Emma

Jane Austen · Capítulo 37 de 113

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Emma

Capítulo XVII

– Ah! Mas quando um j ovem galante com o Mr. Frank Churchill – disse secam ente Mr. Knightley – escreve para um a linda m oça com o Miss Woodhouse, ele certam ente dará o m elhor de si.

O j antar foi servido. Mrs. Elton estava pronta antes de ser cham ada a falar; e antes que Mr. Woodhouse pudesse chegar j unto dela e oferecer seu braço para conduzi-la até a sala de j antar, j á estava dizendo:

– Devo ir à frente? Fico tão envergonhada de ser sem pre a prim eira!

A preocupação de Jane em buscar suas próprias cartas não escapou à Em m a. Ela vira e ouvira tudo, e tinha algum a curiosidade em saber se a cam inhada na chuva daquela m anhã rendera algum a carta. Ela achava que sim, que ela não teria ido ao correio tão resolutam ente se não fosse para ter notícias de alguém m uito querido, e que isso não fora em vão. Achava que Jane Fairfax ostentava um ar de alegria m aior do que o norm al, um brilho que tanto em anava do espírito quanto do sem blante.

Ela poderia fazer um a pergunta ou duas, a respeito da expedição ou do custo de um a carta para a Irlanda. Estava na ponta da língua... m as Em m a se conteve. Estava disposta a não dizer um a palavra que pudesse ferir os sentim entos de Jane Fairfax. E as duas j ovens seguiram as dem ais dam as para a outra sala, de braços dados, com um a aparência de boa vontade que aum entava significativam ente a beleza e a graça de cada um a.

CAPÍTULO XVII

Quando as dam as retornaram à sala de estar, após o j antar, Em m a descobriu que dificilm ente poderia im pedir que form assem dois grupos distintos.

Com enorm e perseverança em j ulgar e com portar-se m al, Mrs. Elton j untou-se à Jane Fairfax e desprezou a com panhia de Em m a. Ela e Mrs. Weston eram quase sem pre obrigadas a conversar entre si ou a ficar caladas. Mrs. Elton não lhes deu outra chance. Se Jane a continha por algum tem po, ela logo recom eçava a falar. Em bora falassem através de sussurros, especialm ente Mrs. Elton, não havia com o evitar ouvir seus principais assuntos: o correio, pegar um resfriado, buscar cartas e am izade, tem as longam ente discutidos. A isso se seguiu outro assunto, que devia ser desagradável pelo m enos para Jane: perguntas sobre se ela j á soubera de algum a colocação que lhe fosse conveniente, e declarações de Mrs. Elton de que estava m editando sobre o assunto.

– Já estam os quase em abril! – ela disse. – Estou m uito preocupada com você, logo estarem os em j unho.

– Mas eu não m e fixei em j unho ou qualquer outro m ês, falei apenas no verão de m odo geral.

– Mas realm ente não soube de nada?

– Eu, na verdade, nem sequer procurei; não desej o fazer isso agora.

– Oh, m inha querida, nunca é cedo para com eçar. Você não tem ideia da dificuldade de encontrar exatam ente o que se desej a.

– Não tenho ideia? – disse Jane, sacudindo a cabeça. – Cara Mrs. Elton, quem pensa nisso m ais do que eu?

– Mas você não viu tanto do m undo quanto eu. Não sabe quantos candidatos existem sem pre para as melhores colocações. Vi m uito disso nos arredores de Maple Grove. Um a prim a de Mr. Suckling, Mrs. Bragge, tinha um a infinidade de solicitações, todos queriam trabalhar para a fam ília dela, pois pertencia ao círculo m ais elevado da sociedade. Velas de cera na sala de estudos!

Pode im aginar com o era agradável! De todas as casas do país, a casa de Mrs.

Bragge é a única na qual eu gostaria de vê-la.

– O coronel e Mrs. Cam pbell devem retornar à cidade pela m etade do verão – disse Jane. – Devo ficar algum tem po com eles, sei que desej am isso.

Depois disso é provável que fique feliz em dispor de m im m esm a. Mas eu não gostaria que a senhora se desse ao trabalho de procurar algum a coisa no m om ento.

– Trabalho! Bem , conheço seus escrúpulos. Está com m edo de m e causar preocupações. Mas lhe asseguro, m inha querida Jane, que os Cam pbells dificilm ente poderiam estar m ais interessados em você do que eu. Escreverei a Mrs. Partridge em um ou dois dias, e vou dar-lhe a estrita incum bência de procurar por algum a colocação adequada.

– Obrigada, m as preferia que a senhora não m encionasse o assunto para ela. Enquanto não chegar o m om ento, não desej o causar problem as a ninguém .

– Mas, m inha querida criança, o tem po está passando. Estam os quase em abril, logo estarem os em j unho, ou m esm o j ulho, e tem os tanto trabalho a realizar. Sua inexperiência realm ente m e surpreende! Um a colocação com o você m erece, e na qual seus am igos desej ariam vê-la, não é um a coisa que acontece todos os dias. Devem os com eçar a procurar im ediatam ente, na verdade!

– Perdoe-m e, m adam e, m as essa não é m inha intenção, absolutam ente. Eu m esm a não procurei ainda, e lam entaria se m eus am igos o fizessem . Quando eu m e decidir a respeito da época apropriada, não tenho m edo algum de ficar desem pregada. Na cidade existem lugares, escritórios, onde um a busca logo traria resultados... Escritórios para a venda, não de carne hum ana, m as sim de intelectos hum anos.

– Oh, m inha querida, carne hum ana! Você m e choca, realm ente; se estiver se referindo ao com ércio de escravos, asseguro-lhe que Mr. Suckling sem pre foi um am igo da abolição.

– Não m e refiro a isso, não falei do com ércio de escravos – respondeu Jane. – Com ércio de governantas era o que eu tinha em m ente. É bastante diferente, com certeza, no que se refere à culpa daqueles que o realizam , m as para a grande m iséria das vítim as, não sei o que fere m ais. Eu queria dizer apenas que existem escritórios de anúncios, e se eu m e inscrever em um deles, não tenho dúvidas de logo em seguida encontrar algum a coisa que m e sirva.

– Algum a coisa que lhe sirva! – repetiu Mrs. Elton. – Isso deve satisfazer sua hum ilde ideia a respeito de si m esm a. Sei o quanto você é m odesta, m as suas am igas não ficarão satisfeitas de vê-la aceitar qualquer em prego que lhe sej a oferecido, algum a situação com um e inferior, em um a fam ília que não pertença aos altos círculos, ou que não sej a capaz de viver com os refinam entos da vida.

– A senhora é m uito am ável, m as sou indiferente a tudo isso. Não faço questão de viver entre os ricos, pois acho que m inha m ortificação seria m aior, eu

sofreria m ais com a com paração. A fam ília de um cavalheiro é tudo que desej o.

– Eu a conheço, eu a conheço! Você ficaria contente com qualquer coisa. Mas eu serei um pouco m ais am ável e tenho certeza de que os bons Cam pbells estarão do m eu lado. Com seu talento superior você tem direito a m over-se na alta roda. Seu conhecim ento m usical, sozinho, lhe dá o direito de ditar seus próprios term os, ter à disposição as acom odações que desej ar, e participar da vida da fam ília tanto quanto queira. Isto é, eu não sei... se você souber tocar harpa tam bém , tem direito a tudo isso, tenho certeza. Mas você canta tão bem quanto toca. Eu realm ente acho que, m esm o sem tocar harpa, pode estipular suas condições. E você deverá estar deliciosa, honrada e confortavelm ente instalada antes que os Cam pbells e eu tenham os algum descanso.

– A senhora pode colocar a delícia, a honra e o conforto de um a situação com o essa sem pre j untos – disse Jane – eles certam ente se equivalem .

No entanto, falo seriam ente quando digo que não desej o que nada sej a feito no m om ento. Sou extrem am ente grata à senhora, Mrs. Elton, sou grata a todos que sentem algo por m im , m as estou seriam ente decidida a não querer que nada sej a feito até o verão. Por m ais dois ou três m eses eu pretendo continuar onde estou e da form a que estou.

– E eu tam bém falo sério, posso lhe garantir – disse Mrs. Elton, brincando – quando digo que estarei sem pre buscando algum a coisa, e em pregarei m eus am igos para fazer o m esm o, de m odo que nada realm ente excepcional nos escape.

E ela continuou nesse estilo, sem nada que a fizesse parar, até que Mr.

Woodhouse entrou na sala. A vaidade dela então m udou de obj eto, e Em m a a ouviu dizer para Jane, no m esm o tom de sussurro:

– Aí vem este velho e querido adm irador m eu, posso afirm ar! Pense só na galanteria dele em vir antes dos outros hom ens! Que criatura adorável ele é!

Asseguro-lhe que gosto dele excessivam ente. Adm iro toda essa pitoresca polidez à m oda antiga, é m uito m ais ao m eu gosto do que os costum es m odernos, que às vezes m e desagradam . Mas este bom e velho Mr. Woodhouse gostaria que ouvisse o m odo galante com que se dirigiu a m im durante o j antar. Oh!

Asseguro-lhe que com ecei a pensar que m eu caro sposo ficaria absolutam ente encium ado. Im agino que eu sej a sua favorita, pois ele notou o m eu vestido. O

que acha dele? Foi escolha de Selina, é bonito, eu acho, m as não sei se não é enfeitado dem ais. Detesto a ideia de parecer enfeitada dem ais... tenho horror de enfeites. Preciso usar alguns ornam entos agora, porque é o que se espera de m im . Um a noiva, você sabe, deve parecer um a noiva, m as m eu gosto natural é

m ais para a sim plicidade. Um estilo sim ples de vestir é tão preferível aos enfeites! Mas estou em m inoria, poucas pessoas parecem valorizar a sim plicidade no vestir, ostentação e requinte é que são im portantes. Pensei em colocar algum enfeite igual a este no m eu vestido branco e prata de popelina.

Acha que ficará bem ?

O grupo inteiro m al voltara a se reunir na sala de estar, quando Mr.

Weston chegou finalm ente. Ele voltara para j antar em casa e, logo que term inou, cam inhou até Hartfield. Não se esperava que fosse um a surpresa, m as houve grande alegria. Mr. Woodhouse estava tão contente de vê-lo agora quanto teria lam entado se o visse chegar antes. Apenas John Knightley estava m udo de espanto... um hom em que podia passar a noite tranquilam ente em casa, depois de um dia de negócios em Londres, se dignava a sair novam ente e cam inhar oitocentos m etros até a casa de outro hom em , apenas pelo prazer da com panhia de um grupo de pessoas até a hora de dorm ir. Que esse hom em passasse o final de seu dia em dem onstrações de civilidade entre o barulho dos convidados, era um a circunstância que o im pressionava profundam ente. Um hom em que estava em m ovim ento desde as oito horas da m anhã, e podia agora estar parado, que passara o dia inteiro falando e podia estar calado, que estivera em m ais de um a m ultidão e podia estar sozinho! Um hom em que deixara a tranquilidade e independência de sua própria lareira e que, na noite de um gelado dia de abril, correra para m isturar-se de novo ao m undo! Se ele pudesse, com um toque de seus dedos, levar a esposa de volta im ediatam ente, então haveria um m otivo.

Mas sua chegada provavelm ente prolongaria a festa, ao invés de encerrá-la. John Knightley olhava para ele com espanto, então deu de om bros e pensou “eu nunca acreditaria nisso, m esm o vindo dele”.

Enquanto isso Mr. Weston, sem nem suspeitar da indignação que causava, alegre e feliz com o sem pre – e com todo o direito de ser o principal a falar, pois passara o dia longe de casa – estava ficando à vontade na com panhia dos dem ais. E tendo respondido às perguntas de sua esposa quanto ao j antar, convencendo-a de que nenhum a das suas cuidadosas instruções aos criados fora esquecida, contou aos outros as novidades que ouvira, e com eçou um a com unicação fam iliar. Em bora principalm ente dirigida a Mrs. Weston, não havia a m enor dúvida que interessaria a todos os presentes na sala. Ele lhe entregou um a carta de Frank endereçada a ela, que pegara no cam inho e tom ara a liberdade de abrir.

– Leia, leia – ele dizia – vai lhe dar prazer. São só algum as linhas, não vai dem orar, leia a carta para Em m a.

As duas dam as leram a carta j untas. Ele sentou-se com elas, sorrindo e falando o tem po todo, em um a voz um tanto baixa, m as bastante audível para

todos.

– Bem , ele está vindo, com o pode ver. São boas notícias, creio. O que acha disso? Sem pre lhe disse que ele voltaria logo, não disse? Anne, m inha querida, não lhe falei sem pre isso e você não m e acreditou? Chegará à cidade na sem ana que vem , no m áxim o, eu acredito. Pois ela é tão im paciente quanto o cavaleiro negro, quando é preciso fazer algum a coisa. É m ais provável que estej am aqui am anhã ou sábado. Quanto à doença dela, não foi nada, é claro.

Mas é m uito bom ter Frank de novo entre nós, na cidade, aqui tão perto. Quando vierem vão ficar um a boa tem porada e ele passará a m etade desse tem po conosco. É precisam ente o que desej o. Bem , as notícias são ótim as, não acha? Já term inou de ler? Guarde, guarde a carta, vam os falar sobre isso com calm a, depois, m as não agora. Apenas queria com unicar a notícia aos outros de form a geral.