Emma

Jane Austen · Capítulo 23 de 113

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Emma

Capítulo III

Onde tudo era reservado, se algum a coisa podia ser ainda m ais reservada era o assunto de sua viagem à Wey m outh e os Dixons. Parecia inclinada a não dar indicação algum a sobre o caráter de Mr. Dixon, ou do valor que atribuía à com panhia dele, ou ainda sua opinião sobre a conveniência do casam ento. Tudo era apenas aprovação e suavidade, nada de positivo ou determ inante. Mas de nada adiantou, sua reserva foi desconsiderada. Em m a percebeu o artifício e retornou às suas prim eiras suspeitas. Com certeza havia algum a coisa a esconder, além da preferência dela. Mr. Dixon provavelm ente trocara um a am iga pela outra, ou se fixara apenas em Miss Cam pbell, a fim de garantir suas doze m il libras para o futuro.

A reserva prevaleceu sobre outros assuntos. Ela e Mr. Frank Churchill estiveram em Wey m outh ao m esm o tem po. Sabia-se que eles se conheciam um pouco, m as Em m a não conseguiu sequer um a inform ação concreta sobre com o ele realm ente era. “Ele é bonito?”... “Ela acreditava que ele tinha a reputação de ser um j ovem m uito refinado”. “Ele é agradável?”... “Ele era geralm ente considerado assim ”. “Ele parecia um j ovem sensível, culto?”... “Em um a estação de águas, ou em um a reunião social na casa de conhecidos em Londres, era m uito difícil avaliar essas coisas. Pelo tanto que conheciam Mr. Churchill só podiam avaliar suas boas m aneiras. Ela acreditava que todos consideravam suas m aneiras agradáveis”. Em m a não podia perdoá-la.

CAPÍTULO III

Em m a não podia perdoá-la, m as nenhum ressentim ento ou provocação foi percebido por Mr. Knightley, que fazia parte do grupo e viu apenas a atenção apropriada e o com portam ento gentil de am bas as m oças. Na m anhã seguinte ele retornou a Hartfield para tratar de negócios com Mr. Woodhouse, e expressou sua aprovação geral, não tão abertam ente com o teria falado se o pai não estivesse na sala, m as de m aneira sim ples o suficiente para ser bem entendido por Em m a.

Ele costum ava criticá-la por ser inj usta com Jane, e estava m uito satisfeito de ver que ela m elhorara nesse aspecto.

Tão logo Mr. Woodhouse determ inou o que era necessário, disse que entendera tudo e os papéis foram guardados, Mr. Knightley com eçou dizendo:

– Um serão m uito agradável, especialm ente agradável. Você e Miss Fairfax nos brindaram com excelente m úsica. Não conheço luxo m aior, senhor, do que ficar sentado confortavelm ente e ser entretido a noite toda por duas j ovens com o essas, às vezes com m úsica, outras com conversa. Tenho certeza que Miss Fairfax apreciou a noite, Em m a. Você cuidou de tudo perfeitam ente.

Fiquei feliz de ver que você conseguiu que ela tocasse bastante. Com o não existe piano na casa da avó, deve ter sido um a verdadeira satisfação para ela.

– Fico feliz em saber que aprova – disse Em m a, sorrindo – m as espero não ser m uito deficiente quanto às cortesias devidas aos hóspedes de Hartfield.

– Não, m inha querida – disse o pai, im ediatam ente – tenho certeza que isso você não é. Não há ninguém que tenha a m etade da atenção e da gentileza que você possui. Para as m ínim as

coisas, você sem pre está atenta. Mas os m uffins[1] a noite passada, se tivessem sido passados apenas um a vez acho que teria sido o bastante.

– Não – disse Mr. Knightley, quase ao m esm o tem po – você não é sem pre deficiente, não é deficiente nem em boas m aneiras nem em discernim ento. Acho que você m e entende...

Com um a sobrancelha erguida Em m a expressou que estava entendendo perfeitam ente bem , m as falou apenas:

– Miss Fairfax é m uito reservada.

– Eu sem pre lhe disse que ela era... um pouco. Mas logo você irá superar essa reserva, pois ela tem fundam ento na desconfiança. O que nasce da discrição deve ser louvado.

– O senhor a considera desconfiada, eu não vej o assim .

– Minha querida Em m a – disse ele, sentando-se em um a cadeira m ais perto dela – você não está querendo m e dizer que não apreciou a noite de ontem .

– Ah, não. Fiquei feliz com a m inha perseverança em fazer perguntas, e m e diverti com a pouca inform ação que consegui.

– Estou desapontado – foi a única resposta dele.

– Espero que todos tenham tido um a noite agradável – disse Mr.

Woodhouse, em seu j eito calm o. – Sei que eu tive. Um a vez, durante a noite, achei que a lareira estava esquentando dem ais, então m ovi m inha cadeira um pouquinho para trás, só um pouquinho, e não m e senti m ais incom odado. Miss Bates estava m uito falante e bem hum orada, com o é o j eito dela, em bora ela fale um pouco rápido dem ais. Ela é m uito agradável, no entanto, e Mrs. Bates tam bém , de um m odo diferente. Gosto dos velhos am igos. E Miss Fairfax é um tipo de j ovem m uito bonita, um a m oça m uito bonita e m uito bem educada, de fato. Ela deve ter gostado da noite, Mr. Knightley, porque teve a com panhia de Em m a.

– É verdade, senhor, e Em m a gostou porque teve a com panhia de Miss Fairfax.

Em m a viu a ansiedade dele e, com a intenção de acalm á-lo, pelo m enos no m om ento, disse com um a sinceridade que ninguém poderia questionar:

– Ela é um a criatura tão elegante que não se consegue tirar os olhos dela. Gosto m uito de adm irá-la, e sinto pena dela com todo o m eu coração.

Mr. Knightley olhou com o se estivesse m ais contente do que pretendia expressar, e antes que ele pudesse responder Mr. Woodhouse disse, ainda com o pensam ento nas Bates:

– É um a pena que as condições delas sej am tão restritas! É m esm o um a pena! Eu sem pre desej ei... Mas é tão pouco o que podem os fazer... Alguns pequenos presentes, algum as coisas especiais... Agora m esm o m atam os um porco e Em m a pensou em enviar-lhes um pernil ou um lom bo. É algo pequeno e delicado... os porcos de Hartfield não são com o os outros... Mas m esm o assim ainda é um porco... E, além disso, m inha querida Em m a, a m enos que tenham os certeza que elas irão preparar o lom bo em pequenos bifes, bem fritinhos, assim com o os nossos, sem a m enor gordura, e não assado, pois nenhum estôm ago pode suportar carne de porco assada... Penso que seria m elhor m andar-lhes o pernil... Não acha, m inha querida?

– Meu querido papai, m andei-lhes todo o quarto traseiro. Sei que o senhor gostaria que fosse assim . Elas terão o pernil para salgar, que é m uito bom ,

o senhor sabe, e o lom bo para ser preparado da m aneira que preferirem .

– Muito bem , m inha querida, m uito bem . Eu não tinha pensado nisso, m as é a m elhor m aneira. Elas não devem salgar dem ais o pernil; e se não salgarem dem ais, e ele for levem ente cozido, com o Serle cozinha os nossos, e com ido com bastante m oderação, com nabo cozido, e um pouco de cenoura ou batata, acho que não será prej udicial.

– Em m a – atalhou Mr. Knightley – tenho um a notícia para você. Você gosta de novidades, e ouvi um a coisa quando vinha para cá que eu acho que vai interessá-la.

– Novidades! Ah, sim , eu sem pre adoro novidades. O que é?... Porque está rindo?... Onde ouviu a novidade? Em Randalls?

Ele teve tem po apenas para dizer:

– Não, não foi em Randalls, nem estive perto de lá...

Nesse m om ento a porta foi aberta e Miss Bates e Miss Fairfax entraram na sala. Cheia de agradecim entos e de novidades, Miss Bates não sabia o que devia dizer prim eiro. Mr. Knightley percebeu que perdera a oportunidade e que não conseguiria dizer nem m ais um a palavra.

– Ah, m eu caro senhor, com o se sente esta m anhã? Minha querida Miss Woodhouse, eu estou encantada, nem sei o que dizer. Que belíssim o quarto de porco! A senhorita é tão generosa! Já sabem das novidades? Mr. Elton vai se casar.

Em m a não tivera tem po sequer de pensar em Mr. Elton, e ficou de tal m aneira surpresa que não conseguiu evitar um pequeno sobressalto, nem de ficar ruborizada, quando ouviu aquilo.

– Esta era a m inha novidade... Achei que iria interessá-la – disse Mr.

Knightley, com um sorriso que indicava a presunção de pelo m enos um a parte do que acontecera entre eles.

– Mas com o o senhor soube disso? – exclam ou Miss Bates. – Com o é possível que o senhor tenha tom ado conhecim ento disso, Mr. Knightley ? Pois não faz cinco m inutos que recebi o bilhete de Mrs. Cole... não, não pode fazer m ais de cinco m inutos... talvez dez... pois eu vesti m eu chapéu e m eu casaco e m e aprontei para sair... e tinha acabado de descer para falar de novo com Patty sobre o porco... Jane estava de pé no corredor... não é m esm o, Jane? Mam ãe estava preocupada que não tivéssem os um a panela grande o bastante para salgar o porco. Então eu lhe disse que ia descer e verificar, e Jane disse “Posso ir em seu lugar? Acho que a senhora está um pouco resfriada e Patty esteve lavando a

cozinha”... “Oh, m inha querida” eu disse... bem , e aí chegou o bilhete. Cham a-se Miss Hawkins... é tudo que sei. Miss Hawkins, de Bath. Mas, Mr. Knightley, com o o senhor pôde saber disso? Pois no m esm o m om ento em que Mr. Cole contou isso a Mrs. Cole ela sentou-se e m e escreveu. Miss Hawkins...

– Estive com Mr. Cole há um a hora e m eia, tratando de negócios. Ele tinha acabado de ler a carta de Mr. Elton quando cheguei, e m e deu para que a lesse.

– Bem ! Isso é realm ente... Creio que nunca houve um a notícia tão interessante para toda a Highbury. Meu caro senhor, é realm ente m uito generoso da sua parte. Minha m ãe lhe m anda seus m elhores cum prim entos e lem branças, e m ilhões de agradecim entos, ela diz que o senhor quase a sufoca com tanta gentileza.

– Consideram os nosso porco, aqui de Hartfield – replicou Mr.

Woodhouse – ele realm ente é, de fato, tão superior aos outros porcos, que Em m a e eu não poderíam os ter m aior prazer que...

– Ah! Meu caro senhor, com o m inha m ãe costum a dizer, nossos am igos são bons dem ais para nós. Se j á existiram pessoas que, m esm o não tendo grande riqueza, têm tudo que podem desej ar, essas pessoas certam ente som os nós. Podem os dizer que “nosso

lote fica em um a boa propriedade” [2]. Bem , Mr.

Knightley, então o senhor realm ente viu a carta. Muito bem ...

– A carta era curta, apenas para anunciar... m as o tom era alegre, exultante, é claro – e Mr. Knightley lançou um olhar de relance para Em m a. –

Ele teve sorte o bastante para... eu esqueço as palavras exatas... para não ter com que se preocupar. A inform ação era essa m esm a que a senhora disse, que ele ia se casar com Miss Hawkins. Pela m aneira com que se expressou, im agino que j á estej a tudo acertado.

– Então Mr. Elton vai se casar! – disse Em m a, assim que conseguiu recuperar a fala – Ele receberá de todos os m elhores votos de felicidades.

– Ele é m uito j ovem para se casar – foi a observação de Mr.

Woodhouse. – Seria m elhor não se apressar. Ele m e parece m uito bem com o está, sem pre ficam os felizes de vê-lo em Hartfield.

– Terem os um a nova vizinha, Miss Woodhouse! – alegrou-se Miss Bates. – Minha m ãe está tão contente! Diz que não suportava m ais ver o pobre e velho Vicariato sem um a senhora. São excelentes notícias, de fato. Jane, você nunca viu Mr. Elton! Não é de adm irar que tenha tanta curiosidade de conhecê-lo.

A curiosidade de Jane não parecia ser de natureza a tom ar conta do seu pensam ento.

– Não... nunca vi Mr. Elton – ela respondeu ao apelo da tia. – Ele é... ele é alto?

– Quem poderia responder a esta questão? – exclam ou Em m a. – Meu pai diria “sim ”, Mr. Knightley diria “não”, e Miss Bates e eu diríam os que ele é apenas de um a conveniente altura m édia. Quando estiver aqui por algum tem po, Miss Fairfax, vai perceber que Mr. Elton é o m odelo de perfeição de Highbury, tanto física com o m entalm ente.

– É verdade, Miss Woodhouse, ela vai perceber. Ele é o m elhor j ovem cavalheiro... Mas, m inha querida Jane, você deve lem brar-se que eu lhe disse ontem que ele é exatam ente da altura de Mr. Perry. Miss Hawkins... deve ser um a j ovem excelente. A extrem a atenção dele com m inha m ãe... fazendo com que se sentasse no prim eiro banco da igrej a para ouvir m elhor, pois ela é um pouco surda, a senhorita sabe... Não é m uito, m as ela realm ente não consegue ouvir logo. Jane disse que o coronel Cam pbell é um pouco surdo. Ele pensou que os banhos pudessem fazer-lhe bem , os banhos term ais... m as Jane disse que ele não teve nenhum a m elhora. O coronel Cam pbell é um anj o para nós. E Mr.

Dixon parece ser um j ovem tão encantador, bastante m erecedor de entrar para a fam ília. É um a felicidade quando as pessoas boas se j untam ... e elas sem pre se j untam . Agora tem os Mr. Elton e Miss Hawkins, e há os Coles, pessoas excelentes; e os Perry s tam bém ... acho que nunca houve um casal m ais feliz que Mr. e Mrs. Perry. É o que sem pre digo, senhor – voltando-se para Mr. Woodhouse

– acho que poucos lugares tem um a sociedade com o Highbury. Sem pre digo que som os abençoadas com os vizinhos que tem os... Meu caro senhor, se há um a coisa que m inha m ãe adora acim a de tudo é porco... um belo lom bo de porco assado...

– Quanto a quem ou o que é essa Hawkins, ou há quanto tem po ele a conhece – disse Em m a – suponho que ninguém saiba. Não deve ser um conhecim ento m uito longo, faz só quatro sem anas que ele viaj ou.

Ninguém tinha inform ação algum a, e após refletir um pouco Em m a disse:

– Está m uito silenciosa, Miss Fairfax... m as espero que tenha interesse nesta notícia. Im agino que tenha ouvido e visto m uita coisa ultim am ente a respeito desse tipo de assunto, deve estar bastante inform ada sobre isso, pois assistiu ao nam oro de Miss Cam pbell. Não vam os aceitar que fique tão indiferente ao casam ento de Mr. Elton e Miss Hawkins.

– Quando eu tiver conhecido Mr. Elton – respondeu Jane – talvez eu fique interessada... Mas acredito que isso dependa apenas de m im . E com o j á faz alguns m eses que Miss Cam pbell se casou, m inhas lem branças podem estar um pouco desvanecidas.

– Sim , faz apenas quatro sem anas que ele viaj ou, com o a senhorita observou m uito bem , Miss Woodhouse – disse Miss Bates – fez quatro sem anas ontem ... Quanto a Miss Hawkins!... Bem , eu sem pre im aginei que ele se casaria com algum a m oça aqui da região. Não que eu algum a vez... Mrs. Cole um a vez m e segredou algum a coisa... m as eu retruquei im ediatam ente “Não, Mr. Elton é o hom em m ais digno que existe”, m as... Eu acho que não sou m uito esperta nesse tipo de descoberta. Nem pretendo ser. O que está diante de m im eu vej o. E

tam bém , ninguém sabe se realm ente Mr. Elton algum a vez desej ou... Miss Woodhouse m e deixa ficar falando, tão bem hum orada que ela é. Ela sabe que j am ais a ofenderia, por nada no m undo. O que Miss Sm ith pode fazer? Ela parece estar recuperada agora. Tiveram notícias de Mrs. John Knightley ultim am ente? Ah, aquelas crianças adoráveis! Jane, você sabia que eu sem pre im aginei Mr. Dixon parecido com Mr. Knightley ?... Quero dizer, na aparência...

alto, com aquele tipo de olhar... e um pouco calado.

– Totalm ente errado, m inha querida tia. Não existe sem elhança algum a.

– Muito estranho! Mas não é possível form ar um a ideia sobre um a pessoa de antem ão, a gente se apega a um a noção e tudo gira em torno dela. Mas você disse que Mr. Dixon não é bonito, estritam ente falando?

– Bonito? Oh, não, longe disso. Ele é bastante com um . Eu disse à senhora que ele era com um .

– Minha querida, você disse que Miss Cam pbell j am ais perm itiria que ele fosse com um , e que você m esm a...

– Oh, quanto a m im , m eu j ulgam ento não tem valor. Quando estim o um a pessoa sem pre acho que ela tem boa aparência. Mas eu falei o que é considerado a opinião geral, quando disse que ele era com um .

– Bem , m inha querida Jane, acho que devem os nos apressar. O tem po não parece bom , e vovó deve estar inquieta. A senhorita é m uito am ável, m inha querida Miss Woodhouse, m as nós realm ente devem os ir. Essa foi um a notícia m uito agradável, de fato. Eu agora devo passar na casa de Mrs. Cole, m as não vou dem orar nem três m inutos... Jane, é m elhor você ir direto para casa... Não gostaria que apanhasse chuva! Acham os que o m elhor para ela é Highbury, de fato. Muito obrigado, m as tem os m esm o que ir. Acho que não vou tentar convidar

Mrs. Goddard, pois penso que ela não gosta de outra coisa a não ser porco cozido, m as quando prepararm os o nosso pernil vam os fazer de outro j eito. Bom dia para o senhor, m eu caro Mr. Woodhouse. Oh! Mr. Knightley tam bém está indo. Bem , isso é tão apropriado! Tenho certeza que se Jane estiver cansada o senhor será bastante gentil de lhe oferecer seu braço... Mr. Elton e Miss Hawkins, im aginem !... Bom dia para todos.

Em m a, ao ficar sozinha com o pai, dedicava m etade de sua atenção a ele, enquanto Mr. Woodhouse lam entava que as pessoas j ovens se apressassem tanto para casar... e casar-se com estranhos, ainda por cim a... e a outra m etade ela dedicava aos seus próprios pensam entos a respeito do assunto. Para ela esta notícia era divertida e m uito bem vinda, pois dem onstrava que ele não sofrera m uito. Mas lam entava por Harriet, que devia sentir bastante. Tudo que podia esperar era dar ela m esm a a notícia, antes que Harriet soubesse disso abruptam ente pelos outros. Estava quase na hora em que Harriet costum ava visitá-la. E se ela encontrasse Miss Bates no cam inho?! Com o com eçasse a chover Em m a tem eu que ela ficasse detida na casa de Mrs. Goddard e que acabasse por saber da notícia sem estar preparada.

A chuva foi pesada, m as de curta duração, e parara havia não m ais de cinco m inutos quando Harriet chegou. Tinha o olhar brilhante e agitado, com o se tivesse corrido de casa com o coração transtornado. E o “Oh, Miss Woodhouse, não im agina o que aconteceu” que lhe escapou im ediatam ente, correspondia à agitação em que estava. Já que o m al estava feito, Em m a sentiu que a única form a de m ostrar-se bondosa seria ouvi-la. E Harriet, descontrolada, com eçou ansiosam ente a contar-lhe o que se passara. “Ela saíra da casa de Mrs. Goddard há m eia hora... tinha m edo que fosse chover, achava que a chuva ia desabar a qualquer m om ento... m as pensou que conseguiria chegar a Hartfield antes disso, e correu tanto quanto podia; e quando passou por um a loj a onde tinha m andado fazer um vestido resolveu entrar um instantinho, só para ver com o estava indo o trabalho; em bora não tenha ficado m ais de um m om ento ali, assim que saiu com eçou a chuva, e ela não sabia o que fazer; então correu e abrigou-se na Ford’s”. Ford’s era a principal loj a de artigos de lã, roupa de cam a e artigos m asculinos, tudo j unto, a m aior e m ais elegante loj a do lugar. “E ela ficara ali, sem pensar em nada, durante dez m inutos, talvez... quando, de repente, im agine quem chegou... por certo que era m uito estranho! Mas eles sem pre com pravam na Ford’s... quem chegou, senão Elizabeth Martin e seu irm ão! Querida Miss Woodhouse, im agine. Achei que ia desm aiar. Não sabia o que fazer. Eu estava sentada perto da porta e Elizabeth m e viu logo que entrou. Mas ele não, estava ocupado com o guarda-chuva. Tenho certeza que ela m e viu, m as olhou para outro lado e fez que não m e notou. Os dois se dirigiram ao fundo da loj a enquanto eu fiquei sentada perto da porta. Oh, Deus, eu estava tão aflita! Tenho certeza que

estava tão branca com o m eu vestido, e não podia ir em bora, por causa da chuva.

Queria estar em qualquer outro lugar do m undo que não fosse ali. Oh! Querida Miss Woodhouse... bem , por fim , eu im agino que ele tenha olhado ao redor e m e visto. Então, em vez de ir fazer suas com pras eles com eçaram a cochichar um com o outro. Tenho certeza que falavam de m im , e acho que ele estava convencendo a irm ã a vir falar com igo (acha que ele estava, Miss Woodhouse?), pois ela se adiantou e veio direto para m im , m e perguntou com o eu estava passando, e parecia disposta a apertar m inha m ão, se eu perm itisse. Ela não falou com igo da form a com o estava acostum ada, logo vi que estava alterada. Mas, de qualquer form a ela tentava parecer agradável, então nos apertam os as m ãos e ficam os conversando um pouco. Nem m e lem bro do que disse... eu trem ia tanto!

Recordo-m e de ela dizer que lam entava que não tivéssem os nos encontrado m ais. Achei até bastante gentil! Querida Miss Woodhouse, eu estava absolutam ente infeliz. Nesse m om ento a chuva estava parando, e decidi que nada iria m e im pedir de ir em bora, e então... im agine!... vi que ele m esm o estava se dirigindo para m im , bem devagar, a senhorita sabe, com o se não soubesse bem o que fazer. Ele veio, falou com igo e eu respondi, e fiquei parada um m inuto parecendo apavorada, a senhorita nem im agina quanto! Então tom ei coragem , disse que parara de chover e que eu precisava ir. Assim que saí, não tinha m e afastado nem três m etros da porta quando ele veio atrás de m im , só para dizer que, se eu estivesse indo para Hartfield, devia dar a volta pelos estábulos de Mr.

Cole, pois o cam inho m ais perto estava encharcado. Oh, Deus! Achei que ia m orrer! Então eu disse que agradecia m uito, sabe, não poderia fazer outra coisa; depois ele voltou para j unto de Elizabeth e eu vim , dando a volta pelos estábulos...

pelo m enos eu acho que fiz isso, m al sabia onde estava, ou por onde andava. Oh, Miss Woodhouse, eu não teria feito nada para que isso acontecesse. Mas agora, a senhorita sabe, fiquei bem satisfeita de vê-lo com portar-se com tanta gentileza e bondade. E Elizabeth, tam bém . Oh, Miss Woodhouse, fale com igo e faça com que eu m e sinta bem de novo”.

Em m a desej ava sinceram ente poder fazê-lo, m as isso não estava ao seu alcance no m om ento. Era obrigada a parar e refletir, e não se sentia totalm ente à vontade. A conduta do rapaz e da irm ã parecia revelar um afeto verdadeiro, e ela só podia sentir pena deles. Da form a com o Harriet descrevera a cena, houvera um a interessante m istura de afeição ferida e genuína delicadeza no com portam ento dos dois. Ela sem pre acreditara que eles fossem pessoas bem intencionadas e dignas, m as que diferença isso faria se a ligação era im própria em si? Era tolice ficar incom odada com isso. Claro que eles lam entaram perdê-la... todos eles deviam lam entar. A am bição, assim com o o am or, provavelm ente os m ortificou, pois pretendiam ascender socialm ente através da am izade com Harriet. E depois, que valor tinha a descrição que Harriet fizera? Ela era tão fácil de contentar, tinha tão pouco discernim ento... o que podiam significar os seus

louvores?

Em m a fez um esforço e tentou acalm ar Harriet, considerando o que se passara um a bobagem que não m erecia m aiores preocupações.

– Pode parecer angustiante no m om ento – disse ela – m as você se com portou extrem am ente bem . Agora acabou, e pode ser que nunca m ais aconteça um encontro desse tipo, portanto, não pense m ais nisso.

Harriet disse “é verdade” e que “não pensaria m ais nisso”, m as continuou falando sobre o assunto... não conseguia falar de outra coisa. Por fim , para tirar os Martins da cabeça dela, Em m a foi obrigada a contar-lhe as notícias de form a apressada, quando pretendia fazê-lo com m uita cautela. Em m a não sabia se devia ficar alegre ou zangada, envergonhada ou divertida diante do estado da pobre Harriet, ao perceber quanto Mr. Elton era pouco im portante para ela!

Aos poucos, porém , Mr. Elton recuperou seus direitos. Apesar de Harriet não sentir a notícia com o teria feito um dia antes, ou m esm o um a hora antes, logo seu interesse cresceu. Antes que term inassem de conversar ela passara por todas as sensações, desde a curiosidade, o espanto, o rem orso, a dor e o prazer, pensando na afortunada Miss Hawkins, que conseguira desbancar os Martins na sua im aginação.