Emma

Jane Austen · Capítulo 53 de 113

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Emma

Capítulo XV

Agora, minha cara senhora, devo liberá-la, mas não posso concluir ainda.

Milhares e milhares de agradecimentos pela bondade que a senhora sempre demonstrou para comigo, e dezenas de milhares pelas atenções que o seu coração dará a ela. Se acha que estou a caminho de ser mais feliz do que mereço, sou da mesma opinião. Miss W. diz que sou um favorito da fortuna.

Espero que esteja certa. Em um aspecto minha fortuna é certa, o de ser capaz de me subscrever”.

“Seu grato e afetuoso filho”

“F. C. Weston Churchill”

CAPÍTULO XV

Esta carta deve ter encontrado o cam inho para o coração de Em m a.

Com o Mrs. Weston previra, ela foi obrigada a fazer total j ustiça a ele, apesar de sua prévia determ inação em contrário. Assim que chegou à parte em que seu nom e era citado, ficou irresistível. Cada linha que se referia a ela era interessante, e quase tudo era agradável. E quando este encanto cessou, ainda assim o assunto se m anteve por si só, devido ao retorno natural de seu antigo afeto pelo autor da carta, e a forte atração que qualquer história de am or exercia sobre ela no m om ento. Em m a não parou até ler tudo, e ainda que fosse im possível deixar de sentir que ele errara, estivera m enos errado do que ela havia pensado. Além disso, ele sofrera e sentia tanto... e era tão agradecido a Mrs. Weston, e tão apaixonado por Miss Fairfax, e ela m esm a estava tão feliz que não podia ser m uito severa. Se ele entrasse na sala naquele m om ento, ela o teria cum prim entado tão calorosam ente com o sem pre.

Ficara tão bem im pressionada com a carta que, quando Mr. Knightley voltou a visitá-la, pediu que ele a lesse. Estava certa de que Mrs. Weston gostaria que o seu conteúdo fosse com unicado, especialm ente para alguém com o Mr.

Knightley, que vira tantas coisas condenáveis na conduta de Frank Churchill.

– Ficaria m uito feliz em ler a carta – disse ele – m as m e parece um tanto longa. Vou levá-la para casa à noite.

Mas não era possível, Mr. Weston viria visitá-los à tardinha e Em m a deveria devolver a carta por ele.

– Eu preferia ficar conversando com você – ele respondeu – m as com o é um a questão de j ustiça, então que sej a.

Mr. Knightley com eçou a ler, m as parou logo em seguida para dizer:

– Se tivessem m e oferecido para ler um a das cartas desse cavalheiro para sua m adrasta alguns m eses atrás, Em m a, eu não agiria com a m esm a indiferença de agora.

Continuou lendo para si m esm o por m ais algum tem po. E então, com um sorriso, observou:

– Hum m !... Um a bela introdução, com os cum prim entos, bem no estilo dele. O estilo de um hom em não deve servir de regra para outro. Não devem os ser severos.

– Seria natural para m im dizer m inha opinião em voz alta enquanto leio

– observou ele, pouco depois. – Dessa m aneira eu sentiria que estou perto de

você, e não consideraria um a perda tão grande de tem po. Mas se você não gosta...

– Absolutam ente. Gostaria m uito disso.

Mr. Knightley retornou à leitura com grande entusiasm o.

– Ele está gracej ando quanto à tentação – disse ele. – Sabe que está errado e não tem nada racional para alegar com o m otivo. Mau... Não devia ter ficado noivo. “A índole do pai”, ele é inj usto com o pai, no entanto. O

tem peram ento otim ista de Mr. Weston foi um a benção em todos os seus honrados e corretos esforços; m as Mr. Weston m erecia que ele prim eiro o confortasse antes de pretender ganhar o seu perdão... Verdade, ele não chegou até que Miss Fairfax estivesse aqui.

– E eu não esqueci – disse Em m a – com o você estava seguro de que ele poderia ter vindo antes, se quisesse. Você foi m uito elegante em não m encionar isso... m as estava perfeitam ente certo.

– Eu não estava sendo im parcial no m eu j ulgam ento, Em m a... Mas, m esm o que você não estivesse envolvida no caso, ainda assim eu acho que não confiaria nele.

Quando ele chegou à parte que m encionava Miss Woodhouse, obrigou-se a ler em voz alta tudo o que se referia a ela, parando às vezes para um sorriso, um olhar, um m eneio de cabeça, um a ou duas palavras de concordância ou desaprovação, ou sim plesm ente de am or, conform e o assunto requeria. No entanto, concluiu com seriedade e, depois de um a profunda reflexão, disse:

– Muito m au, em bora pudesse ter sido pior. Ele fez um j ogo m uito perigoso. A dívida m oral dele em toda essa situação é m uito grande para perm itir sua absolvição. Não j ulgue as atitudes dele pelas suas. Sem pre decepcionado em seus próprios desej os, e pouco se im portando com nada que não fosse sua própria conveniência. Im aginou que você tivesse descoberto seu segredo. Bastante natural! Com o a m ente dele estava cheia de intrigas, achava a m esm a coisa dos outros. Mistério, refinam ento... Com o ele subverte a com preensão! Minha Em m a, isso tudo não serve para provar cada vez m ais a beleza da verdade e da sinceridade que sem pre estão presentes no m odo com que lidam os um com o outro?

Em m a concordou, m as ficou corada ao pensar em Harriet, em relação a quem não podia dar nenhum a explicação sincera.

– É m elhor continuar a ler – disse ela.

Ele o fez, m as logo parou novam ente para dizer:

– O piano! Ah! Esse foi o ato de um hom em j ovem , j ovem dem ais para considerar que a inconveniência de tal presente poderia suplantar o prazer de recebê-lo. Um a atitude infantil, na verdade! Não posso com preender que um hom em decida dar a um a m ulher um a prova de am or que ela não desej a. E ele sabia que ela teria im pedido a chegada do instrum ento, se pudesse.

Depois disso ele seguiu com a leitura, sem fazer m ais pausas. A confissão de Frank Churchill, de que se com portara de m odo vergonhoso, foi a prim eira coisa que requeria m ais do que um a palavra a respeito.

– Concordo totalm ente com o senhor, Mr. Frank Churchill – foi a observação de Mr. Knightley. – O senhor agiu de form a vergonhosa. Nunca escreveu um a frase m ais verdadeira.

E com eçando a ler o que se seguia, sobre os m otivos do seu desentendim ento, e a persistência dele em agir contra os princípios de certo e errado de Jane Fairfax, Mr. Knightley fez um a longa pausa para dizer:

– Isto é m uito ruim . Ele a induziu, pelo bem dele, a colocar-se em um a situação de extrem a dificuldade e desconforto, quando o prim eiro obj etivo dele deveria ser o de evitar qualquer sofrim ento a ela. Ela deve ter tido m uito m ais problem as do que ele, para m anter esse tipo de situação. Ele deveria ter respeitado os escrúpulos dela, até m esm o os m enos razoáveis, se fosse o caso.

Mas eram todos m uito razoáveis. Devem os considerar que a única falta dela, quando agiu errado em concordar com o noivado secreto, não m erecia ser punida com tal rigor.

Em m a sabia que agora ele estava chegando à parte da excursão a Box Hill, e tornou-se m ais inquieta. O com portam ento dela m esm a havia sido tão im próprio! Estava profundam ente envergonhada, e um pouco tem erosa do próxim o olhar dele. No entanto, ele term inou a leitura de m odo firm e e atento, sem fazer a m enor observação. Exceto por um único olhar, que ele logo desviou para não causar-lhe dor, não parecia existir m ais nenhum a lem brança de Box Hill.

– Não há m uito que dizer sobre a delicadeza de nossos bons am igos, os Eltons – foi a próxim a observação dele. – Os sentim entos dele são m uito naturais... O quê? Ela decidiu term inar tudo com ele?... Sentia que o noivado era um a fonte de sofrim ento e arrependim ento para am bos, e term inou com tudo...

Que boa noção isso nos dá da percepção dela sobre o com portam ento dele!...

Bem , esse rapaz deve ser o m ais extraordinário...

– Não, não, continue a ler!... Verá o quanto ele realm ente sofreu.

– Espero que sim – respondeu Mr. Knightley, friam ente, retom ando a

leitura. – Sm allridge! O que significa isso? O que quer dizer?

– Jane Fairfax havia concordado em trabalhar com o governanta das crianças de Mrs. Sm allridge... um a querida am iga de Mrs. Elton, vizinha de Maple Grove. E, a propósito, com o será que Mrs. Elton suportou a decepção?

– Não diga m ais nada, m inha querida Em m a, enquanto sou obrigado a ler... Nem m esm o sobre Mrs. Elton. Só m ais um a página, e logo vou term inar.

Que carta enorm e esse rapaz escreveu!

– Gostaria que tivesse lido com um espírito m ais benevolente em relação a ele.

– Bem , existe realm ente sentim ento no que ele escreve... Parece ter de fato sofrido ao vê-la doente. Certam ente não posso ter dúvida de que ele realm ente a am a. “Querida, m ais querida do que nunca”... Espero que ele continue por m uito tem po a sentir todo o valor dessa reconciliação. Ele agradece de m odo m uito liberal, com seus m ilhares e dezenas de m ilhares. “Mais feliz do que m ereço” Ele conhece bem a si m esm o, de fato... “Miss Woodhouse diz que sou um favorito da fortuna” Estas foram m esm o as palavras de Miss Woodhouse, então?... E um belo final. Aqui está a carta... O favorito da fortuna! Foi assim que o cham ou, não é?

– Você não parece tão satisfeito com a carta quanto eu. Ainda assim acho que deve, pelo m enos eu espero que deva, pensar m elhor dele por causa disso. Espero que a carta o aj ude a aceitá-lo um pouco m ais.

– Sim , com certeza isso aconteceu. Ele com eteu m uitos erros, de falta de consideração, falta de raciocínio, e concordo plenam ente com a opinião dele de que provavelm ente será m ais feliz do que m erece. Mas ele está, sem dúvida nenhum a, m uito apaixonado por Miss Fairfax, e logo terá, eu espero, a vantagem de estar constantem ente com ela. Estou pronto a acreditar que seu caráter irá m elhorar, e que deve adquirir pela convivência com ela a firm eza e delicadeza de princípios que lhe faltam . Agora, gostaria de falar-lhe de outra coisa. Tenho os interesses de outra pessoa tão presentes no m eu coração, no m om ento, que não posso pensar m uito tem po sobre Frank Churchill. Desde que a deixei hoj e de m anhã, Em m a, tenho pensado m uito em outro assunto.

O assunto foi dito sim plesm ente, naquele inglês sem afetação e cortês que um cavalheiro com o Mr. Knightley usava m esm o com a m ulher a quem am ava. Tratava-se de pedi-la em casam ento sem prej udicar a felicidade de seu pai. A resposta de Em m a estava na ponta da língua. “Enquanto seu querido pai vivesse, não deveria m udar sua condição. Jam ais poderia deixá-lo”. No entanto, apenas parte desta resposta foi aceita por ele. Mr. Knightley sentia que a

im possibilidade de ela deixar o pai era tão forte quanto ela m esm a, m as não podia concordar que não fosse possível qualquer outra m udança. Ele estivera pensando nisso, profunda e intensam ente. A princípio pensara em convencer Mr.

Woodhouse a m udar-se para Donwell com eles. Desej ava acreditar que era possível, m as conhecia bem dem ais Mr. Woodhouse para não suportar decepcioná-lo. Acabou por convencer-se que essa m udança seria um risco para o conforto de Mr. Woodhouse, talvez até para sua vida, que não podia ser arriscada absolutam ente. Tirar Mr. Woodhouse de Hartfield! Não, sentia que não devia tentar um a coisa assim . Mas o plano que surgiu, quando este foi posto de lado, ele achava que não iria encontrar nenhum a obj eção por parte de sua querida Em m a. Era a proposta de que ele m esm o se m udasse para Hartfield, enquanto a felicidade ou a vida de Mr. Woodhouse dependesse de continuar em Hartfield que era o lar dele. Neste caso passaria a ser o lar de Mr. Knightley tam bém .

Em m a j á havia pensado na possibilidade de todos se m udarem para Donwell. Com o ele, pensara nesse plano e o rej eitara, m as não lhe ocorrera outra possibilidade. Ela tinha consciência de todo o afeto que ele dem onstrava.

Sentia que, ao deixar Donwell, Mr. Knightley estaria sacrificando um a grande parte de sua independência de tem po e hábitos. Que viver constantem ente com seu pai, e em um a casa que não era a sua, im plicaria suportar m uitas coisas. Ela prom eteu pensar no assunto, e aconselhou-o a pensar m ais sobre isso tam bém , m as Mr. Knightley tinha certeza que nenhum a reflexão posterior iria alterar seus desej os ou sua opinião sobre o assunto. Ele considerara todas as possibilidades, longa e calm am ente, podia garantir a ela. Afastara-se de William Larkins durante toda a m anhã, para poder pensar no assunto.

– Ah! Aí está um a dificuldade em que não pensou – exclam ou Em m a.

– Tenho certeza que William Larkins não vai gostar disso. Deve pedir o consentim ento dele antes de pedir o m eu.

Ela prom eteu, no entanto, pensar sobre isso. E prom eteu ainda um pouco m ais, que pensaria no assunto com a intenção de considerá-lo um bom esquem a.

É im pressionante que Em m a, nos m uitos e m uitos pontos de vista sob os quais agora considerava Donwell Abbey, não fosse acom etida por nenhum senso de inj ustiça em relação ao seu sobrinho Henry, cuj os direitos com o herdeiro foram outrora tão tenazm ente defendidos por ela. Considerou a possível diferença que isso faria para o pobre garoto, e m esm o assim apenas sorriu ao pensar no assunto. Achou divertido descobrir a verdadeira causa de seu desgosto com a ideia de ver Mr. Knightley casado com Jane Fairfax, ou qualquer outra dam a, que na época ela im putara apenas à sua am ável solicitude de tia e irm ã.