Eu, primata

Frans de Waal · Capítulo 30 de 48

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Eu, primata

Dêem uma Chance à Paz

Quando cheguei da Europa, há mais de duas décadas, fiquei pasmo com a violência na mídia americana. Não me refiro só ao no ciário, mas a tudo: o cinema, as séries cômicas e dramá cas na televisão, e por aí vai. Evitar Schwarzenegger e Stallone não resolve: quase todo filme americano mostra violência. Inevitavelmente, ocorre a dessensibilização. Se você disser, por exemplo, que Dança com lobos, filme de 1990 com Kevin Costner, é violento, vão achar que você está louco. O que as pessoas se lembram é de um filme idílico, sen mental, com belas paisagens, sobre um raro homem branco que respeitava os índios americanos. A sangueira não é registrada. Nas comédias é a mesma coisa. Gosto do programa Saturday Night Live porque permite vislumbres crí cos de fenômenos muito americanos, como as cheerleaders (líderes de torcida), os televangelistas e os advogados de celebridades. Mas o programa estaria incompleto sem pelo menos um quadro no qual o carro de alguém explode ou alguém perde a cabeça. Personagens como Hans e Franz só têm graça para mim por causa dos nomes (sim, eu tenho um irmão chamado Hans), mas, quando erguem halteres tão pesados que arrancam fora seus braços, fico desconcertado. O sangue jorra e a platéia se mata de rir, mas eu não vejo onde está a graça. Será que cresci em uma terra de maricas? Talvez, mas o importante é que existe uma grande diferença no modo como a violência é retratada em diferentes sociedades. E o que valorizamos mais: harmonia ou compe vidade? Esse é o problema da espécie humana. Em algum lugar no meio de tudo isso reside a verdadeira natureza humana, mas ela é es cada em tantas direções que não conseguimos definir se somos naturalmente compe vos ou naturalmente

comunitários. Na realidade, somos ambos, mas cada sociedade alcança seu próprio equilíbrio. Entre os americanos, valoriza-se o vencedor; entre os japoneses, a conformidade ao grupo.

Essa variabilidade significa que não podemos aprender com outros primatas? Não é tão simples. Primeiro, cada espécie tem seu modo de lidar com o conflito. Os chimpanzés são mais confrontadores do que os bonobos. Mas também se considerarmos cada espécie isoladamente encontraremos, como nos humanos, variações de grupo para grupo. Vemos “culturas” de violência e “culturas” de paz. E estas úl mas são possibilitadas por nossa habilidade universal de primatas para nivelar as diferenças. Nunca me esqueço de um dia de inverno no Zoológico de Arnhem. Toda a colônia de chimpanzés estava trancada em jaulas fechadas, abrigada do frio. Durante uma demonstração atualizada de agressividade, vi o macho alfa atacar uma fêmea, o que causou grande comoção, pois outros acorreram em defesa dela. O grupo acalmou-se, mas sobreveio um silêncio incomum, como se todos es vessem esperando alguma coisa. Durou dois minutos. De repente, toda a colônia explodiu numa tremenda gritaria, e um macho pisoteou ritmicamente os tambores de metal empilhados no canto da jaula. Em meio a todo aquele pandemônio, no centro das atenções, dois chimpanzés se beijaram e se abraçaram. Refle sobre esses acontecimentos por horas até me dar conta de que os dois que se abraçavam eram o macho e a fêmea da briga original. Tudo bem, sou mesmo lerdo, mas ninguém até então jamais mencionara a possibilidade de reconciliação em animais. Pelo menos esse foi o termo que me veio à mente. Desde aquele dia, estudo a reconciliação entre chimpanzés e outros primatas ou, como dizemos hoje em dia, a resolução de conflitos. Outros vêm estudando o mesmo assunto em várias espécies, entre elas golfinhos e hienas. Parece que muitos animais sociais sabem como se reconciliar, e por boas razões. O conflito é inevitável, mas ao mesmo tempo os animais dependem uns dos outros. Procuram comida juntos, alertam-se mutuamente contra os predadores, unem-se para enfrentar inimigos. Precisam manter boas relações a despeito de rusgas ocasionais, exatamente como qualquer casal humano. Os macacos-dourados fazem isso dando-se as mãos, os chimpanzés com beijo na boca, os bonobos com sexo, os símios da espécie Macaca tonkeana batendo palmas e estalando os lábios. Cada espécie segue seu protocolo de reconciliação. Vejamos um exemplo que presenciei várias vezes durante reconciliações entre grandes primatas, mas nunca entre macacos: depois de um indivíduo ter atacado e mordido outro, volta para examinar o ferimento. O agressor sabe exatamente onde olhar. Se a mordida foi no pé esquerdo, o agressor não hesita: estende a mão em direção ao pé esquerdo da ví ma — não o pé direito, ou o braço —, ergue-o, examina. Em seguida, começa a limpar a ferida. Isso indica uma compreensão de causa e efeito, algo como “se mordi você, agora você deve ter uma ferida nesse lugar”. Isso leva a crer que os primatas vêem as coisas da perspec va do outro, percebendo o impacto do próprio comportamento sobre terceiros. Podemos até cogitar na possibilidade de que eles se arrependem de suas ações, como ocorre conosco. O naturalista alemão Bernhard Grzimek vivenciou isso depois de ter a sorte de sobreviver a um violento ataque de um chimpanzé macho. Este, quando a raiva passou, pareceu preocupadíssimo com Grzimek. Aproximou-se do professor e tentou, com os dedos, fechar e comprimir as bordas das piores feridas. O destemido professor permitiu.

A definição de reconciliação (reunião amistosa entre oponentes pouco depois de uma briga) é clara, mas as emoções envolvidas são di ceis de definir. O mínimo que ocorre, e que em si já é algo notável, é que as emoções nega vas, como agressão e medo, são superadas de modo a permi r uma interação posi va, como um beijo. Os sen mentos ruins são reduzidos ou deixados de lado.

Nós, humanos, chamamos de “perdão” essa transição da hos lidade para a normalização. O perdão é apregoado como exclusivamente humano, ou mesmo unicamente cristão, mas pode ser uma tendência natural entre animais cooperativos. Só animais sem memória poderiam desconsiderar o conflito. Assim que eventos sociais são armazenados na memória de longo prazo, como na maioria dos animais e humanos, passa a exis r a necessidade de superar o passado em bene cio do futuro. Primatas fazem amizade, que se expressa quando eles fazem grooming uns nos outros, andam juntos e se defendem mutuamente. Um indicador inesperado mostra que as brigas criam ansiedade quanto ao estado da relação: exatamente como um estudante coça a cabeça durante um exame di cil, quando um primata se coça, é sinal de que está inquieto. Se, como fizeram alguns pesquisadores, anotarmos quando os primatas coçam a si mesmos, constataremos que os dois lados envolvidos em uma luta coçam-se muito, mas param depois que o oponente lhes faz grooming. Podemos concluir que estavam preocupados com a relação e se tranqüilizaram com a reunião. Pessoas que criam filhotes de grandes primatas em casa dizem que, depois de uma bronca por mau comportamento (o único que os jovens primatas parecem conhecer), esses animais sentem um desejo avassalador de fazer as pazes. Emburram e choramingam até não agüentarem mais. E então pulam no colo do pai ado vo, envolvem-no com os braços, apertam tanto que quase não o deixam respirar. E a isso, em geral, se segue um audível suspiro de alívio quando o pai adotivo os tranqüiliza. Os primatas aprendem cedo a se reconciliar. Como tudo o que se relaciona com apego, isso começa com o vínculo entre mãe e infante. Enquanto amamenta, a mãe empurra-o para longe dos mamilos, mas permite que retorne imediatamente assim que ele grita em protesto. O intervalo entre rejeição e aceitação aumenta com a idade da cria, e os conflitos transformam-se em tremendas cenas. Mãe e filho trazem armas diferentes para o campo de batalha. A mãe tem mais força, e a cria, elaboradas tá cas de chantagem e uma laringe bem desenvolvida (um chimpanzé juvenil supera na gritaria muitas crianças humanas). O pequeno tenta persuadir a mãe com sinais de sofrimento, fazendo beicinho e choramingando, por exemplo. Se tudo o mais falhar, ele tem uma crise de birra, no auge da qual pode quase sufocar de tanto berrar ou vomitar aos pés da mãe. Essa é a suprema ameaça: o desperdício total do inves mento materno. A resposta de uma mãe selvagem a essa histrionice foi subir numa árvore e jogar o filho lá de cima, mas no úl mo instante segurá-lo pelo calcanhar. O pequeno macho ficou pendurado de cabeça para baixo por quinze segundos, berrando a mais não poder, antes de a mãe tornar a içá-lo. Naquele dia não houve mais birra.

Já vi soluções conciliatórias fascinantes, como o caso em que um filhote sugava o lábio inferior da mãe. A cria, um macho já com cinco anos, aceitou esse subs tuto. Uma fêmea juvenil enfiava a cabeça embaixo do braço da mãe, bem perto do mamilo, para sugar uma dobra da pele. Esses ajustes duravam apenas alguns meses, após o que as crias passavam para a dieta de comida sólida. O conflito do desmame é a primeira negociação da vida com um parceiro social absolutamente necessária para a sobrevivência. Contém todos os ingredientes certos: interesses conflitantes, sobreposição de interesses e um ciclo de encontros posi vos e nega vos que resulta em alguma espécie de solução conciliatória. Manter o importan ssimo vínculo com a mãe apesar da discórdia assenta o alicerce para a resolução de conflitos posteriores. As reconciliações com os pares são o segundo po mais importante, também aprendido cedo na vida. Enquanto observava um grande grupo de macacos Rhesus man dos ao ar livre, presenciei a cena descrita a seguir. Oatly e Napkin, de quatro meses de idade, brincavam de lutar, engalfinhadas, quando a a adulta de Napkin juntou-se a elas. A a “ajudou” Napkin segurando a colega. Napkin aproveitou-se da situação desigual: pulou sobre Oatly e a mordeu. Depois de breve luta, separaram-se. O incidente não foi grave, mas teve um desfecho notável. Oatly foi até Napkin, que estava sentada ao lado da mesma a, e fez grooming em suas costas. Napkin virou-se, e as duas infantes abraçaram-se. Para completar o quadro comovente, a a passou os braços em torno de ambas. Esse final feliz foi digno de nota não só porque as duas infantes ainda eram muito jovens e pequeninas (em comparação com os bebês humanos que já andam), mas também porque os macacos Rhesus são provavelmente os piores reconciliadores. Eles são irascíveis e têm hierarquias estritas nas quais os de cima raramente hesitam em punir os de baixo. Essa espécie não será indicada para o prêmio Nobel da Paz dos Primatas tão cedo. Mas talvez haja esperança, considerando o resultado de uma idéia maluca que ve após uma palestra que dei para uma sala cheia de especialistas em psicologia infan l. Eu repreendera meus ouvintes pelo fato de sabermos mais sobre reconciliação entre outros primatas do que entre os da nossa espécie. Isso ainda se aplica hoje. Os psicólogos tendem a concentrar-se em comportamentos anormais ou problemá cos, como a in midação (bulling), e com isso pouco sabemos sobre os modos normais e espontâneos como os conflitos são reduzidos ou superados. Em defesa dessa lamentável situação, um cien sta presente argumentou que a reconciliação humana é muito mais complexa que a dos macacos, pois sofre influência da educação e da cultura. Em outros primatas, ele disse, é mero ins nto. Mas a palavra “ins nto” não me soou bem. Já nem sei mais o que isso significa, pois é impossível encontrar comportamento inato puro. Como os humanos, outros primatas desenvolvem-se lentamente, têm anos para ser influenciados pelo meio em que crescem, inclusive pela estrutura social. De fato, sabemos que primatas adotam todo

po de comportamentos e habilidades uns dos outros; portanto, grupos da mesma

espécie podem agir de modos muito diferentes. Não admira que os primatólogos cada vez mais falem em variabilidade “cultural”. Grande parte dessa variabilidade consiste no uso de ferramentas e em hábitos alimentares. Existem, por exemplo, chimpanzés que quebram nozes com pedras e macacos japoneses que lavam batatas no mar. Mas a cultura social também é uma possibilidade distinta. Essa discussão com os psicólogos deu-me uma idéia. Juntei por cinco meses macacos jovens de duas diferentes espécies. Rhesus, primatas picamente brigões, foram alojados com macacos da espécie Macaca arctoides, muito mais tolerantes, serenos e boas-praças. Depois de uma luta é comum os macacos desta segunda espécie se reconciliarem em uma espécie de ritual no qual abraçam os quadris uns dos outros. Surpreendentemente, os Rhesus de início sen ram medo. Não só os M. arctoides são um pouco maiores, mas também os Rhesus devem ter pressen do que sob seu temperamento brando esconde-se um animal robusto e resistente. Assim, com os Rhesus pendurados em um mon nho temeroso no teto da jaula, seus novos companheiros calmamente inspecionaram o novo alojamento. Minutos depois, alguns Rhesus, ainda na mesma posição desconfortável, atreveram-se a ameaçar os M. arctoides com grunhidos hos s. Se isso era um teste, uma surpresa os esperava. Um Rhesus dominante certamente reagiria a um desafio desse tipo pondo os atrevidos em seu lugar, mas os M. arctoides não deram a menor bola. Nem sequer olharam para cima. Para os Rhesus, aquela deve ter sido sua primeira experiência com companheiros dominantes que não sentiam necessidade de salientar sua posição. Durante o estudo, os Rhesus aprenderam essa lição milhares de vezes, e também se envolveram em freqüentes reconciliações com seus mansos opressores. A agressão sica era raríssima, e a atmosfera era de descontração. Ao fim dos cinco meses, os jovens brincavam juntos, faziam grooming juntos e dormiam misturados. E o mais importante: os Rhesus adquiriram habilidades de reconciliação equivalentes aos de seus colegas mais tolerantes. Terminado o experimento e separadas as duas espécies, aqueles Rhesus con nuaram a apresentar três vezes mais reuniões amistosas e grooming depois de brigas do que é pico na espécie. Por brincadeira, nós os chamávamos de “Versão Aperfeiçoada”.

Esse experimento demonstrou que a reconciliação é uma habilidade social adquirida, e não um ins nto. É parte da cultura social. Cada grupo a nge o próprio equilíbrio entre compe ção e cooperação. E isso vale para macacos e pessoas. Venho de uma cultura que busca o consenso, talvez porque os holandeses vivam em alta densidade populacional numa terra arrancada de um formidável inimigo comum, o mar do Norte. Outros países, como os Estados Unidos, incen vam o individualismo e a autonomia em vez da lealdade ao grupo. Isso talvez tenha relação com mobilidade e espaços vazios. An gamente, se as pessoas não se dessem bem, sempre podiam estabelecer-se em outro lugar. A resolução de conflitos pode não ter sido enfa zada no grau adequado aos Estados Unidos de hoje, um lugar mais populoso. A ciência deveria estudar as habilidades que normalmente impedem a intensificação de conflitos e refreiam a agressão. O que ensinamos aos nossos filhos: defender seus interesses sozinhos ou procurar soluções mutuamente sa sfatórias? Direitos ou responsabilidades? As culturas humanas contrastam notavelmente nesse aspecto, e descobertas recentes mostram variabilidade semelhante entre primatas selvagens.

Como o Rhesus, o babuíno-verde tem reputação de feroz. Não é o po de primata de quem se esperariam a tudes de “paz e amor”, mas foi exatamente o que ocorreu com um grupo em Masai Mara, no Quênia. Todo dia, machos de um grupo estudado pelo primatólogo americano Robert Sapolsky lutavam para atravessar o território de outro grupo e chegar ao depósito de lixo de uma pousada turís ca próxima. Só os machos maiores e mais violentos conseguiam passar. O prêmio inques onavelmente valia a luta, mas um belo dia a pousada jogou no lixo carne infectada com bactérias de tuberculose bovina. Morreram todos os babuínos que a comeram. Isso significa que o grupo estudado perdeu muitos machos, e ainda por cima os mais agressivos. Em conseqüência, o grupo subitamente virou um improvável oásis de paz e harmonia no implacável mundo dos babuínos.