Eu, primata
Inveja do Pênis
Às vezes tenho a impressão de que metade dos spam que recebo em meu computador está relacionada ao aumento de certa parte do corpo que os homens mantêm oculta a maior parte do tempo. A preocupação masculina com o tamanho e a turgidez de seu órgão viril é uma velha fonte de renda para charlatães vendedores de óleo de cobra, além de base para uma infinidade de piadas. De objeto de adoração na Grécia e Roma an gas aos símbolos fálicos que Sigmund Freud, mascando seu grosso charuto, via por toda parte, o pênis tem a fama imemorial de possuir vontade própria. Não admira que Desmond Morris, quando nos chocou nos anos 60 com seus desenvoltos paralelos entre macacos peludos e nus, escolhesse chamar a atenção para o tamanho do pênis humano, descrevendo o homem como o primata mais sensual surgido no planeta. Foi uma jogada brilhante, des nada a amortecer o golpe que esse autor estava aplicando em nosso ego. Não há nada que os homens queiram ouvir mais do que a afirmação de que eles são os campeões na arena que mais importa. Conhecia-se tão pouco sobre os bonobos naquela época que Morris pode ser perdoado por nos presentear com o tulo de os mais sexy. Porém, mesmo nesse território, não somos os tais. Seria um desafio medir a ereção de um primata não humano desperto e excitado, mas a do bonobo certamente faz a da maioria dos homens parecer pequena. Ainda mais se levarmos em consideração o tamanho menor do corpo dos bonobos.
O pênis dos bonobos é mais fino e totalmente retrá l, de modo que sua ereção chama ainda mais a atenção, especialmente se o macho balançar o pênis para cima e para baixo, como esses primatas costumam fazer. Talvez mais notável do que essa capacidade de “acenar” com o pênis seja o fato de os tes culos do bonobo serem muitas vezes maiores que os do homem. Isso, que também vale para os chimpanzés, supostamente está relacionado à quan dade de esperma necessária para o êxito na fecundação das fêmeas, pois elas se acasalam com vários machos. Se a genitália dos machos nos parece muito desenvolvida, ficaremos ainda mais impressionados com a das fêmeas, pois tanto as chimpanzés como as bonobos apresentam intumescimentos enormes. Não se trata dos lábios ligeiramente dilatados que vemos, se olharmos atentamente, nas fêmeas de gorila e orangotango. Não: é um balão do tamanho de uma bola de futebol no traseiro da fêmea, com o qual ela manda um sinal rosa vivo a todos os machos das redondezas avisando que está pronta para a ação.
Esses intumescimentos compõem-se de lábios e clitóris. O clitóris das bonobos é mais saliente que o das mulheres e o das chimpanzés. Nas fêmeas jovens, projeta-se frontalmente como um pequeno dedo, e com o avanço da idade embute-se no tecido dilatado à sua volta. Considerando essa anatomia, não admira que as fêmeas bonobos prefiram a cópula frontal. Infelizmente para elas, os machos parecem ter predileção pelo padrão mais an go da cópula por trás. As fêmeas bonobos costumam convidar os machos deitando-se de costas com as pernas afastadas, ou viram-se rapidamente para essa posição se o macho por acaso começar de outra maneira. Pode-se depreender dos comentários dos visitantes de zoológicos que eles se sentem chocados com os aparatosos genitais dos primatas. A mais memorável reação foi a de uma mulher que exclamou:
“Deus do céu, aquilo que eu estou vendo é uma cabeça?”. Já os bonobos machos não se confundem: nada é mais excitante para eles do que uma fêmea com um volumoso traseiro rosado. Estou tão acostumado a ver essas caracterís cas marcantes que elas não me parecem esquisitas nem feias, embora o termo “desajeitadas” me venha à mente. As bonobos com genitália totalmente intumescida não conseguem sentar-se normalmente, de modo confortável; precisam ficar transferindo o peso de um quadril para o outro. Aprendem a lidar com esses apêndices durante a adolescência, quando eles aumentam de tamanho a cada ciclo menstrual. O tecido dilatado é frágil e sangra com muita facilidade (mas também se regenera depressa). Analogamente às invenções culturais humanas como os pés atados das chinesas e os saltos altos, esse parece um preço alto para ser atraente.
O clitóris das bonobos requer atenção, pois seu equivalente humano, bem menor, está no centro desse acirrado debate. Para que serve um clitóris? Ele é realmente necessário? As teorias variam. Há quem argumente que esse minúsculo órgão é totalmente inú l, como os mamilos dos homens, e há quem diga que ele é uma fonte de prazer provavelmente ú l para a vinculação com o parceiro. A primeira dessas idéias supõe que as mulheres não precisam sair em busca de sexo desde que o aceitem quando ele bate à porta. Chama o clitóris de um “glorioso acidente” da evolução. Já a segunda vertente acha que o clitóris evoluiu para permi r experiências orgásmicas que tornem o sexo uma a vidade agradável e viciadora. A suposição, nesse caso, é a de uma sexualidade feminina a va, que procura até encontrar o que aprecia. Essas idéias opostas se alinham com ideologias também opostas sobre o lugar da mulher na sociedade. A reprodução é importante demais para ser deixada ao acaso. Todo biólogo supõe que ambos os sexos, e não só o masculino, são a vos na escolha de parceiros. Sabemos que os animais exploram todas as opções. Em um caso diver do, cien stas tentaram controlar uma população de passarinhos da espécie Agelaius phoeniceus vasectomizando os machos. Achavam que, por ocasião da nidificação, os casais com macho estéril produziriam ovos estéreis. Para seu assombro, a maioria das ninhadas foi fér l, indicando que as fêmeas pularam a cerca e veram “casos” com machos férteis. O reino animal é rico em fêmeas sexualmente empreendedoras que comparam e escolhem, e a sociedade humana sem dúvida não é exceção. Isso geralmente deixa de ser captado pelos ques onários de pesquisas — um modo sabidamente precário de medir o comportamento. As pesquisas subes mam imensamente a vida sexual das mulheres: todo mundo, especialmente as mulheres, reluta em revelar a verdade. Sabemos disso porque existe um modo de fazêlas falar. Se ligarmos estudantes universitárias a um falso detector de men ras, as moças relatarão duas vezes mais parceiros sexuais do que mulheres não subme das a tal pressão. De fato, relatam tantos parceiros quanto seus equivalentes do sexo oposto. Portanto, homens e mulheres podem ser bem mais semelhantes do que os levantamentos sobre sexo nos fizeram crer. Como para os homens a reprodução é um evento mais rápido do que para as mulheres, muitos afirmam que as tendências sexuais de cada gênero devem ser substancialmente diferentes. Mas nem toda a vidade sexual visa à produção de bebês, na nossa espécie e em muitas outras. E quanto ao prazer e relaxamento, ao sen mento de unidade e vinculação, e ao que meus bonobos fazem todo dia: sexo para sanar relacionamentos estremecidos? Considerando esses outros usos, o argumento vitoriano de que o sexo é a proveniência dos homens e um trabalho aturado pelas mulheres baseia-se em suposições tacanhas. Se o sexo comumente expressa amor, confiança e proximidade, poderíamos supor que fosse ao menos no mesmo grau um domínio feminino. Os franceses, que sabiamente se man veram o mais distante da rainha Vitória que o canal da Mancha lhes permi u, possuem uma admirável gama de expressões para essas alterna vas. O sexo des nado a fazer as pazes é la réconciliacion sur l’oreiller (reconciliação no travesseiro), e a capacidade do sexo para acalmar a mente ganha uma rude alusão na descrição de uma mulher sexualmente carente como mal baisée (mal-amada).
O sexo e o desejo sexual supostamente são enterrados ao começar o dia de trabalho. Uma ní da fronteira entre o social e o sexual é caracterís ca humana universal. Não que seja perfeitamente man da. Em tempos idos, as criadas comumente prestavam serviços outros que não os de cozinha e limpeza, e na sociedade moderna é comum o romance florescer no escritório, onde não faltam insinuações e assédio sexual. Os corretores de Wall Street celebrizaram-se por comemorar aniversários com strippers. Independentemente das exceções, porém, via de regra as esferas sexual e social são mantidas separadas.
Precisamos desesperadamente dessa fronteira, pois nossas sociedades estruturam-se com base em unidades familiares que, como é natural para todos os mamíferos, requerem o cuidado paterno tanto quanto o materno. Toda sociedade humana possui famílias nucleares, ao passo que as sociedades de grandes primatas não humanos não as apresentam. Para os chimpanzés, a única ocasião em que o sexo precisa ser removido da esfera pública é quando um macho e uma fêmea receiam o ciúme de membros do alto escalão. Procuram as moitas para o rendez-vous ou se afastam do resto da comunidade, em um padrão que pode ser a raiz do nosso desejo de privacidade. Se o sexo é fonte de tensão, um modo de manter a paz é limitar sua visibilidade. Os humanos levam isso além, ocultando não só o ato em si, mas também cobrindo todas as partes do corpo excitantes ou excitáveis.
Nada disso, ou quase nada, acontece entre os bonobos. É por isso que muitos os descrevem como sexualmente liberais. Mas, na verdade, se a privacidade e a repressão não são problemas, onde entra a liberalidade? Eles simplesmente não sentem vergonha, não têm recato nem inibições além do desejo de evitar encrenca com rivais. Quando dois bonobos se acasalam, às vezes os filhotes pulam em cima deles para observar os detalhes. Ou outro adulto pode achegar-se e comprimir sua ereção no corpo de um deles para par cipar da diversão. A sexualidade é mais freqüentemente par lhada do que contestada. Uma fêmea pode deitar-se de costas e se masturbar à vista de todos, e ninguém dará a mínima. Ela move rapidamente os dedos em vaivém pela vulva, mas também pode dar essa tarefa a um dos pés para manter livres as mãos que estão fazendo grooming em sua cria. A versatilidade dos bonobos é extraordinária. Além de afirmar que o tamanho do pênis destaca-nos dos outros primatas, Desmond Morris declarou que o orgasmo era exclusivamente humano. Quem já viu fêmeas bonobos em uma intensa cobrição — o GG-rubbing, ou fricção gênito-genital — não acreditará muito facilmente nessa idéia. As fêmeas mostram os dentes de orelha a orelha e emitem gritos agudos enquanto esfregam frene camente o clitóris. As fêmeas também se masturbam ro neiramente, uma a vidade que não teria sen do se elas não auferissem disso alguma coisa. Sabemos, por experimentos de laboratório, que não somos a única espécie na qual as fêmeas apresentam aumento da freqüência cardíaca e rápidas contrações do útero no clímax da relação sexual. Os símios do gênero Macacus enquadram-se nos critérios de Masters & Johnson para o orgasmo humano. Ninguém tentou fazer esse po de estudo com bonobos, mas não pode haver muita dúvida de que eles passariam no teste.
Nem todo mundo, porém, é recep vo a essa possibilidade. Um dos mais curiosos encontros acadêmicos de que par cipei versava sobre o tema sexo. Foi organizado por antropólogos “pósmodernos”, para quem a realidade é composta de palavras e não pode ser separada de nossas narra vas. Eu era um dos poucos cien stas nesse evento, e os cien stas, por definição, confiam mais em fatos do que em palavras. Já se vê que tal encontro não poderia dar muito certo. A coisa ferveu quando um dos pós-modernistas afirmou que, se uma língua humana não possui uma palavra para designar “orgasmo”, o povo que a fala não pode vivenciar o clímax sexual. Os cien stas presentes pasmaram. Se no mundo inteiro as pessoas têm os mesmos genitais e a mesma fisiologia, como é que suas experiências poderiam ser radicalmente diferentes? E o que isso nos diria a respeito dos outros animais? A implicação não seria que não sentem coisa alguma? Exasperados com a idéia do prazer sexual como uma realização lingüís ca, começamos a passar bilhe nhos com questões maliciosas do po: “Sem uma palavra para ‘oxigênio’ as pessoas podem respirar?”.
A pretensão final de Morris à singularidade humana é a posição de acasalamento considerada prova da sensatez das pessoas civilizadas. Esse autor supõe não apenas que a posição papai-emamãe restringe-se à nossa espécie, mas também a vê como um avanço cultural. Contudo, tendo em vista os milhões de anos de evolução sexual em nossa bagagem, a meu ver são absolutamente inúteis as tenta vas de dissociar a sexualidade humana da de outros animais. São biologicamente determinados tanto os hormônios que nos impelem à a vidade sexual como as caracterís cas anatômicas que tornam essas peculiares acrobacias viáveis e prazerosas. E estão longe de ser únicos: o modo como fazemos não é tão diferente do modo como os cavalos fazem, e nem mesmo do jeito como fazem os lebistes. Uma vez que nossos genitais situamse em posição frontal, é óbvio que a seleção natural favoreceu a posição papai-e-mamãe: somos anatomicamente estruturados para copular dessa maneira. Os mesmos cien stas que deram o incomum nome aos bonobos quiseram explicar os acasalamentos desses primatas, mas, na época, não era de bom-tom mencionar tal assunto. Eduard Tratz e Heinz Heck veram de recorrer ao la m, dizendo que os chimpanzés acasalam-se more canum (como cães) e os bonobos, more hominum (como gente). Os bonobos adotam com facilidade a posição papai-e-mamãe, assim como muitas outras. Conhecem todas as posições do Kama sutra, e até algumas que estão além da nossa imaginação (por exemplo, os dois parceiros pendurados de cabeça para baixo pelos pés). Mas a posição face a face é especial, pelo fato de ser comum e permi r a comunicação emocional. Análises minuciosas de vídeos mostram que os bonobos monitoram o rosto e os sons de seus parceiros, regulando o ritmo dos movimentos de vaivém pélvico com base na reação que eles produzem. Se o parceiro não faz contato visual ou dá algum outro sinal de pouco entusiasmo, os dois se separam. Os bonobos parecem ser primorosamente sintonizados com o que seu parceiro sente. Os bonobos não só fazem sexo em uma infinidade de posições, mas também em pra camente todas as combinações de parceiro. Refutam a idéia de que sexo se des na unicamente à procriação. Calculo que três quartos de sua a vidade sexual não têm relação alguma com a reprodução, ao menos não diretamente: com freqüência, envolvem membros do mesmo sexo ou ocorrem durante a fase infér l do ciclo da fêmea. E existem ainda os numerosos padrões eró cos que não contribuem para a reprodução, incluindo não só o beijo de língua, mas a felação e a massagem mútua dos genitais muitas vezes observados entre os machos. Um macho, de costas aprumadas e pernas afastadas, apresenta seu pênis ereto a outro, que o envolve frouxamente com a mão e faz movimentos acariciantes para cima e para baixo. O equivalente do GG-rubbing para os machos é conhecido como rump-rump, um contato no qual dois machos ficam de quatro e roçam brevemente os traseiros (rump, em inglês) e os escrotos. É uma saudação de baixa intensidade na qual os parceiros olham em direções opostas. O roçar mútuo dos pênis, em contraste, lembra uma cobrição heterossexual, com um macho de costas e o outro em cima dele, fazendo movimentos de vaivém com o pênis. Como ambos os machos têm ereção, os pênis roçam um no outro. Nunca vi ejaculações durante o sexo entre machos, nem tenta vas de penetração anal. Mas todos esses comportamentos foram observados em bonobos ca vos e selvagens, com exceção do penis-fencing, ou esgrima com pênis, conhecido apenas de estudos em habitat natural: dois machos face a face, pendurados em um galho, roçam os pênis como se cruzassem espadas.
Essa riqueza de comportamento sexual é espantosa, no entanto tem sido uma faca de dois gumes para a imagem pública do bonobo. Alguns autores e cien stas sentem-se tão constrangidos que falam por enigmas. Já vi conferencistas qualificarem os bonobos de “muito afetuosos” quando descreviam comportamentos que seriam impróprios para menores de dezoito anos em qualquer cinema. Os americanos, em especial, evitam referir-se ao sexo por seu nome próprio. É como ouvir uma reunião de padeiros que decidissem abolir a palavra “pão” de seu vocabulário, recorrendo então a inacreditáveis circunlóquios. O ero smo dos bonobos muitas vezes é subes mado, contando-se apenas as cópulas entre adultos do sexo oposto. Só que isso deixa de fora a maioria do que ocorre na vida diária desses primatas. É uma omissão curiosa, pois o rótulo “sexo” normalmente se refere a qualquer contato deliberado envolvendo os genitais, inclusive bolinagem e es mulação oral, independentemente de quem faz o que a quem (quando o presidente Bill Clinton tentou definir sexo mais estritamente, foi corrigido pelo tribunal). Em um sen do mais amplo, sexo também abrange beijar ou exibir o corpo de maneira suges va, sendo essa a razão por que “Elvis the Pelvis” era abominado pelos pais nos anos 50. Eu, de minha parte, sou a favor de dar nome aos bois — eufemismos melindrosos não têm lugar no discurso científico. Se deixei a impressão de um animal patologicamente hipersexual, devo acrescentar que a a vidade sexual dos bonobos é muito trivial, bem mais do que a nossa. Como as pessoas, eles fazem sexo apenas ocasionalmente, e não sem parar. Muitos dos contatos não são levados ao ponto do clímax, e os parceiros meramente acariciam um ao outro. Mesmo a cópula média é incrivelmente rápida pelos padrões humanos: catorze segundos. Em vez de uma interminável orgia, o que vemos é uma vida social temperada por breves momentos de in midade sexual. No entanto, ter esse parente próximo tão lascivo traz implicações para o modo como vemos nossa própria sexualidade.