Eu, primata

Frans de Waal · Capítulo 10 de 48

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Eu, primata

Poder

 

Sangue de Maquiavel

Assinalo, assim, em primeiro lugar, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto

desejo de poder e mais poder, que cessa apenas com a morte.

Thomas Hobbes

O igualitarismo não é simplesmente a ausência de um chefe, mas a insistência positiva na qualidade

essencial de todas as pessoas e a recusa a curvar-se à autoridade de outros.

Richard Lee

Pedalando encosta acima em uma das raras colinas de minha Holanda natal, eu me preparava para a horrenda visão que me esperava no Zoológico de Arnhem. Ao amanhecer, recebera um telefonema avisando que Luit, o chimpanzé macho de quem eu mais gostava, fora trucidado pelos de sua espécie. Os grandes primatas podem fazer estragos medonhos com seus caninos poderosos. O mais das vezes só procuram in midar uns aos outros com demonstrações de agressividade que chamamos de “blefes”, porém ocasionalmente o blefe é reforçado com ação. No dia anterior eu saíra do zoológico preocupado com Luit, mas estava totalmente despreparado para o que encontrei.

Normalmente orgulhoso e não muito afetuoso com pessoas, Luit agora queria ser tocado. Estava sentado em uma poça de sangue, a cabeça apoiada nas barras da jaula noturna. Quando lhe fiz um afago, ele exalou um suspiro fundo. Finalmente estabelecíamos um vínculo, só que no momento mais triste de minha carreira de primatólogo. Era evidente que a vida de Luit estava em risco. Ele ainda podia andar, mas perdera uma quan dade enorme de sangue. Tinha perfurações profundas em todo o corpo, faltavam-lhe dedos dos pés e das mãos. Logo descobrimos que faltavam partes ainda mais vitais.

Passei a pensar naquele momento em que Luit me olhou em busca de apoio e consolo como uma alegoria da humanidade moderna: como primatas violentos, banhados em nosso próprio sangue, ansiámos por ser reconfortados. Apesar da nossa tendência a mu lar e matar, queremos ouvir que tudo vai ficar bem. Na hora, porém, eu só pensava em tentar salvar a vida de Luit. Assim que o veterinário chegou, Luit foi sedado e o levamos para a sala de cirurgia, onde ele recebeu centenas de pontos nos ferimentos. Foi durante essa operação desesperada que descobrimos a ausência dos tes culos. Haviam desaparecido do saco escrotal, embora os furos na pele parecessem menores que os tes culos propriamente ditos. Os tratadores encontraram-nos no chão da jaula, jogados na palha. “Foram espremidos”, concluiu, impassível, o veterinário.

 

DOIS CONTRA UM

Luit não voltou da anestesia. Pagou caro por enfrentar outros dois machos, frustrando-os com sua rápida ascensão. Os dois vinham tramando contra ele a fim de reaver o poder que haviam perdido. O modo chocante como o fizeram abriu-me os olhos para o fato de que os chimpanzés levam sua polí ca mortalmente a sério. As manobras de dois contra um são o que traz tanto refinamento como perigo às lutas de poder entre os chimpanzés. As coalizões são essenciais. Nenhum macho pode dominar sozinho, pelo menos não por muito tempo, pois o grupo como um todo pode derrubar qualquer um. Os chimpanzés são tão hábeis para coligarse que um líder precisa de aliados a fim de fortalecer sua posição e aumentar a aceitação da comunidade em geral. Manter-se no topo é um exercício de equilíbrio entre expressar veementemente a dominância, manter os aliados sa sfeitos e evitar a revolta em massa. Se isso parece familiar, é porque a política humana funciona exatamente da mesma forma. Antes da morte de Luit, a colônia de Arnhem era dominada conjuntamente por Nikkie, um jovem emergente, e Yeroen, um cúmplice já entrado em anos. Nikkie, recém-chegado à fase adulta aos dezessete anos, era um sujeito musculoso de expressão apatetada. Apesar de muito decidido, não primava pela esperteza. Já Yeroen, seu assecla, não estava mais fisicamente à altura da tarefa de liderar, porém exercia enorme influência nos bas dores. Costumava assis r às disputas de longe e interferir só quando os ânimos ferviam, apoiando um lado ou outro e, assim, forçando todo mundo a prestar atenção em suas decisões. Yeroen explorava astutamente as rivalidades entre os machos mais jovens e mais fortes do que ele.

Sem entrarmos na complexa história desse grupo, estava claro que Yeroen odiava Luit, pois este, anos antes, lhe arrebatara o poder. Luit derrotara Yeroen em uma luta ao longo de três longos e quentes meses de verão nos quais toda a colônia viveu sob tensão dia após dia. No ano seguinte, Yeroen desforrara-se ajudando Nikkie a destronar Luit. Desde então, Nikkie fora o macho alfa, e Yeroen seu braço direito. Os dois tornaram-se inseparáveis. Luit não temia nenhum dos dois isoladamente. Nas refregas de um contra um nas jaulas noturnas, Luit dominava todos os outros machos da colônia, rava-lhes a comida e os perseguia. Sozinho, nenhum deles poderia tê-lo subjugado. Isso significava que Yeroen e Nikkie lideravam juntos, e somente juntos. Assim foi por quatro longos anos. Mas sua coalizão finalmente começou a afrouxar e, como não é raro ocorrer também entre os homens, a causa da cisão foi sexo. Por ter sido o fazedor de reis, Yeroen desfrutava privilégios sexuais extraordinários. Nikkie não permi a que nenhum outro macho se aproximasse das fêmeas mais atraentes, mas para Yeroen ele sempre abria exceção. Era parte do trato: Nikkie man nha o poder, e Yeroen ganhava uma fa a da torta sexual. Esse feliz arranjo terminou apenas quando Nikkie tentou renegociar suas condições. Nos quatro anos de seu domínio, fora ganhando autoconfiança. Já esquecera quem o ajudara a chegar ao topo? Quando o jovem líder começou a querer ser o manda-chuva, interferindo nas aventuras sexuais não só dos outros machos mas também nas de Yeroen, a situação ficou feia. A luta intes na na coalizão dominante prosseguiu por meses, até que um dia Yeroen e Nikkie deixaram de se reconciliar após uma rusga. Quando Nikkie o seguiu aos gritos, implorando pelo costumeiro abraço, a velha raposa finalmente se afastou sem olhar para trás. Yeroen estava farto. Luit preencheu o vácuo de poder da noite para o dia. O mais magnífico chimpanzé macho que já conheci, em corpo e espírito, rapidamente ganhou relevo como alfa. Era popular com as fêmeas, poderoso árbitro de disputas, protetor dos oprimidos e eficiente no rompimento de vínculos entre rivais — a tá ca de dividir para governar comum a chimpanzés e homens. Assim que Luit via outros machos juntos, ia juntar-se a eles ou fazia uma demonstração de agressividade para dispersá-los. Nikkie e Yeroen pareciam tremendamente deprimidos com a súbita perda de status. Davam a impressão de ter encolhido. Às vezes, porém, pareciam dispostos a ressuscitar sua an ga coalizão. O fato de isso ter acontecido no alojamento noturno, onde Luit não