Emma
Capítulo IV
Em m a acabou por ficar feliz que tivesse ocorrido esse encontro, pois atenuou o prim eiro choque sem deixar nenhum a influência digna de alarm e. Da m aneira que Harriet vivia agora, os Martins não poderiam m ais ter acesso a ela sem que fossem procurá-la, o que não teriam nem a coragem nem a com placência de fazer. Desde que ela recusara a proposta do irm ão as j ovens Martin nunca m ais foram à casa de Mrs. Goddard, e podia se passar um ano sem que voltassem a se encontrar, não havendo nenhum a necessidade ou possibilidade de conversarem .
[1] Muffins são pequenos bolinhos doces redondos, típicos da Inglaterra.
[2] Citação da Bíblia, Salm o 16:6.
CAPÍTULO IV
A natureza hum ana é tão indulgente com aqueles que se encontram em situações interessantes que um j ovem , quer venha a se casar ou m orrer, com certeza será elogiado nas conversas de todos.
Não se passou um a sem ana desde que o nom e de Miss Hawkins fora m encionado pela prim eira vez em Highbury antes que se descobrisse, de um a form a ou de outra, que ela possuía as m ais altas recom endações, tanto de aparência quanto de caráter. Ela seria bonita, elegante, m uito bem educada e perfeitam ente am ável, e quando Mr. Elton finalm ente voltou para concretizar em triunfo seus felizes planos e fazer circular a fam a dos m éritos de sua futura esposa, havia m uito pouco a fazer, além de revelar seu nom e de batism o e que tipo de m úsica, principalm ente, ela tocava.
Mr. Elton retornou com o um hom em m uito feliz. Partira rej eitado e m ortificado, desapontado na sua otim ista esperança, após um a serie de coisas que lhe pareceram decididos encoraj am entos. Não apenas perdera a m oça certa com o se vira rebaixado ao nível da m oça errada. Partira profundam ente ofendido, e voltara noivo de outra, e outra tão superior, é claro, à prim eira, e sob tais circunstâncias que ganhara tudo que antes havia perdido. Voltara alegre e satisfeito consigo m esm o, anim ado e cheio de planos, não ligando para Miss Woodhouse e desdenhando Miss Sm ith.
A encantadora Augusta Hawkins, alem das óbvias vantagens da beleza perfeita e dos m éritos pessoais, estava de posse de um a fortuna independente de vários m ilhares de libras, que se estim ava em torno de dez m il. Um ponto para a dignidade de Mr. Elton, assim com o para sua conveniência, com o a história contava: ele não fora prej udicado, pois havia ganhado um a esposa de dez m il libras ou m ais. E a conquistara com deliciosa facilidade, pois depois da prim eira hora que se seguira à apresentação logo surgiu um distinguido interesse. A história que ele contara à Mrs. Cole sobre o início e o progresso do nam oro foi tão gloriosa... os passos tão rápidos, desde o encontro acidental no j antar de Mrs.
Green, a festa na casa de Mrs. Brown... sorrisos e rubores crescendo em im portância... consciência e agitação ricam ente dispersas. A m oça im pressionada com tanta facilidade, tão suavem ente disposta e - para usar um a frase m ais usual – tão disposta a aceitá-lo, que a vaidade e a prudência foram igualm ente contentadas.
Ele conquistara tanto riqueza quanto segurança, fortuna e afeição, e tornara-se o hom em feliz que devia ser. Falava apenas de si m esm o e de seus próprios interesses – esperando congratulações, pronto para rir de tudo – e agora
se dirigia com cordiais e destem idos sorrisos a todas as j ovens do lugar, com quem , algum as sem anas atrás, teria sido m ais cautelosam ente galante.
O casam ento devia se realizar logo, pois os noivos só tinham a si m esm os para dar satisfações, e não precisavam esperar nada além dos trâm ites necessários. E quando ele partiu de novo para Bath houve um a expectativa geral, que certo olhar de Mrs. Cole não contradizia, de que, quando voltasse, iria trazer consigo a esposa.
Durante esta curta estada Em m a quase não o viu. Sentiu apenas alívio após o prim eiro encontro, e ele lhe deixara a im pressão de não ter m elhorado nada com a m istura de ressentim ento e pretensão, que agora tom ava conta de toda a sua pessoa. Ela com eçou, na verdade, a se questionar se algum a vez realm ente o achara agradável. E a visão dele estava tão ligada a sentim entos ruins que ela ficaria agradecida se nunca m ais precisasse vê-lo, exceto com o um a circunstância m oral, com o um castigo, um a lição, um a fonte de apropriada penitência para sua própria presunção. Desej ava-lhe todo o bem , m as ele lhe trouxera dor e ficaria bastante satisfeita se a riqueza desse cavalheiro fosse localizar-se a trinta quilôm etros de distância.
A m ágoa causada pela sua residência perm anente em Highbury, no entanto, certam ente seria dim inuída pelo casam ento. Muitas gentilezas inúteis seriam evitadas e m uitos constrangim entos suavizados por essa circunstância. A presença de um a Mrs. Elton seria m otivo para um a m udança de tratam ento entre eles, e a antiga intim idade poderia ser esquecida sem que se notasse. Seria quase com o com eçar um novo e educado relacionam ento social.
Quanto à Miss Hawkins em si, Em m a não pensava m uito nela. Ela era boa o suficiente para Mr. Elton, não havia dúvida; perfeita o suficiente para Highbury... e com certeza bonita o suficiente para parecer um a beleza com um ao lado de Harriet. Quanto a algum contato Em m a estava tranquila, persuadida de que após suas arrogantes afirm ações e do desdém por Harriet, ele nada m ais faria. Nesse aspecto, era possível descobrir a verdade. O que ela era não se sabia, m as quem ela era podia ser descoberto, e fora as dez m il libras não parecia superior a Harriet em nenhum aspecto. Miss Hawkins não tinha nom e, nem sangue, nem alianças favoráveis, era apenas a m ais nova das duas filhas de um com erciante de Bristol, por assim dizer. Os lucros do seu negócio pareciam ter sido tão m oderados que se podia supor que sua linha de negócios tam bém fosse m odesta. Ela costum ava passar parte do inverno em Bath, m as Bristol era o seu lar, o próprio coração de Bristol. Tanto o pai quanto a m ãe haviam m orrido anos atrás, e restara um tio, na linha direta de sucessão. Nada era possível dizer nada m ais honorável sobre ele, a não ser que era um parente direto e a filha vivia com ele. Em m a o im aginava com o o burro de carga de algum advogado, m uito
estúpido para subir na profissão. Toda a grandeza da ligação parecia depender da irm ã m ais velha, que era muito bem casada, com um cavalheiro de grande projeção, m orava perto de Bristol e possuía duas carruagens. Este era o fim da história, esta era a glória de Miss Hawkins.
Se ao m enos Em m a pudesse falar a Harriet do que sentia sobre tudo isso! Ela a tinha levado ao am or, m as, quem dera, não era fácil desviá-la dele.
Depois que algum a coisa ocupava os pontos vazios da cabeça de Harriet, não havia com o tirá-la de lá. Mr. Elton devia ser substituído por outro. E ele certam ente seria, isso era claro, até um Robert Martin serviria para isso. Mas nada m ais seria capaz de curá-la, Em m a tem ia. Harriet era do tipo que, um a vez que se apaixonasse, am aria para sem pre. E agora, pobrezinha, ficara pior com o reaparecim ento de Mr. Elton. Ela sem pre o veria por ali, de um j eito ou outro.
Em m a o viu apenas um a vez, m as Harriet estava certa de quase tê-lo encontrado duas ou três vezes por dia, quase topado com ele, quase ouvido sua voz, ou visto seu om bro, quase o esquecera, m as sem pre ocorria algum a coisa para m antê-lo na m ente dela, com todo o favorável entusiasm o das surpresas e das conj eturas.
Além disso, ouvia falar nele o tem po todo. Exceto quando estava em Hartfield, vivia cercada por pessoas que não viam defeitos em Mr. Elton e não tinham nada m ais interessante para discutir a não ser sobre ele e seus assuntos. Assim , cada relato e cada suposição sobre tudo que ocorrera ou deveria ocorrer nos assuntos relativos ao casam ento, incluindo sua renda, seus criados e seu m obiliário, viviam em perpétua agitação à volta de Harriet. Seu afeto estava sendo fortalecido pelos frequentes elogios que eram feitos a ele, sua tristeza era m antida viva, e seus sentim entos irritados pelas incansáveis m enções à felicidade de Miss Hawkins e as contínuas observações sobre com o eles deviam estar apaixonados!... A expressão de Mr. Elton quando andava pela casa, o próprio local onde colocava o chapéu, tudo era prova de com o ele estava apaixonado!
Se fosse um divertim ento apropriado e não causasse dor para Harriet, nem reprovação ao seu próprio com portam ento, Em m a acharia até divertidas estas variações na m ente de Harriet. Às vezes Mr. Elton predom inava, outras vezes eram os Martins, e um servia para com parar com o outro. O noivado de Mr. Elton fora a cura para o encontro com Mr. Martin, e a infelicidade causada pela notícia do casam ento ficara um pouco de lado pela visita de Elizabeth Martin à casa de Mrs. Goddard alguns dias depois. Harriet não estava em casa, m as um bilhete fora deixado, escrito num estilo bastante tocante: um a pequena m istura de reprovação com um a grande dose de bondade. E até que o próprio Mr. Elton aparecesse, ela ficou ocupada lendo o bilhete, ponderando sobre qual deveria ser sua resposta, e desej ando fazer m ais do que ousava confessar. Mas Mr. Elton em pessoa espantou todos esses cuidados. Enquanto ele esteve na cidade os Martins foram esquecidos, e na própria m anhã em que ele partiu para Bath, Em m a
j ulgou m elhor que Harriet retornasse a visita de Elizabeth, para dissipar a angústia que a tal viagem provocara.
Com o essa visita se daria, o que seria necessário de atenções, e o que seria m ais seguro, foram alguns pontos de hesitantes considerações. Harriet não poderia negligenciar totalm ente o convite da m ãe e das irm ãs para visitá-las, seria ingratidão. Não era possível, m as havia o perigo da renovação da am izade!