Emma

Jane Austen · Capítulo 12 de 113

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Emma

Capítulo XI

Os nam orados estavam de pé j unto a um a das j anelas. Seu aspecto era prom issor e durante m eio m inuto Em m a sentiu o triunfo de ver que seu plano tivera sucesso. Mas isso não acontecera, ele não tocara no assunto. Fora o m ais agradável e encantador possível, contando a Harriet que as seguira de propósito, depois de vê-las deixar Hartfield; dissera m ais algum as galanterias e fizera algum as insinuações, m as nada sério.

“Cauteloso, bastante cauteloso, de fato”, pensava Em m a. “Avança centím etro a centím etro, e não vai arriscar nada até se sentir seguro”.

Ainda que as coisas não tivessem saído de acordo com o seu inteligente esquem a, ela não podia senão felicitar a si m esm a, pois o encontro havia trazido m uita alegria a am bas, e devia levar os dois em direção ao grande evento.

CAPÍTULO XI

Mr. Elton agora devia ser deixado por conta própria. Não estava m ais nas m ãos de Em m a apressar suas decisões ou supervisionar sua felicidade. A visita da fam ília de sua irm ã estava tão próxim a que, tanto pela expectativa quanto pela visita em si, tornou-se seu principal interesse a partir daquele m om ento. Durante os dez dias de sua estada em Hartfield, ninguém esperava –

nem ela m esm a – que pudesse prestar algum a assistência aos nam orados que não fosse fortuita e ocasional. Podiam avançar rápido, se quisessem ; m as iriam avançar de um j eito ou de outro, quisessem ou não. Em m a não pensava em ocupar-se m uito deles, pois eram do tipo de pessoas que quanto m ais se fizesse por elas, m enos faziam por si próprias.

Mr. e Mrs. John Knightley não iam a Surry há bastante tem po, por isso estavam m ais anim ados que o norm al com a perspectiva da viagem . Até agora, todas as viagens que fizeram à região desde que se casaram foram divididas entre Hartfield e Donwell Abbey. Neste outono, todavia, haviam levado as crianças à praia em todos os feriados, e fazia vários m eses que não visitavam seus parentes de Surry nem viam Mr. Woodhouse. O velho cavalheiro, que não aceitava ir a um lugar tão distante quanto Londres, m esm o por am or à sua pobre Isabella, estava agora na m ais nervosa e feliz apreensão com essa visita tão curta.

Ele tem ia os perigos da viagem por causa da filha, m as não se preocupava nem um pouco com a fadiga dos cavalos ou de seu cocheiro, que fora encarregado de trazer parte da fam ília no últim o trecho do cam inho. Mas seus tem ores foram em vão, pois os vinte e cinco quilôm etros foram tranquilam ente vencidos, e Mr. e Mrs. John Knightley, seus cinco filhos, e um núm ero conveniente de babás chegaram a Hartfield sãos e salvos. O prazer e a correria de tal chegada, o m uito que tinham para falar, saudar, encoraj ar, decidir e providenciar, produziu um barulho e um a confusão que os nervos de Mr.

Woodhouse j am ais suportariam em outra situação, e m esm o neste caso não aguentavam m uito tem po. Mas Mrs. John Knightley prezava tanto os costum es de Hartfield e os sentim entos do pai que, apesar de sua solicitude m aternal, as crianças não tiveram perm issão para perturbar Mr. Woodhouse por m uito tem po, por si m esm as ou pela necessidade da atenção dela. Providenciou sem a m enor dem ora que tivessem toda a assistência para se acom odar, toda a com ida e bebida necessárias, que dorm issem , brincassem ou o que m ais desej assem .

Mrs. John Knightley era pequena, elegante e bonita, de m odos calm os e gentis e tem peram ento notavelm ente am igável e afetuoso. Dedicada à fam ília, esposa devotada e m ão extrem osa, e tão afeiçoada ao pai e à irm ã que seria

im possível encontrar um am or m aior que o dela. Jam ais via defeito em nenhum deles. Não era um a m ulher de profunda inteligência ou sagacidade, características estas que herdara do pai. Possuía tam bém a m esm a constituição física dele, evidente na sua saúde delicada, no extrem o cuidado com a saúde dos filhos, no nervosism o e no tem or a m uitas coisas, e era tão apegada ao seu farm acêutico na cidade quanto o pai o era com Mr. Perry. Tam bém se pareciam na bondade geral do caráter e no extrem o afeto por todas as antigas am izades.

Mr. Knightley era um hom em alto, de aspecto cavalheiresco e m uito inteligente. Profissionalm ente estava em ascensão, apreciava a vida dom éstica e era m uito respeitável na vida privada. Suas m aneiras, porém , eram um tanto reservadas, o que evitava que fosse am plam ente apreciado, e algum as vezes perdia o bom hum or. Não era m al hum orado, nem tão irritadiço que m erecesse tal censura, m as seu tem peram ento não era sua m elhor qualidade; e, na verdade, com um a esposa que o adorava, era quase im possível que seus defeitos não aum entassem . A extrem a doçura do caráter dela devia feri-lo, pois possuía toda a clareza e inteligência que faltavam à esposa, e às vezes agia de m odo desagradável ou dizia algum a coisa m ais severa.

Não era exatam ente um favorito da cunhada, pois Em m a não deixava escapar nada de errado que houvesse nele. Percebia com rapidez as pequenas ofensas à irm ã, o que nem a própria Isabella notava. Talvez Em m a passasse por cim a disso, se suas m aneiras para com ela fossem m ais lisonj eiras, m as eram apenas aquelas apropriadas a um calm o cunhado e am igo, sem elogios nem cegueira. Nenhum tipo de cum prim ento pessoal, no entanto, seria suficiente para fazê-la esquecer da m aior falha de todas aos seus olhos, na qual ele às vezes incorria: a falta de respeitosa paciência para com seu pai. Mr. Knightley nem sem pre possuía a paciência necessária. As peculiaridades e inquietações de Mr.

Woodhouse provocavam -lhe às vezes um a reclam ação racional ou um a resposta áspera, igualm ente desagradáveis. Isso não ocorria com frequência, pois Mr.

John Knightley tinha verdadeiro afeto pelo sogro, e a consciência do quanto lhe devia. Para Em m a, porém , era dem ais, e ela estava sem pre m uito apreensiva procurando evitar a ofensa, m esm o que não acontecesse. No com eço da visita, entretanto, afloravam apenas os bons sentim entos, e j á que desta vez a visita seria m ais curta, havia esperanças de que passasse na m ais pura cordialidade.

Estavam sentados há não m uito tem po, conversando, quando Mr. Woodhouse, balançando a cabeça e suspirando, cham ou a atenção da filha para a triste m udança ocorrida em Hartfield desde que ela estivera ali pela últim a vez.

– Ah, m inha querida – disse ele – pobre Miss Tay lor... É um caso m uito triste.

– Ah sim ! – ela exclam ou, com pronta sim patia. – O senhor deve sentir

m uita a falta dela! E a querida Em m a tam bém ! Que grande perda para os dois...

Senti tanto por vocês! Não im agino com o estão vivendo sem ela, foi um a m udança m uito triste, de fato... Mas espero que ela estej a bem , senhor.

– Muito bem , m inha querida... Espero que sim ... Muito bem . Mas não sei se aquele lugar é tolerável para ela.

Mr. John Knightley então perguntou em voz baixa para Em m a se havia algum problem a com Randalls.

– Oh, não! Nenhum problem a. Nunca vi Mrs. Weston tão bem em m inha vida, nunca m e pareceu tão bem disposta. Papai está falando apenas de sua própria tristeza.

– O que é um a grande honra para am bos – foi a educada resposta.

– E o senhor a vê com frequência? – perguntou Isabella em um tom lam entoso que com binava com o do pai.

Mr. Woodhouse hesitou.

– Não tanto quanto gostaria, m inha querida.

– Ah, papai, desde que eles se casaram só deixam os de vê-los por um único dia. Todos os dias, com exceção de um , de m anhã ou ao entardecer, nós vem os Mr. ou Mrs. Weston, geralm ente os dois, ou aqui ou em Randalls... e com o você deve im aginar, Isabella, norm alm ente é aqui. Eles são m uito gentis, m uito m esm o, Mr. Weston é de fato tão gentil quanto ela. Se o senhor continuar falando nesse tom m elancólico, papai, vai dar a Isabella um a ideia errada sobre nós.

Todos devem saber que sentim os a falta dela, m as todos tam bém devem estar cientes de que os dois fazem tudo que é possível para evitar que sintam os a falta dela... O que é a exata verdade.

– Com o deve ser, é claro – disse Mr. John Knightley – e com o pensei que fosse, pelas suas cartas. Não há dúvida do desej o dela de ser atenciosa, e o fato dele ser um hom em sociável e com tem po livre torna tudo m ais fácil. Eu sem pre lhe disse, m eu am or, que eu não im aginava a m udança em Hartfield tão grande quanto você tem ia. Agora que tem os o relato de Em m a espero que fique satisfeita.

– Bem , na verdade... – disse Mr. Woodhouse. – Sim , com certeza... Não posso negar que a pobre Mrs. Weston vem nos ver com bastante frequência... É

que depois ela é sem pre obrigada a ir em bora outra vez.

– Seria m uito triste para Mr. Weston se ela não fosse, papai. O senhor está se esquecendo do pobre Mr. Weston.

– Eu acredito, de fato – disse Mr. John Knightley, brincando – que Mr.

Weston tem alguns direitos. Você e eu, Em m a, devem os nos aventurar a tom ar o partido do pobre m arido. Eu, sendo um m arido, e você, m esm o não sendo um a esposa, podem os ser atingidos com igual força pelos direitos do pobre hom em .

Quanto a Isabella, está casada há tem po suficiente para achar conveniente colocar de lado todos os direitos de Mr. Weston, tanto quanto possível.

– Eu, m eu am or? – exclam ou Isabella, entendendo apenas em parte. –

Está falando de m im ?... Tenho certeza que ninguém deve ser, ou pode ser, um defensor m ais ardoroso do casam ento do que eu sou. E se não fosse pelo infortúnio dela ter deixado Hartfield, nunca pensaria em Miss Tay lor senão com o a m ulher m ais feliz do m undo; e quanto a desdenhar de Mr. Weston, esse excelente hom em , acredito que não há nada que ele não m ereça. Acho que é um dos hom ens de m elhor índole que j á existiram . Exceto você e seu irm ão, não conheço nenhum outro de igual tem peram ento. Nunca vou m e esquecer daquele dia ventoso, na últim a Páscoa, quando ele em pinou o papagaio para Henry...

Nem da enorm e bondade dele em setem bro do ano passado, quando escreveu aquele bilhete, tarde da noite, para m e assegurar de que não havia um surto de escarlatina em Cobham . Desde então estou convencida de que não pode existir um hom em m elhor ou m ais bondoso que Mr. Weston. Se alguém o m erece, é Miss Tay lor.

– E onde se encontra o j ovem cavalheiro? – disse John Knightley. –

Veio para cum prim entá-los pelo casam ento ou não?

– Ele ainda não esteve aqui – respondeu Em m a. – Houve m uita expectativa sobre sua chegada logo após o casam ento, m as não deu em nada. E

não tenho ouvido falar nele ultim am ente.

– Mas você tem que contar-lhes sobre a carta, m inha querida – disse o pai. – Ele escreveu um a carta para a pobre Mrs. Weston, congratulando-a pelo casam ento. Ela m e m ostrou, é um a carta m uito apropriada, m uito linda, de fato.

Achei m uito bonito da parte dele, m as se a ideia foi dele m esm o, ninguém sabe.

Ele é m uito j ovem , talvez o tio...

– Papai, querido, ele j á tem vinte e três anos. O senhor se esquece com o o tem po passa depressa.

– Vinte e três!... É m esm o?... Bem , eu j am ais im aginaria... E ele tinha apenas dois anos quando sua pobre m ãe m orreu! O tem po voa, de fato, e m inha m em ória é m uito ruim . Todavia, foi um a bela carta, m uito bem escrita, e deu bastante alegria a Mr. e Mrs. Weston. Lem bro-m e que foi escrita de Wey m outh, no dia 28 de setem bro... e com eçava assim “Minha cara senhora”, m as m e esqueço de com o continuava. E estava assinada “F. C. Weston Churchill”.

Lem bro-m e disso perfeitam ente.

– Que agradável e apropriado da parte dele – exclam ou a bondosa Mrs.

John Knightley. – Não tenho dúvida de que deve ser um j ovem bastante am ável.

Mas é m uito triste que ele não viva em casa com o pai! Há algum a coisa tão chocante em tirar um a criança dos pais e do lar natural! Nunca entendi com o Mr.

Weston pode se separar dele. Desistir de um filho! Na verdade nunca consegui pensar bem de ninguém que propusesse tal tipo de coisa a outra pessoa.