Emma
Capítulo III
Ela hesitou por um m om ento, e então disse:
– Com o senhor, se tiver a bondade de m e convidar.
– Você gostaria? – disse ele, estendendo-lhe a m ão.
– Gostaria m uito. O senhor m ostrou que dança m uito bem , e sabe que não som os realm ente irm ão e irm ã para tornar isso im próprio.
– Irm ão e irm ã! Não, realm ente.
CAPÍTULO III
Essa pequena conversa com Mr. Knightley deu a Em m a considerável prazer. Era um a das agradáveis recordações que ela tinha do baile, enquanto passeava pelo j ardim na m anhã seguinte. Ficara feliz de que tivessem chegado a tão bom entendim ento a respeito dos Eltons, e que as opiniões deles sobre m arido e m ulher fossem tão parecidas. E seu elogio a Harriet, sua concessão em favor dela, foi especialm ente gratificante para Em m a. A im pertinência dos Eltons, que por alguns m inutos am eaçou arruinar o restante da noite, revelou-se a causadora de um a das suas m aiores satisfações. Ela olhava para o futuro na esperança de outro resultado feliz: a cura da paixão de Harriet. Pela m aneira com o a am iga falou da circunstância antes que deixassem o salão de baile, Em m a tinha grandes esperanças. Foi com o se os seus olhos de repente se abrissem , e ela fosse capaz de ver que Mr. Elton não era a criatura superior que ela acreditava. A febre passara, e Em m a não tinha m ais m edo que seu pulso fosse acelerado novam ente por cortesias inj uriosas. Ela contava com os m aldosos sentim entos dos Eltons para suprir-lhe toda a disciplina necessária a fim de tratá-los com a m ais contundente indiferença dali em diante. Com Harriet racional outra vez, Frank Churchill m enos apaixonado, e Mr. Knightley evitando discutir com ela, que verão feliz teria pela frente!
Ela não deveria encontrar Frank Churchill naquela m anhã. Ele dissera que não poderia perm itir-se o prazer de passar em Hartfield, pois deveria estar em casa ao m eio-dia. Em m a não lam entou.
Depois de ter pensado, analisado e colocado em ordem todos esses assuntos, Em m a estava j ustam ente voltando para a casa com o espírito renovado, pronta para atender as dem andas dos dois pequenos sobrinhos e do avô deles, quando o im enso portão de ferro abriu-se e duas pessoas entraram . Ela nunca im aginara ver essas duas pessoas j untas: Frank Churchill de braço dado com Harriet. Harriet!... Bastou um m om ento para convencê-la que algo de extraordinário havia ocorrido. Harriet parecia pálida e assustada, e ele tentava acalm á-la... Os portões de ferro não distavam m ais que vinte m etros da porta da casa, e logo os três se encontravam no vestíbulo. Harriet afundou em um a cadeira e desm aiou.
Um a j ovem dam a que desm aia deve ser socorrida. Perguntas devem ser feitas e respondidas, e surpresas explicadas. Esses eventos são m uito interessantes, m as o suspense não pode se prolongar m uito. Poucos m inutos foram suficientes para que Em m a ficasse a par de tudo.
Miss Sm ith e Miss Bickerton, outra pensionista de Mrs. Goddard e que
tam bém estivera no baile, saíram para passear e pegaram um a estrada, a estrada de Richm ond, que em bora fosse m ovim entada o suficiente para ser segura, levou-as a um a situação de alarm e. A cerca de oitocentos m etros além de Highbury, quando a estrada fazia um a curva repentina, e era profundam ente som breada por duas fileiras de olm os, um a de cada lado, o lugar tornava-se bastante erm o. Quando as j ovens avançaram um pouco por esse trecho, subitam ente perceberam um grupo de ciganos, a pouca distância, em um a área aberta ao lado da estrada. Um a criança que estava de vigia veio até elas para pedir algum a coisa. Miss Bickerton, m uito assustada, deu um grito alto e, dizendo a Harriet que a seguisse, subiu em um barranco íngrem e, pulou um a pequena sebe lá no alto e correu de volta à Highbury por um atalho. Mas a pobre Harriet não pôde segui-la. Tivera m uitas cãibras depois de dançar, e sua prim eira tentativa de subir o barranco trouxe as cãibras de volta e deixou-a com pletam ente sem ação. Nesse estado, e totalm ente apavorada, ela foi obrigada a ficar.
Não se pode saber com o os vadios teriam se com portado, caso as m oças tivessem sido m ais coraj osas, m as tal oportunidade para atacar não podia ser desperdiçada. Harriet foi logo cercada por m eia dúzia de crianças, lideradas por um a m ulher corpulenta e um garoto m aior; todos m uito barulhentos e olhando de m odo im pertinente, m as sem pronunciar palavra. Cada vez m ais apavorada, Harriet im ediatam ente lhes prom eteu dinheiro, e pegando da bolsa deu-lhes um xelim , suplicando que não lhe pedissem m ais e não lhe fizessem m al. Só então ela foi capaz de cam inhar, em bora devagar, e conseguiu se afastar um pouco. Seu terror e sua bolsa, porém , eram tentadores dem ais e ela foi seguida, ou m elhor, cercada pela gangue inteira, que exigia m ais.
Frank Churchill encontrou-a nesse estado, trem endo e aterrorizada, cercada pelo bando barulhento e insolente. Por um acaso do destino a partida dele de Highbury fora retardada, e perm itiu-lhe prestar assistência à j ovem naquele m om ento crítico. A beleza da m anhã o induzira a cam inhar, e com binara que seus cavalos deviam esperá-lo um pouco m ais adiante na estrada, a dois ou três quilôm etros de Highbury. Com o havia pegado um a tesoura em prestada de Miss Bates na noite anterior, fora até sua casa na intenção de devolvê-la, e vira-se obrigado a entrar por alguns m inutos; por isso atrasou-se e, estando a pé, não foi visto pelo bando até que estivesse bem próxim o. O terror que a m ulher e o rapaz haviam provocado em Harriet foi o m esm o que o cavalheiro provocou neles. Deixou-os com pletam ente apavorados, e Harriet ansiosam ente agarrou-se a ele, m al podendo falar; teve força apenas para chegar até Hartfield, antes que seu espírito se recobrasse. Fora ideia dele vir a Hartfield, não conseguiu pensar em nenhum outro lugar.
Esta era a história inteira, contada por ele e depois por Harriet, assim que recobrou os sentidos e a voz. Ele só podia ficar o tem po suficiente para vê-la recuperada, os sucessivos atrasos não lhe perm itiam perder nem m ais um m inuto. Em m a com prom eteu-se a m andar notícias a Mrs. Goddard, inform ando que Harriet estava bem , e tam bém avisar a Mr. Knightley sobre a presença daquela gente na vizinhança. Ele então partiu, após receber todos os agradecim entos que ela pôde fazer por si própria e pela am iga.
Um a aventura com o esta, um belo j ovem cavalheiro e um a linda j ovem dam a, reunidos de tal form a, não podia deixar de dar certas ideias nem ao m ais frio dos corações nem ao m ais inflexível dos cérebros. Pelo m enos foi o que Em m a pensou. Poderia um linguista, um gram ático, ou até m esm o um m atem ático ter visto o que ela vira, testem unhado a chegada dos dois j untos e ouvido sua história, sem sentir que as circunstâncias haviam conspirado para torná-los especialm ente interessantes um para o outro? E um a m ente im aginativa com o a dela, com m uito m ais razão arderia no fogo de especulações e previsões!
Ainda m ais com o terreno preparado pelas ideias sobre o assunto que j á lhe haviam passado pela m ente.
Era um a coisa extraordinária! Nunca ocorrera nada desse tipo com nenhum a j ovem dam a do lugar, tanto quanto se sabia; nenhum encontro, nenhum alarm e parecido. E agora acontecia com um a determ inada pessoa, na hora exata em que outra determ inada pessoa estava passando por acaso para socorrê-la!
Era realm ente extraordinário! E conhecendo, com o ela conhecia, o estado de espírito favorável de cada um nessa ocasião, era ainda m ais im pressionante. Ele estava tentando m elhorar seu relacionam ento com ela, Harriet m al estava recuperada de sua obsessão por Mr. Elton. A reunião dessas duas coisas parecia prom eter os m ais interessantes resultados. Não era possível que tal ocorrência não os levasse a se interessar fortem ente um pelo outro.
Nos poucos m inutos em que Em m a pôde conversar com ele, enquanto Harriet ainda estava parcialm ente consciente, Frank Churchill falou com encantadora e deliciosa sensibilidade sobre o terror de Harriet, sua ingenuidade e seu desespero quando se agarrou ao braço dele. E depois que Harriet deu sua própria versão, ele expressou indignação pelo abom inável com portam ento de Miss Bickerton nos m ais calorosos term os. No entanto, tudo deveria seguir seu curso natural, sem que fosse im pelido ou conduzido. Ela não iria m exer um dedo, nem fazer qualquer insinuação. Não, j á interferira dem ais. Mas não poderia haver m al em um esquem a, um sim ples esquem a passivo. Na verdade, não era m ais que um desej o. Não iria além disso, em hipótese algum a.
A prim eira decisão de Em m a foi im pedir que o pai tom asse conhecim ento do que acontecera, sabendo a ansiedade e o alarm e que isso lhe provocaria. Mas logo sentiu que seria im possível esconder a situação, pois depois
de m eia hora o fato j á era conhecido de toda Highbury. Era o tipo de acontecim ento que interessava aos que m ais apreciavam falatórios: os j ovens e os criados. E toda a j uventude e a criadagem de Highbury logo estavam gozando a felicidade dessas excitantes notícias. O baile da noite passada foi esquecido por causa dos ciganos. O pobre Mr. Woodhouse trem eu sentado em sua poltrona e, com o Em m a previra, não ficou satisfeito enquanto elas não prom etessem que não iriam até o bosque novam ente. O cavalheiro ficou um pouco confortado pelo fato de terem feito m uitas perguntas a ele e Miss Woodhouse, assim com o a Miss Sm ith, durante o resto do dia (seus vizinhos sabiam que ele adorava responder perguntas). Teve o prazer de responder que todos estavam indiferentes, o que Em m a perm itiu, em bora não fosse exatam ente a verdade, j á que ela estava m uito bem e Harriet apenas um pouco m enos. Em m a possuía um infeliz estado de saúde para a filha de alguém com o Mr. Woodhouse, pois raram ente sentia algum a indisposição. E se ele não inventasse doenças para ela, Em m a j am ais poderia fazer boa figura nas suas interessantes conversas.