Eu, primata
Tendência Arcaica
Considerando a óbvia “vontade de poder” que Friedrich Nietzsche iden ficou na raça humana, a enorme energia empregada em sua expressão, a emergência de hierarquias já na infância e a devastação infan l de homens adultos ao caírem do topo, não consigo compreender o tabu com que nossa sociedade cerca esse assunto. A maioria dos livros didá cos de psicologia nem sequer menciona o poder e a dominância, exceto em relação a relacionamentos abusivos. A negação parece generalizada. Em um estudo sobre a mo vação para o poder, diretores de empresa responderam a perguntas sobre sua relação com o poder. Admi ram, sim, a existência da ânsia de poder, porém nunca a aplicaram a si mesmos.
O que eles apreciavam era a responsabilidade, o prestígio e a autoridade. Os sedentos de poder eram outros homens. Candidatos polí cos são igualmente relutantes. Vendem a imagem de que são servidores do povo, concorrendo ao cargo unicamente com o fito de consertar a economia ou melhorar a educação. Alguém já ouviu um candidato admi r que quer o poder? Obviamente o termo “servir” tem duplo objeto: quem acredita que é apenas pensando no nosso bene cio que eles mergulham no mar de ofensas pessoais da democracia moderna? Será que os próprios candidatos acreditam nisso? Que sacri cio absolutamente incomum seria! Trabalhar com chimpanzés é um alívio: eles são os políticos sinceros pelos quais todos ansiámos. Quando o filósofo político Thomas Hobbes postulou uma insopitável ânsia de poder, acertou no alvo tanto para os humanos como para os outros grandes primatas. Observando como os chimpanzés competem flagrantemente por status, em vão procuramos mo vos ulteriores e promessas oportunistas.
Eu não estava preparado para isso quando, jovem estudante, comecei a acompanhar os dramas entre os chimpanzés de Arnhem de uma janela de observação com vista para a ilha dos primatas. Naquela época, estudante que se prezava era rebelde, o que eu provava ser com minha cabeleira caindo pelos ombros. Para nós, o poder era mau, e a ambição, ridícula. No entanto, minhas observações de primatas abriram-me a mente à força para as relações de poder não como algo perverso, e sim naturalmente arraigado. Talvez a desigualdade não devesse ser descartada simplesmente como um produto do capitalismo. Parecia ser mais profunda do que isso. Hoje pode soar banal, mas nos anos 70 o comportamento humano era visto como algo totalmente flexível: não natural, mas cultural. As pessoas acreditavam que, se realmente quiséssemos, poderíamos nos livrar de tendências arcaicas como o ciúme sexual, os papéis de cada sexo, a propriedade privada e, sim, o desejo de dominar.
Ignorantes desse apelo revolucionário, meus chimpanzés demonstravam as mesmas tendências arcaicas, porém sem traços de dissonância cogni va. Eram ciumentos, sexistas e possessivos, pura e simplesmente. Na época, eu não sabia que iria trabalhar com eles pelo resto da minha vida, ou que nunca mais teria o luxo de me sentar em um banquinho de madeira e observá-los por milhares de horas. Aquele foi o período mais revelador da minha vida. De tão absorto, comecei a tentar imaginar o que levava meus primatas a decidir por esta ou aquela ação. Comecei a sonhar com eles à noite e, mais significativamente, a ver as pessoas à minha volta sob uma luz diferente. Sou um observador nato. Minha mulher, que nem sempre me conta o que compra, aprendeu a viver com o fato de que posso entrar num cômodo e em segundos perceber qualquer coisa nova ou mudada, por menor que seja. Pode ser apenas um novo livro inserido no meio dos outros, ou um novo frasco na geladeira. Faço isso sem intenção consciente. Do mesmo modo, gosto de prestar atenção no comportamento humano. Quando escolho lugar no restaurante, prefiro o que me permita ver o maior número de mesas possível. Aprecio acompanhar a dinâmica social ao meu redor — amor, tensão, tédio, an pa a — expressa na linguagem corporal, que considero mais informa va do que a palavra falada. Como observar os outros é algo que faço automa camente, tornar-se uma mosca na parede da colônia de primatas foi uma habilidade que me veio naturalmente.
Minhas observações ajudaram-me a ver o comportamento humano da perspec va da evolução. Refiro-me aqui não só à perspectiva darwinista de que tanto se ouve falar, mas também ao modo tão semelhante ao dos outros grandes primatas como coçamos a cabeça quando em conflito ou à expressão desolada quando um amigo presta atenção demais em outra pessoa. Ao mesmo tempo, comecei a ques onar o que me haviam ensinado sobre os animais: apenas seguem o ins nto, não têm a menor noção de futuro, tudo o que fazem é egoísta. Eu não conseguia conciliar essas idéias com o que estava observando. Perdi a capacidade de generalizar sobre “o chimpanzé”, da mesma forma que ninguém fala sobre “o humano”. Quanto mais eu observava, mais as minhas opiniões começavam a assemelhar-se às que temos sobre as pessoas: fulano é bondoso e cordial, sicrano é egocêntrico. Não há dois chimpanzés iguais. Não consegue acompanhar o que está acontecendo em uma comunidade de chimpanzés quem não dis ngue os atores e não tenta compreender seus obje vos. “A polí ca dos chimpanzés”, como a polí ca humana, é um embate de estratégias individuais para ver quem sai vencedor. A literatura da biologia não ajudou a entender as manobras sociais porque tem aversão à linguagem dos mo vos. Biólogos não falam em intenções e emoções. Por isso, recorri a Nicolau Maquiavel. Durante momentos tranqüilos de observação, li o livro publicado quatro séculos antes. O príncipe deu-me a perspec va certa para interpretar o que estava vendo na ilha, embora sem dúvida nenhuma o próprio filósofo nunca tenha imaginado essa aplicação específica para sua obra. Entre os chimpanzés, a hierarquia permeia tudo. Quando trazemos duas fêmeas para o prédio — elas vêm com freqüência, para testes —, e as pomos para trabalhar na mesma tarefa, uma delas mostra-se disposta a começar, e a outra não se pron fica. A segunda fêmea quase não se atreve a aceitar recompensas e não quer tocar na caixa do quebra-cabeça, no computador ou em qualquer outra coisa que estejamos usando no experimento. Pode estar tão ávida quanto a outra, mas refreia-se em deferência à sua “superiora”. Não há tensão nem hos lidade, e lá fora, no grupo, elas podem ser as melhores amigas. Simplesmente, uma fêmea domina a outra. Na colônia de Arnhem, a fêmea alfa, Mama, ocasionalmente frisava sua posição com ataques ferozes a outras fêmeas, mas em geral era respeitada sem contestações. A melhor amiga de Mama, Kuif, compar lhava com ela o poder, porém de modo muito diferente das coalizões de machos. As fêmeas ascendem ao topo porque todos as reconhecem como líderes, o que significa que há poucos mo vos para luta. Visto que em grande medida o status é uma questão de personalidade e idade, Mama não precisava de Kuif. Esta par lhava, mas não contribuía para o poder da outra. Já entre os machos, o poder é disputável sempre. Não é a idade ou qualquer outra característica que o confere; requer luta para ser obtido e tem de ser ciumentamente defendido dos contendores. Se machos formam coalizões, é porque precisam uns dos outros. O status é determinado por quem pode vencer quem, não apenas individualmente mas no grupo como um todo. Não convém a um macho poder derrotar fisicamente seu rival, se toda vez que tentar fazê-lo o grupo inteiro pular em cima dele. Para dominar, um macho precisa tanto da força sica como de companheiros que o ajudem quando uma luta se tornar di cil demais. Quando Nikkie era o alfa, a assistência de Yeroen era crucial. Não era só da ajuda do macho mais velho para conter Luit que ele precisava; acontece que Nikkie também era impopular com as fêmeas. Não raro, elas se uniam contra ele. Yeroen, por ser muito respeitado, conseguia impedir a insa sfação da massa colocando-se entre Nikkie e as fêmeas vociferantes. Essa dependência de Nikkie torna ainda mais surpreendente que ele acabasse cuspindo no prato em que comeu. Mas com as estratégias complexas vêm os erros de cálculo. É por isso que falamos em “habilidades” polí cas: não é tanto uma questão de quem você é, mas do que você faz. Somos primorosamente sintonizados com o poder e reagimos rápido a qualquer nova configuração. Se um empresário tenta obter um contrato com uma grande corporação, par cipará de incontáveis reuniões com todo po de pessoa, de onde emergirá um quadro de rivalidades, lealdades e invejas na corporação que ele está visitando: quem deseja tal cargo, quem se sente excluído por quem, quem está em ascensão ou em decadência. Esse quadro é no mínimo tão valioso quanto o organograma da companhia. Não poderíamos sobreviver sem nossa sensibilidade para a dinâmica do poder.
O poder está em toda a nossa volta, con nuamente confirmado e contestado, e percebido com grande exa dão. Mas os cien stas sociais, polí cos e leigos tratam-no como uma batata quente. Preferimos encobrir a mo vação básica. Todo aquele que, como Maquiavel, desfaz o encanto chamando-o por aquilo que é, arrisca sua reputação. Ninguém quer ser chamado de “maquiavélico”, muito embora a maioria de nós o seja.