem po para m ais observações ou explicações. O sonho devia ser aceito com o tal e Mr. Knightley teve que ocupar seu lugar j unto aos outros em volta da grande e m oderna m esa circular, que Em m a havia introduzido em Hartfield. Ninguém além dela teria a ousadia de utilizar um a m esa assim , e persuadir o pai a aceitá-la,
ao invés da pequena m esa Pem broke[2] em que Mr. Woodhouse fizera suas duas refeições diárias durante quarenta anos. O chá transcorreu agradavelm ente e ninguém parecia apressado em sair.
– Miss Woodhouse – disse Frank Churchill, após exam inar um a m esa atrás dele, que podia alcançar de onde estava sentado – seus sobrinhos levaram o alfabeto deles... a caixa de letras? Ela costum ava ficar aqui. Onde está? Esta parece ser um a tarde m onótona e m erece ser tratada m ais com o um a tarde de inverno do que de verão. Divertim os-nos m uito com aquelas letras, certa m anhã.
Gostaria de j ogar outra vez.
Em m a ficou feliz com a lem brança e foi buscar a caixa. As letras logo foram dispostas sobre a m esa, m as ninguém parecia tão interessado com o os dois. Com eçaram rapidam ente a form ar palavras para si m esm os ou para os outros com pletarem . A quietude do j ogo o tornava especialm ente aprazível para Mr. Woodhouse que teria ficado perturbado com algum a brincadeira m ais anim ada, com o Mr. Weston costum ava fazer. E agora o velho senhor se encontrava sentado, agradavelm ente ocupado em lam entar a partida dos “pobres m enininhos”, ou em com entar com grande anim ação, quando pegava algum a letra perto dele, com o Em m a as desenhara tão bem .
Frank Churchill colocou um a palavra diante de Miss Fairfax, que deu um rápido olhar ao redor e se concentrou no j ogo. Frank estava ao lado de Em m a, Jane do lado oposto e Mr. Knightley em um a posição que lhe perm itia ver a todos. E ele tinha m esm o o obj etivo de ver tudo o que pudesse, sem despertar m uita atenção. A palavra foi descoberta e posta de lado com um leve sorriso. Devia ser im ediatam ente m isturada com as outras e escondida de vista, m as Jane deveria ter olhado para a m esa, ao invés de olhar para frente, pois as letras não foram m isturadas. E Harriet, ansiosa por achar qualquer palavra nova, e não encontrando outra, pegou-a e im ediatam ente com eçou a trabalhar. Estava sentada ao lado de Mr. Knightley e virou-se para ele pedindo aj uda. A palavra era tolice, e quando Harriet a soletrou em voz alta, exultante, as faces de Jane ficaram coradas, o que deu à palavra um significado que de outra form a não seria percebido. Mr. Knightley ligou isso ao sonho de Frank Churchill, m as não conseguiu com preender tudo que se passava. Com o a sua favorita pudera perm itir que sua delicadeza e discrição ficassem entorpecidas! Ele tem ia que houvesse algum envolvim ento entre os dois. Falsidade e j ogo duplo pareciam envolvê-lo a todo o m om ento. As letras não foram m ais que o m otivo para galanterias e brincadeiras ardilosas. Era um j ogo de criança, escolhido para esconder um j ogo m ais profundo por parte de Frank Churchill.
Mr. Knightley continuou a observá-lo indignado, e com grande alarm e e desconfiança observava tam bém suas duas ingênuas com panheiras. Viu que Frank preparou um a pequena palavra para Em m a, e deu a ela com um olhar astuto e discreto. Em m a logo a decifrou e achou altam ente divertido, em bora fosse algo que ela j ulgava censurável, pois disse:
– Que bobagem ! Devia ter vergonha!
Ouviu Frank Churchill dizer, olhando rapidam ente para Jane.
– Vou dar a ela, então... Será que devo?
E viu Em m a se opor, com um a ansiosa e calorosa risada.
– Não, não, claro que não deve. Não deve m esm o, de m odo algum .
Mas j á estava feito. Este j ovem e galante cavalheiro, que parecia am ar sem sentim entos e recom endar-se sem nenhum a com placência, entregou a palavra diretam ente à Miss Fairfax, e com um alto grau de tranquila civilidade insistiu para que ela a estudasse. A grande curiosidade de Mr. Knightley em descobrir qual era a palavra o fazia aproveitar qualquer ocasião para esticar-se e lançar os olhos sobre ela; não dem orou m uito a ver que as letras form avam o nom e Dixon. A percepção de Jane Fairfax pareceu acontecer ao m esm o tem po.
Só que a com preensão dela era m ais adequada a descobrir o sentido escondido, o significado superior daquelas cinco letras colocadas em ordem . Miss Fairfax ficou evidentem ente incom odada, olhou para ele e, vendo que estava sendo observada, corou tão fortem ente com o Mr. Knightley j am ais havia visto, e disse apenas:
– Eu não sabia que era perm itido usar nom es próprios.
Em purrou as letras um tanto raivosa, e pareceu decidida a parar de j ogar. Desviou o rosto daqueles que fizeram o ataque e virou-se para a tia.
– Sim , sim , é verdade, m inha querida – exclam ou esta últim a, em bora
Jane não tivesse dito um a palavra. – Eu ia dizer a m esm a coisa. Está na hora de irm os, de fato. A noite está chegando e a vovó deve estar nos esperando. Meu caro senhor, é m uito am ável. Nós realm ente precisam os despedir-nos, tenha um a boa noite.
A presteza de Jane em partir dem onstrou que estava pronta. Levantou-se im ediatam ente, deixando a m esa, m as m uitos outros se levantaram tam bém .
Mr. Knightley pensou ter visto outro grupo de letras ser ansiosam ente em purrado na direção dela, que as espalhou sem olhar. Depois disso com eçou a procurar o xale, e Frank Churchill aj udou-a a procurar. Com eçava a escurecer e a sala ficou im ersa em confusão; com o conseguiram partir Mr. Knightley não saberia dizer.
Ele perm aneceu em Hartfield depois que todos se foram , pensando no que acabara de ver. E estava tão im pressionado que, quando as velas foram acesas, ele pensou que devia – sim , certam ente devia, com o am igo, um am igo preocupado – dar a Em m a algum a indicação do que se passava, fazer-lhe algum as perguntas. Não poderia vê-la em um a situação de tam anho perigo sem tentar preservá-la. Era seu dever.
– Diga-m e, Em m a – disse ele – posso perguntar em que consistia o grande divertim ento, ou a estocada certeira, da últim a palavra m ostrada a você e a Miss Fairfax? Eu vi a palavra, e queria saber por que foi tão divertida para um a e tão perturbadora para a outra.
Em m a ficou extrem am ente confusa. Ela não suportaria dar-lhe a verdadeira explicação, pois em bora suas suspeitas perm anecessem , estava m uito envergonhada de tê-las partilhado com alguém .
– Oh! – exclam ou ela, com evidente em baraço. – Não significa nada. É
um a sim ples brincadeira entre nós.
– A brincadeira – ele respondeu com gravidade – parece ter ficado restrita a você e Mr. Churchill.
Ele esperava que ela falasse m ais, m as ela não o fez; preferia se ocupar com qualquer outra coisa a falar. Mr. Knightley sentou-se em dúvida, por algum tem po, e um a variedade de m ales cruzou pela sua m ente. Interferência –
infrutífera, além do m ais. A confusão de Em m a e a intim idade percebida por ele pareciam indicar que o afeto dela estava com prom etido. Assim m esm o ele falaria. Devia isso a ela, pelo seu bem estar, m esm o aceitando o risco de que sua interferência fosse m al recebida. Preferia enfrentar qualquer coisa a lam entar-se depois por ter sido negligente num caso desses.
– Minha querida Em m a – ele disse, afinal, com m uita bondade – acha que entende perfeitam ente o grau de relacionam ento entre o cavalheiro e a j ovem dam a de quem estivem os falando?
– Entre Mr. Frank Churchill e Miss Fairfax? Oh, sim , perfeitam ente. Por que duvida disso?
– Você nunca teve m otivos para pensar que ele a adm ira, ou que ela tenha adm iração por ele?
– Nunca, nunca! – exclam ou ela, com franca certeza. – Nunca, nem por um vigésim o de segundo, m e ocorreu tal ideia. Com o isso surgiu na sua m ente?
– Ultim am ente acredito ter notado alguns sintom as de afeto entre eles –
alguns olhares expressivos, que não acredito que eles pretendam tornar público.
– Oh, o senhor m e diverte m uito. Estou encantada por saber que o senhor perm ite que sua im aginação se solte – m as não deu certo – lam ento m uito dar-lhe essa notícia em sua prim eira tentativa, m as com certeza não é verdade.
Não há adm iração entre eles, eu lhe asseguro. E as aparências que o surpreenderam foram provocadas por algum as circunstâncias particulares –
sentim entos de um a natureza totalm ente diferente. É im possível explicar-lhe exatam ente, há m uita coisa sem sentido envolvida nisso. Mas o que pode ser dito, e que é m ais sensato, é que eles estão longe de qualquer adm iração ou afeto um pelo outro, tanto quanto é possível que duas pessoas possam estar. Isto é, eu presumo que deve ser assim da parte dela, e posso afirmar que é assim da parte dele. Posso responder pela indiferença do cavalheiro nesse aspecto.
Em m a falou com tal confiança e satisfação que chocou e silenciou Mr.