Eu, primata

Frans de Waal · Capítulo 22 de 48

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Eu, primata

Por Isso a Dona É Malandra

O grupo incluía também uma adolescente, Marilyn, que nha outra coisa em mente. Estava enamorada de Akili e o seguia por toda parte, provocando-o sexualmente muitas vezes. Marilyn brincou algum tempo na piscina, es mulando manualmente os genitais enquanto molhava os lábios na água. Depois de excitar-se dessa maneira, puxou o braço de Akili e levou-o até a água para a cópula. Akili atendeu-a mais de uma vez, mas claramente estava dividido entre Marilyn e o banquete. Por que o sexo nha de acontecer com água pelos joelhos eu não sabia; talvez Marilyn houvesse adquirido um fetiche por água. Idiossincrasias sexuais não são raras nos bonobos. Nesse ínterim, Lore a demonstrou grande interesse pelo bebê de Lenore. Sempre que ele se aproximava, Lore a es mulava-lhe brevemente os genitais com o dedo, e em uma ocasião abraçou-o de modo que ficassem com os ventres em contato e fez uma série de movimentos de vaivém pélvico como os dos machos. A mãe do filhote, em dado momento, es mulou os genitais de Lore a e em seguida empurrou o bebê na direção desta, como se pedisse que o segurasse.

Nesse breve período, vimos bonobos usando sexo pelo sexo (Akili e Marilyn), para apaziguar (Lenore e Akili) e como sinal de afeição (Lore a e o bebê). Em geral, associamos o sexo à reprodução e ao desejo, mas para os bonobos ele serve a todo po de necessidade. A gra ficação não é sempre o obje vo, e a reprodução é apenas uma de suas funções.

 

POR ISSO A DONA É MALANDRA

A bonobo fêmea tem intumescimento genital mesmo quando não está fér l, como por exemplo durante a gravidez ou a lactação. Com a chimpanzé fêmea isso não ocorre. Calculou-se que as chimpanzés fêmeas têm intumescimento genital durante menos de 5% de sua vida adulta, enquanto as bonobos vivem nesse estado quase 50% do tempo. Além disso, exceto por uma queda quando as fêmeas estão menstruadas, o sexo ocorre durante todo o ciclo para a fêmea bonobo, e isso é intrigante. Para que serviria o intumescimento genital, aquele balão grotesco, senão para anunciar fertilidade? Como o sexo e o intumescimento genital são em grande medida desvinculados da fer lidade, um macho bonobo precisaria ser um Einstein para descobrir quais filhotes poderiam ser dele. Não que os grandes primatas não humanos tenham noção da relação entre sexo e reprodução. Só os humanos a têm. Mas é muito comum machos favorecerem a cria das fêmeas com quem eles se acasalaram, e assim, efe vamente, estão cuidando e protegendo a própria prole. Entre os bonobos, porém, há sexo demais com parceiros demais para que eles possam fazer tais dis nções. Se alguém quisesse planejar um sistema social no qual a paternidade permanecesse obscura, dificilmente faria melhor do que a Mãe Natureza fez para os bonobos. Hoje acreditamos que essa pode ser, na verdade, exatamente a razão: as fêmeas têm a ganhar atraindo os machos para relações sexuais. Repito que não está implícita nenhuma intenção consciente; simplesmente, ocorrem equívocos quanto à fer lidade. A princípio, essa idéia é desnorteante. Embora a paternidade nunca seja tão certa quanto a maternidade, nossa espécie não está muito bem com uma alta confiança na paternidade? Os homens têm muito mais certeza nessa questão do que os machos de animais que vivem em promiscuidade ilimitada. Que problema poderia haver em machos saberem quem são seus descendentes?

A resposta é: o problema do infanticídio por machos que matam recém-nascidos.

Eu estava presente no histórico encontro em Bangalôre, sul da Índia, no qual Yukimaru Sugiyama, renomado primatólogo japonês, deu a no cia inédita de que langures machos, uma espécie de macaco encontrado na índia, se apoderam de um harém de fêmeas, depõem o líder e em seguida costumam matar todos os infantes. Arrancam-nos da barriga da mãe e os empalam com os dentes caninos. Esse encontro aconteceu em 1979 e, na época, ninguém se deu conta de que ele seria histórico, de que estava nascendo uma das mais provoca vas hipóteses da nossa era. A apresentação de Sugiyama foi recebida com um silêncio ensurdecedor, seguido por um dúbio elogio do presidente da mesa por aqueles intrigantes exemplos do que ele chamou de “patologia comportamental”. Foram palavras do presidente da mesa, e não do palestrante. A idéia de que animais matam os de sua própria espécie, e não apenas acidentalmente, era incompreensível e repulsiva.

A descoberta de Sugiyama e sua hipótese de que o infan cídio poderia ajudar a reprodução dos machos foi desconsiderada por toda uma década. Mas então mais relatos apareceram, primeiro sobre outros primatas e por fim relacionados com animais das mais variadas espécies, entre eles ursos, cães-de-pradaria, golfinhos e aves. Quando leões machos se apoderam de um bando, por exemplo, as leoas fazem todo o possível para impedi-los de ferir os filhotes, mas geralmente em vão. O rei dos animais salta sobre o filhote indefeso, abocanha-lhe o pescoço e o sacode, matando-o na hora. Não come a ví ma. Parece um ato totalmente deliberado. A comunidade cien fica não conseguia acreditar que as mesmíssimas teorias que falam de sobrevivência e reprodução poderiam aplicar-se à aniquilação de recém-nascidos inocentes. Mas era isso exatamente que se estava supondo. Quando um macho se apodera de um grupo, não só expulsa o an go líder; também remove os úl mos esforços reprodu vos deste. Assim, as fêmeas retomarão mais cedo o ciclo reprodu vo, e isso contribuirá para a reprodução do novo macho dominante. Sarah Blaffer Hrdy, antropóloga americana, desenvolveu ainda mais essa idéia e também chamou a atenção para exemplos de infan cídio humano. Já está comprovado, por exemplo, que crianças correm mais risco de sofrer maus-tratos infligidos por um padrasto do que por seu pai biológico, o que parece ter relação com a reprodução masculina. Diz a Bíblia que o faraó ordenou a morte de recém-nascidos, sem falar na passagem mais célebre sobre o rei Herodes, que “mandou matar todos os meninos de Belém e de todos os seus arredores, de dois anos para baixo” (Mateus 2, 16). O registro antropológico mostra que depois de uma guerra é comum crianças de mães capturadas serem mortas. Razões não faltam para incluirmos nossa espécie nos debates sobre o infanticídio por machos. O infan cídio é considerado um fator importan ssimo na evolução social, opondo machos contra machos e machos contra fêmeas. Estas nada têm a ganhar: perder a cria é sempre desastroso. Hrdy teoriza sobre as defesas das fêmeas. Elas evidentemente fazem todo o possível para defender a si mesmas e à prole, mas, devido ao tamanho maior e às armas especiais dos machos (como dentes caninos), em geral elas não têm êxito. A segunda melhor alterna va é confundir a paternidade. Quando machos forasteiros se apoderam do grupo, como no caso dos leões e dos langures, um recém-chegado pode ter certeza absoluta de que não é pai de nenhum dos filhotes vistos ali. Mas, se um macho já vive no grupo, quando encontra uma fêmea conhecida com um filhote a situação é diferente. O filhote pode muito bem ser dele, por isso matá-lo reduziria a capacidade desse macho para transmi r seus genes. Da perspec va evolu va, nada poderia ser pior para um macho do que eliminar seus descendentes. Portanto, supõe-se que a natureza forneceu aos machos uma “regra prá ca”: só atacar infantes cuja mãe não tenha feito sexo com eles recentemente. Isso pode parecer infalível para os machos, mas abre para as fêmeas a oportunidade de uma brilhante contra-estratégia. Aceitando as inves das de muitos machos, uma fêmea pode precaver-se contra o infan cídio, pois nenhum dos seus parceiros pode descartar a possibilidade de a cria ser dele. Em outras palavras, a galinhagem compensa.

Eis, pois, uma razão possível para os bonobos terem muito sexo e nenhum infan cídio. Este nunca foi observado entre eles, nem na natureza, nem em ca veiro. Já se viram machos inves r contra fêmeas com infantes, mas a defesa em massa contra tal comportamento indica uma formidável oposição ao infan cídio. O bonobo é realmente uma exceção entre os grandes primatas, pois o infan cídio é bem documentado em gorilas e chimpanzés, sem mencionar os humanos. Um chimpanzé macho grandalhão na floresta de Budongo, em Uganda, foi descoberto segurando um infante morto de sua própria espécie, parcialmente comido. Havia outros machos por perto, e a carcaça era passada entre eles. Dian Fossey, antropóloga que ganhou fama quando sua história foi contada no filme Nas montanhas dos gorilas, viu um solitário gorila de dorso prateado entrar em um grupo e fazer uma violenta demonstração ritualizada de agressividade. Uma fêmea que dera à luz na noite anterior enfrentou-o com outra demonstração, pondo-se em pé e batendo no peito. O recém-nascido agarrado a seu ventre exposto foi golpeado imediatamente pelo macho, e morreu com um vagido. Naturalmente, achamos o infan cídio revoltante. Uma pesquisadora de campo não conseguiu resis r e interferiu quando chimpanzés machos cercaram uma fêmea que rastejava no chão tentando esconder seu infante, emi ndo fervorosos grunhidos apaziguadores para evitar o ataque. A pesquisadora esqueceu sua obrigação profissional de não intervir e enfrentou os machos com um grande pedaço de pau. Não foi uma ação das mais inteligentes, pois às vezes chimpanzés machos matam pessoas, mas a cien sta conseguiu enxotar os machos e sair ilesa.

Não admira que as chimpanzés fêmeas fiquem longe de grandes agrupamentos de sua espécie por anos depois de terem dado à luz. O isolamento pode ser sua principal estratégia para prevenir o infan cídio. Elas só voltam a ter intumescimento genital perto do fim do período de lactação, que dura uns três ou quatro anos. Até essa época, não têm nada a oferecer aos machos que buscam sexo, mas também ficam desprovidas de um modo eficaz de abrandar um macho agressivo. As chimpanzés fêmeas passam boa parte da vida se deslocando sozinhas com suas crias dependentes. As bonobos, em contraste, reúnem-se ao seu grupo logo após darem cria, e em alguns meses voltam a copular. Têm pouco a temer. Os bonobos machos não têm como saber quais infantes são seus, quais não são. E, como as bonobos fêmeas tendem a ser dominantes, atacar sua cria é arriscado.

Amor livre nascido de autoproteção? “Por isso a dona é malandra”, nos diria Frank Sinatra, na canção “The lady is a tramp”. “Ela ama sen r o vento correr livre e fresco em seus cabelos, a vida sem cuidados”, canta ele. De fato, a vida despreocupada das bonobos fêmeas contrasta com a nuvem negra que paira sobre as fêmeas de muitas outras espécies. O prêmio que a evolução des na a quem dá fim ao infan cídio deve ser ines mável. As bonobos fêmeas batalham por uma causa — a mais urgente imaginável para o seu gênero — com todas as armas à sua disposição, armas tanto sexuais como agressivas. E parecem triunfar.

Essas teorias, porém, não explicam a diversificação da sexualidade dos bonobos. Imagino que esse comportamento originouse quando a evolução transformou os bonobos em animais heterossexuais grupais: o sexo simplesmente transbordou para outras esferas, como a vinculação entre indivíduos do mesmo sexo e a resolução de conflitos. A espécie tornou-se sexualizada aos poucos, e também aos poucos, provavelmente, isso foi se refle ndo em sua fisiologia. Neurocien stas descobriram fatos fascinantes sobre a oxitocina, um hormônio comum em mamíferos. A oxitocina es mula as contrações uterinas (costuma-se ministrá-la a mulheres em trabalho de parto) e a lactação. Porém, menos conhecido é o fato de que ela também reduz a agressão. Se um rato macho receber uma injeção desse hormônio, diminuirá a probabilidade de ele atacar filhotes. Ainda mais interessante é o fato de que, no cérebro masculino, esse hormônio apresenta um pico após a a vidade sexual. Em outras palavras, o sexo produz um hormônio que ajuda a expressar sensibilidade, que, por sua vez, induz a uma a tude pacífica. Isso poderia explicar biologicamente por que as sociedades humanas nas quais a afeição

sica é comum e a tolerância sexual é alta são geralmente menos violentas do que as sociedades sem essas inclinações. Talvez nessas sociedades as pessoas tenham níveis de oxitocina mais elevados. Ninguém jamais mediu a oxitocina em bonobos, mas aposto que eles a têm para dar e vender. Quem sabe John Lennon e Yoko Ono vessem razão quando passaram uma semana na cama no Hilton de Amsterdã em protesto contra a Guerra do Vietnã: o amor traz a paz.