Emma
Capítulo IV
Os ciganos não esperaram pela ação da j ustiça, eles próprios se retiraram apressadam ente do lugar. As j ovens dam as de Highbury podiam novam ente passear em segurança desde que o pânico com eçara. A história logo se transform ou em um incidente de pouca im portância, a não ser para Em m a e os sobrinhos. Na im aginação dela a situação ainda perm anecia, e Henry e John todos os dias lhe pediam que contasse a história de Harriet e os ciganos; e ainda a corrigiam tenazm ente se ela m udava o m enor detalhe da história original.
CAPÍTULO IV
Poucos dias haviam se passado desde esse acontecim ento quando, certa m anhã, Harriet foi visitar Em m a com um pequeno pacote na m ão. Sentou-se e, após hesitar um pouco, com eçou dizendo:
– Miss Woodhouse, se a senhorita tiver tem po... existe algo que gostaria de lhe contar... Tenho que lhe confessar algo... e então, tudo estará term inado.
Em m a ficou bastante surpresa, m as pediu-lhe que continuasse. Havia um a seriedade tanto no sem blante quanto nas palavras de Harriet que a prepararam para algo fora do com um .
– É m eu dever, e tam bém m eu desej o – ela continuou – não esconder nada da senhorita a respeito deste assunto. Com o sou um a pessoa bastante m udada em um aspecto, acho que é certo que a senhorita tenha a satisfação de saber disso. Não quero dizer m ais do que o necessário... Estou m uito envergonhada por ter perm itido que isso acontecesse, m as espero que a senhorita m e entenda.
– Sim – disse Em m a – espero que sim .
– Com o pude m e iludir por tanto tem po!... – exclam ou Harriet, calorosam ente – Parece que foi um a loucura! Agora não consigo ver m ais nada de extraordinário nele... Não m e im porto se vou encontrá-lo ou não, apesar de que entre as duas opções prefiro não encontrá-lo; na verdade, percorreria qualquer distância para evitá-lo. Mas não invej o sua esposa em nada; nem a adm iro nem a invej o, com o fiz antes. Ela é encantadora e tudo o m ais, adm ito, m as acho que tem um tem peram ento m uito ruim e é desagradável... Nunca vou esquecer o seu olhar na outra noite! Entretanto, eu lhe asseguro, Miss Woodhouse, que não desej o m al a ela. Não, desej o que sej am felizes j untos, isso não vai m e provocar a m enor dor. E para convencê-la de que estou falando a verdade, vou destruir agora o que j á deveria ter destruído há m uito tem po, o que nunca deveria ter j untado. Sei disso m uito bem (ficando corada enquanto falava)... No entanto, agora vou destruir tudo, e é m eu particular desej o fazer isso na sua presença, para que possa ver com o m e tornei m ais racional. – E acrescentou, com um olhar consciencioso – A senhorita não adivinha o que há neste pacote?
– Não faço a m enor ideia... Ele chegou a lhe dar algum a coisa?
– Não... Não posso dizer que sej am presentes, m as são coisas que eu valorizava m uito.
Harriet segurava o pacote na direção de Em m a e ela leu Tesouros
Muito Preciosos escrito em cim a. Sua curiosidade aum entou m uito. Harriet desem brulhou o pacote enquanto Em m a olhava im paciente. Enrolada em um a enorm e quantidade de papel prateado
estava um a bela caixinha Tunbridge[1]
que Harriet abriu: era forrada pelo m ais suave algodão, m as além do algodão Em m a viu apenas um pequeno pedaço de esparadrapo.
– Agora – disse Harriet – a senhorita deve lem brar-se.
– Não, não m e lem bro, realm ente.
– Oh, Deus! Não posso acreditar que a senhorita tenha esquecido o que se passou aqui m esm o nesta sala, com o esparadrapo, em um a das últim as vezes que o encontram os!... Foi apenas alguns dias antes que eu tivesse aquela dor de garganta, pouco antes da chegada de Mr. e Mrs. John Knightley... Acho até que foi na m esm a noite. Não se lem bra que ele cortou o dedo com seu canivete novo e a senhorita recom endou que pusesse um esparadrapo? Mas com o a senhorita não tinha nenhum consigo e sabia que eu tinha, pediu-m e que eu o fornecesse a ele. E assim eu peguei o m eu e cortei um pedaço, m as era m uito grande e o corte era pequeno, e ele ficou segurando um tem po o pedaço que sobrou, antes de m e devolver. Então, em m inha loucura, não pude evitar transform ar isso em um tesouro. Guardei-o para que nunca fosse usado e olhava para ele de vez em quando com o um grande presente.
– Minha querida Harriet! – exclam ou Em m a, colocando as m ãos no rosto e levantando-se. – Você m e faz ter m ais vergonha de m im m esm a do que posso suportar. Lem brar-m e disso? Sim , eu agora m e lem bro de tudo, de tudo exceto de você guardando essa relíquia... Não sabia nada disso até agora, m as m e lem bro do dedo cortado, de m inha recom endação do esparadrapo, e de dizer que não tinha nenhum com igo!... Oh, m eus pecados, m eus pecados! E eu tinha tantos no m eu bolso! Foi m ais um dos m eus truques insensatos! Mereço ficar ruborizada pelo resto de m inha vida! Bem ... (sentando-se novam ente)...
prossiga... E o que m ais?
– A senhorita tinha m esm o algum esparadrapo à m ão? Nunca suspeitei disso, a senhorita agiu de m odo tão natural.
– E você, realm ente, guardou este pedaço de esparadrapo por am or a ele! – disse Em m a, recobrando-se da sua vergonha e sentindo-se dividida entre o espanto e o divertim ento. Secretam ente ela dizia a si m esm a: “Deus m e abençoe! Eu j am ais pensaria em guardar no algodão um pedaço de esparadrapo que Frank Churchill tivesse segurado! Nunca faria nada igual”.
– Aqui... – disse Harriet, retornando à sua caixinha – aqui tem algo ainda m ais valioso, quero dizer, que foi m ais valioso, porque realm ente pertencia
a ele, enquanto o esparadrapo nunca pertenceu.
Em m a estava bastante ansiosa para ver esse suprem o tesouro. Era o toco de um velho lápis, que j á estava sem grafite.
– Isto de fato pertencia a ele – disse Harriet – A senhorita não se lem bra daquela m anhã? Não, im agino que não se lem bre. Mas certa m anhã... eu esqueço o dia exato... talvez tenha sido a terça ou a quarta-feira antes daquela noite, ele queria fazer um a anotação na sua caderneta; era algo sobre cervej a caseira. Mr. Knightley estava contando a ele algo sobre fazer cervej a e ele quis anotar. Mas quando pegou seu lápis havia tão pouca grafite que logo acabou; com o não dava para escrever a senhorita lhe em prestou outro, e ele deixou este toco sobre a m esa, com o se fosse lixo. Mas eu m antive os olhos sobre ele e, assim que foi possível, peguei-o e desde então nunca m ais m e separei dele.
– Eu m e lem bro – exclam ou Em m a – eu m e lem bro perfeitam ente disso. Lem bro que falávam os de cervej a... Ah, sim ! Mr. Knightley e eu dizíam os que gostávam os dela, e Mr. Elton resolveu que aprenderia a gostar dessa cervej a tam bém ... Espere!... Mr. Knightley estava parado bem aqui, não estava? Eu m e lem bro que ele estava bem aqui.
– Ah! Eu não sei. Não consigo m e lem brar. É m uito estranho, m as não m e lem bro. Mr. Elton estava sentado aqui, eu m e lem bro, exatam ente onde estou agora...
– Bem , continue.
– Oh, isso é tudo. Não tenho m ais nada para m ostrar, ou para dizer...
Exceto que eu agora vou j ogar tudo no fogo, e gostaria que a senhorita m e visse fazendo isso.
– Minha pobre e querida Harriet! Você se sentiu realm ente feliz em guardar essas coisas?
– Sim , com o fui boba!... Mas estou m uito envergonhada disso agora, e espero poder esquecer tudo assim que term inar de queim á-las. Foi m uito errado da m inha parte, a senhorita sabe, guardar estas lem branças depois que ele se casou. Eu sabia disso... m as não tinha coragem suficiente para m e desfazer delas.
– Mas, Harriet, é preciso queim ar o esparadrapo? Não tenho nada contra queim ar o lápis, m as o esparadrapo ainda pode ser útil.
– Eu ficarei m ais feliz se queim á-lo – respondeu Harriet. – É um a visão desagradável para m im . Quero m e livrar de tudo! Aí vão elas e, graças a Deus, isto é o fim de Mr. Elton.
“E quando será o com eço de Mr. Churchill?”, pensou Em m a.
Pouco depois disso, ela teve razões para acreditar que o com eço j á acontecera, e podia apenas esperar que a cigana, em bora não tivesse predito a sorte de Harriet, podia tê-la trazido para ela. Mais ou m enos quinze dias depois do susto, as duas j ovens encontraram um a explicação, em bora sem pretendê-lo.
Em m a não estava pensando nisso no m om ento, o que tornava ainda m ais valiosa a inform ação que recebera. Ela apenas disse, em um a conversa trivial “Bem , Harriet, quando você se casar, eu vou dar-lhe conselhos sobre várias coisas”.
Não pensou m ais nisso até que, após um m inuto de silêncio, ouviu Harriet dizer em um tom m uito sério “Eu nunca vou m e casar”.
Em m a levantou os olhos e im ediatam ente viu o que acontecia. Depois de pensar um pouco se devia ou não deixar passar essa observação, respondeu:
– Não vai se casar? Esta é um a resolução nova!
– Sim , m as esta eu j am ais irei m udar.
Depois de outra curta hesitação, Em m a disse:
– Espero que não sej a por causa de... Não seria um cum prim ento a Mr.
Elton, seria?
– Mr. Elton, francam ente! – exclam ou Harriet, indignada. – Oh, não... –
Em m a pôde apenas ouvir as palavras finais – tão superior a Mr. Elton!
Em m a ficou um longo tem po pensando. Devia deter-se naquele m om ento? Devia deixar passar e não dem onstrar nenhum a suspeita? Talvez Harriet acreditasse que ela ficaria fria ou zangada, se soubesse. Ou, talvez, se ficasse totalm ente em silêncio, isso apenas levaria Harriet a pedir-lhe para ouvir m ais. E com o era contrária a qualquer coisa reservada, que não fosse aberta a um a discussão de esperanças e possibilidades, ela por fim se resolveu.
Acreditava que seria m ais conveniente falar e saber tudo de um a só vez, tudo que ela desej ava dizer e saber. Agir com franqueza era sem pre m elhor. Ela j á havia previam ente determ inado até onde iria em um a situação com o aquela, e seria m ais seguro para as duas ter a j udiciosa lei de seu cérebro aplicada com rapidez.
Ela se decidiu, e então falou:
– Harriet, não vou fingir que estou em dúvida sobre o que você quis dizer. Sua resolução, ou m elhor, sua expectativa de nunca vir a se casar, resulta da ideia de que a pessoa que você poderia preferir estaria em um a situação m uito superior para nem sequer pensar em você. Não é assim ?
– Oh, Miss Woodhouse, acredite, não tenho a presunção de supor... Não sou tão louca, na verdade. Mas é um prazer para m im adm irá-lo à distância,
pensar na sua infinita superioridade em relação ao resto do m undo, com a gratidão, o deslum bram ento e a veneração que são tão próprios, especialm ente em m im .
– Isso não m e surpreende nem um pouco, Harriet. O serviço que ele lhe prestou foi o bastante para aquecer seu coração.
– Serviço? Oh, foi um a obrigação tão inexpressiva! A sim ples lem brança disso, e tudo que senti no m om ento... quando o vi chegando, seu olhar nobre e m eu estado infeliz m om entos antes. Que m udança! Em apenas um m om ento houve um a com pleta m udança! Da perfeita m iséria para a perfeita felicidade.
– É m uito natural. É natural e louvável. Sim , louvável, eu penso, escolher tão bem e com tanta propriedade. Mas que sej a um a preferência afortunada é m ais do que posso prom eter. Não a aconselho a levar isso adiante, Harriet, nem posso m e com prom eter que ele vá retribuir. Considere tudo que está envolvido. Talvez sej a m ais sensato que você analise seus sentim entos enquanto pode e, sobretudo, não os deixe levá-la m uito longe, a não ser que estej a persuadida de que ele gosta de você. Observe-o, deixe o com portam ento dele servir de guia para os seus sentim entos. Eu lhe dou este conselho agora porque nunca m ais vou falar do assunto, estou determ inada a não interferir. Daqui por diante não sei nada sobre isso. Não perm ita j am ais que seus lábios pronunciem nenhum nom e. Erram os m uito antes, agora vam os ser m ais cautelosas. Ele é superior a você, não há dúvida, e existem obj eções e obstáculos de natureza m uito séria. Ainda assim , Harriet, coisas m ais m aravilhosas j á aconteceram , j á houve casam entos de m aior disparidade. Mas, tom e cuidado, não gostaria que ficasse m uito anim ada. No entanto, qualquer que sej a o fim disso, saiba que você ter voltado seus pensam entos para ele, é um sinal de bom gosto que eu sem pre saberei valorizar.