Emma

Jane Austen · Capítulo 11 de 113

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Emma

Capítulo X

Ela afastou essa vontade e partilhou com Harriet a sensação de terno e sublim e prazer.

[1] No original: “The course of true love never did run sm ooth”. Shakespeare em

“Sonho de Um a Noite de Verão”, ato I, cena I.

[2] David Garrick (1717-1779) – teatrólogo, ator, diretor e produtor inglês.

Dedicou sua vida ao teatro e teve grande influência na cultura inglesa nos séculos XVIII e XIX.

CAPÍTULO X

Apesar do m ês de dezem bro j á estar na m etade, o tem po ainda estava bom o suficiente para perm itir às j ovens exercitar-se regularm ente. No dia seguinte Em m a devia fazer um a visita de caridade, para um a pobre fam ília doente que vivia a pouca distância de Highbury.

Seu cam inho para essa cabana um pouco afastada ficava abaixo da alam eda do Vicariato, um a estrada em ângulos retos que levava à larga, porém irregular, rua principal do povoado. E, com o se pode deduzir, era nesse cam inho que se encontrava a abençoada residência de Mr. Elton. Passava-se prim eiro por algum as poucas casas de qualidade inferior, e depois, descendo cerca de quatrocentos m etros pela alam eda, encontrava-se o Vicariato. Era um a casa antiga e não m uito boa, quase tão perto da estrada com o seria possível. Não era um a localização privilegiada, m as fora bastante m elhorada pelo atual ocupante; da m aneira com o agora se encontrava, era im possível para as duas am igas passarem por ali sem dim inuir o passo e observá-la com atenção. O com entário de Em m a foi:

– Aí está, onde você e seu caderno de enigm as vão estar um dia desses.

E o com entário de Harriet:

– Ah, que casa encantadora!... Com o é linda!... Tem cortinas am arelas, daquelas que Miss Nash tanto adm ira.

– Não costum o andar m uito por esse cam inho agora – disse Em m a, enquanto prosseguiam – m as acho que quando houver um m otivo, gradualm ente ficarei conhecendo todas as sebes, portões, laguinhos e árvores desta parte de Highbury.

Em m a descobriu que Harriet nunca havia visto o interior do Vicariato e ardia de curiosidade. Ela só podia classificar a atitude da j ovem , considerando as aparências e probabilidades, com o um a prova de am or; e tam bém de Mr. Elton que via nela um a sagaz inteligência.

– Gostaria que arranj ássem os um a desculpa para entrar – disse ela –

m as não consigo pensar em um pretexto razoável... Nenhum a criada sobre quem eu possa perguntar à governanta dele... Nenhum recado de m eu pai.

Ela ponderou por um m om ento, m as não conseguia pensar em nada.

Depois de alguns m inutos de silêncio m útuo, Harriet falou:

– Me adm ira m uito, Miss Woodhouse, que a senhorita não tenha se casado nem estej a por fazê-lo! Tão encantadora com o é!

Em m a riu e respondeu:

– Meu encanto, Harriet, não é o suficiente para m e induzir a casar; devo achar outras pessoas encantadoras... Pelo m enos um a outra pessoa. E não só não estou para m e casar no m om ento, com o não tenho intenção de um dia vir a fazê-lo.

– Ah! Isso é o que a senhorita diz. Mas não posso acreditar.

– Eu teria que encontrar alguém m uito superior às pessoas que conheço para sentir-m e tentada. Mr. Elton, você sabe (lem brando-se a tem po), está fora de questão, e não consigo ver m ais ninguém igual. Espero não ser tentada, não posso de fato m udar para m elhor, se m e casasse sei que iria m e arrepender.

– Meu Deus! É tão estranho ver um a m ulher falar dessa m aneira!

– Não tenho nenhum dos m otivos que as m ulheres norm alm ente têm para se casar. Se eu m e apaixonasse, é claro, seria outra coisa! Mas nunca m e apaixonei, não é o m eu j eito, não está na m inha natureza, e acho que isso nunca acontecerá. E sem am or eu seria um a tola em m udar m inha situação atual. Não preciso de fortuna, nem ocupação, nem im portância; acho que poucas m ulheres casadas são tão donas de suas casas com o eu sou de Hartfield. E nunca, nunca m esm o, poderia esperar ser tão verdadeiram ente am ada, tão im portante, ser a prim eira e a m ais adm irada aos olhos de um hom em , com o sou aos olhos de m eu pai.

– Mas então a senhorita quer se tornar um a velha solteirona, com o Miss Bates!

– É um a im agem realm ente espantosa essa que você apresenta, Harriet. Se eu achasse que podia m e tornar igual a Miss Bates... Tão tola, tão satisfeita, tão sorridente, tão conversadora, tão insignificante e subserviente com o ela, e tão pronta a falar tudo sobre todo m undo, eu m e casaria am anhã. Mas entre nós duas estou certa de que não haverá nenhum a sem elhança, exceto o fato de serm os solteiras.

– Mas ainda assim seria um a velha solteirona! Isso é tão terrível!

– Não se preocupe, Harriet, j am ais serei um a velha solteirona pobre. E

é a pobreza que torna o celibato desprezível para m uita gente! Um a m ulher solteira, com um a renda ínfim a, é um a ridícula e desagradável solteirona, m otivo de riso para os rapazes e m oças. Um a m ulher solteira de fortuna, no entanto, sem pre será respeitável, e pode ser tão agradável e sensível quanto qualquer outra pessoa. E essa distinção não está tão contra a candura e o bom senso do m undo, com o parece à prim eira vista, pois um a renda insuficiente tem a

tendência de estreitar a m ente e azedar o caráter. Aqueles que m al conseguem sobreviver, e que são forçados a viver em um a sociedade m uito restrita e m uito inferior, podem se tornar intolerantes e m esquinhos. Isso, é claro, não se aplica a Miss Bates, ela é apenas am ável e tola dem ais para o m eu gosto. Mas, de form a geral, ela agrada a m uita gente, ainda que sej a solteira e pobre. A pobreza, com certeza, nunca a tornou m esquinha: acredito que se ela tivesse apenas um xelim no m undo, seria bem capaz de doar a m etade. E ninguém tem m edo dela: isso é um grande encanto.

– Meu Deus! Mas o que a senhorita fará? Com o vai em pregar seu tem po quando ficar m ais velha?

– Se m e conheço bem , Harriet, possuo um a m ente ativa, ocupada e com m uitos recursos independentes; não vej o por que eu teria m enos coisas para m e ocupar aos quarenta ou cinquenta anos do que tenho agora aos vinte e um . As ocupações usuais das m ulheres, com as m ãos ou com a cabeça, estarão à m inha disposição no futuro tanto quanto estão agora, ou ao m enos não serão m uito diferentes. Se eu pintar m enos, posso ler m ais; se desistir da m úsica, posso fazer tapeçaria. E quanto aos obj etos de interesse, ou m esm o de afeição, cuj a falta é o único verdadeiro m al de não ser casada, acredito que sem pre terei os filhos de um a irm ã que adoro, a quem posso m e dedicar. Com toda certeza vai haver bastante deles para suprir qualquer necessidade da idade m adura; haverá afeição suficiente para m anter a esperança e evitar o m edo. Mesm o que o m eu afeto por eles não possa se igualar ao de um a m ãe, satisfaz m ais m inha ideia de tranquilidade do que se fosse m ais caloroso e m ais cego. Meus sobrinhos e sobrinhas! Poderei sem pre ter um a sobrinha com igo.

– A senhorita conhece a sobrinha de Miss Bates? Isto é, sei que deve tê-la visto m il vezes... Mas são am igas?

– Ah, sim ! Som os forçadas a ser am igas sem pre que ela vem a Highbury. Pensando bem , ela é suficiente para dim inuir o conceito em que se tem um a sobrinha. Que Deus m e perdoe! Que eu j am ais aborreça alguém a respeito de todos os Knightley s j untos, quanto Miss Bates faz com Jane Fairfax.

Chego a ficar enj oada só de ouvir o nom e Jane Fairfax. As cartas dela são lidas pelo m enos quarenta vezes; seus cum prim entos aos am igos são transm itidos e retransm itidos de novo; e se ela m anda para a tia o m odelo de algum colete, ou tricota um par de ligas para a avó, não se ouve falar de outra coisa durante um m ês. Desej o todo o bem a ela, m as ela m e cansa m ortalm ente.

Estavam chegando à cabana, e os assuntos triviais foram deixados de lado. Em m a era m uito com passiva, e aliviava os sofrim entos dos pobres com toda sua atenção e bondade, seus conselhos e paciência, assim com o com sua

bolsa. Ela entendia suas atitudes, aceitava sua ignorância e tentações e não tinha expectativas rom ânticas de extraordinária virtude a respeito de pessoas tão desfavorecidas pela educação. Procurava saber de seus problem as com pronta sim patia, e sem pre lhes prestava aj uda com boa vontade e inteligência. Naquele m om ento visitava a pobreza e a doença j untas, e ficou ali tem po suficiente para dar-lhes conforto e conselhos. Quando saiu, sua im pressão era tão profunda que a fez dizer para Harriet, enquanto cam inhavam :

– Esta é a visão que tem os, Harriet, quando fazem os o bem ao próxim o.

Perto deles todas as coisas parecem tão fúteis! Sinto agora com o se não pudesse deixar de pensar nessas pobres criaturas durante o resto do dia. Quem poderá dizer quando tudo isso desaparecerá da m inha m ente?

– É verdade – disse Harriet. – Pobres criaturas! Não se pode pensar em outra coisa.

– Realm ente, acho que não vou esquecer tão cedo – disse Em m a, enquanto cruzava a sebe baixa, e percorria com passos cam baleantes o estreito e deslizante cam inho que levava do terreno da cabana até a alam eda. – Acho que não vou m esm o – e parou para olhar de novo e lem brar toda a infelicidade daquele lugar, que era ainda m aior no seu interior.

– Oh, m eu Deus! Não! – disse a sua com panheira.

Elas retom aram o cam inho. A alam eda fazia um a curva, e quando a curva term inou im ediatam ente viram Mr. Elton, tão perto que Em m a m al teve tem po de dizer a Harriet:

– Ah, Harriet, aí vem um desafio inesperado para a estabilidade dos nossos bons pensam entos. Bem (sorrindo), pelo m enos espero que sej a aceitável que, se a com paixão e o em penho trouxeram alívio para os sofredores, j á fizeram tudo o que era im portante de verdade. Se tiverm os bondade suficiente para fazer o que puderm os por esses infelizes, o resto é apenas sim patia sem sentido, só estarem os nos afligindo.

– Oh, sim , é claro!

Isso foi tudo o que Harriet conseguiu responder antes que o cavalheiro se j untasse a elas. As necessidades e sofrim entos da pobre fam ília, no entanto, foram o prim eiro assunto de sua conversa. Ele estava vindo visitá-los, m as agora sua visita poderia ser postergada. Tiveram um a interessante conversa sobre o que poderia e deveria ser feito pela fam ília. Mr. Elton então resolveu retornar para acom panhá-las.

“Encontrarem um ao outro em um a m issão desse tipo – pensava

Em m a – um a visita de caridade, com certeza vai aum entar o am or de am bos.

Não sei se ele não está a ponto de se declarar. Se eu não estivesse aqui, acho que o faria. Com o gostaria de estar em outro lugar”.

Ansiosa para afastar-se tanto quanto pudesse, ela logo enveredou por um estreito cam inho, um pouco acim a da lateral da rua, e os deixou sozinhos na alam eda principal. Mas não estava ali há dois m inutos quando viu que Harriet a seguia, obedecendo aos seus hábitos de dependência e im itação, e logo os dois estavam bem próxim os dela. Isso não podia acontecer. Ela então parou, e pretextando am arrar o laço de sua botina, abaixou-se ocupando toda a largura da estradinha e pediu-lhes que seguissem em frente, ela os alcançaria em m eio m inuto. Eles fizeram o que fora pedido, e depois de esperar pelo tem po que achou razoável para am arrar a botina, viu nova oportunidade para atrasar-se.

Um a criança da cabana, que saíra com um a vasilha de barro, a pedido dela, para buscar um pouco de sopa em Hartfield, apareceu na estrada, e Em m a se dispôs a tom ar conta dela. Cam inhar ao lado da criança, falar com ela e questioná-la era a coisa m ais natural do m undo, ou seria a coisa m ais natural se ela estivesse agindo sem intenção. Assim , os dois podiam seguir na frente, sem ter que esperá-la. Ela os alcançou, no entanto, sem querer, pois o passo da criança era m uito rápido e o deles m uito lento. Em m a ficou consternada por interrom pê-los em um a conversa que parecia ser de m útuo interesse; Mr. Elton falava com anim ação e Harriet escutava atentam ente. Em m a, tendo despachado a criança, estava pensando se devia atrasar-se um pouco m ais, quando os dois olharam ao redor e ela foi obrigada a j untar-se a eles.

Mr. Elton ainda estava falando, entusiasm ado com algum detalhe interessante. Em m a desapontou-se quando percebeu que ele apenas fazia um m inucioso relato à sua bela com panheira da festa na casa de seu am igo Cole, ocorrida na véspera; e que ela deveria estar lá para provar o queij o Stilton, a m anteiga, o aipo, a beterraba, e todas as sobrem esas.

“Esse assunto com certeza vai levar a algo m elhor” – pensava Em m a, consolando-se. – “Afinal, todos os assuntos são interessantes para aqueles que se am am , e além do m ais pode servir de introdução para os assuntos do coração. Se ao m enos eu tivesse m e afastado por m ais tem po!”

Continuaram andando j untos, em silêncio, quando avistaram o Vicariato ao longe. Em m a lem brou-se então de sua intenção de fazer Harriet entrar na casa, e logo voltou a encontrar algum a coisa m uito errada com sua botina, que m ais um a vez obrigou-a a ficar para trás. Desta vez arrebentou o cordão, e atirando-o em um a valeta com grande destreza, foi obrigada a pedir-lhes que parassem , e reconhecer que não podia consertar a botina m uito m enos andar até em casa.

– O cordão arrebentou – disse ela – e não sei com o vou fazer. Sou um a com panheira m uito desaj eitada, m as espero nem sem pre ficar em tão m ás condições. Mr. Elton, sou obrigada a pedir-lhe para parar em sua casa e pedir à sua governanta algum pedaço de cordão, fita ou qualquer outra coisa para am arrar m inha botina.

Mr. Elton parecia a felicidade em pessoa ao ouvir a proposta, e conduziu-as até a casa com toda atenção e cuidado, esforçando-se por causar-lhes um a im pressão favorável. A sala em que entraram , localizada na frente, era o lugar onde ele passava a m aior parte do tem po, e com unicava-se por um a porta com outra sala na parte posterior. Em m a passou pela porta entreaberta j unto com a governanta, para que esta a auxiliasse de m odo m ais confortável. Foi obrigada a deixar a porta entreaberta com o estava, m as esperava que Mr. Elton tom asse a iniciativa de fechá-la. Com o ele não a fechou, Em m a em penhou-se em conversar com a governanta, esperando que ele aproveitasse a oportunidade de ficar a sós com Harriet para entrar no assunto de seu interesse. Por dez m inutos, no entanto, não ouviu nenhum som que não fosse a própria voz. Não era m ais possível protelar e ela foi obrigada a voltar para a sala da frente.