Eu, primata

Frans de Waal · Capítulo 9 de 48

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Eu, primata

Primata Sem Análise

No entanto, confundir as duas coisas levou alguns a crer que, como a seleção natural é um processo cruel e impiedoso de eliminação, tem forçosamente de produzir criaturas cruéis e impiedosas. Um processo perverso só pode produzir um comportamento perverso, pensava-se. Só que a panela de pressão da natureza criou peixes que atacam qualquer coisa que se mova (inclusive sua prole), mas também criou as baleias-piloto, tão afeiçoadas umas às outras que encalham juntas na praia se uma delas se desorientar. A seleção natural favorece organismos que sobrevivem e se reproduzem, pura e simplesmente. Como fazem isso fica a cargo de cada um. Qualquer organismo que consiga ter mais êxito tornando-se mais ou menos agressivo do que o resto, mais ou menos coopera vo, mais ou menos solícito, disseminará seus genes. O processo não especifica o caminho para o sucesso, do mesmo modo que o interior de um apartamento vienense não nos diz que tipo de música sairá pela janela.

 

PRIMATA SEM ANÁLISE

Todo fim de tarde no Zoológico de Arnhem, os tratadores e eu rávamos Kuif da colônia para dar mamadeira a Roosje. Mas antes de ela chegar carregando sua filha ado va havia sempre um estranho ritual.

Estávamos habituados a ver os grandes primatas saudando uns aos outros, o que costumam fazer depois de longas ausências, os chimpanzés com beijos e abraços, e os bonobos com algum fro age (esfregação) sexual. Kuif foi a primeira desses animais que vi dar adeus. Antes de entrar no prédio, Kuif aproximava-se de sua melhor amiga, Mama, a respeitada fêmea alfa do grupo, e dava-lhe um beijo. Depois procurava Yeroen, o macho mais velho, e fazia o mesmo. Até quando Yeroen estava dormindo na outra ponta da ilha ou absorto em uma sessão de grooming com um de seus amigos, Kuif desviava-se de seu caminho para ir até ele. Isso me lembrava de como costumamos não deixar uma festa antes de nos despedir dos anfitriões.

Para saudar na chegada, basta o indivíduo ficar contente ao ver alguém conhecido. Muitos animais sociais apresentam essa reação. Já despedir-se é algo mais complexo, pois requer vislumbrar o futuro: perceber que não se verá alguém por algum tempo. Notei outro caso de antevisão certa noite em que uma fêmea de chimpanzé apanhou toda a palha de sua jaula de dormir, pegando minuciosamente todos os pedacinhos até a carga transbordar de seus braços, e carregou o fardo para a ilha ao ar livre. Isso nos chamou a atenção, pois nenhum chimpanzé jamais andara carregando palha. Era novembro, estava esfriando. Aparentemente, aquela fêmea decidira manter-se aquecida lá fora. Ela não sen ra frio enquanto estava apanhando a palha, pois se encontrava em uma construção com aquecimento. Sendo assim, deve ter inferido o que aconteceria no dia seguinte com base no que ocorrera no dia anterior. Ela passou o dia inteiro em seu ninho de palha, do qual não pôde sair porque todos os outros estavam querendo roubá-lo. Esse é o po de inteligência que atrai muitos de nós para o estudo dos grandes primatas não humanos. Não é apenas seu comportamento agressivo ou sexual, boa parte do qual encontramos também em outros animais, mas o surpreendente grau de discernimento e argúcia que empregam em tudo o que fazem. Como boa parte dessa inteligência não se presta facilmente à observação, os estudos com grandes primatas em ca veiro são absolutamente essenciais. Assim como ninguém tentaria medir a inteligência de uma criança observando-a correr pelo pá o da escola, também o estudo da cognição dos grandes primatas não humanos requer uma abordagem prá ca direta. Precisamos ter condições de apresentarlhes problemas e ver como os solucionam. Mas também para a observação do comportamento é importante o papel dos grandes primatas man dos em ca veiro sob condições esclarecidas, ou seja, em espaçosas áreas ao ar livre e em grupos de tamanho semelhante ao daqueles que vivem na natureza. Podemos observá-los muito mais de perto do que seria possível na vida selvagem, onde, em momentos crí cos, eles tendem a desaparecer na vegetação. Em meu escritório favorito (tenho vários), uma grande janela com vista para os chimpanzés da Estação de Campo Yerkes permite-me observar tudo o que acontece. Eles não podem esconderse de mim (nem eu deles, como noto sempre que tento almoçar sem eles perceberem). A simples observação é a razão por que a polí ca do poder, as reconciliações depois de lutas e o uso de ferramentas foram detectados primeiro em primatas em ca veiro e só depois confirmados na natureza. Em geral, fazemos observações munidos de binóculos e de um teclado ligado a um computador no qual digitamos todos os eventos sociais presenciados. Temos uma longa lista de códigos para indicar brincadeira, sexo, agressão, grooming, amparo e uma infinidade de dis nções su s dentro de cada categoria, e inserimos os dados con nuamente no formato de “quem faz o que a quem”. Se os eventos se tornam complicados demais, como quando eclode uma luta em massa, nós os filmamos ou, como um narrador espor vo, relatamos o que se passa em um gravador. Dessa maneira, coligimos centenas de milhares de informações e depois programamos um computador para classificar os dados. Apesar do prazer que sen mos com nosso trabalho, as pesquisas com primatas têm seu lado tedioso. Nosso segundo método é experimental. Tiramos os primatas de seu grupo e os trazemos para uma pequena jaula. Como não podemos forçá-los a par cipar, dependemos de sua boa vontade. Não só eles sabem o próprio nome, mas também o nome de todos os outros, por isso podemos pedir ao indivíduo A para ir buscar o indivíduo B. O truque, evidentemente, é tornar o experimento uma experiência agradável. Eles têm grande atração por computadores com joys cks. Minha assistente só precisa mostrar o carrinho com o equipamento e os voluntários fazem fila. Como acontece com as crianças, as respostas imediatas de um computador empolgam os chimpanzés. Em um experimento, Lisa Parr apresentou a chimpanzés de Yerkes centenas de fotos que eu rara no Zoológico de Arhnem. Com um oceano separando esses chimpanzés, podíamos ter certeza de que eles nunca nham visto aqueles rostos antes. Um rosto aparecia na tela do computador, e em seguida outros dois, um dos quais igual ao primeiro. O chimpanzé ganhava um gole de suco por apontar com o cursor o rosto correspondente ao primeiro. O reconhecimento de rostos fora testado antes, mas os grandes primatas não humanos não se saíram muito bem. Contudo, os experimentos anteriores haviam usado rostos humanos, supondo serem fáceis de dis nguir. Não para chimpanzés. Eles se mostraram muito mais hábeis com rostos de outros chimpanzés. Lisa mostrou que eles vêem semelhanças não apenas entre fotos diferentes do mesmo rosto, mas também entre fotos de mães e filhos. Do mesmo modo que se olhasse o álbum de família de alguém eu seria capaz de dis nguir os parentes consangüíneos dos parentes por afinidade, os chimpanzés reconhecem os sinais de parentesco. Parecem ser tão sensíveis aos rostos de sua espécie quanto nós aos da nossa. Outro estudo inves gou se os chimpanzés eram capazes de dar indicações deliberadas a outros. A história já mencionada de Kanzi e Tamuli levava a crer que eles possuíam essa habilidade, mas tal idéia permanecia controver da. Alguns cien stas concentramse no ato de apontar com a mão, ou com o dedo indicador, que é o modo como apontamos. No entanto, não vejo razão para essa suposição limitada. Nikkie certa vez comunicou-se comigo usando uma técnica muito mais su l. Ele se acostumara a ganhar fru nhas silvestres que eu jogava do outro lado do fosso. Um dia, quando eu coletava dados, esqueci completamente das fru nhas, que cresciam nos arbustos altos atrás de mim. Nikkie não se esquecera. Sentou-se bem à minha frente, cravou em mim seus olhos castanhos avermelhados e, assim que conseguiu minha atenção, fez um movimento seco e brusco com a cabeça e os olhos, desviando-os de mim e fixando-os num ponto sobre meu ombro esquerdo. Depois tornou a me olhar e repe u o gesto. Posso ser estúpido comparado a um primata desses, mas da segunda vez acompanhei seu olhar e avistei as fru nhas. Nikkie indicara o que desejava sem um único som ou gesto de mão. Obviamente não tem sen do “apontar” desse modo, a menos que você tenha compreendido que o outro não viu o que você viu, o que significa perceber que nem todos têm as mesmas informações. Um experimento revelador sobre a capacidade de indicar dos grandes primatas foi realizado por Charles Menzel no mesmo Centro de Pesquisa da Linguagem que abriga Kanzi. Charlie deixou que uma chimpanzé fêmea chamada Panzee observasse enquanto ele escondia comida em uma área arborizada próximo à sua jaula. Ela acompanhou tudo por trás das grades. Como não podia ir aonde Charlie estava, precisaria de ajuda humana para conseguir a comida. Charlie cavava um buraco no chão e escondia um saco de confeitos, ou punha um doce no meio de arbustos. Às vezes, fazia isso depois que todas as pessoas já nham ido embora. Isso significava que até o dia seguinte Panzee não podia comunicar a ninguém o que sabia. Quando os tratadores chegavam de manhã, não sabiam sobre o experimento. Panzee primeiro precisava conseguir a atenção deles e, depois, fornecer informações a alguém que ignorava o que ela sabia e que, de início, não tinha a menor idéia do que ela estava “falando”. Durante uma demonstração ao vivo das habilidades de Panzee, Charlie comentou que os tratadores em geral têm as habilidades mentais dos primatas em mais alta conta do que os filósofos e psicólogos que escrevem sobre o assunto. Poucos destes já interagiram diariamente com esses animais. Era essencial para o experimento, ele explicou, que Panzee lidasse com pessoas que a levassem a sério. Todos os recrutados por Panzee disseram que a princípio ficaram surpresos com seu comportamento, mas logo entenderam o que ela estava tentando conseguir que fizessem. Seguindo as indicações que ela dava apontando, chamando com gestos, arfando e gritando, não veram dificuldade para encontrar o doce escondido no mato. Sem as instruções de Panzee, não teriam sabido onde procurar. Panzee nunca apontava em direção errada ou para algum local usado em ocasiões anteriores. O resultado era a comunicação a respeito de um acontecimento passado, presente na memória da primata, a pessoas que não sabiam do que se tratava e eram incapazes de dar a ela qualquer pista. Apresento esses exemplos para deixar claro que existem excelentes pesquisas sobre grandes primatas em que podemos nos basear ao fazer afirmações sobre a noção que esses animais têm de passado e futuro, seu reconhecimento de rostos e comportamento social em geral. Embora neste livro eu prefira exemplos vividos, tentando dar um rosto ao que sabemos sobre nossos parentes mais próximos, existe todo um conjunto de obras acadêmicas para fundamentar minhas afirmações. Nenhum desses textos, ressalto, explica por que persistem as discordâncias e por que não há um final à vista para minha linha de trabalho. Uma conferência sobre grandes primatas poderia atrair de cem a duzentos especialistas, mas isso é nada comparado a um pico encontro de psicólogos ou sociólogos, que reúne facilmente 10 mil cien stas. Por esse mo vo, nem sequer estamos perto do nível de compreensão sobre os grandes primatas que muitos de nós gostaríamos de ter.

A maioria de meus colegas são pesquisadores de campo. Sejam quais forem as vantagens das pesquisas sobre grandes primatas em ca veiro, elas nunca poderão subs tuir o estudo do comportamento na natureza. Para cada notável habilidade demonstrada no laboratório, queremos saber o que ela significa para os chimpanzés e bonobos selvagens, que pos de bene cio eles obtêm com ela. Isso se relaciona com uma questão evolu va: por que essa capacidade surgiu? No caso do reconhecimento de rostos, o bene cio é bem óbvio, mas e quanto à noção de futuro? Os pesquisadores de campo descobriram que chimpanzés quando se deslocam às vezes colhem talos de capim e pequenos ramos horas antes de chegar a um local onde irão “pescar” formigas ou cupins. Os instrumentos de que precisam são colhidos pelo caminho em lugares onde existem em abundância. É perfeitamente possível que esses primatas planejem mentalmente suas rotas. O que talvez seja mais significa vo nessas pesquisas não é o que os grandes primatas revelam acerca do nosso lado “instintual”. Com seu lento desenvolvimento (chegam à fase adulta por volta dos dezesseis anos) e amplas oportunidades de aprendizado, os grandes primatas não humanos na verdade não são muito mais ins ntuais do que nós. Tomam muitas decisões na vida, como a de defender um recém-nascido ou ameaçá-lo, salvar ou maltratar um passarinho. O que comparamos, portanto, são os modos como os humanos e os outros grandes primatas lidam com problemas por meio de uma mistura de tendências naturais, inteligência e experiência. É impossível extrair dessa mistura o que é inato e o que não é. Não obstante, a comparação é instru va, no mínimo porque nos faz dar um passo atrás e olhar em um espelho que mostra um lado nosso diferente daquele ao qual estamos acostumados. Encostamos nossa mão na de um bonobo e notamos que nosso polegar é mais longo; pegamos seu braço e sen mos músculos rijos como nunca vimos, puxamos seu lábio inferior e constatamos que ele tem muito mais lábio que nós, olhamos em seus olhos e recebemos de volta um olhar tão inquisi vo quanto o nosso. Tudo isso é revelador. Meu obje vo é fazer as mesmas comparações na esfera da vida social e mostrar que não existe uma única tendência que não tenhamos em comum com esses sujeitos peludos que adoramos ridicularizar. Se as pessoas riem dos primatas no zoológico, desconfio que seja justamente porque se sentem desconcertadas com o espelho que lhes é posto à frente. Do contrário, por que animais de aparência esquisita, como as girafas e os cangurus, não causam hilaridade semelhante? Os primatas despertam certo nervosismo porque nos mostram a nós mesmos sob uma luz brutalmente honesta, lembrando-nos, na bem escolhida expressão de Desmond Morris, de que somos meros “primatas nus”. É essa luz honesta que buscamos, ou deveríamos buscar, e a beleza é que agora podemos nos ver refle dos em dois espelhos complementares.