Eu, primata
Nossa Face Demoníaca
Deveríamos nos alegrar por esse lugar sinistro e atemorizante ser pura fantasia, por diferir radicalmente do mundo real no qual rimos, choramos, fazemos amor e nos derretemos ao ver um bebê. Os autores dessa ficção percebem isso e, às vezes, confidenciam que a condição humana não é assim tão ruim quanto eles a fazem parecer. O gene egoísta é um bom exemplo. Depois de argumentar que nossos genes sabem o que é melhor para nós, que eles programam cada pequena engrenagem da máquina de sobrevivência humana, Dawkins espera até a úl ma sentença do livro para nos tranqüilizar dizendo que, na verdade, somos convidados a jogar todos esses genes pela janela: “Somente nós, na Terra, podemos nos rebelar contra a rania dos replicadores egoístas”.
Assim, o fim do século xx ressaltou nossa necessidade de transcender a natureza. Apregoou-se essa posição como darwinista, muito embora Darwin nada tenha a ver com ela. Darwin acreditava, como eu, que nossas caracterís cas humanitárias baseiam-se em ins ntos sociais que temos em comum com outros animais. É, obviamente, uma visão mais o mista do que aquela segundo a qual “somente nós, na Terra” podemos vencer nossos ins ntos básicos. Nesta úl ma visão, a decência humana não passa de uma fina película, algo que inventamos, e não que herdamos. E, toda vez que fazemos qualquer coisa pouco louvável, os teóricos do verniz nos lembram do medonho recheio por baixo da casca: “Viu só? É a natureza humana!”.
NOSSA FACE DEMONÍACA
A primeira cena de 2001 — Uma odisséia no espaço, de Stanley Kubrick, captou em uma estonteante imagem a idéia de que a violência é benéfica. Depois de uma luta que eclode entre hominídeos na qual um golpeia outro com um fêmur de zebra, a arma é lançada triunfantemente para o alto, onde, milênios depois, transforma-se em uma nave espacial em órbita.
Igualar agressão a progresso é a base da chamada hipótese “fora da África”, segundo a qual chegamos aonde estamos hoje por meio do genocídio. Quando bandos de Homo sapiens emigraram da África, avançaram pela Eurásia assassinando todos os outros grandes primatas bípedes que encontraram pelo caminho, inclusive a espécie mais semelhante, o homem de Neandertal. Nossa sede de sangue é a personagem principal de livros com tulos como Man the hunter [Homem, o caçador], O macho demoníaco, The imperial animal [ O animal imperial] e The dark side of man [ O lado sombrio do homem]. A maioria dessas obras apresenta o chimpanzé como nosso modelo ancestral — o chimpanzé macho. As fêmeas, como as beldades dos primeiros filmes de James Bond, são a razão de luta dos machos, mas, afora serem parceiras sexuais e mães, pra camente não entram na história. Os machos são responsáveis por todas as decisões e combates. E, por implicação, pela maior parte da evolução.
Mas, ainda que o chimpanzé tenha acabado como representante da face demoníaca da nossa cabeça de Jano, nem sempre foi assim. Mais ou menos na época em que Lorenz e Ardrey destacavam nossa “marca de Caim”, os chimpanzés selvagens pareciam não estar fazendo nada além de perambular folgadamente de galho em galho, apanhando frutos. Os adversários da idéia do primata assassino, que eram numerosos, usaram essa informação em causa própria. Citavam livremente Jane Goodall, que em 1960 começara seu trabalho em Gombe Stream, na Tanzânia. Na época, Goodall ainda retratava os chimpanzés como os nobres selvagens do filósofo francês Jean-Jacques Rousseau: indivíduos solitários e auto-suficientes que não nham necessidade de formar vínculos nem de compe r uns com os outros. Os chimpanzés na selva andavam sozinhos ou em pequenos “grupos” cuja composição mudava com freqüência. Os únicos vínculos permanentes eram entre as mães e as crias dependentes. Não admira que as pessoas imaginassem os grandes primatas vivendo no Éden. A primeira correção dessas impressões proveio de cien stas japoneses na década de 1970. Eles estudaram chimpanzés nas montanhas Mahale, ao sul de Gombe. Tinham sérias dúvidas sobre o viés “individualista” dos pesquisadores americanos e europeus. Como um animal tão próximo de nós poderia deixar de ter uma sociedade digna do nome? Descobriram que, embora os chimpanzés andem com diferentes companheiros a cada dia, são todos membros de uma comunidade separada de outras. A segunda correção dizia respeito à reputação pacífica dos chimpanzés selvagens, que alguns antropólogos usavam como argumento contra a idéia da agressividade inata da natureza humana. Dois fatos emergiram para esclarecer a realidade. Primeiro, ficamos sabendo que os chimpanzés caçam macacos, esmagam-lhes o crânio e os comem vivos. Ou seja, são carnívoros. Depois, em 1979, as requintadas páginas da revista Na onal Geographic informaram que esses primatas também matam uns aos outros, e às vezes também comem as ví mas. Portanto, além de assassinos, canibais. A reportagem mostrou desenhos de chimpanzés machos perseguindo fur vamente seus inimigos além das fronteiras de seu território, cercando-os e espancando-os brutalmente até a morte. A princípio, essa no cia pingou de apenas um punhado de fontes, mas logo os pingos transformaram-se em uma corrente contínua que se tornou impossível desconsiderar. O quadro tornou-se indis nguível da imagem do primata assassino. Ficamos sabendo que os chimpanzés caçam para matar e vivem em comunidades que guerreiam entre si. Goodall contou como deu essa no cia a um grupo de acadêmicos, alguns dos quais
nham esperança de eliminar a agressão humana por meio da educação e de alterações
na programação da tevê. A mensagem trazida por Goodall de que não somos os únicos primatas agressivos foi mal recebida: colegas chocados imploraram-lhe que menosprezasse as evidências, ou mesmo que não as publicasse. Outros puseram a culpa no acampamento de Gombe, onde os estudiosos distribuíam bananas — um alimento altamente nutri vo —, o que teria fomentado um comportamento patológico. A compe ção na área do acampamento foi realmente bem documentada, porém a luta mais séria acontecera longe dali. Goodall resis u aos crí cos: “Certamente achei muito melhor enfrentar os fatos, por mais perturbadores que fossem, do que viver em estado de negação”, declarou.
A crí ca das bananas não sur u efeito; hoje se sabe que existe guerra em áreas de estudo na África nas quais não foi distribuído alimento algum. A verdade pura e simples é que a violência brutal faz parte da cons tuição natural dos chimpanzés. Eles não precisam demonstrá-la — na verdade, algumas comunidades parecem muito pacíficas —, mas podem, e fazem-no freqüentemente. Isso reforça a teoria do primata assassino em um aspecto, mas também a solapa. Lorenz e Ardrey afirmaram que os humanos nham exclusividade no emprego da força letal, mas desde então observações não só de chimpanzés, mas também de hienas, leões, langures e uma longa lista de animais, deixaram claro que matar os da própria espécie é prá ca disseminada, embora infreqüente. O sociobiólogo Ed Wilson concluiu que, quando um animal for observado por mais de mil horas, os cien stas verão combate mortal. Ele falou como especialista em formigas, um grupo de animais que atacam e matam em grande escala. Nas palavras de Wilson, “perto das formigas, para quem assassinatos, conflitos e batalhas campais são coisa rotineira, os homens não passam de pacifistas sedados”. Com a descoberta do lado sombrio do chimpanzé — “o paraíso perdido” —, Rousseau saiu por uma porta e Hobbes entrou por outra. A violência dos grandes primatas decerto significava que somos programados para ser impiedosos. Somou-se a isso a afirmação dos biólogos evolucionistas de que somos gene camente egoístas, e tudo se encaixou. Ali estava uma visão coerente e irrefutável da humanidade. Olhe para o chimpanzé, dizia o argumento, e verá que tipo de monstro nós realmente somos. Assim, os chimpanzés reforçaram a idéia de uma natureza humana perversa, apesar do fato de que, sem grandes dificuldades, poderiam igualmente tê-la refutado. Afinal, a violência entre os chimpanzés está longe de ser uma ocorrência ro neira: os cien stas precisaram de décadas para encontrá-la. Descontente com a parcialidade no impacto de suas descobertas, a própria Goodall fez valentes esforços para revelar-nos o lado mais brando dos chimpanzés, inclusive sua compaixão, mas não teve sucesso. A ciência já se decidira: uma vez assassino, sempre assassino. Chimpanzés podem ser violentos, mas, ao mesmo tempo, suas comunidades são dotadas de poderosos freios e compensações. Isso ficou claro para mim uma ocasião na Holanda, quando roíamos as unhas em suspense à beira de um fosso ao redor de uma ilhota arborizada no Zoológico de Arnhem. Estávamos preocupados com uma pequenina fêmea de chimpanzé recém-nascida, Roosje, nome que em holandês significa “rosinha”. Ela fora adotada por Kuif, e esta, por não ter leite, fora treinada para alimentála com mamadeira. O plano funcionara às mil maravilhas. Um pequeno êxito para um primata era um sucesso colossal para nós, ou pelo menos assim o sen amos. Agora, porém, estávamos introduzindo mãe e filha na maior colônia de chimpanzés em zoológico do mundo, e nela havia quatro perigosos machos adultos. Para in midar os rivais, os machos fazem demonstrações ritualizadas de agressividade com os pêlos eriçados, de modo a parecerem grandes, ameaçadores. Infelizmente, era nesse estado que se encontrava Nikkie, o destemido líder da colônia. Os chimpanzés machos têm um temperamento feroz, são for ssimos e podem subjugar humanos com muita facilidade. Zangados, então, são incontroláveis. Por isso, o des no de Roosje estava nas mãos dos primatas. De manhã passáramos com Kuif diante de todas as jaulas para avaliar as reações do grupo. Todos conheciam Kuif, mas Roosje era nova. Quando Kuif passou pela jaula dos machos, algo me chamou a atenção. Nikkie pareceu agarrá-la por baixo através das barras, e ela se afastou num salto, com um grito agudo. O alvo de Nikkie parecia ser o local onde Roosje se agarrava ao ventre de Kuif. Como só ele agiu dessa forma, decidi fazer a introdução ao grupo em etapas e deixar Nikkie em desvantagem libertando-o por úl mo. O que devia ser evitado era, principalmente, que Kuif se visse sozinha com ele. Eu contava com os protetores dela. Na natureza, ocasionalmente chimpanzés matam recémnascidos de sua própria espécie. Os biólogos têm uma teoria para explicar essa ocorrência, conhecida como “infan cídio”: supõem que os machos competem pela fecundação das fêmeas. Isso explicaria sua constante competição por posição hierárquica e também a eliminação de recém-nascidos que não sejam seus descendentes. Nikkie talvez tenha visto Roosje como um filhote forasteiro, uma cria que não poderia ser dele. Isso era preocupante, pois significava que poderíamos presenciar uma daquelas cenas medonhas relatadas por cien stas em campo. Roosje poderia ser feita em pedaços. E eu, que a vera no colo por várias semanas, ajudara Kuif a alimentá-la e dera-lhe eu mesmo a mamadeira, estava longe de ser o observador isento que normalmente faço questão de ser. Chegando à ilha, a maioria dos membros da colônia saudou Kuif com um abraço, relanceando olhares para o bebê. Todos pareciam atentar nervosamente para a porta atrás da qual Nikkie aguardava. Alguns dos chimpanzés jovens rondavam a porta, chutavam-na e esperavam para ver o que aconteceria. Todo o tempo, os dois machos mais velhos man veram-se perto de Kuif e se mostraram extremamente afáveis com ela. Cerca de uma hora depois, soltamos Nikkie na ilha. Os dois machos afastaram-se de Kuif e se postaram entre ela e o líder, que se aproximava. Passaram os braços pelo ombro um do outro. Uma cena espantosa, pois aqueles dois eram arquiinimigos de muitos anos. E ali estavam, unidos contra o jovem líder, temendo, talvez, o mesmo que nós. Nikkie, de pêlos eriçados, foi se aproximando com modos terrivelmente in midantes, mas desmoronou quando viu que os outros dois não estavam dispostos a ceder. O grupo de defesa de Kuif deve ter parecido incrivelmente decidido encarando o chefe daquela maneira, pois Nikkie fugiu. Não consegui enxergar o rosto deles, mas esses primatas sabem ler nos olhos uns dos outros tanto quanto nós. Mais tarde, Nikkie aproximou-se de Kuif sob o olhar vigilante dos outros dois machos. Era todo brandura. Suas intenções permanecerão um eterno mistério, mas demos um imenso suspiro de alívio, e eu abracei o tratador que participara comigo do treinamento de Kuif. Os chimpanzés vivem sob uma nuvem de violência latente, e o infan cídio é uma importante causa de morte tanto nos zoológicos como na natureza. Mas, no fim das contas, quando se debate sobre o quanto nós, como espécie, somos agressivos, o comportamento do chimpanzé é apenas uma peça do quebra-cabeça. O dos nossos ancestrais imediatos seria mais relevante. Infelizmente, existem lacunas imensas em nosso conhecimento, sobretudo quando tentamos inves gar o que aconteceu há mais de 10 mil anos. Não existem indícios irrefutáveis de que sempre fomos tão violentos quanto nos milênios mais recentes. Do ponto de vista evolu vo, alguns milhares de anos não são nada.