Emma

Jane Austen · Capítulo 32 de 113

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Emma

Capítulo XII

– Peço desculpas, senhor. Não m e dei conta logo. Sem dúvida, se o senhor desej a, vou m e esforçar para trazer as duas.

E com isso ele se retirou.

Bem antes que ele retornasse, acom panhando a tia pequena, bem arrum ada e ativa e sua elegante sobrinha, Mrs. Weston, com o a m ulher de tem peram ento doce e boa esposa que era, exam inou a passagem outra vez, e viu que as desvantagens eram m enores do que j ulgara a princípio, na verdade eram sem im portância. E aqui term inaram as dificuldades da decisão. Quanto ao resto, pelo m enos nos planos, era bastante sim ples. Todos os pequenos arranj os de m esas e cadeiras, luzes e m úsica, chá e j antar foram feitos rapidam ente, ou foram deixados para serem acertados depois entre Mrs. Weston e Mrs. Stokes.

Todos os convidados certam ente viriam . Frank j á escrevera a Enscom be, propondo ficar m ais alguns dias além da quinzena determ inada, o que não poderia ser recusado. E seria um baile m aravilhoso.

Quando chegou, Miss Bates concordou com tudo, m uito cordialm ente.

Com o conselheira ela não seria m ais necessária, m as com o aprovadora (o que era bem m ais seguro) era m uito bem vinda. Sua aprovação, ao m esm o tem po geral e m inuciosa, calorosa e incessante, foi m uito apreciada. E por m ais m eia hora cam inharam para lá e para cá, entre as duas salas, alguns sugerindo coisas, outros só acom panhando, e todos felizes com o proj eto. O grupo não se separou enquanto Em m a não concordou em dançar as duas prim eiras m úsicas com o herói do dia, nem sem que ouvisse Mr. Weston sussurrar para a esposa:

– Ele pediu a ela, m inha querida. Isso m esm o, eu sabia que ele o faria.

CAPÍTULO XII

Faltava apenas um a coisa para tornar a perspectiva do baile com pletam ente agradável para Em m a: que a data fosse m arcada dentro do período de quinze dias que Frank Churchill estabelecera para ficar em Surry.

Pois, apesar da confiança de Mr. Weston, Em m a não achava im possível que os Churchills não concedessem perm issão ao sobrinho para ficar um dia além da quinzena program ada. Mas o desej o dela não poderia ser atendido. As preparações exigiam tem po, nada ficaria pronto antes de, pelo m enos, três sem anas. Por alguns dias eles estariam planej ando, trabalhando e esperando, sem certeza de nada. Corriam o risco, o grande risco na opinião de Em m a, de que tudo isso fosse em vão.

Enscom be na verdade foi graciosa, graciosa de fato, não de palavra. O

desej o do sobrinho de perm anecer por m ais tem po não lhes agradou, é evidente, m as não se opuseram . Tudo estava salvo e em ordem . Mas um a preocupação rem ovida sem pre dá lugar à outra. Agora que Em m a estava certa de que o baile aconteceria, com eçou a se aborrecer com a indiferença provocante de Mr.

Knightley a respeito do assunto. Fosse porque ele m esm o não dançava, ou porque o plano fora feito sem consultá-lo, resolvera que o baile não era do seu interesse, e determ inou-se a evitar qualquer curiosidade sobre o assunto no presente e qualquer esperança de divertim ento no futuro. Para a voluntária com unicação que fez, Em m a não obteve nada além de:

– Muito bem . Se os Weston acham que vale a pena dar-se a todo este trabalho por algum as horas de diversão barulhenta, não tenho nada contra, m as que não escolham prazeres para m im . Oh! Sim , eu devo ir ao baile, não poderia recusar, e vou tentar ficar acordado o m áxim o que puder. Mas eu preferiria estar em casa, olhando as contas da sem ana com William Larkins. Prefiro m uito m ais isso, eu confesso. Prazer em ver os outros dançarem ! Eu não, é evidente! Nunca olho essas coisas, nem sei de alguém que o faça. Acredito que dançar bem , assim com o a virtude, deve ser um a recom pensa em si. Os que ficam sentados norm alm ente estão pensando em coisas m uito diferentes.

Em m a sentiu que isso fora dito para ela e ficou bastante zangada.

Todavia, não era com o cum prim ento à Jane Fairfax que ele se m ostrava tão indiferente e tão indignado. Ele não era guiado pelos sentim entos dela ao reprovar o baile, pois ela aprovara a ideia de form a entusiástica. Ficara anim ada, abrira o coração e espontaneam ente dissera:

– Ah! Miss Woodhouse, espero que não aconteça nada que im peça o baile. Seria um grande desapontam ento! Espero ansiosa por ele, será um enorme

prazer.

Portanto, não era para agradar Jane Fairfax que ele preferia a com panhia de William Larkins. Não! Cada dia ela estava m ais convencida que Mrs. Weston se enganara em fazer tal conj etura. Da parte dele havia um sentim ento de grande am izade e com paixão, m as não am or.

Muito bem ! Logo não houve m ais m otivos para discutir com Mr.

Knightley, pois dois dias de alegre despreocupação foram seguidos por um a enorm e reviravolta. Chegou um a carta de Mr. Churchill pedindo o im ediato retorno do sobrinho. Mrs. Churchill não passava bem ... Na verdade estava m al o bastante para desej ar a presença dele. Ela j á estava bem m al (foi o que disse o m arido) dois dias antes, quando escrevera para o sobrinho, em bora não tenha com entado nada devido ao seu desej o de não causar preocupações aos outros, e tam bém por seu hábito de nunca pensar em si m esm a. Mas agora estava m al dem ais para fingir que nada estava acontecendo e devia pedir ao sobrinho que fosse para Enscom be sem dem ora.

Assim que recebeu a carta, Mrs. Weston m andou um bilhete para Em m a, onde relatava o seu conteúdo. Quanto ao retorno de Frank, era inevitável.

Devia partir dentro de algum as horas, apesar de não estar tão alarm ado pela saúde da tia a ponto de deixar de lado a revolta. Ele conhecia bem seus achaques, que só aconteciam quando era da conveniência dela.

Mrs. Weston acrescentou “que ele apenas se perm itira o tem po de correr até Highbury, após o café da m anhã, para se despedir dos poucos am igos que tinham algum a afeição por ele, e que devia ser esperado em Hartfield m uito em breve”.

Esta nota infeliz foi o toque final do café da m anhã de Em m a. Depois que a leu, não havia m ais nada a fazer além de lam entar. A perda do baile, a perda do j ovem cavalheiro e tudo que ele deveria estar sentindo! Era m uita infelicidade! Que noite agradável teria sido! Todos tão felizes! Ela e seu acom panhante seriam os m ais felizes de todos! “Eu sabia que seria assim ”, era o que dizia a si m esm a com o único consolo.

Os sentim entos de seu pai foram bem diferentes. Ele pensava principalm ente na doença de Mrs. Churchill, e queria saber com o ela estava sendo tratada. Quanto ao baile, estava chocado por ver sua querida Em m a desapontada, m as ficariam m ais seguros em casa.

Em m a estava à espera do visitante bem antes que ele chegasse. Mas se isso a deixara im paciente, o olhar pesaroso e o total desânim o que ele dem onstrou ao entrar podiam redim i-lo. Ele sentia tanto a partida que quase não

podia falar. Sua decepção era bastante evidente. Sentou-se e ficou calado, realm ente perdido em seus pensam entos por alguns m inutos; quando se levantou, foi apenas para dizer:

– De todas as coisas horríveis, partir é a pior.

– Mas o senhor vai voltar – disse Em m a. – Esta não será sua única visita a Randalls.

– Ah!...- ele exclam ou, balançando a cabeça. – A incerteza de quando poderei retornar!... Vou tentar voltar com todas as m inhas forças. Será o obj etivo final de todos os m eus pensam entos e atenções! E se os m eus tios forem para a capital nesta prim avera... Mas estou receoso, eles não foram na prim avera passada. Tem o que isso tenha se tornado um hábito eterno.

– Terem os que desistir do nosso pobre baile.

– Ah, o baile! Por que esperam os tanto? Por que não agarram os logo esse prazer? Quantas vezes a felicidade é destruída pela preparação, tola preparação! A senhorita nos avisou que isso poderia acontecer. Ah, Miss Woodhouse, por que sem pre está tão certa?

– Na verdade, estou m uito triste por estar certa desta vez. Eu preferia bem m ais ser feliz a ser sábia.

– Se eu puder voltar, ainda terem os nosso baile. Meu pai está contando com isso. Não esqueça sua prom essa.

Em m a olhou-o com graça.

– Que quinzena foi essa! – ele continuou – Cada dia m ais feliz e m ais delicioso que o dia anterior! Cada dia m e tornou m ais incapaz de suportar qualquer outro lugar. Felizes aqueles que podem perm anecer em Highbury !

– Com o o senhor agora nos faz tão grande j ustiça – disse Em m a, rindo

– eu m e aventuro a perguntar-lhe se não duvidou um pouco, no início? Não superam os suas expectativas? Tenho certeza que sim . Tenho certeza que o senhor não esperava gostar de nós. Não teria tardado tanto em vir, se tivesse um a boa im pressão de Highbury. Ele riu constrangido, e apesar de negar tais sentim entos Em m a estava convencida de que fora assim .

– O senhor vai partir ainda esta m anhã?

– Sim , m eu pai vai m e encontrar aqui: vam os voltar j untos e parto em seguida. Tem o que ele chegue a qualquer m om ento.

– Não teve cinco m inutos para passar com suas am igas Miss Fairfax e Miss Bates? Que falta de sorte! A m ente poderosa e argum entativa de Miss Bates poderia fortalecer a sua.

– Sim , eu fui visitá-las. Passei pela porta e, pensando m elhor, achei que era a coisa certa a fazer. Entrei por três m inutos, e fui retido porque Miss Bates não estava. Achei, então, que devia esperar até que voltasse. Ela é um a m ulher de quem a gente pode, ou até deve rir, m as a quem não se ousa desprezar. Era m elhor visitá-la, portanto...

Ele hesitou, levantou-se e foi até a j anela.

– Para resum ir, Miss Woodhouse, acho que a senhorita dificilm ente não suspeitaria...

Ele a olhou com o se quisesse ler seus pensam entos. Ela m al sabia o que dizer. Parecia o preâm bulo de algum a coisa m uito séria, que ela não desej ava.

Forçando-se a falar para superar a situação, ela disse calm am ente:

– O senhor fez m uito bem , era m elhor visitá-las m esm o.

Ele ficou em silêncio. Em m a acreditava que ele a olhava, talvez refletindo sobre o que ela dissera, tentando entender o sentido. Ouviu-o suspirar.

Era natural para ele achar que tinha motivo para suspirar. Não podia acreditar que ela o estivesse encoraj ando. Alguns m om entos constrangedores se passaram , e ele sentou-se outra vez. De um m odo m ais determ inado, disse:

– Foi m uito bom sentir que todo o resto do m eu tem po deve ser dedicado a Hartfield. Meu apego por Hartfield é o m ais caloroso...

Ele parou de novo, levantou-se outra vez e pareceu m uito em baraçado.

Estava m ais apaixonado do que Em m a havia suposto. E quem sabe com o tudo teria term inado se o pai dele não aparecesse naquele m om ento? Logo Mr.

Woodhouse tam bém apareceu, e ele fez um grande esforço para se recom por.

A reunião ainda durou m ais alguns m inutos. Mr. Weston, sem pre alerta no que se refere às obrigações, e tão incapaz de retardar qualquer m al que fosse inevitável quanto incapaz de adivinhar um m al incerto, disse:

– Está na hora de irm os.

E o j ovem cavalheiro, com m ais um suspiro, não podia senão concordar em partir.

– Queria ter notícias de todos vocês – disse ele – é m eu único consolo.

Queria saber de tudo que acontecer por aqui. Incum bi Mrs. Weston de m e escrever, e ela foi m uito gentil em concordar. Ah! A benção de um a

correspondente m ulher, quando estam os de fato interessados em outra que está ausente!... Ela vai m e contar tudo, ao ler suas cartas m e sentirei em Highbury novam ente.

Um am igável aperto de m ãos e um sincero “até logo” term inaram o discurso e logo a porta foi fechada atrás de Frank Churchill. A notícia viera rápido... e rápido tam bém havia sido o encontro dos dois. Ele se fora. Em m a sentiu a sua partida, e previa um a grande perda para a pequena sociedade local com a sua ausência. Logo com eçou a tem er que fosse lam entar dem ais e sentir dem ais a falta dele.

Foi um a m udança triste. Haviam se encontrado quase todos os dias, desde que ele chegara. Certam ente sua vinda a Randalls dera novo ânim o às duas últim as sem anas, um ânim o indescritível. A ideia, a expectativa de vê-lo a cada m anhã, a certeza de saber que seria alvo de suas atenções, sua vivacidade, suas m aneiras elegantes! Havia sido um a quinzena m uito feliz, e lastim ava vê-la sucum bir no curso norm al dos dias de Hartfield. Para com pletar todas as outras recom endações, ele quase havia dito que a am ava. A que força ou a que constância de afeto ele estava subm etido era outra questão. Mas, no m om ento, não podia duvidar de sua calorosa adm iração, da sua preferência consciente por ela, e esta certeza, unida a todo o resto, a fazia pensar que devia estar um pouco apaixonada por ele, a despeito de toda sua prévia determ inação contra isso.

“Eu certam ente devo estar apaixonada” pensava ela. “Esta sensação de letargia, desânim o, estupidez, essa falta de vontade de sentar e m e ocupar, esse sentim ento de que tudo é som brio e insípido nesta casa! Devo estar apaixonada!

Eu seria a criatura m ais estranha do m undo se não estivesse, pelo m enos por algum as sem anas. Bem ! O m al de alguns é o bem de outros. Eu verei m uita gente se lam entando pelo baile, senão por Frank Churchill, m as Mr. Knightley vai ficar feliz. Ele agora poderá passar a noite com seu querido William Larkins se quiser”.

Mr. Knightley, entretanto, não dem onstrou um a felicidade triunfante.

Não podia dizer que lam entava por Frank Churchill, seu olhar de alegria o teria denunciado se o fizesse. Mas ele disse, com m uita firm eza, que sentia pelo desapontam ento dos outros, e com considerável gentileza, acrescentou: