Eu, primata

Frans de Waal · Capítulo 8 de 48

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Eu, primata

O Primata no Armário

Anteriormente, por milhões de anos nossos ancestrais podem ter do uma existência tranqüila em pequenos grupos de caçadores-coletores, com poucos mo vos para lutar, uma vez que o mundo era esparsamente povoado. Isso de modo algum os teria impedido de conquistar o globo. Muitos pensam que a sobrevivência dos mais aptos significa a aniquilação dos inaptos. Mas também se pode vencer a corrida evolu va tendo um sistema imunológico superior ou sendo mais habilidoso para encontrar alimento. O combate direto raramente é o modo como uma espécie subs tui outra. Portanto, em vez de exterminar os homens de Neandertal, talvez tenhamos simplesmente sido mais resistentes ao frio ou melhores caçadores. É decerto possível que hominídeos bem-sucedidos tenham “absorvido” outros menos afortunados por meio de cruzamentos, portanto não se pode descartar a possibilidade de genes do homem de Neandertal terem sobrevivido em você ou em mim. Quem graceja comparando alguém a um homem de Neandertal deveria pensar duas vezes. Em um laboratório de Moscou, vi uma notável recons tuição de um rosto de homem de Neandertal baseada em um crânio. Os cien stas me disseram, confidencialmente, que nunca ousaram divulgar aquele busto devido à sua extraordinária semelhança com um dos principais políticos de seu país, pois este poderia não apreciar tal comparação.

 

O PRIMATA NO ARMÁRIO

Arranhar um bonobo revelaria um hipócrita? Podemos ter certeza absoluta de que a famigerada síntese da teoria do verniz dizia respeito tão-somente às pessoas. Ninguém sugeriria que animais estão tentando ludibriar uns aos outros. É por isso que os grandes primatas não humanos são cruciais para o debate sobre a condição humana. Se descobrirmos que eles são melhores do que meros brutos — mesmo ocasionalmente —, a noção da bondade como invenção humana começará a balançar. E se os pilares da moralidade, como a solidariedade e o altruísmo intencional, puderem ser encontrados em outros animais, seremos forçados a rejeitar totalmente a teoria do verniz. Darwin nha consciência dessas implicações quando observou que “muitos animais certamente se solidarizam uns com os outros em momentos de aflição ou perigo”.

É evidente que o fazem. Não raro, grandes primatas não humanos cuidam de companheiros feridos, diminuindo a marcha quando algum deles não consegue acompanhar o grupo, limpando os ferimentos dos outros ou subindo em árvores para apanhar frutos e alimentar um companheiro mais velho que já não consegue subir. Um relatório de campo dá no cia de um chimpanzé macho adulto que adotou um órfão e carregava o infante doente em suas marchas, protegia-o de perigos e salvava-lhe a vida, embora se presumisse não haver parentesco entre os dois. Na década de 1920, Robert Yerkes, especialista americano em grandes primatas, admirou-se tanto com a preocupação que um jovem chimpanzé, Prince Chim, demonstrava por seu companheiro Panzee, doente em estágio terminal, que admi u: “Se eu falasse sobre esse comportamento altruísta e obviamente solidário em relação a Panzee, suspeitariam que estou idealizando um primata não humano”. A admiração de Yerkes pela sensibilidade de Prince Chim é reveladora, considerando que esse cien sta provavelmente conhecia mais personalidades de grandes primatas não humanos do que qualquer outro na história da primatologia. Yerkes homenageou o bondoso animal em um livro, Almost human [Quase humano], no qual declarou não ter certeza de que Prince Chim fosse um chimpanzé normal. Uma autópsia revelou, mais tarde, que realmente não se tratava de um chimpanzé, mas de um bonobo. Yerkes não sabia disso, pois os bonobos só foram reconhecidos como espécie anos depois.

O primeiro estudo que comparou o comportamento de bonobos e chimpanzés foi feito no Zoológico Hellabrunn na década de 1930. Eduard Tratz e Heinz Heck publicaram suas conclusões em 1954. Uma noite, durante a guerra, três bonobos, aterrorizados com o bombardeio da cidade, veram parada cardíaca e morreram. O fato de o pavor ter matado todos os bonobos mas nenhum dos chimpanzés do zoológico atesta a sensibilidade dos primeiros. Tratz e Heck apresentaram uma longa lista de diferenças entre bonobos e chimpanzés, entre as quais se incluíam referências ao temperamento rela vamente pacífico, ao comportamento sexual e à sensualidade dos bonobos. A agressão certamente não está ausente entre os bonobos, mas neles é raro o tratamento que os chimpanzés ocasionalmente dispensam uns aos outros, incluindo morder e golpear com toda a força. Um chimpanzé macho arrepia os pêlos à menor provocação. Empunha um galho de árvore e desafia os que considera mais fracos. Os chimpanzés são regidos pelo status. Para os padrões dos bonobos, o chimpanzé é uma fera selvagem ou, como comparou Tratz, “o bonobo é uma criatura extraordinariamente sensível e branda, muito distante da demoníaca Urkraft (força primitiva) do chimpanzé adulto”. Se isso era sabido em 1954, poderíamos perguntar: por que o bonobo esteve ausente dos debates sobre agressão humana, e por que ainda não é mais conhecido? Bem, esse estudo foi publicado na Alemanha, e já faz um bom tempo que cientistas anglófonos não lêem nada que não esteja escrito em inglês. Esse estudo, além disso, incluiu apenas alguns primatas jovens em ca veiro, uma amostra cien fica minúscula, que pode não ter parecido muito convincente. As pesquisas de campo sobre bonobos, que começaram rela vamente tarde, ainda estão décadas atrás dos estudos sobre os outros grandes primatas não humanos. Outra razão é cultural: o ero smo dos bonobos era um tema que poucos autores queriam abordar. Isso con nua a ocorrer hoje em dia. Na década de 1990, uma equipe de cinegrafistas britânicos viajou a selvas remotas da África para filmar bonobos, mas parava as filmagens toda vez que uma cena “constrangedora” aparecia no visor. Quando um cien sta japonês que auxiliava a equipe perguntou por que não estavam documentando nenhuma a vidade sexual, responderam: “Nosso público não vai se interessar”.

Mais importante do que tudo isso, porém, é o fato de que os bonobos não se enquadram nas noções estabelecidas sobre a natureza humana. Acredite o leitor que, se os estudos houvessem concluído que eles massacram uns aos outros, todo mundo saberia sobre os bonobos. Sua índole pacífica é o verdadeiro problema. Às vezes, tento imaginar o que teria acontecido se véssemos conhecido o bonobo primeiro, e o chimpanzé só depois, ou nunca. A discussão sobre a evolução humana talvez não se concentrasse tanto na violência, guerra e dominância masculina, e sim na sexualidade, empa a, solicitude e cooperação. Que paisagem intelectual diferente ocuparíamos então!

Foi só com o surgimento de outro primo nosso que a influência da teoria do primata assassino começou a diminuir. Os bonobos agem como se tais idéias não vessem nada a ver com eles. Entre os bonobos não existe guerra letal, quase não há caça, não há dominância dos machos e a a vidade sexual é muito intensa. Se o chimpanzé é a nossa face demoníaca, o bonobo é a angelical. Bonobos fazem amor, não guerra. São os hippies do mundo primata. A ciência teve mais problemas com eles do que uma família dos anos 60 com sua ovelha negra cabeluda e chapada de maconha que quis voltar para casa. Todo mundo apagou as luzes, se escondeu embaixo da mesa e ficou torcendo para o indesejável ir embora. O bonobo é claramente um primata que vem a calhar para a nossa época. As a tudes mudaram dras camente desde que Margaret Thatcher postulou seu estridente individualismo. “Não existe sociedade”, ela proclamou, “existem indivíduos, homens e mulheres, e existem famílias.” As idéias de Thatcher podem ter sido inspiradas nas concepções evolucionistas do período — ou viceversa, talvez. Seja como for, vinte anos depois, quando estarrecedores escândalos empresariais deram a alfinetada decisiva na inflada bolha do mercado acionário, o individualismo puro já não soa tão atraente. Na era pós-Enron, o público começou a dar-se conta de novo — como se fosse a maior novidade do mundo — de que o capitalismo irrefreado raramente desperta o que há de melhor nas pessoas. O “evangelho da ganância” de Reagan e Thatcher mofou. Até o presidente do Federal Reserve [até janeiro de 2006], Alan Greenspan, um profeta do capitalismo, insinuou que seria bom pisar no freio, explicando a um comitê do Senado americano em 2002: “Não é que os humanos tenham se tornado mais gananciosos que no passado. Acontece que as vias para dar vazão à ganância cresceram enormemente”.

Quem acompanha a biologia evolu va sem dúvida notou uma mudança de postura paralela. De repente, apareceram livros com tulos como Unto others [Aos outros], Evolu onary origins of morality [ Origens evolu vas da moralidade], Laços vitais, The coopera ve gene [ O gene coopera vo] e meu livro Good natured [Afável]. Passou-se a falar menos sobre agressão e compe ção e mais sobre relacionamento, sobre como as sociedades mantêm a coesão, sobre as origens da solicitude e do comprome mento. A ênfase agora é no auto-interesse esclarecido do indivíduo dentro de um todo maior. Sempre que interesses se sobrepõem, a competição será controlada pelo bem maior. Gurus econômicos, como Klaus Schwab, declararam que é hora de os negócios serem “governados não só por regras, mas por valores”. Ao mesmo tempo, biólogos evolucionistas começaram a afirmar que “o empenho racional pelo auto-interesse às vezes é uma estratégia inferior”. Talvez ambas as tendências derivem de mudanças mais amplas na a tude do público. O mundo industrializado, depois de ter reconstruído economias arrumadas pela guerra e de ter a ngido um nível de prosperidade que pouco tempo atrás era inimaginável, pode finalmente estar pronto para concentrar-se na esfera social. Precisamos decidir se somos como Robinson Crusoé, isolados cada qual em sua ilhota como Thatcher parecia imaginar, ou membros de sociedades interdependentes em al ssimo grau, nas quais cuidamos uns dos outros e das quais derivamos nossa razão de ser.

Pendendo mais para a segunda do que para a primeira dessas concepções, Darwin achava que as pessoas nascem para tornar-se morais, e que o comportamento animal corrobora essa idéia. Darwin conta que um cachorro que ele conhecia nunca passava perto de um cesto onde jazia doente sua amiga, uma gata, sem dar-lhe algumas lambidas. Era um sinal inequívoco dos bons sen mentos daquele cão, afirmou Darwin. Ele também conta a história de um tratador de zoológico com um ferimento na nuca. Fora a ngido por um babuíno feroz quando limpava sua jaula. O babuíno vivia com um pequeno macaco sul-americano. Este, que morria de medo do colega de jaula, era grande amigo do tratador e, de fato, salvou-lhe a vida distraindo o babuíno com mordidas e gritos durante o ataque. Portanto, o macaquinho arriscou a vida, demonstrando que a amizade se traduz em altruísmo. Darwin supunha que o mesmo valia para as pessoas.

Isso foi antes de sabermos sobre os bonobos e antes das úl mas descobertas da neurociência. Especialistas examinaram imagens do cérebro de pessoas enquanto elas resolviam problemas morais propostos por eles. Descobriram que tais dilemas a vam centros emocionais an gos, profundamente embu dos no cérebro. Em vez de ser um fenômeno superficial em nosso neocórtex expandido, a tomada de decisões morais parece ter por base milhões de anos de evolução social. Isso talvez pareça óbvio, mas é de uma incompa bilidade monumental com a idéia da moralidade como um verniz cultural ou religioso. Muito me admira que uma posição tão patentemente equivocada possa ter sido defendida por tantos anos. Por que os altruístas foram vistos como hipócritas, por que as emoções foram deixadas fora do debate e por que um livro com o descarado tulo O animal moral negou que a moralidade nos vem naturalmente? A resposta é que os autores evolucionistas estavam cometendo o “erro de Beethoven”. Refiro-me à suposição de que processo e produto precisam ser semelhantes.

Quem ouve a música perfeitamente estruturada de Ludwig van Beethoven nunca imaginaria as condições de seu gélido apartamento. Visitantes reclamavam que o compositor vivia no lugar mais imundo, fé do e caó co que já se viu, juncado de comida deteriorada, urinóis cheios e roupas sujas, com os dois pianos sepultados sob poeira e papéis. O mestre andava tão molambento que chegou a ser preso como vadio. Ninguém pergunta como Beethoven poderia ter criado suas refinadas sonatas e seus nobres concertos para piano naquele chiqueiro. Todos sabemos que coisas maravilhosas podem nascer em circunstâncias atrozes, que processo e produto são coisas separadas, sendo essa a razão por que a apreciação de um bom restaurante raramente melhora com uma visita à cozinha.