Eu, primata

Frans de Waal · Capítulo 32 de 48

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Eu, primata

Mediadores

Se o conflito é como um temporal, as mulheres evitam exporse, enquanto os homens compram um guarda-chuva. As mulheres mantêm a paz, os homens fazem as pazes. As amizades femininas geralmente são consideradas mais profundas e mais ín mas que as dos homens. Estas são mais voltadas para a ação, como assis r juntos a um jogo. Conseqüentemente, as mulheres vêem o conflito como uma ameaça a relações que elas prezam. Como Mama e Kuif na colônia de Arnhem, elas evitam o confronto a todo custo. São muito boas nisso, o que se evidencia nos vínculos duradouros que desfrutam. Mas a profundidade de seus relacionamentos também significa que, quando uma briga chega a ocorrer, elas são incapazes de dizer “nada pessoal”. Tudo é intensamente pessoal. E por isso livrar-se da discórdia depois que ela aflorou é mais difícil do que para os homens.

 

MEDIADORES

Vernon, o macho alfa da colônia de bonobos em San Diego, costumava perseguir um macho mais jovem, Kalind, até expulsálo para o fosso seco. Era como se Vernon quisesse ver Kalind fora do grupo. Mas o jovem macho sempre voltava. Subia por uma corda, só para ser novamente enxotado. Depois de o incidente repe r-se até dez vezes seguidas, Vernon geralmente desis a. Afagava os genitais de Kalind ou começava um jogo bruto de cócegas. Sem esse contato cordial, Kalind não seria autorizado a retornar. Assim, depois de emergir do fosso, sua primeira tarefa era rodear o chefe e esperar por um sinal amistoso.

Mas as mais intensas e dramá cas reconciliações de bonobos eram sempre entre fêmeas, que podiam estar brigando em um momento e pra cando GG-rubbing logo em seguida. As reconciliações inevitavelmente nham um elemento sexual, e o mesmo comportamento podia ser usado preven vamente, para evitar conflitos. Quando Amy Parish observou a divisão de alimentos no Zoológico de San Diego, constatou que as fêmeas se aproximavam da comida gritando e faziam sexo antes de tocar no almoço. Portanto, a primeira reação não era comer nem lutar pela comida, mas entregar-se a um frené co contato sico que servia para acalmar os ânimos e abrir caminho ao compar lhamento. Isso é conhecido como “celebração”, muito embora para quem observa os bonobos o termo “orgia” possa parecer mais apropriado. Um incidente revelador ocorreu no mesmo zoológico quando os bonobos haviam acabado de receber um almoço composto de talos de aipo, totalmente monopolizados pelas fêmeas. Amy estava fotografando e ges culou para que os primatas olhassem para ela. Mas Lore a, que se apoderara da maior parte do aipo, deve ter pensado que Amy estava pedindo comida. Lore a não lhe deu atenção por uns dez minutos. De repente se levantou, dividiu o aipo e jogou metade do que nha para aquela mulher que chamava desesperadamente sua atenção. Isso mostra que as fêmeas realmente haviam acolhido Amy como uma delas. Comigo elas nunca fizeram isso, já que os grandes primatas sabem dis nguir com precisão o gênero das pessoas. Tempos depois, ao fim de sua licença-maternidade, Amy foi visitar essas mesmas amigas bonobos. Queria mostrar-lhes seu filhinho recém-nascido. A fêmea mais velha olhou o bebê de relance e desapareceu em uma jaula con gua. Amy pensou que a fêmea es vesse zangada, mas ela só fora buscar o próprio bebê. Voltou depressa e encostou o filhote no vidro para que os dois pequeninos pudessem se olhar nos olhos.

Entre os chimpanzés, as celebrações são tremendamente barulhentas. No zoológico, ocorrem quando os tratadores se aproximam com a comida, e na natureza, quando eles capturam presas. Os chimpanzés reúnem-se em grandes grupos para abraços, toques e beijos. Como entre os bonobos, fazem a festa antes que qualquer um prove a comida. As celebrações envolvem abundante contato corporal, marcando a transição para uma atmosfera tolerante na qual todos ganharão uma parte do alimento. Mas devo dizer que as celebrações mais jubilosas que já observei entre chimpanzés não veram relação alguma com comida. Toda primavera eu as via no Zoológico de Arnhem, quando eram abertas pela primeira vez as portas da jaula coberta em que eles passavam o inverno. Os chimpanzés conheciam de ouvido o som de cada porta da jaula. Depois de ficarem confinados por cinco meses no alojamento aquecido, eles estavam loucos para relaxar na grama. No segundo em que ouvia a porta se abrir, toda a colônia soltava um grito ensurdecedor que parecia saído de uma só garganta. Lá fora a algazarra con nuava, e eles se espalhavam pela ilha em pequenos grupos, pulando e batendo nas costas uns dos outros. Era um clima de festa, como se fosse o primeiro dia de uma vida nova e melhor.

Seus rostos ganhavam nova cor ao sol, e as tensões se dissipavam no ar da primavera. As celebrações demonstram a necessidade de contato sico em momentos de alegria. Essa é uma necessidade pica de todos os primatas, e a compreendemos facilmente. Procuramos esse contato quando nosso me vence ou um estudante se forma, ou em momentos di ceis como enterros ou calamidades. Essa necessidade é inata. Algumas culturas incen vam a distância entre as pessoas, mas uma sociedade desprovida de contato físico não seria verdadeiramente humana. Nossos colegas primatas também entendem essa necessidade de contato. Além de o buscarem para si, também incen vam o contato entre outros se isso puder melhorar uma relação abalada. O exemplo mais simples é o de uma fêmea juvenil que cuidava do bebê de outra fêmea. Quando o infante começava a chorar, a fêmea corria a entregá-lo à mãe, sabendo que era o melhor modo de acalmá-lo. Uma forma mais refinada de incen var o contato pode ser vista quando chimpanzés machos não se reconciliam após um confronto. Às vezes sentam-se a alguns metros de distância um do outro, esperando que o adversário tome a inicia va. Nota-se claramente seu desconforto: olham em todas as direções, o céu, a grama, o próprio corpo, evitando escrupulosamente o contato visual. Tal impasse pode durar meia hora ou mais, porém pode ser decidido por terceiros.

Uma fêmea aproxima-se de um dos machos e, depois de fazer-lhe grooming por algum tempo, anda devagar em direção ao outro. Se o primeiro macho a seguir, vai logo atrás dela, sem olhar para o outro macho. Às vezes a fêmea se vira, dá uma olhada ao redor, volta e cutuca o braço do macho relutante para que ele a siga. A fêmea senta-se perto do segundo macho e os dois brigões lhe fazem grooming, um de cada lado, até que ela simplesmente se afasta e os deixa fazendo grooming um no outro. Agora os machos arquejam, cospem e estalam os lábios com mais ruído do que antes, sons indicadores de seu entusiasmo pelo grooming. Esse comportamento, chamado “mediação”, permite aos machos rivais se aproximarem sem tomar a inicia va, sem fazer contato visual e talvez sem perder a dignidade.

A mediação promove a paz na comunidade reunindo os dois contendores. É interessante notar que só chimpanzés fêmeas são mediadoras, e apenas as mais velhas e de mais alta posição hierárquica. Isso não surpreende, pois, se um macho se aproximasse de um dos rivais, pareceria estar tomando par do no conflito. Dada a propensão dos chimpanzés machos a formar alianças, sua presença não poderia ser neutra. Por outro lado, se uma fêmea jovem, especialmente com intumescimento genital, se aproximasse de um dos machos, as tensões aumentariam porque haveria uma interpretação sexual. Na colônia de Arnhem, Mama era a mediadora por excelência: nenhum macho a ignorava, nem come a o descuido de começar uma luta que pudesse incorrer na ira dela. Também em outras colônias a fêmea de posição hierárquica mais elevada nha habilidade e autoridade para reunir machos combatentes. Já vi situações em que outras fêmeas pareciam encorajar essa inicia va, aproximando-se da fêmea mais graduada enquanto olhavam para os machos que se recusavam a se reconciliar, como se tentassem dar andamento a algo que elas sabiam não ser capazes de conseguir por si mesmas. Nesse sen do, as fêmeas dos grandes primatas não humanos claramente têm capacidade de promover a reconciliação, uma capacidade altamente refinada. Mas cabe notar que suas mediações são entre machos. Eles são recep vos a tais esforços, enquanto fêmeas podem não ser. Nunca vi uma fêmea tentar reunir duas rivais depois de uma briga. Os humanos dificilmente conseguem coexis r sem intermediários, é claro. Isso em qualquer sociedade, grande ou pequena. A harmonização de interesses díspares é ins tucionalizada e norteada por uma vasta gama de influências sociais: o papel dos mais velhos, a diplomacia estrangeira, o sistema judiciário, festas conciliatórias, pagamentos compensatórios etc. Os semai, da Malásia, por exemplo, organizam um evento chamado becharaa’, no qual reúnem os disputantes, seus parentes e o resto da comunidade na casa do chefe. Os semai sabem que há muito em jogo; um ditado desse povo diz que há mais razões para temer uma disputa do que um gre. A cerimônia é iniciada com monólogos nos quais os anciãos discorrem por muitas horas sobre as dependências mútuas na comunidade e a necessidade de manter boas relações. As disputas são em torno de questões graves, como infidelidade e propriedade, e são resolvidas em discussões que podem levar dias. Nelas, a comunidade examina todos os mo vos possíveis dos contendores, as razões que levaram ao problema e como ele poderia ter sido prevenido. A sessão termina com o chefe determinando a um ou aos dois disputantes que nunca mais repitam o que fizeram, pois isso poderia pôr todos em risco.