Eu, primata

Frans de Waal · Capítulo 43 de 48

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Eu, primata

O Primata bipolar

Em busca do equilíbrio

O que melhor nos caracteriza, o ódio ou o amor? O que é mais crucial para a sobrevivência, a compe ção ou a cooperação? Somos mais parecidos com os chimpanzés ou com os bonobos? Essas questões são perda de tempo para criaturas bipolares como nós. Eqüivalem a perguntar se é melhor medir uma super cie pela largura ou pelo comprimento. Pior ainda é a tenta va de considerar apenas um pólo em detrimento do outro. No entanto, é o que o Ocidente tem feito há séculos, retratando nosso lado compe vo como mais autên co do que nosso lado social. Mas, se as

pessoas fossem tão egoístas como se supõe, como formariam sociedades? A idéia tradicional é a de um contrato entre ancestrais, que decidiram viver juntos “apenas por um pacto, o que é ar ficial”, nas palavras de Thomas Hobbes. Somos vistos como solitários que unem as forças relutantemente: espertos o bastante para reunir os recursos, mas desprovidos de verdadeira atração pelos de nossa espécie. O an go provérbio romano Homo homini lupus — “O homem é o lobo do homem” — capta essa visão associal que ainda hoje inspira o direito, a economia e a ciência polí ca. O problema não é apenas que esse ditado nos representa erroneamente; ele também insulta um dos mais gregários e leais cooperadores do reino animal. Tão leal, de fato, que nossos ancestrais sabiamente o domes caram. Os lobos sobrevivem derrubando presas maiores do que eles, animais como renas e alces, e fazem isso com trabalho em equipe. Ao voltarem da caça, regurgitam a carne para as mães lactantes, os filhotes e às vezes os velhos e doentes que ficaram para trás. Como as torcidas cantantes do futebol, reforçam a união da ma lha uivando em conjunto antes e depois da caçada. A compe ção existe, mas os lobos não podem se dar ao luxo de permi r que ela siga seu curso. Lealdade e confiança vêm primeiro. Comportamentos que solapam o alicerce da cooperação são reprimidos para impedir a erosão da harmonia, a base da sobrevivência. Um lobo que permi sse a prevalência de seus limitados interesses individuais logo se veria sozinho caçando ratos.

Os grandes primatas não humanos conhecem essa mesma solidariedade. Um estudo constatou que no Parque Nacional de Tai, na Costa do Marfim, os chimpanzés cuidavam de companheiros feridos por leopardos: lambiam o sangue, removiam cuidadosamente a sujeira e impediam as moscas de chegar perto das feridas. Enxotavam os insetos, protegiam companheiros feridos e se deslocavam devagar quando estes nham

dificuldade para acompanhá-los. Tudo isso faz sen do, pois os chimpanzés vivem em grupo por uma razão, assim como lobos e humanos são animais que vivem em grupo por uma razão. Não seríamos o que somos hoje se nossos ancestrais houvessem sido socialmente arredios. O que vejo, portanto, é o oposto da tradicional imagem da natureza “rubra nos dentes e garras”, na qual o indivíduo vem primeiro e a sociedade é apenas uma idéia surgida posteriormente. Não se pode colher os bene cios da vida em grupo sem contribuir para ela. Todo animal social a nge o próprio equilíbrio entre as duas. Alguns são rela vamente desagradáveis, outros rela vamente amáveis. Mas até as sociedades mais implacáveis, como a dos babuínos e a dos símios do gênero Macacus, limitam os conflitos internos. Muitos imaginam que, na natureza, fraqueza automa camente significa eliminação — princípio alardeado como “lei da selva”—, mas na realidade os animais sociais desfrutam de tolerância e apoio consideráveis. Do contrário, por que viver junto?