Eu, primata

Frans de Waal · Capítulo 14 de 48

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Eu, primata

Poder Feminino

Todo menino aprende que os membros da outra “espécie”—aquelas criaturas com quem ele nunca brinca — podem ser atormentados e provocados só quando não houver muitos espécimes por perto. Elas tendem a defender-se se es verem em grupo. A união feminina em face da adversidade é uma caracterís ca imemorial. Já mencionei que as fêmeas dos gorilas põem na linha um novo macho resis ndo a seus ataques, perseguindo-o juntas. As chimpanzés fêmeas também atacam em grupo os machos, sobretudo os perversos. Essas coalizões podem ministrar surras tão memoráveis que qualquer macho, compreensivelmente, se apressa a sair do caminho. Como nenhuma das fêmeas pode equiparar-se a um macho em força e velocidade, a solidariedade é crucial. Na colônia de Arnhem, essa solidariedade somava-se à autoridade de Mama, a orquestradora-mor. Não só todas as fêmeas a reconheciam como líder, mas também ela própria não era avessa a lembrá-las do fato. Se durante as lutas dos machos pelo poder alguma fêmea apoiasse o contendor que não fosse o escolhido de Mama, podia haver sérias repercussões. A renegada teria no que pensar enquanto lambia as feridas. O poder das fêmeas é menos óbvio entre os chimpanzés na natureza. Elas tendem a se deslocar sozinhas com suas crias dependentes, sendo forçadas a se separar para procurar os frutos e folhas de sua dieta. Os recursos são demasiado esparsos para que todo um grupo os procure junto. Essa dispersão impede as fêmeas de formar o mesmo

po de aliança que vemos em ca veiro, onde os gritos de uma recrutam todas as outras. A proximidade reduz as disparidades de gênero. Considere-se o exemplo das fêmeas em zoológico que “confiscam” armas dos machos, ocorrência nunca vista nas observações de campo. Uma fêmea aproxima-se de um macho que se prepara para um confronto. Ele se senta com os pêlos eriçados, balança o corpo para os lados e emite vocalizações que lembram pios de coruja. Os machos podem aquecer-se desse modo por dez minutos antes de se lançarem ao ataque. Isso proporciona às fêmeas a oportunidade de abrir à força as mãos do macho e arrancar-lhe as armas, objetos como pedaços de pau ou pedras pesadas. E têm excelentes razões para fazê-lo: é comum os machos extravasarem nelas suas frustrações.

Essa rela va igualdade entre os sexos no zoológico pode ser ar ficial, mas é muito instru va. Indica um potencial para a solidariedade entre as fêmeas que poucos suporiam observando chimpanzés na natureza. É precisamente esse potencial que foi percebido pela espécie irmã dos chimpanzés. As fêrrreas bonobos agem em equipe na floresta, onde vivem em um ambiente mais rico, que lhes permite deslocar-se em grupo. Os bonobos formam grupos mais numerosos que os dos chimpanzés, e por isso as fêmeas são muito mais sociáveis. Uma longa história de vínculos entre fêmeas, expressos em muitas sessões de grooming e sexo, fez mais do que minar a supremacia dos machos: virou a mesa. O resultado é uma ordem fundamentalmente diferente. No entanto, ao mesmo tempo, vejo con nuidade: as fêmeas bonobos aperfeiçoaram a solidariedade feminina latente em todos os grandes primatas africanos. A dominância cole va das fêmeas bonobos é bem conhecida nos zoológicos, e os pesquisadores de campo sem dúvida começaram a desconfiar de sua existência anos antes. Mas ninguém queria ser o primeiro a afirmar algo tão escandaloso, considerando o al ssimo grau em que a dominância masculina é da como inques onável na evolução humana. Ou melhor, era até 1992, quando cien stas apresentaram conclusões que não deixaram dúvidas quanto ao poder feminino. Um estudo inves gou a compe ção por alimento em zoológicos, documentando como um chimpanzé macho que vivia com duas fêmeas apoderava-se de tudo enquanto um macho bonobo nas mesmas circunstâncias talvez nem conseguisse chegar perto da comida. Ele podia fazer quantas demonstrações ritualizadas de agressividade quisesse, mas as fêmeas não faziam caso da comoção e dividiam a comida entre si. Na natureza, uma fêmea alfa bonobo entra decidida em uma clareira arrastando um ramo de árvore, fazendo uma demonstração de agressividade enquanto é evitada e observada por todos os outros. Não é raro fêmeas bonobos enxotarem os machos e se apoderarem dos frutos graúdos que eles dividiram entre si. Os frutos do Anonidium pesam até dez quilos, e os do Treculia podem a ngir trinta quilos, quase o peso de um bonobo adulto. Quando despencam no chão, esses frutos enormes são arrebatados pelas fêmeas, que só às vezes acham por bem dividi-los com os machos. Embora individualmente não seja raro um bonobo macho suplantar uma fêmea, sobretudo se ela for muito jovem, no plano cole vo as fêmeas sempre dominam os machos.

Dada nossa fascinação pelas questões de gênero, não admira que os bonobos se tornassem um sucesso instantâneo. Alice Walker dedicou seu livro By the light of my father’s smile [Pela luz do sorriso de meu pai] a nosso parente próximo, e a colunista do New York Times Maureen Dowd misturou certa vez comentários polí cos com elogios à igualdade sexual dos bonobos. Para outros, porém, o bonobo pareceu quase bom demais para ser verdade. Seria ele talvez uma maquinação “poli camente correta”, um primata forjado para sa sfazer os liberais? Alguns cien stas asseveraram que os bonobos machos não eram subordinados, e sim apenas “cavalheiros”. Atribuíram a esses primatas uma “deferência estratégica”, explicando, assim, a influência do sexo frágil como decorrência do bom coração do sexo forte. Afinal, salientaram, a dominância das fêmeas parecia limitada à comida. Outros tentaram remover totalmente os bonobos da árvore genealógica humana. Um eminente antropólogo chegou ao ponto de insinuar que não faria mal algum desconsiderar os bonobos: o fato de estarem ameaçados na natureza mostrava que não foram mesmo bem-sucedidos. Os bonobos machos serão apenas bons sujeitos? Animais tornam-se irrelevantes assim que entram na lista dos ameaçados? Se existe um padrão de medida que tenha sido aplicado a todos os animais do planeta, é este: se o indivíduo A pode enxotar o indivíduo B para longe da sua comida, A inegavelmente é dominante. Como observou Takayoshi Kano, o cien sta japonês que estudou bonobos durante 25 anos na África, o alimento é exatamente o obje vo da dominância das fêmeas. Se isso é o que lhes interessa, deveria interessar também ao observador humano. Kano ressaltou também que, mesmo não havendo comida por perto, machos totalmente crescidos reagem com submissão e medo à mera aproximação de uma fêmea de posição hierárquica elevada. Entre os que trabalham com bonobos, o choque e a descrença iniciais esvaíram-se. Já nos habituamos tanto à inversão da ordem nessa esfera dos sexos que não conseguimos sequer imaginá-la de outro modo. Parece muito natural. Os cé cos aparentemente não conseguem ir além do modo como as coisas funcionam na nossa espécie. Durante a viagem para promover meu livro Bonobo — The forgo en ape [Bonobo: o primata esquecido], o ponto alto — ou talvez tenha sido o ponto baixo — foi uma pergunta feita por um respeitadíssimo professor alemão de biologia. Ele se levantou no final da minha palestra e bradou, em um tom quase acusador: “O que há de errado com esses machos?!”. O professor estava perplexo com a dominância das fêmeas. Eu, por outro lado, sempre achei que, considerando o alto índice de a vidade sexual e os baixos níveis de agressão entre os bonobos, os machos não têm do que reclamar. Poderíamos supor que sejam menos estressados do que seus irmãos humanos e chimpanzés. No entanto, minha resposta ao professor — que parecia estar tudo certo com os bonobos machos — pelo jeito não o sa sfez. Esse grande primata refuta profundamente as suposições sobre nossa linhagem e comportamento.

Mas, então, o que há de tão bom em ser um bonobo macho? Para começar, a proporção entre machos e fêmeas adultos na natureza é de quase um para um. As sociedades bonobos incluem números iguais de machos e fêmeas, enquanto muitas sociedades de chimpanzés contêm duas vezes mais fêmeas do que machos. Como em ambas as espécies a proporção de machos e fêmeas recém-nascidos é igual, e como não existem machos desgarrados vivendo fora das comunidades, inferimos que a mortalidade entre os chimpanzés machos é extraordinária. Isso não surpreende, considerando a guerra intercomunidade nessa espécie, bem como os ferimentos e o estresse associados às con nuas lutas pelo poder. O resultado é que os bonobos machos têm vida mais longa e saudável do que seus congêneres chimpanzés. Já se supôs que os bonobos possuíam uma estrutura familiar semelhante à nossa: foram encontrados machos adultos que man nham vínculos estáveis com determinadas fêmeas. Finalmente um grande primata que nos esclarece sobre as origens da monogamia, pensamos. Mas descobrimos depois, graças ao paciente trabalho de campo de Kano e outros, que esses vínculos na realidade eram entre mãe e filho: um macho crescido segue sua mãe pela floresta, beneficiando-se de sua atenção e proteção, especialmente se ela ver posição hierárquica elevada. De fato, a hierarquia dos machos é uma questão materna. Em vez de formarem coalizões masculinas sempre mutáveis, os bonobos machos competem por posições agarrados à saia da mãe. Exemplo pico é uma fêmea alfa selvagem, Kame, com nada menos que três filhos crescidos, o mais velho deles um macho alfa. Quando Kame começou a enfraquecer devido à idade avançada, passou a hesitar em defender a prole. O filho da fêmea beta sem dúvida percebeu, pois passou a desafiar os filhos de Kame. Nisso era apoiado pela mãe, que não temia atacar o macho superior em bene cio do próprio filho. Os atritos intensificaram-se a ponto de as duas mães par rem para as vias de fato, rolando engalfinhadas no chão, até que a fêmea beta subjugou Kame. Esta nunca se recuperou da humilhação, e logo seus filhos caíram para posições médias na hierarquia. Após a morte de Kame eles perderam importância no grupo, e o filho da nova fêmea alfa assumiu o topo. Se os filhos de Kame fossem chimpanzés, se uniriam em defesa de suas posições. Nos bonobos, porém, as alianças entre os machos não são bem desenvolvidas, e justamente esse fato permite às fêmeas ter tanto impacto. Mesmo raras, as observações dessas lutas pelo poder também desmentem a idéia de que a sociedade dos bonobos é puramente igualitária. As tensões não estão ausentes, os machos são muito compe vos e as fêmeas também podem sê-lo. A hierarquia parece compensar sobremaneira. Os machos do topo contam com maior tolerância das fêmeas no acesso à comida e têm mais parceiras sexuais. Isso significa que, se uma mãe consegue instalar o filho nos escalões superiores, promove sua própria reprodução por meio dos netos que ele lhe dá. Não que os bonobos compreendam essa relação, mas a seleção natural há de ter favorecido as mães que ativamente auxiliaram os esforços dos filhos por status. Quer dizer que a sociedade bonobo é basicamente o inverso da dos chimpanzés? De jeito nenhum. A meu ver, o chimpanzé é muito mais um zoon poli koni (animal polí co). Isso está relacionado com o modo como as coalizões são formadas e com a diferente natureza da hierarquia das fêmeas. Tanto entre os outros grandes primatas como entre os humanos, a hierarquia das fêmeas é menos contestada, e conseqüentemente requer menos esforço para ser imposta. As mulheres raramente pensam sobre si mesmas em linhas hierárquicas, e suas relações nunca são tão formalizadas como as que existem entre os homens. Mas inegavelmente há mulheres que são mais respeitadas do que outras. É muito mais comum mulheres mais velhas dominarem outras mais jovens do que o inverso. Na mesma camada social, as mais velhas parecem dominar. Tradicionalmente, as mulheres exercem sua maior influência na família, onde não precisam lutar, blefar ou bravatear para chegar ao topo; simplesmente chegam lá com a idade. Personalidade, educação e tamanho da família decerto influenciam, e há muitos modos su s de compe ção entre as mulheres. Porém, sendo tudo o mais igual, a idade parece ser pelo menos meio caminho andado para definir a posição de uma mulher entre outras.

Isso se aplica também aos outros grandes primatas. Na natureza, fêmeas mais velhas têm ascendência sobre as mais jovens, recém-chegadas de outro grupo. As fêmeas, na puberdade, deixam sua comunidade e ingressam em outra. No caso dos chimpanzés, elas precisam encontrar uma área para si no território da nova comunidade, muitas vezes compe ndo com fêmeas residentes. Já com os bonobos, como há vínculos mais estreitos entre as fêmeas, as jovens buscam o “patrocínio” de uma residente: fazem grooming e sexo com ela e por fim a mais velha passa a agir como benfeitora da mais nova, tomando-a sob sua proteção. Com o tempo, essa fêmea mais jovem pode tornar-se protetora de novas imigrantes, e assim o ciclo prossegue. Também nesse sistema encontramos a prevalência das mais velhas nos escalões superiores. Mesmo se as posições na hierarquia das fêmeas nunca sejam perfeitamente graduadas segundo a idade, esta explica boa parte da ordem.

Lutas pela dominância são muito menos comuns entre fêmeas do que entre machos de grandes primatas. E, quando ocorrem, são sempre entre fêmeas da mesma faixa etária. Em um grupo que inclui fêmeas com mais de trinta anos nunca encontraremos uma de 21 anos no topo. Não é uma questão de potência sica, pois as de 21 anos estão na plenitude; acontece que parece inexistir totalmente em fêmeas mais jovens a vontade de enfrentar aquelas senhoras duronas e experientes. Conheço fêmeas alfa cuja posição permaneceu incontestada por décadas. Obviamente, há um limite para a capacidade de uma fêmea alfa permanecer no topo, determinado por sua saúde sica e mental, mas as fêmeas atingem esse limite décadas depois dos machos. É fascinante o modo como fêmeas mais velhas põem outra mais nova na linha, pois na maioria das vezes isso é feito sem agressão declarada. Vista como figura materna pelas mais novas, que não têm a mãe verdadeira por perto, para mandar recado a mais velha só precisa rejeitar um gesto amistoso, recusar-se a par lhar comida ou dar as costas e se afastar quando a outra tentar fazer-lhe grooming. A mais velha está fazendo pressão emocional. A mais nova pode ter um acesso de raiva, que a outra observará absolutamente imperturbável: ela já viu isso antes. As razões do desprezo muitas vezes também são su s. Ele pode ocorrer horas depois que a mais nova beliscou uma cria da mais velha, pegou um pedaço do alimento que a mais velha se preparava para apanhar ou deixou de se afastar do macho alfa quando a mais velha chegou para fazer grooming nele. Para o observador humano, é mais di cil acompanhar as interações entre as fêmeas do que os confrontos diretos entre os machos. Como entre os machos a dominância tem por base as habilidades de luta e o apoio de amigos, o impacto da idade é bem diferente. Envelhecer, para um macho, nunca é vantajoso. Machos alfa raramente se mantêm no poder por mais de quatro ou cinco anos. Em um sistema de dominação por machos, como o dos chimpanzés, a troca de ocupantes do topo ocorre com freqüência, ao passo que em sistemas de dominação por fêmeas, como o dos bonobos, a mudança social é menos comum e mais gradual. Só se a fêmea alfa enfraquecer ou morrer haverá movimentação, e apenas no escalão superior. Isso dá muito menos margem para que indivíduos ambiciosos possam melhorar sua posição.