Eu, primata

Frans de Waal · Capítulo 4 de 48

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Eu, primata

O que Há em um Nome ?

A primeira vez que vi bonobos de perto foi em 1978, em um zoológico holandês. A placa na jaula ainda os iden ficava como “chimpanzés-pigmeus”, dando a entender que eram apenas uma versão em menor escala de seus primos mais conhecidos. Mas nada podia estar mais longe da verdade.

Um bonobo difere fisicamente de um chimpanzé tanto quanto um Concorde de um Boeing 747. Até os chimpanzés devem admi r que os bonobos têm mais classe. Bonobos têm o corpo gracioso e elegante, mãos de pianista e cabeça rela vamente pequena. Seu rosto é mais achatado, mais aberto e com testa mais alta que o dos chimpanzés. Têm a face preta, lábios rosados, orelhas pequenas e narinas largas. As fêmeas têm seios, não tão salientes como os da nossa espécie, mas inques onavelmente torneados se comparados ao peito de tábua de outras primatas. E sobretudo o bonobo tem a marca registrada do seu penteado: uma cabeleira negra alinhadamente repartida no meio. A maior diferença entre as duas espécies está nas proporções do corpo. Os chimpanzés têm cabeça grande, pescoço grosso e ombros largos, como quem malha muitas horas na academia. Já os bonobos têm porte de intelectual, com tronco esguio, ombros estreitos e pescoço fino. Boa parte de seu peso está nas pernas, mais longas que as dos chimpanzés. O resultado é que, quando andam de quatro, os chimpanzés têm uma silhueta em declive a par r dos ombros possantes, enquanto a dos bonobos permanece mais ou menos horizontal devido a seus quadris elevados. Quando está de pé ou andando ereto, o bonobo parece aprumar mais as costas do que o chimpanzé, e nessas ocasiões sua postura lembra extraordinariamente a humana. Por essa razão, os bonobos foram comparados a “Lucy”, nossa ancestral Australopithecus. O bonobo é um dos grandes mamíferos descobertos mais recentemente pela ciência. Isso aconteceu em 1929, não em um luxuriante habitat africano, mas em um museu colonial belga após o exame de um pequeno crânio que se julgava pertencente a um jovem chimpanzé. Ocorre que, em animais imaturos, as suturas entre os ossos cranianos teriam de estar separadas. Naquele crânio, porém, estavam fundidas. Concluindo que o crânio devia pertencer a um chimpanzé adulto com cabeça incomumente pequena, o anatomista alemão Ernst Schwarz declarou ter descoberto uma nova subespécie. Logo as diferenças anatômicas foram consideradas importantes o suficiente para promover o bonobo à condição de uma espécie totalmente distinta: Panpaniscus. Um biólogo que fora colega de Schwarz quando estudava em Berlim contou-me que muitos de seus pares zombavam dele. Schwarz não só afirmava que havia duas espécies de chimpanzé, mas também três espécies de elefante. Todos sabiam que só exis a uma daquele e duas deste. O bordão para referir-se a der Schwarzera que ele sabia “tudo e mais alguma coisa”. Só que Schwarz estava certo. Confirmou-se, faz pouco tempo, que o elefante-africano-dafloresta é uma espécie dis nta, e Schwarz é conhecido como o descobridor oficial dos bonobos: o po de honra pelo qual qualquer cien sta daria a vida.

A designação de gênero do bonobo, Pan, deriva, muito apropriadamente, do deus grego da floresta com torso humano e pernas, orelhas e chifres de bode. Lascivo e brincalhão, Pã adora bolinar ninfas e tocar flauta. O chimpanzé pertence ao mesmo gênero. A designação de espécie do bonobo, paniscus, significa “diminuto”, enquanto a do chimpanzé, troglodytes, significa “morador das cavernas”. São epítetos bem curiosos: o de uma miúda deidade caprina para o bonobo, e o de uma deidade caprina das cavernas para o chimpanzé.

O nome “bonobo” provavelmente deriva de um erro de grafia em um caixote reme do de Bolobo, cidade à beira do rio Congo (mas também já me disseram que “bonobo” significa “ancestral” em uma língua banta ex nta). A palavra tem um som alegre, condizente com a natureza desse animal. Os primatólogos de língua inglesa gracejam empregando o termo como verbo, dizendo, por exemplo, “we’re gonna bonobo tonight” (algo como “vamos bonobar hoje à noite”), frase cujo significado logo ficará claro. Os franceses referem-se aos bonobos com uma expressão que evoca um es lo de vida alterna vo, chimpanzés de la Rive Gauche, pelo fato de os bonobos habitarem áreas da margem esquerda do caudaloso rio Congo. Esse rio imenso, com dezesseis quilômetros de margem a margem em certos trechos, separa permanentemente os bonobos das populações de chimpanzés e gorilas ao norte. Apesar da an ga designação dos bonobos, “chimpanzés-pigmeus”, eles não são muito menores que os chimpanzés. O macho adulto pesa em média 43 quilos, e a fêmea, 36.

O que mais me chamou a atenção nos primeiros bonobos que vi foi a extraordinária sensibilidade que pareciam ter. Também descobri certos hábitos que me estarreceram. Testemunhei uma querela em torno de uma caixa de papelão: uma fêmea e um macho correram trocando socos até que, de repente, pararam de lutar e começaram a fazer amor! Na época eu vinha estudando os chimpanzés, que nunca passavam de raiva a sexo com tamanha facilidade. Pensei que o comportamento daqueles bonobos fosse uma anomalia, ou que eu talvez não houvesse percebido alguma coisa que explicasse a súbita mudança de clima. Mas acontece que o que eu vi era perfeitamente normal para esses primatas entusiastas do Kama sutra.

Aprendi tudo isso bem mais tarde, depois de começar a trabalhar com bonobos no Zoológico de San Diego. Ao longo dos anos haviam chegado esparsamente da África informações sobre os bonobos que aumentaram nosso conhecimento sobre esse misterioso primo. Eles são na vos de uma área rela vamente pequena, mais ou menos do tamanho da Inglaterra, na República Democrá ca do Congo (ex-Zaire), onde vivem em uma floresta pantanosa densa e úmida. Quando entram em clareiras onde agricultores deixaram cana-de-açúcar, os machos aparecem primeiro. Correm e apanham todas as canas que conseguem antes de as fêmeas chegarem. Quando elas surgem, sua entrada é acompanhada de muito sexo entre todos e da inevitável apropriação do melhor alimento pelas matriarcas mais velhas. O mesmo se observa nas colônias em zoológicos que estudei, todas elas dominadas por uma fêmea mais velha. Isso é surpreendente, considerando que bonobos machos e fêmeas diferem em tamanho tanto quanto os humanos; o peso médio das fêmeas é 85% do peso médio dos machos. Além disso, os bonobos machos são dotados de caninos afiados, inexistentes nas fêmeas. Como, então, as fêmeas mantêm o controle? A resposta é a solidariedade. Vejamos o exemplo de Vernon, bonobo macho do Zoológico de San Diego que dominava um pequeno grupo ao qual pertencia uma fêmea, Lore a, que era sua amiga e parceira sexual. Foi a única vez que vi um grupo de bonobos dominado por um macho. Na época, pensei que fosse normal; afinal, a dominância dos machos é pica da maioria dos mamíferos. Mas Lore a era rela vamente jovem, e a única fêmea. Assim que uma segunda fêmea foi adicionada ao grupo, a balança do poder pendeu para o outro lado. Quando se conheceram, a primeira coisa que Lore a e a outra fêmea fizeram foi sexo. O padrão é conhecido pelos especialistas pela sigla GG (genito-genital rubbing, ou fricção gênito-genital), mas também já ouvi uma designação mais pitoresca: “hoka-hoka”. Uma fêmea agarrou-se na outra com os braços e pernas como fazem os bebês bonobos para segurar-se no ventre da mãe. Frente a frente, clitóris e vulvas em contato, elas os friccionaram com movimentos laterais em ritmo rápido. Mostravam os dentes de orelha a orelha e davam gri nhos agudos, não deixando dúvida sobre a questão de os grandes primatas sentirem ou não prazer sexual.

O sexo entre Lore a e sua nova amiga tornou-se cada vez mais comum, indicando o fim da dominância de Vernon. Meses depois, a pica cena na hora da refeição era as fêmeas fazendo sexo e em seguida, juntas, se apoderando de toda a comida. O único modo de Vernon conseguir algum alimento era pedir de mão estendida. Esse comportamento de controle do suprimento de comida pelas fêmeas também é pico dos bonobos na natureza.

Comparados aos chimpanzés, que são liderados por machos, os bonobos, pacíficos, eró cos e dominados pelas fêmeas, proporcionam um novo modo de analisar a linhagem humana. Seu comportamento não condiz com a popular imagem de nossos ancestrais como homens das cavernas barbudos que arrastavam as mulheres pelos cabelos. Não que necessariamente ocorresse o oposto, mas é bom ter a noção clara do que sabemos e do que ignoramos. O comportamento não se fossiliza. É por isso que muitas conjeturas sobre a pré-história humana tomam por base o que conhecemos sobre outros primatas. Eles indicam a gama de comportamentos que nossos ancestrais podem ter apresentado. E, quanto mais aprendemos sobre os bonobos, mais essa gama se expande.